6 on 6 – Retratos

Desde pequena sempre fui avessa aos retratos.  É fato que, quando criança as fotografias eram coisas raras. Uma vez por ano, lá vinha o fotógrafo tão esperado pelos meus pais e vestíamos como se fosse para uma festa. A fotografia era tirada uma com toda família junta, e outra individual de cada um dos sete filhos.

O tempo foi me levando para os caminhos da arte, rádio e passei eu a fazer fotografia  e em cada uma das funções exercidas o registro era inevitável.


Os reencontros com a família, o carinho da irmã e o quintal da casa do pai. Ainda assim, me ver fotografada era estranho.

 

 

 

 

Nas brincadeiras, o riso em cenas inusitadas era o limite entre a máquina e eu. Registrar os momentos era quase um ritual onde quer que fosse. Em alguns instantes engraçado, antes da peça começar. Na preparação do ato e caracterização.

 

A natureza passou a ser meu foco e minha atenção. E mesmo em casa, passei a ter visitas para os cliques inusitados.

 

Nesses momentos, a intimidade era o grau maior entre a lente e eu e entre mim e a vida que se mostra gigante a cada dia.

 



Para mim, a fotografia é o momento certo de registrar instantes para sempre. Com isso, o retrato fica inspirado no momento. A vida é tão passageira e com um simples clic consigo eternizar o para sempre sempre…

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural

Participam desse Projet0:

Lunna GuedesMaria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega

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6 on 6 – Outono

Carta à Cuiabá aos cuidados do outono

Cuiabá querida!

Queria dizer que já não tenho mais palavras para dizer para você que suas ruas na primavera tem um quê do seu próprio nome… mas, em seus 299 anos é no outono que te concedo um olhar melhor.

Você se transforma em uma cidade dourada, com o cheiro das folhas a espalhar o aroma da estação.

O outono, esse menino travesso que veio brincar no meu quintal e seu céu roubam de mim os suspiros e tão senhor de si, o sol de todo dia se modifica em cada fim de tarde.

Nunca o mesmo, nunca igual, sempre solene e as nuvens se embelezam ainda mais para mostrar para todos a magia da estação.

Ah, Cuiabá! De cidade verde você se põe dourada e enche de encantos quem vive aqui.
Nas tardes amenas sua cor se intensifica como se quisesse mostrar que no outono sua dimensão de cidade grande amplia.
A moça que lê a previsão do tempo cita seu nome e fala da possibilidade do tempo dourar – ou sou eu quem te faço mágica na brisa leve que meus olhos alcançam para além da janela.

Suas aves no voo te faz tão menina… E para mim, suas calçadas me acolhem em cada canto que vou.

Tão gigante, etérea e tão senhora de si.
Tão bravia e ao mesmo tempo acolhedora com seu povo hospitaleiro.

Cheia de falhas é completa de fé.

Te escrever, quase às vésperas de seus 299 anos na mansidão dos seus quintais
me faz refletir que já sou parte sua e levo seu nome por onde for…
Mas é dentro da estação que cobre seus dias que declaro meu amor.
Feliz idade, Felicidades, Feliz cidade, Cuiabá!
Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural

Participam desse projeto:
Maria Vitória
estranhamente

Obdulio Nunes Ortega
blogue serial ser
Lunna Guedes
Catarina voltou a escrever

6 On 6 – Minhas manhãs

 

Nasço amanhã
ando onde há espaço;
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes


As minhas manhãs acontecem em frente a inquieta cortina lilás. Os dias nascem laranjas por aqui – com algumas raras exceções  – o barulho do rio atravessa a paisagem e o sol – companheiro diário – se acende. Era quase estender a mão e tocar o horizonte da infância e seus códigos indecifráveis. A rota do olho a buscar abrigo na paisagem. As memórias aquecidas no fogão a lenha e todas as outras manhãs ganhando sentido de uma.

 

As minhas manhãs são cheias de aromas. O capim dourado ainda orvalhado, o cheiro do café a atiçar memórias…
O perfume do sabonete logo após o banho… A pele a respirar poemas de saudades. Frases relembradas ao acaso. O cão da vizinha da frente que se chama Meia Noite a abanar o rabo enquanto levo as sacolas para o moço da reciclagem que – parece – vem na rua de cima.

 

 

Minhas manhãs tem as cores azuladas. O céu a desenhar mil corações e a palavra cantada na voz do homem da reciclagem entoando emoção. Os detalhes dos últimos dias como desabafo. A sorte que teve na semana passada quando encontrou a bolsa de alguém e conseguiu devolver. As histórias se tornando magia diante de meus olhos e o mundo sendo meu nas palavras do homem.

O quintal me acolhe com suas vidas minúsculas e expande na cena que me acompanhará o dia todo.
Os cães e suas alegrias em brincadeiras eternas. O som da casa vizinha a acordar.
Tudo torna especial minhas manhãs dentro das rotinas tortas. As plantas a receber a chuva que dou enquanto o regador cumpre sua função no jardim.
As aves diante de meus olhos e o pássaro de todo dia a costurar estrelas em minha alma. As mensagens de saudades escritas em um curto espaço de tempo…

O beija-flor a demarcar seu canto e o dia dentro de uma paz falsa a rabiscar saudades nas paredes das ruas. A rua de cima a me acolher ainda dentro das manhãs e os gestos de rotina da casa como continuidade das memórias.
O vasculhar das coisas a procurar os gestos seus em cada canto.
As palavras salivando nas asas do amor.

Como se no voar dentro do silêncio a manhã se fizesse voz e que por si só isso já fosse amor.
Enquanto isso, o relógio nas minhas manhãs tem a vibração do segundo.
É quase hora de ir viver o dia.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural 6 on 6 – Tema: Minhas manhãs

 

Também fazem parte desse Projeto:
Maria Vitória – estranhamente
https://aestranhamentee.wordpress.com/2018/02/06/projeto-fotografico-6-on-6-o-que-te-inspira/

Obdulio Nunes Ortega – blogue serial ser
Lunna Guedes – Catarina voltou a escrever

PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6 | O QUE TE INSPIRA?

 É dentro de ti que toda a música é ave.
Eugénio de Andrade

Ave.

A minha principal inspiração vem em primeiro lugar – e os que me acompanham sabem – de asas – das mais diversas significâncias – e de voo, de pouso e ave.
E a ave dona do meu carinho e pensamento se chama Chiquinho e é esse pequeno beija-flor – já com 6 anos, que vive aqui no meu quintal.
Nasceu dentro do meu xaxim de orquídea em uma noite chuvosa e livre, resolveu dividir seus voos entre meus varais, os quintais vizinhos e o ventilador de teto da sala.
A inspiração vem enquanto seus voos rasantes me abraçam.

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“Tenho o tempo das borboletas, uma semana é uma vida
(Graça Carpes)

Toque (borboleta).

 

Cada manhã habita -me a leveza do toque e isso me inspira enquanto o aroma das flores me abraçam. O silêncio traz o vento que pelas asas ecoam… a mão é o pouso de descanso e a poesia muito mais do que as pontas dos dedos.

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“O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando dentro”
Simone Teodoro
Céu do meu lugar

Sempre deixo de esperar o que era espera para ser entrega. O céu do meu lugar é onde a inspiração me ganha. Sou menina – a procurar figuras nas nuvens – que se encanta e com os braços danço entre o azul e o dourado – nas manhãs ou tardes de sol… apenas espaços em branco onde cabe tudo dentro de mim, inclusive, a poesia…

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“… mas preciso de magia. Não consigo viver em preto e branco.”
Nietzche

A noite mágica no meu quintal

Quando anoitece, tudo muda de tom e som… O meu quintal ganha ares de magia e nos cantos dos muros, a floresta se torna minha e única. A noite me inspira e pira. A estação na pele.

A pele,na memória e o céu, infinito em sua magia me acolhe.

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“Chamo o vento.
Para dançar comigo.
Na copa do ipê”.
Dayse Sene

Os ipês da rua de cima

A rua de cima tem a inspiração do portal mágico. É ali que a inspiração mora – feito menina travessa – e corre dentro de mim, como se a liberdade morasse na voz do homem da reciclagem, na terra amarela da rua que o homem do riso fácil varre todo dia. Na rua de cima, os ipês nascem nas manhãs serenas e ganham vida dentro de mim.

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“Canta o teu encanto que é pra me encantar”.
Los Hermanos

 

Joaninha – encanto

 

Quando se trata de paixão é dela que falo. Em cada canto da casa e do quintal ela está. Mora ali, no botão da rosa, na folha do pé de algodão e na inspiração que vem. Podia dizer que sou lembrada por ela. Que às vezes, um pequeno nada se torna gigante entre a singeleza da cor e no brilho que meus olhos ganham.
Muitas vezes, as inspirações vem de pequenos nadas que se ampliam e ganham contornos de plenitude.
É isso que ofereço – e entrego – me nas palavras – e se diante disso, eu conseguir te tocar, então, tudo terá valido a pena.

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Mariana Gouveia
PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6  | O QUE TE INSPIRA?
EDITORA SCENARIUM PLURAL – 2018
www.scenariumplural.worpress.com

Participam desse projeto: Lunna Guedes, Tatiana Kielberman, Obdúlio Nunes Ortega
e Maria Vitória.

Projeto fotográfico 6 on 6: a minha cidade

 

 

 

“… eu tive que nascer pra vida da cidade. Não a vida social, mas a vida da cidade e de seus cantos esquecidos. O lixo do lixo. Eu me perdia pela cidade, anônima, e esse anonimato era um vício. Eu não ter meu nome me absolvia de tudo. Eu me embebedava do desejo cego por qualquer um… E assim, eu me iniciei na solidão coletiva dos que não têm nada a perder. Mas, talvez, eu tenha até mais que os outros a tentação de corresponder ao bem. Uma tentação tão grande e absoluta, um desejo de corresponder de forma tão total, que paradoxalmente me tornou e me torna escrava cega de minha escuridão. E quando essa escuridão me possui, eu até a confundo com uma espécie de bem-aventurança.”
Fauzi Arap

Quando Lunna me enviou o tema eu derramei meus olhos por Cuiabá. Deixei-me levar pelo lugar que me acolheu e me abraça.
A minha cidade me conhece completa. Humana, explosiva,  delirante…
As ruas conhecem minhas lágrimas, meu riso e é cúmplice de minhas dores.
Com ela, sou solar. Iluminante.

 

Cuiabá com seu sol e seu calor escaldante é abraçada pelo rio que tem o seu nome.

É noite, ocaso e o céu é o pano de fundo de minhas aventuras. Das noites onde ele se enfeita de estrelas e para muitos passa despercebido. É minha rota de fuga para a inspiração e calma.

Minha cidade é também antiga. Colonial e mágica.  As ruas guardam as memórias onde os vizinhos sentam na calçada para contar os causos.

Os lugares se enfeitam para receber as pessoas. Se veste de chita, se perfuma com as flores dos ipés. Decora-se com o diamante das águas e se liberta com o verde que rodeia seus quintais.

É dourada e reflete em seus rios e lagos. É verde e frutifica nos quintais com seus frutos. Se perfuma com suas flores e seus jardins se tornam ponto de amor.

Senhora de si é bela e única. É ribeirinha e concreta.

Sempre amei caminhar rotas que traço, desvendar os  lugares secretos, comer e beber  os prato típicos, Caminhar na fé, essência pura onde encontro a paz e o amor… esse amor infinito que cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que a torna especial.
Seis fotos não conseguem retratar a essência e nem mostrar a beleza, mas em cada retrato revelo meu amor por Cuiabá.

 

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural.
Participam desse desafio:
Frasco de Memória e Catarina Voltou a escrever

Projeto Fotográfico 6 on 6 | Lembranças…

Falar com você sempre me permite essa viagem nas lembranças… É como se você sentasse para me ouvir e eu estivesse pronta para dizer…
E elas – as lembranças – me vem em forma de cartas – missivas para ti.

Bambina Mia.

Esse mês traço o caminho da volta e antes mesmo de ir já sei o que vou encontrar… e desenho no ar, nos dias que antecede a volta as coisas que sei que encontrarei no “meu lugar”… O meu lugar é o colo de pai, abraços de irmãos e todas as lembranças intactas esperando por mim:
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2 – No pomar, a fruta temporã, plantada para a ocasião – azeda demais, talvez – totalmente fora de época, mas com o sabor lá da infância. Sei que o cheiro irá ficar nas mãos e é desse cheiro que me lembrarei quando a memória invocar a lembrança.
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3 – As manhãs, bambina, tem o sabor da neblina fria e o sol anuncia logo após a mata que o dia se prepara para nascer…
Revigoro-me na visão dos animais e a estradinha me leva para a colina, de onde eu abraçarei o Universo em orações.
Eu posso fechar os olhos e sentir cada partícula das lembranças sendo refeitas dentro de mim como se fosse um bordado feito pela minha mãe e sua memória vindo nos cheiros das plantas, no canto dos pássaros e no chá exalando poemas em mim na beira do fogão a lenha.

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4 – A leveza me carrega entre a espera do abraço e das lambidas do cão que me espera afoito e que eu ouço o latido em algumas ocasiões.
Sei que ele ficará dias a andar atrás de mim e a aguardar meus movimentos… Me levará pelos mesmos lugares e rodopiará feliz ao acordar e sentir minha presença.
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5 – E no fim da tarde, as asas virarão uma árvore inteira em brancura no pouso das garças…
Todas as vezes, isso me lembrará Manoel de Barros e seus poemas. E dentro deles me deixarei levar por palavras que coloco no papel e te dedicarei.

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6 – e mais do que lembranças, bambina, ecoará dentro de mim todos os dias o riso da criançada enquanto a vida conta os dias que eu espero.
Falta pouco e logo estarei ali, colhendo no pé, a amor que a vida me dá diariamente de várias formas.
Ali, onde busco forças e equilíbrio dentro dos dias em busca de fé e esperança.
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Grazie por me permitir escrever-te sempre. Grazie por fazer parte desse núcleo de amor.

Bacio
Mariana Gouveia

Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse desafio:
Frasco de Memória e Catarina Voltou a escrever

 

6 on 6 – Como é a sua rotina

Minha rotina é o toque… O pleno sentido da vida.
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Logo cedo, apalpo a vida mínima no meu quintal…
Coisa de pele e sentidos. Amanheço

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Ou sou tocada, de leve. Ganho asas e atrevo-me. Metamorfose sou.
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Sou amparo e pouso. Repouso.

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Puro amor… amor mais puro.

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E tenho a certeza dele nos olhos de quem eu amo.

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Fotografias e texto: Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 –  Como é a sua rotina
Scenarium Plural Editora – 2017
Também participam: Retratos e Diários, Catarina Voltou a Escrever, Sariando por aí, Frascos de Memória