343. dos verbos indefinidos

é ainda a minha lembrança e meu abandono. os olhos que de tarde, cansados procuram seu rosto nas pessoas que passam apressadas.

é a canção que toca nas ruas antecedendo o natal. é a brevidade da minha espera. mas é dor e cansaço – então deixo que saia de mansinho como quem não partiu –
por isso, fico em silêncio e finjo não sofrer nas tardes mornas e nas madrugadas serenas, porque o ir tem a mesma magnitude do ficar. o  ir é esse avanço no tempo para mudar o que já não pode ser.
as escolhas são como as gotas da chuva e o voo do pássaro – necessários – para que a vida seja adiante, duas casas a mais na rua de cima.
duas perdas doloridas que esvaziam o peito e deixa essa sensação de lotação esgotada.
é ainda o amor das lendas, das histórias não escritas
mas que não coube no final feliz.

Mariana Gouveia
343. dos verbos indefinidos
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342. dos verbos indefinidos

Ainda é a lembrança daquele dia que a resgatei que insiste em dias como esse.. Poderia enumerar o dia a dia – a mudez exata de seis meses, depois que chegou e o latido inesperado depois do gato no telhado – na viagem, as árvores ganhavam a expectativa da chegada. Na chegada, o medo e a insegurança de um lugar desconhecido para ela, mas de oferta para ela  e ela era minha. Parecia que sempre estivera ali. E eu era dela.

Nos olhos, a virtude do amor.
A salvei de uma vida de sofrimento – mentira! – ela salvou – me de uma vida sem a doçura dela.
Cada vez que volto para casa, ela é a espera e a entrega. O abraço longo que causa derruba. O acalanto doce do ficar deitada aos meus pés.
Os anos são contados nos dedos de uma mão. Mas é como se fosse a vida inteira. Como se fosse um reencontro de outras vidas e amor mais humano acontece dentro do olhar de uma branquela canina que se chama Lolla.
O dia em que a encontrei foi o dia que o amor se apresentou para mim nos olhos dela.

Mariana Gouveia
342. dos verbos indefinidos

 

341. dos verbos indefinidos

341. dos verbos indefinidos.JPG

Caríssima mia,

Dizem que o melhor da festa é esperar por ela… Pelas minhas previsões, o Vermelho atingiria o ponto máximo hoje…
A manhã aconteceu no improviso das horas. O fluxo do dia foi pela atenção aos prazos, lembrei – me de você e seus prazos –  que são muito mais divertidos de cumprir – os de hoje, trazem o emblema do sistema. Lento, como sempre.
Trovejou e seu nome ecoou nos corredores longos. Choveu e o cheiro da terra molhada foi quase um engolir de lembranças. Lembrei – me das roupas que ficaram  no varal – e te chamaram atenção – e a chuva macia durou a tarde toda.  Dezembro é essa imensidão das chuvas… As poças trazem o desenho do pássaro.

Dá de pegar o voo com a mão. Dezembro é esse aconchego de aves. Esse aconchego da ave que bem me viu.
À tarde, o Vermelho por Dentro emociona na chegada. O cheiro, o toque, o fechar os olhos e as mãos a rasgar o papel…
Festejo com o carteiro o reencontro. Quando alguém tem a alma limpa abraça apenas com o olhar.
O Plural da vida me encanta só pela capa.
Releio as dedicatórias e agradeço o universo.
A vida tem essas delicadeza que me afagam… Sou esse instante de emoção.
Ainda preciso mergulhar dentro desse vermelho.
Meus próximos dias terão novos personagens a adentrar minha pele.

Mariana Gouveia
341. dos verbos indefinidos

340. dos verbos indefinidos

O cheiro da grama recém cortada dá a sensação de passado. A memória resgata lembranças que fizeram parte da infância.

Contei minha vida em carta. O rádio e sua maneira de resgatar verdades.
Tudo acontecia no século passado. A música da sua vida na voz do locutor. As ondas gravitacionais fazendo com que a viagem seja feita passo a passo.
O porta retrato guardando a família toda. Os que já foram parecem mais presentes ainda, mesmo depois de tanto tempo.
O verbo era quase um propósito de espera.
As ervas no jardim, criando sementes – as flores sendo colo para a vida – e da semente, a flor… fruto.
O amor sendo a palavra feminina na cor. Era apenas o regresso de um mundo que sonha vontade.
Mariana Gouveia
340. dos verbos indefinidos

339. dos verbos indefinidos

No corredor mais uma porta se fecha. A vida é esse arrastar de correntes quando o vento bate. O relógio marca as horas insanas.

O tempo, desatento, travesso…
assim como é travesso o destino.
Logo que a porta se fecha, uma janela se abre renascendo esperança.
a vida, é essa magia de recomeços. Logo ali, uma semente ganha forma. Uma emoção de magia. O destino confiando ciclos em repetições de estações.
É preciso acreditar nos rituais que o Universo recria em cada dia.
A casa cheirando a pinho… nos quintais, a vida celebrados em gestos e nos corações, o amor. Contará as histórias da infância em fases. Cantará canções de ninar como se fosse a melodia do ano. Os heróis e vilões recriados na palavra de encanto. E depois disso ganhará o título de protetora para sempre.
Substitui o coração de porcelana do colar pelo bichinho de pelúcia que é beijado e depois disso se descobre que nunca mais está só.

Mariana Gouveia
339. dos verbos indefinidos

 

338. dos verbos indefinidos

Colhe – se o verbo do dia na sintonia da chuva. Tudo era a umidade do tempo nas folhas do quintal.
O oceano era a gota na colheita. A vida tem esses improvisos de sorte.

Habituada ao silêncio…

(Sobre a ternura, todo rio é feixe)
Todo verbo, indefinido na alma.

A memória é esse vento oco sacudindo as cortinas.
A primavera quase se despedindo dentro da estação.

Nas previsões das cartas, o louco foge da liquidez das horas.
Na véspera das águas o rumor é de trigos. A vontade catando minutos entre o sentido contrário. Os corredores com baldes amparando goteiras.

A roupa molhada esquecida no varal e o canto da chuva causando essa falta de lucidez no peito.
O caminho é a espessura da alma perto da boca.

Mariana Gouveia
338. dos verbos indefinidos

337. dos verbos indefinidos

Tem a flor estampada no vestido,
dezembro e seus dias de chuva atrapalha a visão da super Lua.
A rua de cima tem uma canção no repeat.
Escrevo cartas pela metade. Folhas inteiras de frases inacabadas. A sensação de falta de ar no limite. O vento arrisca pela cortina e a solidão é esse emaranhado de ciclos repetitivos.
A rua de cima tem dias de vazios nas árvores – cabia a brancura em qualquer canto – e as nuvens em espiral causando a plenitude do céu.
Era uma vez, assim, a vontade de ser. Tem dia em que as histórias ficam sem o final.

 

Mariana Gouveia
337. dos verbos indefinidos