243. das impressões do dia seguinte


Quando abri a janela, ouvi poemas nos teus olhos… Era quase além da maresia, enquanto o dia trazia rumores estranhos para a alma.
Eu também queria… queria essa estrada e logo atrás da curva teu riso de toda manhã desenhando meu banho. Queria essa umidade toda retratada em versos das lembranças que guarda em tua memória. – enquanto você responde alguém que o caminho é o coração. Sou quase essa inundação de oceano. Sou marítima de ave que você vê e nega pouso.
Tem dias que tenho mil perguntas que você não respondeu nas minhas noites. Tenho regras que você cumpriu, enquanto o que me movia era as regras quebradas.

Tenho lanternas chinesas a iluminar um quintal que antecipa a estação. Tenho essa vontade estampada na ponta do dedo e fico doida em noite sem lua.
Os corredores tem a dimensão de infinito quando você tem o veredito final.
Ditam que em um ano você já não será, enquanto em um dia tudo muda. Você ri, esbraveja, chora e mais uma vez usa o corretor para mudar a palavra no ” eu te amo” e o infinito se perde dentro dos séculos quando você em silêncio, apenas murmura o nome. Do amor.
Mariana Gouveia
243. das impressões do dia seguinte
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242. das impressōes do dia seguinte

A saudade aconteceu nos murais. O moço de ontem da aldeia falou da vontade de chuva do sabiá.

O calor acontece no meu lugar. Ultrapassa o máximo que o relógio consegue marcar.

O cerrado arde, queima e a ave pede em canto alívio de sol.

De novo, encontro a janela fechada e mais uma vez te avisto no poema triste do vazio.

Cabe ausência em cada lugar.

A soludão, às vezes, é esse desafio de voo solo.

Mariana Gouveia

242. das impressões do dia seguinte

241. das impressões do dia seguinte

241. das impressões do dia seguinte

Tenho uma solidão para esse nome das coisas. Virei perfume dentro das suas palavras.
Vi uma moça da aldeia com borboletas no corpo. Era feito de sol essa saudade. O jardim endoidou de vez quando percebi o vazio por detrás da janela.

O calor assolou de vez o cerrado e a meteorologia coloca vermelho puro no mapa daqui. O lugar de mim esvazia o peito e estende a mão…

Não sou mais além de sombra onde a asa não me abriga.
Escrevo cartas antecipando primaveras… a impressão do dia seguinte é quase logo ali, no outro mês, já repetidos os dias exaustivamente no sistema.

O desejo tão líquido quanto a sede – falta água – e a fome de tocar sua mão, tão marítima dentro desse oceano seco de rio.

A ventania consome essa vontade de pouso, onde meu quintal respira maresia nos cantos do muro.

 

Mariana Gouveia
241. das impressões do dia seguinte

 

240. das impressões do dia seguinte

Habito nas estátuas de bronze onde estuda a arte.
Voo plano, quase cego – pouso certo – aconchego desse amor além das asas.

O céu – azul – cabe na tua cor de vestir.

Em fase de sol, a ave e seu instinto de liberdade
E assim, nas asas, voo-te.

Mariana Gouveia
240. Das impressões do dia seguinte

239. das impressões do dia seguinte


Havia aquele ensaio de jeito de asa. A mãe espreita e voa para o primeiro passo.
Sou apenas coadjuvante da história. Registro o medo no olho. Os filhos, são assim, no improviso do querer, do não querer. Talvez, a vontade seja apenas esse não arriscar fora da segurança.
Vigio os instantes do dia entre o dia que aqueceu mais do que o normal aqui. Consigo presenciar momentos que a vida me dá. Oferta simples de quem colhe o que planta. Nasceu aqui, no meu quintal,  vidas.
E vendo a mãe a voar espaços mais longos, durante o dia… e voltar para que o pequeno pássaro tentasse e fosse tão mais longe do que ela – apesar do medo – e ele conseguir até o telhado da vizinha é algo que a memória me presenteia com recordações.
Um voa, além do muro… O outro, arrisca-se e volta.
depois de um tempo – quase nada – e  de algumas tentativas resta apenas o ninho vazio e a liberdade de poder sentir a asa flutuar. O futuro é além da cerca e do muro, mas a segurança, está ali, no meu pé de algodão, do meu quintal.

 

Mariana Gouveia
239. das impressões do dia seguinte

238. das impressões do dia seguinte

Encontrei um ninho no meu quintal e a vida ali, sabia voar. Primeiro chorei pela benção, pela graça da vida gerada diante dos meus olhos e quis desenhar o ninho e seus gravetos.
Depois, registrei para o álbum das emoções e desejei escrever a carta para contar a história.
O pé de algodão virou maternidade e tenho a vista aérea da varanda.
Meu medo dos incidentes com os cães e virei vigia de ninho de ave. A delicadeza acontece nos momentos estranhos.
O amor nasce entre as flores e os chumaços do algodão. A vida tem a leveza do ninho branco junto da folha seca e das folhas verdes.
Descobri o sentido da árvore ali, a derramar folhas inventando estações e o chiado de dois bebês passarinhos que resolveram nascer ali, no quintal onde o rio faz curva no mar na esquina do muro.

Mariana Gouveia
238. das impressões do dia seguinte

237. das impressões do dia seguinte

237. das impressões do dia seguinte.JPG

Perco-me dentro de você através dos séculos. Falta- me essa presença oscilante entre a solidão e o tato.
Devia te contar que hoje chorei e que chamei seu nome infinitas vezes.
Conheci um menino que trazia uma flor no cabelo – riu do meu, tão curto, em piada para os amigos – e a menina que ria com ele percebeu que ele tinha primavera no olhar.
Coube pétalas brancas na lição do dia. Descobri que não havia jeito de desabraçar um abraço dado. E que um estrangeiro pode ter sinal de partida logo na chegada.
Escrevi muitas histórias para te contar… Depois, desfiz cada uma e dividi em cartas que talvez você nunca vai ler.
70 páginas onde a lua apenas me avisa que a vida é feita de fases e que a solidão é vivida em noites de lua. Minguante.

Mariana Gouveia
237. das impressões do dia seguinte