286. das infinitudes

 

Desse amor, a pele
quase cítrica – agridoce
A gota da chuva – quase sede
o trovão ecoando seu nome – quase grito
e esse nó no peito – quase morro

no seu crepúsculo – quase ardo
em sua história contada – quase vivo
sou real em tua pele – quase poro
em teu voo sou asa – quase pássaro

Do mar que te rodeia – quase rio
das ruas das tuas estradas – quase atalho
das palavras do poeta – quase roubo
o poema que te chamo – todo amor
e do abraço terno – quase encontro
da mão que oferece colo – puro pouso.

 
Mariana Gouveia
286. das infinitudes

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285. das infinitudes

285. das infinitudes

Alguém rastreia a sorte do dia nos astros. Fala com poesia sobre a Lua em seu estado de minguar.
Pensou em parar todos os relógios até que a esperança viesse comer em sua mão com a louvação da fé.
O espelho deforma o vento e nos muros, os riscos de desenhos feitos por crianças.
Alguém falou sobre o verbo amar e ainda ontem era o voo de peixe a ilusão do poema e o nado da ave na poça do quintal.
As memórias de antigamente vieram vazias de sabores e o rosa das paredes da vizinha se desbotaram com a tempestade de anteontem.
Ninguém consegue fugir de si mesmo.
Sei que a brancura dos dias se contrastam com a negritude da noite enquanto só consigo esse silêncio aparente de solidão na esperança que pousa em mim.
Mariana Gouveia
285. das infinitudes

284. das infinitudes

Há um oco no peito que grita o vazio rasgado de flor.
A mulher que lê o destino dos outros – e quase sempre erra o dela –  fala sobre mudança de hábito. Os búzios indicam o caminho da paciência. A maré muda dentro da estação. As ervas indicam a rota da cura. O jardim virado do avesso. Um monge atravessa a rua com olho para o nada. Alguém predestina a palavra da fé.

Depois disso, digo que aceito tudo: Que venha o destino com sua fome de lobo e pele de cordeiro! Aceito na boa os 40º na sombra e as flores murchas do meio dia.
A sorte chamando o inseto na cor. O trevo batendo à porta desejando favor. Os corredores pintados de cinza… armários sendo esvaziados e histórias dentro dos livros jogados em um quartinho qualquer.

A mudança é favorável ao novo – diz as cartas de tarô – e a linha da vida formando a letra do ontem. Tomara, vida que fosse hoje. Quem dera, sorte que fosse amanhã!

Mariana Gouveia
284. das infinitudes

283. das infinitudes

Havia um vento morno vindo do sul. Trovejou ontem – raios rasgaram o céu – e o cheiro de terra molhada invadiu o ar e a chuva veio bravia.
A vida é feita desses instantes que ninguém escreveu. Uma janela aberta e um rio invade o quintal. Árvores com as raízes à mostra e as paredes cinzas ofuscando o clarão dos relâmpagos.
Ouço uma melodia que me traz a sensação de que nasci agora. A tempestade fazendo a mão para indicar caminhos. Tudo é escuro na noite lá fora.
Os poemas espalhados na lama como sementes. Quem sabe amanhã não nascerá as palavras da atitude.
Às vezes, o silêncio é essa goteira que pinga sem parar.
Essa luz que insiste em ser acaso… a noite, o nada e o vento.

Mariana Gouveia
283. das infinitudes

282. das infinitudes

282. das infinitudes

Era como escrever poemas na pele dela – usar os dedos como tinta e amanhecer lilás depois da madrugada intensa – pintar devaneios entre a nuca e o cabelo.
Caçar a solidão que existe na menina daquele olhar.
Tatear a pele, esculpir vontades e ir decorando textos obscenos que ela diria se estivesse aqui.
Citaria Anaïs Nin, se não misturasse os poemas, ou apenas ficaria em silencio para ouvir a respiração.
Olhou a mesa com as coisas banais. A panela preta que era da mãe. Virou objeto de decoração, ali, no mesmo lugar onde a ama todo dia. A bandeja com os medicamentos que toma. Isso a fez lembrar que era dia – hoje – de ir buscar mais.
O pacote de pão.  Riu ao se lembrar do pão que gerava uma longa conversa entre o pão daqui e o pão de lá.
Tudo isso ocupa agora lugar na mesa.
Veio a vontade absurda de jogar tudo fora. Fazer aquelas cenas de filme.
Conteve-se.
Voltou a desenhar rotinas no corpo dela. Sabia de cor os caminhos todos. A textura, o convite da boca. O olho de fome e essas vontades todas.
Era como escrever poemas na pele dela. Era apenas a cadeira na solidão vazia.
E no silêncio de minhas palavras ela quis ir.

Mariana Gouveia
282. das infinitudes

281. das infinitudes

Cavoucou na parede o estuque. Descobriu o azul morto três tinturas depois – ou seria o verde desmaiado do ano anterior? – e se perdeu dentro da cor, nas lembranças.

Salvou a formiga do afogamento em um balde e a viu segura duas folhas do gervão depois da cerca.
O vento mudou-se daqui – pensou – pois já não sente mais a presença dele. Depois do vazio das árvores não ouve mais a canção das folhas. Tudo é esse desgaste de tempo.
Replantou o jardim de novo. Revirou a terra e inventou sementes.
Daqui alguns meses a estação terá mudado, mas reviverá a primavera no amanhecer.

Mariana Gouveia
281. das infinitudes

— escuto o silêncio de boca-a-boca, de porta-a-porta

Hoje fui acordada do meu – suposto – merecido descanso por uma ideia. De madrugada.

Sabia que não ia lembrar mesmo falando o mantran que aprendi no curso de meditação que fiz em 1997 (e que tem os mesmos mantrans dos cursos vindouros – que fiz).

A gata mais pazeamor, vendo minha inquietude espreguiçou com as patinhas na minha garganta. Tossi. Acordei a outra gata (não é de paz e amor).

Desisti de tentar repetir à exaustão pra que eu não esquecesse e acendi a luz. Abri o caderno da aula de amanhã, ou melhor, de hoje mesmo e lá estava mais anotações de outras ideias não esquecidas (só porquê anotadas).

Sim. Ideias são como a mãe da gente acordando pra ir pra escola. E faz maria chiquinha que nem dá pra piscar até o final. Ideias acordam a gente… como se estivéssemos atrasadas ou pecando.

Aden Leonardo

 

Na rua de cima os cães não latem para os garis.  O caminhão passa tranquilamente sem barulhos, latidos e bafafás.

Percebi isso na madrugada quando acordei e mergulhei no texto estampado em neon – tipo me leia e guarde-me antes que a Aden acorde e me apague – mania latente de marcar a gente com palavras/poemas como se fosse ferro a brasa e mesmo apagado já fica ali, na pele…

A rua de cima é morna dentro das minhas idéias. Um gato preto anda sobre o muro e o silêncio chega a fazer barulho nas portas pintadas de azul. Há um outro – gato – pardo que atravessa os muros laterais dos vizinhos e vem justamente na minha rua, cheia de barulho provocar os cães, atrapalhar a ideia que grita dentro do silêncio, na madrugada.

A ideia me arrasta como correntes e fiz o quarteirão repetindo gestos no ar como se louca fosse e percebi que algumas janelas se entreabriram para as vizinhas que não entendem como a madrugada me abraça. O último poema ainda adoça a boca que perdeu o sentido de sabor. A ideia da Maria Chiquinha leva o pensamento para além da infância e o cabelo sente o repuxo que a mãe fizera na última vez. Isso já foi a tanto tempo!
Os dias se perdem nessa dimensão do espaço.

O caderno ganha as anotações depois que o poema ativou a palavra solidão no calcanhar… e quando você busca o poema que te inspirou, ele evaporou-se no baú dos apagados – não falei que ela – Aden – ia fazer isso? – e as ideias se perderam dentro do poema apagado…
para no instante seguinte florir no carinho da amizade.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural Editora
Crônicas de Outubro