Projeto Fotográfico 6 on 6 – Passos

“São os passos que fazem os caminhos”.
Mario Quintana

Luci, faz tempo que eu queria te escrever….

Mas meus dias esteve – ou estão – tão cheios de realidade que as palavras não cabiam dentro do seu mundo. Escrever sobre a realidade, Luci, é quase como rasgar as folhas do caderno quando você tem pouco papel para a caneta trilhar entre as linhas e a gente aproveita cada cantinho em branco para desenvolver escrita. Realidade é o álcool gel de uma UTI, touca e pantufas sem bichinhos engraçados… realidade é o apito estridente de um aparelho que te assusta e te faz tremer feito vara verde. Realidade para além dos dias é a reza para tudo que é místico e acreditar que a vaga venha, que a febre ceda e que o amor minúsculo – tamanho da irmã caçula – vença a luta contra a morte – aquela imagem da foice e uma boca aberta vem à memória e você acha tudo tão engraçado que a fé se torna concreta em tudo que é santo-nossa-senhora-ave-maria…
Hoje tenho que falar de passos e pensei que esse seria um tema ideal para que eu pudesse fugir do trilho do tocável e te alcançar dentro da magia que seu olho me alcança.

Vem comigo?

Já te contei que ando sobre instantes e que quando meus passos tocam terra-chão-grama acontece coisas inimagináveis? Às vezes, até eu mesmo duvido, Luci e juro que esses momentos me levam ao estuque do seu quarto e sua parede quase azul – era isso mesmo? ou seria verde? – e lembro – me de que nessa altura da lembrança você não queria comer – e que te dei asas para além das florestas e dos pajés que reverencio todo dia… não comer era quase um desaforo diante de tanta fome no mundo. A fome atravessa os séculos e as florestas e para ali, dentro da imaginação do meu quintal, não comer é quase um atentado contra o que de mais sagrado que existe. Você tem o que comer? Tem de onde tirar a comida? Tem a sonoridade da alegria de quem encontra a comida, em qualquer lugar que seja?
Ainda bem que isso seja só lembranças, Luci e que ela nos leva sempre para as cartas e palavras.

Acontece que em alguns acontecimentos me transmuto para além do que escrevo e só para comprovar que não é miragem, eu registro o minuto dentro da magia.
Por falar em magia, conheci um cacique tão mágico – que parecia ter surgido de um filme desses da sessão da tarde – e que trazia a mansidão no olhar – a realidade, pelos olhos dele, tem a docilidade da aceitação.

” O que não se pode mudar, aceite… “

Falou na sonoridade do ar condicionado que acontecia entre um gruuu – ou seria vraaaaa?

E meu pensamento viaja para onde não posso estar e nesse momento sou quase rebeldia dentro da fé, Luci, enquanto o olho dele me atinge e leio quase uma floresta inteira e suas densidades. Um dia, Luci, quero te mostrar esse olhar… Você nunca mais vai querer ficar sem comer nessa vida e em todas as outras vidas que tiver – e eu, nunquinha mais, perderei a fé – e tudo será apenas gratidão.

Tem o jeito tão fácil de pai – o cacique – que quase me aninhei nos braços dele, Luci. Tive que me conter, devido a seriedade do encontro. Dava a impressão de que ele era o Samurai de todas as histórias e até da música do Djavan – se bem que nunca entendi direito essa música do Djavan, que pensei no tal verbo inventado sobre djavanear…

Os passos nos levam para cada caminho, que muitas vezes, só o lúdico nos faz fortes para que a caminhada seja fácil.
Lá na rua de cima tem cada instante de rua florida que dou uma volta enorme para não pisar nas flores. Você iria rir e talvez até me convencesse a deitar sobre elas – aposto…

Mas você não faria isso com o quintal “florido de teias de aranhas”…

Isso, eu consegui registrar e não importa se é aqui, logo que abro o portão, depois desses dias frios, de garoa – ou na rua de cima, logo além das porteiras do sítio Altos da Mata, para onde os olhos do meu pai vigia.
A vida, é o aceitar, Luci… tipo presente ou bolo da vizinha que insiste em nos imputar o pecado da cobiça. Vai me dizer que nunca cobiçou o cheiro de bolo que vem pelo vento e que a gente nunca sabe de qual casa vem o tal cheiro?

É um querer tudo e até o que não nos cabe na mão. Se minha mãe estivesse aqui, talvez, o olho fosse o termômetro para a vontade de ser, Luci… e ser é apenas aceite… Aceite dos caminhos que os passos cruzarem…

Os passo fazem parte do caminho… seja no ar, na imaginação ou na terra…

Luci… ah! Chego a suspirar quando me lembro dos pés a beijar a terra e a vida se torna tão gigante nos retratos pendurados nas memórias.
Era Maria, Branca de Neve, era Dolly e logo atrás de tudo aonde a câmara-olhos não alcançaram Manu, brigadeiro a desenhar instantes do para sempre. Devia ter escrito conto de fadas, Luci… igualzinho tu fez com Baunilha e tua Anna e nessa hora imagino tua grandeza dentro do poema do Bukowski…

Já te contei que meus passos me levaram às nuvens, Luci e que lá de cima sua cidade ficou quase que ao toque das minhas mãos? Juro que se tivesse poder de verdade, soprava as dores e tudo viraria apenas histórias para tua Anna.

Eu estive aí, Luci… tão perto de você que em alguns momentos a visualizei no rompante da escada e lá estava seu riso anos 60 e Anna para os passos do abraço.
Corredores me alcançou na graça do amor e resiliência dentro dos dias. Foi pura emoção, Luci. O livro sendo fonte de resiliência e amor.

Enumerei um a um a quem eu daria abraços no ar – porque alguns, abracei de cheiro de perfume e de café – e esse cheiro sempre me levará para a magia que me rodeava como se fosse eu mesma uma personagem das histórias que a vida escreve…

Talvez seja! Vai saber!

Mas a vida, Luci… Ah, a vida? A vida é feita de passos.. Ah, se eu pudesse escrever sobre os passos da vida…

Ainda bem que existe a fotografia pra se fazer entender.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse projeto:
Cilene Mansini | Maria Vitoria | | Mari de Castro | Obdulio Nuñes Ortega | Lunna Guedes

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Projeto fotográfico: 6 on 6 – As cores da manhã

Quem tem assim o verão
 dentro de casa
 não devia queixar-se de estar só

 Eugénio de Andrade

 

Às vezes, me pego descobrindo as cores da manhã, e entre a madrugada se despedindo e ela – a manhã – que se desenha a vida colore diante de mim, o toque.
Um afago ainda com cheiro de orvalho nas asas e o cumprimento se revela no gesto.

E antes mesmo que o sol nasça,  entre o caminho do amor e do carinho, as cores se desenham dentro da esperança. O dia – quase em milagre – abre as cortinas do que é belo. O afago no quintal tão meu, antes de seguir rumo ao que o dia se antecipa para mim.

No meu lugar as cores tem a tonalidade dos olhos deles, sem nome de cor exata, mas tendo a docilidade do amor. A ternura descrita entre troca de olhares e  nos muros os corações a espalhar vontade de amar.

 

Converso com a sorte imitando cores, e fazendo com que os pincéis desenhem as rotinas das flores. A estação brincando de viver para além dos muros. A vida a conversar comigo onde o silêncio me cabe. É quase um grito, o suspiro no peito.

 

A rua de cima amarela a medida que vou ganhando as esquinas. Um dourado se encosta na leveza dos lilases dos dias de agosto. Ainda há a brancura das nuvens em um céu matizado feito quadro de pintor.

 

E a medida que o ônibus – e o dia – avançam, no bosque que antecede outro lugar, eu fecho os olhos e sou beijada através dos reflexos dourados pelos raios do sol e meus olhos se perdem na tabela de cores que a manhã me oferece até onde minha vista alcança.

 

Mariana Gouveia

Participam desse Projeto:
Claudia Leonardi  | Maria Vitoria | Lunna Guedes | Fernanda Akemi | Obdulio Nuñes Ortega |

6 on 6: a pessoa que sou


 

Talvez, eu seja canção.

Dessas que o vento desliza e busca sinfonias
E chega um dia em que não resta quase nada para cantar ou contar.
talvez eu seja um poema ou uma velha história
quase secular ou criada no instante de agora
o mar, é essa estrela dele mesmo feito porcelana na estante;
o verbo do oceano marítimo em mim
e eu, essa pessoa que sou.
Ou posso ser o mês de outras estações
florescendo ipês no quintal

e na rua de cima sou a menina a espiar pelos muros dentro dos dias

 

 

aqui, há um pulmão que teima em respirar
células em cura e um coração habitado de fé.
de alma, sou só metade, sou parte deles…
essa válvula de escape entre o desejo e a vontade
e essa realidade doida me leva ainda por corredores
onde a estação é apenas uma só
sou segredo e brevidade
a palavra e o eco
o chão e o abismo e o vácuo…
se você perceber, sou fagulha ou sopro
talvez apenas vento que a mãe repetia na reza do espírito santo
Amém!

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Plural Editora
PARTICIPAM DESTE PROJETO: 
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega, Maria VitóriaMari de CastroCilene Mansini

6 on 6 – J.u.n.h.o

 

Ah, junho! Desde pequena aprendi a viver seus sabores,

Suas cores e seus dias…
Logo no primeiro dia do mês, a vida do pai sendo reverenciada e o amor ali, renascendo nos dias que se seguem. Tudo é jeito de mãe a fazer gostosuras com o milho.

O frio, no aquecer improvisado  nos casacos desbotados e as festas de seus santos revivendo tradições… é como se repetisse em mim, nas memórias as bandeirinhas e os balões a dançarem com a lua… As festas onde os primos se encontravam para as lembranças todas.

As lanternas chinesas trazendo cheiros nos quintais, lembrando o santo casamenteiro, as simpatias e a fogueira acalentando nossos corações.

 

É logo ali, seus dias passam rapidor e o sol a aquecer as manhãs frias enquanto no cerrado, os ipês recriam mais um ciclo da natureza.

E na devoção do pai, a reza,
e a ave em comunhão com o tempo.
Junho é esse desaviso na folhinha quando o calendário marca a lógica de amar.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural

Participam desse Projeto:

Lunna GuedesMaria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega

6 on 6 – Retratos

Desde pequena sempre fui avessa aos retratos.  É fato que, quando criança as fotografias eram coisas raras. Uma vez por ano, lá vinha o fotógrafo tão esperado pelos meus pais e vestíamos como se fosse para uma festa. A fotografia era tirada uma com toda família junta, e outra individual de cada um dos sete filhos.

O tempo foi me levando para os caminhos da arte, rádio e passei eu a fazer fotografia  e em cada uma das funções exercidas o registro era inevitável.


Os reencontros com a família, o carinho da irmã e o quintal da casa do pai. Ainda assim, me ver fotografada era estranho.

 

 

 

 

Nas brincadeiras, o riso em cenas inusitadas era o limite entre a máquina e eu. Registrar os momentos era quase um ritual onde quer que fosse. Em alguns instantes engraçado, antes da peça começar. Na preparação do ato e caracterização.

 

A natureza passou a ser meu foco e minha atenção. E mesmo em casa, passei a ter visitas para os cliques inusitados.

 

Nesses momentos, a intimidade era o grau maior entre a lente e eu e entre mim e a vida que se mostra gigante a cada dia.

 



Para mim, a fotografia é o momento certo de registrar instantes para sempre. Com isso, o retrato fica inspirado no momento. A vida é tão passageira e com um simples clic consigo eternizar o para sempre sempre…

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural

Participam desse Projet0:

Lunna GuedesMaria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega

6 on 6 – Outono

Carta à Cuiabá aos cuidados do outono

Cuiabá querida!

Queria dizer que já não tenho mais palavras para dizer para você que suas ruas na primavera tem um quê do seu próprio nome… mas, em seus 299 anos é no outono que te concedo um olhar melhor.

Você se transforma em uma cidade dourada, com o cheiro das folhas a espalhar o aroma da estação.

O outono, esse menino travesso que veio brincar no meu quintal e seu céu roubam de mim os suspiros e tão senhor de si, o sol de todo dia se modifica em cada fim de tarde.

Nunca o mesmo, nunca igual, sempre solene e as nuvens se embelezam ainda mais para mostrar para todos a magia da estação.

Ah, Cuiabá! De cidade verde você se põe dourada e enche de encantos quem vive aqui.
Nas tardes amenas sua cor se intensifica como se quisesse mostrar que no outono sua dimensão de cidade grande amplia.
A moça que lê a previsão do tempo cita seu nome e fala da possibilidade do tempo dourar – ou sou eu quem te faço mágica na brisa leve que meus olhos alcançam para além da janela.

Suas aves no voo te faz tão menina… E para mim, suas calçadas me acolhem em cada canto que vou.

Tão gigante, etérea e tão senhora de si.
Tão bravia e ao mesmo tempo acolhedora com seu povo hospitaleiro.

Cheia de falhas é completa de fé.

Te escrever, quase às vésperas de seus 299 anos na mansidão dos seus quintais
me faz refletir que já sou parte sua e levo seu nome por onde for…
Mas é dentro da estação que cobre seus dias que declaro meu amor.
Feliz idade, Felicidades, Feliz cidade, Cuiabá!
Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural

Participam desse projeto:
Maria Vitória
estranhamente

Obdulio Nunes Ortega
blogue serial ser
Lunna Guedes
Catarina voltou a escrever

6 On 6 – Minhas manhãs

 

Nasço amanhã
ando onde há espaço;
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes


As minhas manhãs acontecem em frente a inquieta cortina lilás. Os dias nascem laranjas por aqui – com algumas raras exceções  – o barulho do rio atravessa a paisagem e o sol – companheiro diário – se acende. Era quase estender a mão e tocar o horizonte da infância e seus códigos indecifráveis. A rota do olho a buscar abrigo na paisagem. As memórias aquecidas no fogão a lenha e todas as outras manhãs ganhando sentido de uma.

 

As minhas manhãs são cheias de aromas. O capim dourado ainda orvalhado, o cheiro do café a atiçar memórias…
O perfume do sabonete logo após o banho… A pele a respirar poemas de saudades. Frases relembradas ao acaso. O cão da vizinha da frente que se chama Meia Noite a abanar o rabo enquanto levo as sacolas para o moço da reciclagem que – parece – vem na rua de cima.

 

 

Minhas manhãs tem as cores azuladas. O céu a desenhar mil corações e a palavra cantada na voz do homem da reciclagem entoando emoção. Os detalhes dos últimos dias como desabafo. A sorte que teve na semana passada quando encontrou a bolsa de alguém e conseguiu devolver. As histórias se tornando magia diante de meus olhos e o mundo sendo meu nas palavras do homem.

O quintal me acolhe com suas vidas minúsculas e expande na cena que me acompanhará o dia todo.
Os cães e suas alegrias em brincadeiras eternas. O som da casa vizinha a acordar.
Tudo torna especial minhas manhãs dentro das rotinas tortas. As plantas a receber a chuva que dou enquanto o regador cumpre sua função no jardim.
As aves diante de meus olhos e o pássaro de todo dia a costurar estrelas em minha alma. As mensagens de saudades escritas em um curto espaço de tempo…

O beija-flor a demarcar seu canto e o dia dentro de uma paz falsa a rabiscar saudades nas paredes das ruas. A rua de cima a me acolher ainda dentro das manhãs e os gestos de rotina da casa como continuidade das memórias.
O vasculhar das coisas a procurar os gestos seus em cada canto.
As palavras salivando nas asas do amor.

Como se no voar dentro do silêncio a manhã se fizesse voz e que por si só isso já fosse amor.
Enquanto isso, o relógio nas minhas manhãs tem a vibração do segundo.
É quase hora de ir viver o dia.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural 6 on 6 – Tema: Minhas manhãs

 

Também fazem parte desse Projeto:
Maria Vitória – estranhamente
https://aestranhamentee.wordpress.com/2018/02/06/projeto-fotografico-6-on-6-o-que-te-inspira/

Obdulio Nunes Ortega – blogue serial ser
Lunna Guedes – Catarina voltou a escrever