Pego na tua mão…

JAPARIDZEMAIN MAIN*imagem: Nick Japaridze


e beijo-a. Pego na tua mão e danço.
Pego na tua mão e apresso o movimento da terra à volta de nós dois.
Pegar na tua mão é viver de novo a vida de uma forma inteira.
Inspiro-te. Respiro-te. O cansaço é doce, estupendo, para sempre.
À nossa volta tudo arde no fogo verde desta primavera, e a inquietação é um fruto excitante, por colher. Não pares.
Continua a dançar comigo. Como se fizéssemos amor.

.

Joaquim Pessoa

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Havia estrelas em seu olhar

Kiyo murakami (2)
*imagem: Kyio Murakami

Havia estrelas em seu olhar.
Olhava sob os olhos, não com humildade, mas com obstinação e a soberania dos anjos.
De queixo erguido, como quem discursa publicamente,
em seu quarto, sozinha, não avistava sequer o teto; via o universo.

Alexandre Pedro

Dissolução

Erika Craig

Guardo a palavra
no meu lado
Esquerdo
de dentro

Aguardo a palavra
riscada em minha pele,
– eu tento…

Transformo a palavra
nas metamorfoses prováveis
– Entretanto –

Me esvazio, lenta
E constantemente:
*
D
i
S
s
o
l
v
o
**

enquanto dorme no azul,
– a palavra -.
Eu
durmo.

 

Elke Lubitz
*Erika Craig

Leu algo aqui

Leu algo aqui


Leu algo aqui
sobre preferir os homens
que assentam tijolos
comprou logo um milheiro
e começou
a assentá-los
digo isso e
me engasgo toda
[ o cimento na garganta ]
_acho que tô precisando me casar
só pra ver qual é

Ana F
*imagem: Demetrius Borges Mauro Fotografias

Espectros

kiyo murakami 2

 

Até os
pássaros de dentro
Voam alto em
Fria atmosfera.
ramificam suas penas
não temem o frio
Eu ainda
me debato
Quando ato meus
medos
Plastifico
sentimentos
Meus pássaros de plástico
não morrem.

Elke Lubitz
*imagem: Kiyo Murakami

Carta à Marte aos cuidados de Vênus

Carta à Marte aos cuidados de Vênus*imagem: Brooke Shaden

Voltei ao seu quintal, e a sua presença é tão forte ali, que nem parece que se foi.
As flores continuam perfeitas e as árvores em sintonia cantam a canção do vento que você dançava.
Parecia que estava ali. Passei por entre os azuis das Hortênsia que você ganhou de alguém.
O pé de amora está no auge e na exuberância – palavra que você repetia para qualquer coisa fora do comum – das frutas. Até parece que sua risada está ali, e a essência da geleia que você fazia parece encher o ar.
Geléia de amora é para amar, Maryann! – você dizia!

Minha missão era esvaziar a casa de suas coisas, de você.
Mas vim embora com todas as lembranças. O diário que me continha em cada dia, a toalhinha de crochê que foi um presente há alguns anos atrás.
Conto um mês hoje, e logo serão dois, 11. Logo será ano e volto do seu lugar com a imagens das poesias escritas no seu quarto onde a vida flutuava em você.
Qual planeta você habita hoje?
Qual emoção te move nesse plano além do olhos?
– Marte é logo ali, Maryann! Basta bater no calcanhar três vezes e dar um pulinho que você já embarca.
Acho que perdi o jeito! Vejo Vênus, Órion, vejo todas as estrelas. Não vejo Marte.
Marte, hoje mora dentro de mim.

Mariana Gouveia.