tempo de parir silêncios

In & Yan Art*imagem: Kiyo Murakami

no escuro da noite
todo sentido
devaneia

madrugada
asa é partir

tempo de parir
silêncios

[ave maria cheia de abismos].

Dan Cezar

Anúncios

A flor de carne

A flor de carne*imagem: Tumblr

Perguntas-me,
se é por ti
que me ergo das cinzas
e eu respondo:
não é sobre o teu corpo
que me desfaço
em suor,
pelos poros da tua pele
que escoo
e nas tuas veias
que me dissolvo?

Perguntas-me,
se é em ti que eu habito
e eu respondo:
não é pela tua boca
que respiro,
pelos teus olhos
que me vejo
e pelas tuas mãos
que me toco?

Perguntas-me,
o que tive de perder,
quando escolhi envelhecer
contigo.
E eu respondo:
o ciúme dos que procuram,
a união
dos espíritos e dos corpos.

Não és senão o ponto
e a ponte,
de partida e de chegada.

João Veríssimo

2. dos Rituais do orvalho

Havia acostumado molhar os pés com o orvalho das plantas… capim rasteiro que grudava na pele… relva que curava qualquer dor.

Quando podia, bebia na própria flor… Tinha essa mania de seiva.

Alguns diziam que era para se impregnar de perfume…

Apenas ela sabia que era para se manter viva.
Mariana Gouveia

Estado blue

5a36b124316f16c07b99f88469e26b8f

Não era convencional esse estado blue que ela sentia. Mas, ela também não era convencional.

Passava horas espiando o céu.

Buscava estrelas, desenhos em nuvens. Lembra que uma vez vira uma borboleta se perder dentro da nuvem. Não era convencional ver borboleta se perder…

Também passava horas em frente a janela imaginária esperando. Sabia quem estava do outro lado. Só faltava o toc toc colorido pra janela se abrir para o estado blue.

Ouvia música sem rádio ligado, sem som tocando e quase que como um jingle desses que não sai da cabeça a música repetia um nome… e ecoava o nome como abridor de lata vazando conteúdo pra fora de si e espalhando leite condensado de amor vida afora.

Alguém a chamou de doida. Ela negou… (doido nunca diz que é) mas as sensações dela era de loucura sã. E o vital é que a camisa de força era apenas um oi e aqueles coraçõezinhos de caracteres. E o coração no estado natural do blue, quase convencional, sangue azul entrava em erupções na pele, quase toque, intimo, quase gosto, desejo tão exposto quase louco (não era doida, não era) só era alucinadamente encantada. Quase amor tatuado, medo. Quase êxtase explodindo vulcão.

E não importava quantos mares de estrelas teria de transpor toda noite. Quantas nuvens  onde borboletas se perdiam teria de atravessar  até sua cama pra apalpar mão, tato, quase toque, quase ela. Aqui.
E não importava nem mesmo o silêncio dourado, quase azul… ela era névoa de saudades pra se transformar em poesia de posse, dela. Era ela.

Mariana Gouveia.

*Imagem: Toney Park

Lembrava dela como um sonho…

 

Ileana Dora 1

Achava que não era. Mas lembrava dela assim.
Podia ser uma data importante. Não lembrava disso também.
Ela surgia com seu jeito de menina. Procurava alguma coisa no meu armário. Acho que era o soutien vermelho, que fez com ela nunca mais esquecesse o ele guardava. Ou mostrava.
Me olhava com fome de uma vida inteira.
Passava o dedo em minha boca. Dava ordens. Eu cumpria.
Aqui, bem aqui! – e ali, eu descobria o paraíso.
Bebia no ápice, meu gozo.
Andava de um lugar para o outro. O cheiro do sabonete ainda na pele.
Ficava quieta num canto. E eu a falar, falar.
Me toca de novo e meu gemido abafa a música que toca.
Fala da estação que chega. Primavera lá e eu outono.
Arde sol lá fora. Não sei se é sonho.
Viu a lua dar uma mordida no sol. O eclipse para ela é poesia.
Para mim, é o encontro de uma vida inteira. A lua vai parir mil estrelas dentro de mim. Engravidei de amor.
Sol virou quase meia lua. Ela me cobre de flores.
Sobe 6 andares para abraçar o céu.
Me beija como quem reza.
Me toca como se eu fosse sagrada.
Me possui como se eu fosse profana.
Gosta da fruta ali, onde eu escondo o sabor.
Promete voltar assim que o dia amanhecer.
Eu fico ali, deitada, com as flores no meu corpo, do jeito que ela deixou.
Não sei se já é amanhã.
Podia ser.
Desconfio que seja apenas um sonho. Mas, ainda tenho na boca o gosto dela.

Mariana Gouveia
*imagem: Ileana Dora

Vesti-me com a minha mais bela roupa

Vesti-me com a minha mais bela roupa*Imagem: Tumblr

Coloquei nas caixas de som uma música
Que não fosse triste demais
pra que pudéssemos dançar
Que não fosse ainda alegre demais
pra que pudesse convencê-la a ficar.
Abri cinco garrafas diferentes, a bebida que você mais gostar
Será a minha essa noite e todas as outras.
E te esperei.
Era um cenário próprio pra minha melhor exibição
E a plateia a quem tentava seduzir chamava-se solidão.