169. da geografia das coisas


Confiava no gesto e na alegria das coisas. Tudo geograficamente na memória.

A infância na leveza da vida. O dia expandindo o dourado pelos campos.

Tudo semeia pela pele a absolvição da acolhida.

É o retorno do que já vivi.

Mariana Gouveia

169. da geografia das coisas

168. da geografia das coisas

Conheci o homem do campo. Não tinha nome comum como os outros nomes.
Tinha sonhos e carregava eles nos  braços como se fosse colher o que plantou.
Não gosta da noite – disse – … é quando o cansaço é muito e ele chega vestido de esperança e na alma, o coração vadio ri de qualquer coisa.
Leu para mim cartas que  chegou em suas mãos, com letras que eu o ensinei a ler – quando ele era um moço sem sonhos – e começou a escrever poesias depois disso…
Contou-me sobre o rio e suas curvas como se fossem serpentes a desenhar  o formato entre a floresta e do bicho que louva a Deus e se molda ao ambiente.
Acolhe a noite com seus cansaços tênues contrário  ao sono que nem vem porque ele sonha em ser bicho e viver.
Mariana Gouveia
168. da geografia das coisas1717

167. da geografia das coisas

o que eu conto de mim tem a parte daquela rua, onde o rio se dobra e o chuá chuá sopra ao ouvido enquanto durmo.

o que eu escrevo tem esse riso de irmão sentado na porta
contando meus defeitos e olho molhado de amor

metade de mim no cabelo branco, com a ruga na testa, suor da sua pele magra, que o tempo contou nos dias.

o que carrego é essa história

e a terra a cavoucar meu pé
é a lembrança de quem está aqui e não está

o irmão que mora longe e a voz ecoa reclamando ausência.

o que eu conto de mim
é esse riso solto

a colina a desvendar as sombras
com os codinomes de uma fada louca

que desenhou histórias nos meus dias

o que conto de mim
tem o cheiro do pai

o leite servido na caneca esmaltada
e a poesia que eu pesco
o ombro ali,
e na boca que pronuncia o silêncio
toda vez que a gente fala de amor.é tudo uma reza cantada

o avesso da pele
aquele que ama mesmo sendo tudo mentira
e o som do pássaro e a ave exótica a cantar no quintal
o que conto é o terço em todas as cores espalhadas entre o dia que acontece dentro de mim.Mariana Gouveia
167. da geografia das coisas

166. da geografia das coisas

Hoje

[Os gritos vem de janelas fechadas]

Há alguns pássaros que não voam
um, se isola na diferença da cor.

então

o pai fala do respeito ao que é diferente – como se eu fosse criança –

fala da história da menina muda que nunca canta

mas que tem a música nos olhos.

Por enquanto para mim ela é só silêncio.

 

Mariana Gouveia
166. da geografia das coisas

165. da geografia das coisas

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De toda natureza viva – a cor – e exalar perfumes pelas estradas…
A viagem dentro da pele buscando lembranças e as árvores passando feito voos.
O dia a contar a importância das coisas. Aspiro o sol que na pele marca o tempo, dia a dia.
Daqui há pouco já será tempo de abraço e de chegada.
Logo além da curva o novo dentro do antigo. O amor com o mesmo sobrenome que o meu. A leveza a cumprir a sonoridade do vento.

Mariana Gouveia
165. da geografia das coisas

164. da geografia das coisas

Há o abandono nato das asas que voas.
O pássaro não veio. Ela não quer falar. O cansaço das horas vazias. A espera das horas em que não veio.
A solidão é dentro da gente.
Tanta intensidade até na palavra vazio. O vento empurra o meio do nada.
Às vezes, é preciso entender os silêncios;

Mariana Gouveia
164. da geografia das coisas

163. da geografia das coisas

Acontecia o dia do amor. A gente sempre acontece na rotina das coisas. Havia recado estampado em tudo. O céu estampado em cores suaves.
Uma canção repetida ao limite e o riso ecoando coragem antes da viagem.
Cabia qualquer amor em declaração ardente. O nome da flor declamado em versos.
A palavra do dia esparramada no gesto. O eu te amo dito em alta voz e o rodopio lembrando asas em voos.

Mariana Gouveia
163. da geografia das coisas