6 on 6 – Livros

Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem pássaros;
Há aqueles que não podem imaginar o mundo sem água;
Ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.
Jorge Luis Borges


Eu, criança ainda
Os olhos voltados para os livros que chegavam até nós através de doações, ou enviados via correio pela minha avó materna. Tive tantos livros em minhas mãos que meu desejo era colocar em palavras tudo que eu sentia.
Minha mãe conseguia arrancar da gente o que estava guardado lá dentro da alma. E foi ali, no interior de Goiás, em meio às capas puídas de Fernando Pessoa que desejei ser escritora.
Os cadernos – às vezes, artesanais, costurados pela minha mãe, feitos de papel de pão – ou alguns novos, que eram tratados como tesouros foram testemunhas das primeiras palavras.

 

 

O tempo foi passando e como junto com o relógio a vida gira e foi ganhando rumos inesperados. Me tornei radialista e as palavras escritas eram lidas em um programa de rádio. O desejo, ali, guardado no peito e os cadernos, um a um, guardados em um baú.


Um dia, recebi um convite tentador através de um comentário no blog – que eu criara para compartilhar as palavras. O blog era nada mais do que um livro virtual e foi ali que Lunna Guedes, editora da Scenarium Plural me fez o delicioso convite para publicar um livro pela Série Exemplos e nasceu ali O Lado de Dentro.

O livro era mais do que eu sonhara a vida inteira. Com a graça e a arte do artesanato e com o carinho estampado em cada página.

 

Junto com O Lado de Dentro vieram participações na Revista Plural e outros projetos coletivos da editora.
Já não era mais um sonho. Já era realidade e minhas palavras ganhavam voos para além do meu lugar.

Com isso ganhei o mundo e Cadeados Abertos – Diário de Quatro Estações e a poesia ganhou as rotinas do dia a dia.

 


E para quem sonhava em escrever um livro, nesse ano nasceu Corredores – Codinome Loucura.  Agora, já são 3 livros. Todos no formato artesanal e com a poesia derramada em cada palavra.

O livro artesanal tem a simbologia de te abraçar em cada costura e o projeto trouxe para minha vida muito mais do que sonhos realizados. Trouxe para minha vida a paixão pelas histórias. As mesmas que encontro nos livros da Scenarium Plural, além de presentear com amigos espetaculares.

Ser Plural dentro dessa singularidade toda me faz mais uma entre os tantos que amam os livros.

 

Mariana Gouveia
Participam desse projeto:
Ana Claudia – Anália Boss – Claudia Leonardi – Fernanda Akemi – Luana de Sousa – Lunna Guedes – Mari de Castro – – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória

 

 

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Era um homem imaginado no coração da mulher

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Sei que o homem lavava os cabelos como se fossem longos

porque tinha uma mulher no pensamento

sei que os lavava como se os contasse.

Sei que os enxugava com a luz da mulher

com os seus olhos muito claros voltados para o centro

do amor, na operação poderosa

do amor.

Sei que cortava os cabelos para procurá-la

sei que a mulher ia perdendo os vestidos cortados.

Era um homem imaginado no coração da mulher que lavava

o cabelo no seu sangue.

na água corrente.

Era um homem inclinado como o pescador nas margens para ouvir

e a mulher cantava para o homem respirar.

Daniel Faria

Homens que são como lugares mal situados

Projeto Scenarium 6 Missivas – Outubro

“Era toda errada…Fora feita pelo avesso
Sentia primeiro e só depois via
Era toda trocada…Andava na contramão
Amava antes a alma…Não queria explicação
Era totalmente sem noção
Se jogava em um mar…Sem nem ver a tempestade
Era só emoção…Esqueceram de lhe dar a razão
Tinha suas próprias verdades e nem se
importava se fossem imaginárias ou não
Era o reverso do universo
Somente uma gota…Mas pura imensidão”
(Dina Isserlin)

Carta Outubro.jpg

 

Outubro, 2008

M,

Daqui da minha janela vejo quase o mundo inteiro. Era primavera em algum lugar para além das ruas e ainda nem existia a rua do meio, nem a de cima. Havia ali, um trieiro pelo qual eu avançava em meio às libélulas e as teias de aranha faziam carícias nos meus pés. O riozinho era uma imensidão de desejos e você não sabia que irá ser subversiva. Era apenas a palavra dona de casa dentro de outras imensidões de palavras. Mas lá na frente, você seria conhecedora do futuro. Olharia a borra de café nas xícaras e contaria para as pessoas o segredo delas e nem será preciso ser adivinha.

O mundo se agiganta aos seus olhos e as gotas mostram as estações nos dias em que você conta a solidão. Era ali, ainda, menina e ao mesmo tempo, mulher e lutava pela vida em sua forma gigante de ser.

A vida é esse fio de seda que quase arrebenta quando se estica. Você deve saber que tirando a crise que o mundo enfrenta – e ainda enfrentará daqui a dez anos também – o mundo comemora o primeiro presidente negro da história. A esperança atravessa o mundo e Pequim abraça os campeões olímpicos. Aprendi a ver ouro nas medalhas de Cielo, Maurren e as meninas do vólei. O espírito olímpico é bonito de ver. As histórias nas entrelinhas me causam mais emoção do que a própria prova.

Dercy, Caymmi, Jamelão se foram para sempre e para sempre viverão em quem gostava deles. O universo aponta sabedoria e eu escrevo cartas de amor. Descobri o amor em versos e vesti a primavera de flores.

Dizem que a cura vem a passos lentos, enquanto busco refúgio em colo de pai e irmãos. O rio é um convite dessa viagem no tempo. Embora eu seja resistência em todos os tempos, escrevo na certeza de que você se redescubra dentro da coragem e se sinta livre no grito que querem fazer calar e acredite que nas palavras do passado o futuro renasce, mesmo que seja daqui a dez anos.

Eu,

Projeto Scenarium 6 missivas | Outubro -18
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

domicílio

Brooke shaden

Quando terminou de construir a casa com três quartos,
se viu morando sozinho.
Dormia cada noite em um cômodo diferente,
para ter a ilusão que preenchia o vazio deixado.

Julio Damasio
*imagem: Brooke Shaden
Da página: Divã

Por vezes ouvia a música…

Por vezes ouvia música.*imagem: Alisa Verner

Só ela ouvia música; aliás, era ela que escolhia, mentalmente, as músicas que ouvia, ouvia secretamente essas músicas. E dançava com essas músicas; dançava com os olhos, com movimentos de cabeça, com os braços. Podia estar a ouvir pessoas e estar, ao mesmo tempo, a dançar essas músicas. Dançava; às vezes, por dentro de si mesma.

Baptista Bastos

Maratona de Outubro – 7 – Como escolho os livros que leio?

“Eu gosto de dizer que construo para os olhares,
para no caso, o seu – habitat!
Gosto de pensar que, de palavra em palavra,
eu vou me desfazendo de mim para que uma vez,
em estado de abandono, você me encontre!
E me leve com você!”
Lunna Guedes

eu poderia lhe dizer “divirta -se”, mas prefiro dizer: “embriague – se” porque combina com café, e essa realidade é tão minha.”
Lunna Guedes

Bambina mia,

Foram sete cartas-livros como tu disse, nessa semana, que para mim foi pesada e ao mesmo tempo suave – por culpa tua, devo dizer.

E baseada nessas dedicatórias de Lua de Papel venho responder a última pergunta. Antes, devo dizer que, é uma delícia escrever para ti. As palavras fluem em mim e me abro. É realmente como se tivesse com lápis e papel em mãos para te dizer o que sinto. E sei de sua ansiedade com palavras, papel e letras.

Mas, a história aqui é dizer como escolho os livros que leio. São eles que me escolhem – como tuas Luas – e os títulos me ganham. Em toda minha vida sou mais lunar – olha tu aqui em mim – e sou de fases também – uia!! – Poderia enumerar cada um dos livros em que o título me ganhou e não haviam em nenhum deles uma capa tipo show… mas tuas Lua de Papel, fora além de toda história que conheço – ai, minha Alê – e outros que a vida me apresentou. Lua de Papel foi show em estória e capas. Pude escolher – nesse caso, único, pude – e tenho a capa mais linda do mundo e recriei em artesanato.

Já fui livro sem capa. Já fui história e já contei as minhas.
Quase me perdi dentro de outras. Mas sempre fui escolhida dentro delas. Era como se tivesse um dedo apontado e ali, em negrito tivesse a palavra me escolha e o livro era eu em dimensão exata de ser.

Das histórias de vampiros ou a mais linda estória de amor.
Pode até ser aquele livro artesanal – e o cuore – como tu diz – explode na paixão máxima e eu repito: por que não fui eu quem escrevi isso?

Grazie per tutti!

Amo Tu!

Bacio
Mariana Gouveia
|Projeto Maratona de Outubro
Participam desse projeto
Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi | Mari de Castro | Obdúlio Nunes OrtegaLunna Guedes