Ouvidos silentes…

 

Não impossibilitam
Sinfonias sempiternas.
Música é sentir
E eu sinto muito!
Há sempre um concerto em andamento
Na pele,
Na memória,
Na alma
No coração…
Eliane Morgado
*imagem:Cler Raichuk

 

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Assume o amor como um ofício

Assume o amor como um ofício

onde tens que te esmerar,

repete-o até à perfeição, repete-o quantas vezes for preciso até tarde, deixa-o ser a asa da imaginação, a casa da concórdia,

só nunca deixes que sobre para não ser memória.

Eduardo Costley-White

338. dos verbos indefinidos

Colhe – se o verbo do dia na sintonia da chuva. Tudo era a umidade do tempo nas folhas do quintal.
O oceano era a gota na colheita. A vida tem esses improvisos de sorte.

Habituada ao silêncio…

(Sobre a ternura, todo rio é feixe)
Todo verbo, indefinido na alma.

A memória é esse vento oco sacudindo as cortinas.
A primavera quase se despedindo dentro da estação.

Nas previsões das cartas, o louco foge da liquidez das horas.
Na véspera das águas o rumor é de trigos. A vontade catando minutos entre o sentido contrário. Os corredores com baldes amparando goteiras.

A roupa molhada esquecida no varal e o canto da chuva causando essa falta de lucidez no peito.
O caminho é a espessura da alma perto da boca.

Mariana Gouveia
338. dos verbos indefinidos

321. das fragilidades secretas

Era moça de peixe – de tanto rio –  o pai ria quando dizia que para peixe faltava apenas a nadadeira.
Cabia nos braços abertos todos os pássaros do lugar… Era menina de árvore – o pai dizia – e ria quando dizia que queria voar.
Era mulher de vento, de tanto tempo que queria partir.
O pai chorou quando a estrada a levou rumo ao desconhecido.
Era brilhante a gota no campo aonde corria, riso largos – os passos – quase voo – e a vida, mundo névoa, gota de chuva – orvalho – e o olho vigilante de pai.
No princípio, era quase o mar – era de peixe – de tanto rio – gota cristalina de mar.
Olho areia, vento na palma da mão. Conselho de vida, nas cartas do tarô – roubado – o andarilho envolto em versos e na leveza da vida a última visão tem nítida nos olhos a liberdade.

Mariana Gouveia
321. das fragilidades secretas

320. das fragilidades secretas

Quando choveu revirou cada canto da casa. As gotas na chuva lembrou as goteiras da infância.
O cansaço abre a porta, faz o chá… verte líquidos. Na mesa da sala, os discos…
Os vinis antigos esparramados entre os poemas antigos, as cartas de tarô.

Tudo antecede a sorte e a vontade da escolha.
O caminho é  logo ali, quando escurece, no canto do muro.
O café frio na xícara e as cartas que nunca enviei.
O aroma de bolo vem da casa vizinha – o vento atravessa as cortinas lilases – e traz de novo as lembranças da infância. O riso das histórias contadas, as frases dos livros lidos e o pai a dizer que tudo é poema em uma noite em que as gotas molham as flores e os azuis que enganam os olhos de amor.

Mariana Gouveia
320. das fragilidades secretas

317. das fragilidades secretas

A candura me foi retirada aos poucos – quase gole – sorvi o riso da criança

e os ecos da noite se fundiram nas nuvens.
Debaixo da pele, o desencanto.
As paredes descascadas da infância e a vontade de ser sol, onde a chuva caía.
Me construo rente as redes. O abismo é tão perto fora das vontades.
Os invisíveis moram nas sombras e o tempo é esse retrato na parede nos vãos do nada.
A treva é logo além do muro e as estrelas fogem em noite sem lua.
As fragilidades secretas escondem nos códigos de seu nome escrito nas vozes de quem canta o amor nas madrugadas serenas e não sei falar de amor além dos poemas.
Não sei cavar jardins quando a chuva molha a rua. É impermeável esse estado de amar.

Mariana Gouveia
317. das fragilidades secretas