321. das fragilidades secretas

Era moça de peixe – de tanto rio –  o pai ria quando dizia que para peixe faltava apenas a nadadeira.
Cabia nos braços abertos todos os pássaros do lugar… Era menina de árvore – o pai dizia – e ria quando dizia que queria voar.
Era mulher de vento, de tanto tempo que queria partir.
O pai chorou quando a estrada a levou rumo ao desconhecido.
Era brilhante a gota no campo aonde corria, riso largos – os passos – quase voo – e a vida, mundo névoa, gota de chuva – orvalho – e o olho vigilante de pai.
No princípio, era quase o mar – era de peixe – de tanto rio – gota cristalina de mar.
Olho areia, vento na palma da mão. Conselho de vida, nas cartas do tarô – roubado – o andarilho envolto em versos e na leveza da vida a última visão tem nítida nos olhos a liberdade.

Mariana Gouveia
321. das fragilidades secretas
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320. das fragilidades secretas

Quando choveu revirou cada canto da casa. As gotas na chuva lembrou as goteiras da infância.
O cansaço abre a porta, faz o chá… verte líquidos. Na mesa da sala, os discos…
Os vinis antigos esparramados entre os poemas antigos, as cartas de tarô.

Tudo antecede a sorte e a vontade da escolha.
O caminho é  logo ali, quando escurece, no canto do muro.
O café frio na xícara e as cartas que nunca enviei.
O aroma de bolo vem da casa vizinha – o vento atravessa as cortinas lilases – e traz de novo as lembranças da infância. O riso das histórias contadas, as frases dos livros lidos e o pai a dizer que tudo é poema em uma noite em que as gotas molham as flores e os azuis que enganam os olhos de amor.

Mariana Gouveia
320. das fragilidades secretas

317. das fragilidades secretas

A candura me foi retirada aos poucos – quase gole – sorvi o riso da criança

e os ecos da noite se fundiram nas nuvens.
Debaixo da pele, o desencanto.
As paredes descascadas da infância e a vontade de ser sol, onde a chuva caía.
Me construo rente as redes. O abismo é tão perto fora das vontades.
Os invisíveis moram nas sombras e o tempo é esse retrato na parede nos vãos do nada.
A treva é logo além do muro e as estrelas fogem em noite sem lua.
As fragilidades secretas escondem nos códigos de seu nome escrito nas vozes de quem canta o amor nas madrugadas serenas e não sei falar de amor além dos poemas.
Não sei cavar jardins quando a chuva molha a rua. É impermeável esse estado de amar.

Mariana Gouveia
317. das fragilidades secretas

307. das fragilidades secretas

Pinto o horizonte de dourado no seu destino… a noite e a imensidão das rotinas das horas.
Vi a esperança vestindo colorido pelos olhos de uma poetisa. O quintal desenha vento nas plantas que restaram depois da chuva…

A natureza detalhada em gotas na transparência da alma depois de molhar o jardim.
O horizonte era opaco ainda agora enquanto a lua é esse desaforo na janela lateral de qualquer lugar.
As pétalas das flores sendo pouso para o agora. Para além dos céus e o mar era espera. Dentro da gota era mar, o ritual do pouso. A vida tem esses instantes delicados.
Os meridianos acusando saudade indecifrável do que não vivemos.
A noite tem a esperança da vontade, tatuada sobre a pele – flor – que nunca foi tocada, mas que a mão conhece cada linha, cada pinta e que pelo silêncio, a vida se torna esse respirar de amor.

Mariana Gouveia
307. das fragilidades secretas

298. das infnitudes

 


No dia de ontem não houve amanhã. A vida é esse vai e vem desencontrado nas notícias.
Choveu numa tarde que pareceu noite.
Era o vácuo dentro da verdade das coisas.

Morri nas densidades dos azuis – de um céu que escurece e enfurece diante dos cometas – a chuva e seus avanços no quintal.

No equinócio de primavera, fora das folhinhas e eu sei o que sinto.

Lá fora, o som dos pássaros e o vento forte.
A sintonia é a canção para as gotas da flor.

 

Mariana Gouveia
298. das infnitudes

295. das infinitudes

 

Nascia uma árvore no quintal.
Abracei o vento como quem dança valsa na vida. Os pés alados atravessam o oceano a nado.
O corpo, essa sede de toque quase suplica para o desejo. Apenas o resquício de uma vontade que já foi.
Pedindo voz para dentro do beijo.
Alguém me disse que o amor nascia hoje, pelo riso dado e as declarações feitas.
Lembrei-me da diferença da estação. A meteorologia e sua fúria em errar as previsões. As palavras do dia – lá, naquele passado estranho – revividas em contagem regressiva para desejar o amor.
e tua voz há de ecoar eu te amo como quem sonha e minha delicadeza comerá ternura dentro dessas palavras;
Nascia a sorte nas cartas lidas, nos símbolos onde o coração foi rabiscado nas paredes tortas, nos trevos de três folhas mesmo com uma joaninha a dançar na folha.
Quando os poros irreconciliáveis com a pele que implora toque no braço que se abraça e a distância dita – quase nenhuma – entre o som do riso e a voz.

Dentro da curva da noite, a chuva – na gota – coincidência do nada entre o nascer do amor aconteceu o mar.
 
Mariana Gouveia
295. das infinitudes

244. Entre uma estação e a primavera

244. são os dedos que tocam as flores.jpg

A estação errada surgiu dentro de outra estação. A paixão que nasceu em séculos atrás ecoa no quintal onde a vida escolhe a cor. Li sobre os búzios que cintilavam há um ano atrás. A canção sertaneja repete em algum lugar. Visito suas coisas no baú. As recordações bate recorde de fugas – o nome ecoa – em um azuis desbotados de presença.
Alguém anuncia um mês – o das flores – enquanto que para mim os dias emendam um no outro nessa busca. A espera é essa fragrância de flores secas ainda no pé.
A lua hoje não está para peixes e os búzios trazem o barulho do mar para a margem do rio que seca. Flores desenham caminhos que levam para o nada. Depois do jardim molhado, a noite rescende essência de amor.
O vento vindo do sul traz a maresia feita à mão… essa mesma mão que afaga o corpo como se fosse pétalas de flor e desenha no ar seu rosto, visto através do vidro fosco de algum museu.

A saudade é esse quadro fora da exposição.

Mariana Gouveia
244. São os dedos que tocam as flores