Falta

falta
*imagem: Tumblr

quase morro (e não vejo tudo) tenho uma síncope uma febre delirante culpa dessa fome uma fome maior que a do jejum uma secura desértica que é sede de gente um oco buraco negro que ultrapassa a borda desse corpo o meu tão incompleto e aleijado sobra de vazios e partes faltantes (o corpo do outro) pra tapar o sol das minhas carências todas com uma peneira mais que furada.
Eu não me basto.

Ana Farrah Baunilha

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Selvagem

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Como um sopro eriçando os pelos
como o assanhar leve dos cabelos
e a saia que teima em subir
e o perfume que cheguei a sentir
Selvagem é o vento que te traz a mim

Selvagem é tudo que me liga a você
o vento que Van Gogh pintou
dos movimentos que ele expressou
dos ipês que ele não desenhou…
e a folha que o vento derrubou
selvagem é o me leva a teu amor…

Mariana Gouveia

337. dos verbos indefinidos

Tem a flor estampada no vestido,
dezembro e seus dias de chuva atrapalha a visão da super Lua.
A rua de cima tem uma canção no repeat.
Escrevo cartas pela metade. Folhas inteiras de frases inacabadas. A sensação de falta de ar no limite. O vento arrisca pela cortina e a solidão é esse emaranhado de ciclos repetitivos.
A rua de cima tem dias de vazios nas árvores – cabia a brancura em qualquer canto – e as nuvens em espiral causando a plenitude do céu.
Era uma vez, assim, a vontade de ser. Tem dia em que as histórias ficam sem o final.

 

Mariana Gouveia
337. dos verbos indefinidos

A flor de carne

A flor de carne

Perguntas-me,
se é por ti
que me ergo das cinzas
e eu respondo:
não é sobre o teu corpo
que me desfaço
em suor,
pelos poros da tua pele
que escoo
e nas tuas veias
que me dissolvo?

Perguntas-me,
se é em ti que eu habito
e eu respondo:
não é pela tua boca
que respiro,
pelos teus olhos
que me vejo
e pelas tuas mãos
que me toco?

Perguntas-me,
o que tive de perder,
quando escolhi envelhecer
contigo.
E eu respondo:
o ciúme dos que procuram,
a união
dos espíritos e dos corpos.

Não és senão o ponto
e a ponte,
de partida e de chegada.

João Veríssimo
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2. dos Rituais do orvalho

Havia acostumado molhar os pés com o orvalho das plantas… capim rasteiro que grudava na pele… relva que curava qualquer dor.

Quando podia, bebia na própria flor… Tinha essa mania de seiva.

Alguns diziam que era para se impregnar de perfume…

Apenas ela sabia que era para se manter viva.
Mariana Gouveia