6 on 6 – Cores

Meu coração é vermelho, hei ! hei !
De vermelho vive o coração, ê, ô ! ê, ô !
Tudo é garantido após a rosa vermelhar.
Tudo é garantido após o sol vermelhecer.
Chico daSIlva

Vermelhecer é a palavra que me ganhou nessa música e é com essa cor que começo a falar sobre as cores. O vermelho domina meu coração e durante muito tempo foi a cor principal a dominar minha vida, meus cabelos, minhas roupas e até a unha trazia a cor. E no meu jardim ela ganha a intensidade nas flores e nas mais variadas coisas.

Claro que adoro também o azul que é a cor que predomina em grande parte do tempo meu céu, e logo quando acordo e meus olhos ganham o quintal lá vem o:
” Corre e vai dizer pro meu benzinho,
Um dizer assim o amor é azulzinho”…
E Djavan acontece aqui todo dia…

Mas quando vejo as asas de borboletas a voar, as cores deixam de ser vermelhas, azuis ou outras cores e eu vibro na intenção das asas. Nessa hora, os tons se camuflam apenas no estado de ser poesia. É o que chamo de encanto e mesmo que veja isso várias vezes por dia, o sentimento é o mesmo a cada voo.

E as cores acontecem nas mais variadas formas de asas, flores e tons.
E as transformações vão acontecendo diante dos olhos e a gente esquece que o que desafia o olhar são apenas nuances de tons que se equilibram em uma grande paleta de cores e formas.

Nesse momento, a vida pede apenas para ser simples e viver o instante. Seja vivenciando a cor de dentro do coração, ou se alegrando pelas cores que os olhos vêem.

E que os olhos perdidos de olhar descobre que tudo é um quadro perfeito com suas cores se equilibrando entre a natureza e o viver.

E descubro que mais do que falar de cores, falei de mim em tons que meu lugar me oferece como um presente diariamente.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Cores
Scenarium Plural Editora

Darlene Regina — Isabelle Brum — Lucas Buchinger
Lunna Guedes — Obdulio Nunes Ortega

6 on 6 – Por onde andei?

Meu endereço sou eu
O máximo que faço
é abrir e fechar janelas
para o mundo!
Silvana Conterno

Andei por aí, nas manhãs do meu lugar onde o céu já acontece em seu esplendor logo cedo e a vida começa na rua de cima. É logo ali, que é a saída para o mundo.

E como se fosse um alquimista, o sol se derrama sobre a cidade e alaranja tudo que ele toca. Minha cidade parece feita de papel pintado pelas mãos de um artista que desenha as casas e seus telhados feitos de sonhos.

Andei por chãos onde a fórmula mágica das flores desenham tapetes coloridos nas ruas do meu lugar e a chuva antecede a primavera na essência da poesia.

Se perguntarem por mim, digam que voei.
Alice Vieira

Ah, e andei sobre as nuvens, colhi palavras, letras e abraços… E andei por calçadas com o amor do lado e o riso de cumplicidade na alma.

Voei e pousei na Casa Laranja, nos abraços e distribuí sonhos em forma de livro.

E colhi afetos dentro do mundo Plural onde sou essa caminhante andante por aí.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Plural Editora

Participam desse projeto:
Darlene Regina — Isabelle Brum — Lucas Buchinger
Lunna Guedes — Obdulio Nunes Ortega

6 on 6 — Serendipity

Quando esse tema chegou até a mim, fiquei a imaginar quais seriam os instantes que eu colocaria nas palavras.
O acaso vive me trazendo momentos quase que diários onde meu suspiro vai de encontro ao inesperado.

                                                                                                   ” O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar”
Titãs


Logo nas primeiras horas da manhã, a sorte me chama no amor do pássaro de todo dia que o acaso traz para meu quintal. Chiquinho é a emoção diante do inesperado gesto de pousar em meus dedos… ou sobrevoar meu pescoço em busca do afago nas asas. É como se um elo entre a natureza fizesse o sopro do acaso em minha vida.

Na rua de cima, me deparo com a leveza do ipê, como se beijasse a rua e as calçadas – e ainda nem é tempo deles se despertarem para as flores – que tem no mês de agosto sua florada magistral. Mas quem disse que o acaso não pode ser vivido dentro da rotina?
A extensão da rua, logo depois da casa da esquina, a pétala que cai, o cão que late a espera do meu bom dia – ou do biscoito que trago todo dia para ele – e meu afago em sua cabeça é sinal de confiança.

As múltiplas opções que o acaso me desenha vai desde uma árvore quase morta cheia de pássaros em meio a um trânsito caótico e o dia fechando as portas rumo ao poente e um coração de pedra, com as cicatrizes que a natureza causou logo acima da rua do meio.

O cheiro da garoa – que mais parecia uma chuva fina – caindo sobre a grama me trouxe a serenidade para além dos dias tumultuados e dentro da palavra serendipity, uma visita acalentou o dia.

E como se não bastasse um pouso, a vida de asas faz festas no focinho de quem sempre tem olho mágico diante da vida. Tudo é tão cheio de singularidades que a melodia do vento faz jus à sinfonia do silêncio que impera na alma.

Como Pasteur disse: “O acaso favorece apenas a mente preparada“. Mas para absorver as felizes descobertas ao longo dos dias, devemos ter o entendimento de aceitar o inesperado e reinterpretá-lo com o coração.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto: Lunna Guedes– Obdúlio Ortega Maria Vitória

6 on 6 — minhas noites!

Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas.
Joakim Antonio

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Confesso que minhas noites são feitas de silêncios. Ou de monólogos intensos pelo quintal.
Quando o sol se prepara para a troca com a lua, minha cidade – que dia 8/04 completa 300 anos – se transforma em silhuetas através das janelas do ônibus.
Aspiro ali, o lugar de fé, também o prédio mais alto da cidade e a respiração acalenta nas sombras o que foi o dia.

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E dependendo da fase, lá vem ela dominar o decanato e ascendente. Cada tempo tem sua necessidade e ela em sua fase de cheia invoca os deuses e faz o cabelo engrossar e mais uma vez, nessas noites eu relembro as lições do pai.

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No meu quintal, nas minhas noites, às vezes, a lenda acontece na caixa velha de eternit e o eco se renova perto do pé de vento. Era ali que as histórias eram contadas e é ali que minhas noites são feitas de sopros. O calor, quase sempre, é asfixiante e bem embaixo do pé de ipê o cogumelo arrebenta e a frescura toma conta da alma. É onde aconteço dentro de minha história.

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Há noites em que ela surge em vírgula e me vejo lunar nas minhas noites. Chamo um nome, lembro do uivo, refaço rituais que aprendi quando criança e sou pura fascinação. O céu ganha minha atenção e conto histórias que nuca esqueci.

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Nas histórias, o que me envolve é a lua – e na ausência dela minhas noites ficam ocas, vazias – e o céu é meu templo. Realinho os mantras e faço orações para o universo em todas as fases de lua e de quebra, ainda ganho estrelas.

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E para finalizar, sou colo do pássaro de todo dia que em minhas noites é aconchego para além da alma. Ali, no varal, pouco antes de deitar ele vem em oferta de carinho e poesia.

Sou quase extensão de histórias que se aninham entre si e fazem de mim o que sou hoje: uma insone nas noites sem lua. E como diz um dos meus poetas queridos Joaquim Antônio: “Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas”.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019 Participam também desse projeto: Lunna Guedes Obdúlio Ortega Maria Vitória

6 on 6 — meus ingredientes!

“Minha mãe cozinhava exatamente:
Arroz, feijão roxinho, molho de batatinhas.
Mas cantava”.
Adélia Prado

 

Minha mãe dizia que a casa começa com as xícaras e o coador de café. Foi dela que herdei esse amor pelo grão que nós mesmos colhíamos e o pai torrava para depois moer e coar.
Falar disso é como abrir a janela e respirar o tempero da memória. É como abrir a toalha de mesa e espalhar aqui meus ingredientes.

– O alimento é a poesia para o corpo! – minha mãe dizia enquanto ao redor do fogão a lenha preparava os ingredientes para fazer os biscoitos – o que se tornava um ritual, quase festa.
Depois da massa feita, passávamos eu e meus irmãos a enrolar e fazer figuras com a massa, enquanto ela fritava. Lembro-me que haviam cavalos, estrelas, letras com a iniciais de cada um dos nomes dos filhos.

O polvilho, nós mesmo fazíamos, logo depois da colheita da mandioca tudo marcado por rituais para não desandar a massa, para não azedar o pão, para ficar na memória o rito da mandioca sendo ralada, lavada, espremida e daquela água branca da cor de leite, ficava no fundo das bacias o pó branco que serviria para fazer quase tudo nos próximos meses.

Desde o pão de queijo ao mingau. O jirau montado no quintal para secar o polvilho. O tempo certo para o polvilho doce e o azedo.

Repetir a receita e com o chá de erva doce merendar em volta dela.
Descrever isso é como voltar no tempo… preparar os ingredientes, sovar a massa.
A memória se volta para o passado e o tempero se chama saudade.


Não tínhamos o fogão a gás e preparar o forno de barro para assar um bolo era desperdício de tempo e de lenha. Minha mãe colocava a massa em uma panela e tampava com um prato cheio de brasas. O tempo de assadura era o mesmo do forno e o cheiro era a fragrância do amor a exalar na cozinha toda.

Das coisas que me lembro é minha mãe de cócoras – talvez para chegar à altura da minha irmã caçula – comendo com a mão. A cozinha rescendendo especiarias das mais diversas ou as ervas frescas que ela colhia na “hortinha” próxima da janela.

A memória busca as lembranças dentro da cozinha. Os temperos a traduzir a saudade. Minha mãe sempre figura central da cozinha. A mesa sempre larga e grande para caber os sete filhos e a turma do trabalho da fazenda. Tenho isso tudo vivo em minha memória e com certeza foram esses instantes que me fizeram o que sou.

O momento da partilha dos pães, o fogo a crepitar no fogão. O cheiro do leite a ferver enquanto queima os dedos na ânsia de não deixar derramar sobre a chapa quente.
A lembrança presa nas coisas e o cheiro a invadir as lembranças e a saudade a ecoar ingredientes.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto: Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega  Maria Vitória

6 on 6 – Nós dois

Procura-se…. Pessoa feita triste por verbos pretéritos e palavras ouvidas.
Alguém que seja capaz de se surpreender com gestos incompletos e actos falhados.
Pede-se o favor de responder através de um sorriso vago que possa ser tudo.
Nuno Camarneiro  

 
Parecia tão distante a palavra nós dois. Eu, tão acostumada a ser só e resolver tudo só, de repente, vejo uma mão estendida me indicando caminhos.  

Em alguns horizontes você me mostrava a direção. Era como se ali, tão cúmplice e parceiro estava o amor.
Tão sombra e tão presente. Nós dois! Quase um em meio a tantos.

A realidade sendo constante na sonoridade dos dias. A imagem registrada, era você e sua amizade mais atuante junto ao amor.

 

Com o passar dos anos, os olhos complacentes diante de minhas aventuras e de como os poemas faziam parte do espaço onde existimos… o poema é sempre sua mão estendida e seu ombro de amparo.

 

Basta saber de você ali… onde seu riso é parte principal de minhas rotinas. 

 

Esvazia os meus dias da solidão dos poetas e é silêncio quando minha alma grita nas solidões tantas. 
Não é só de amizade que falo, nem de companheirismo – esse tanto de espelho refletido no peito – onde o jardineiro do jardim cuida dos arredores dos quintais. Onde o dedo aponta o céu e os passos me seguem para além das cartas e de outros amores.

 

Mais do que as infinitas possibilidades nós dois somos o amor.

 

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019 Participam também desse projeto: Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega  Maria Vitória

6 on 6 – Urban art (arte urbana)

“Porque amar é uma arte e nem todo mundo é artista”.
Renato Russo

Querida A,


Já te contei que minhas ruas possuem o encanto dos artistas de rua? Quando passo em frente a uma obra penso em como você decifraria a história da peça, do quadro, dos muros pintados ao longo de avenidas.

Às vezes, as ruas contam lindas histórias de amor. As declarações são repetidas ao longo de uma avenida, uma parede mal conservada e ali, o artista expõe sua arte e inspiração.
Muitas vezes, fico imaginando se fez o efeito esperado quando a pessoa se “vê” na frase, nas imagens e no desenho.

Saberia o Fred que Tati Ribeiro o ama tanto? Ah, minha cara, eu adoraria saber e por vezes, ao passar nessa rua me vejo tentada a dizer o que teria acontecido com eles. Chego até a criar a história e um final felizes para eles.

A moça da janela da rua de cima parece que está sempre à espera de alguém e logo duas casas acima, os corações colorem um muro inteiro. Devo confessar que já desenhei com os dedos no ar seu nome dentro de um deles.

Mas, o amor é assim, minha querida. Nos leva por caminhos diferentes e faz com que a gente embarque nas histórias que vemos por aí.

A arte tem essa leveza de explicar com mensagens, o que na verdade trazemos dentro de nós.
Beijo,

Mariana Gouveia

Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto:
 Lunna Guedes  – Obdúlio Ortega 
Maria Vitória