Carta à primavera aos cuidados de minha mãe

 

Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.
LeonTolstói

 

 

Ah, mãe… a vida é engraçada e muitas vezes, pintada ao avesso… São 36 anos sem você e parece que foi ontem. Olhando da janela para trás, ainda era dia e o rádio ligado na radionovela e você, muitas vezes, torcia para os vilões.

–  Os mocinhos são previsíveis – você diria – e são tão comuns que me faz preferir sempre o inusitado.

E com isso, você mudava o dia com suas pinturas e seus bordados. Sua habilidade em costurar retalhos e atravessar a visão de seus filhos e transformar o destino de cada um com sua sabedoria.

As cartas, mãe… ah, essas cartas que atravessam o universo todo foram ensinadas por você.  Os destinatários não interessam… o que importa é que você escreva e leve sua palavra onde o vento alcança.

Muitas vezes, a palavra é feita sozinha. O papel manteiga dos riscos dos bordados, esse da foto, feito por você, já mostrava a singela das asas que rodeiam minha vida.

Os galhos colhidos com suas cores diversas, para que a linha ganhasse a tintura que você queria. O som da roca a desfiar o algodão e dali, se formar o fio. Eu ficava horas a te espiar diante do papel e lápis para  então o desenho ganhar vida e diante de meus olhos a magia acontecer em um pano comum e eis a arte.

Os filtros do vento invadindo o silêncio em sintonia com as folhas das árvores.

Devo dizer que a saudade me abraça e que hoje te chamei muitas vezes? Estou aqui como mãe, a rezar para que a vida faça de meu filho coluna forte da descendência herdada de você. Dá para você soprar e vir aquele instante de magia em que você conseguia sarar a dor com um sopro? Ou beijo?

Me ensina a fazer assim com ele, mãe e que eu seja nas lembranças dele tudo aquilo que você é para mim:
Leveza, sem negar a força. Coragem sem perder o medo e principalmente colo sem esquecer o amor.

Mariana Gouveia

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177. da geografia das coisas

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Contava nos gesto o corpo partido. Os riscos da mãe, ali no papel… medidas em centímetros a saudade. Era coisa para ser dita a olho nu.
O pássaro sem asa, a linha ainda a costurar. A fruta no cesto – e o pomar – além da janela a exalar o cheiro real das coisas.
O conto de fadas em papel e palavras.
A irmã, ali, a imitar o mesmo gesto das tesouras e linhas. Artesã de alma e coração.
O mesmo ritmo a encontrar a paz na arte.
A letra da mãe ainda a marcar as cores fazia com que os instantes fossem relembrados entre risos e histórias.
Alguém lembrou do sabor do bolo feito com a massa de mandioca e com isso desenrolou casos vividos na época – como se isso puxasse um fio – e mais histórias surgiam na fala delas – e era possível viver a saudade no gesto.

Mariana Gouveia
177. da geografia das coisas

97. dos dias aleatórios de Abril

Ficava horas olhando os vestidos na vitrine da loja da rua do Meio. Alguns, lembravam a infância para além das costuras que a mãe fazia. Passava horas a espiar a mãe e a irmã a rabiscar os moldes, os cortes e por fim, o bordado.
Apaixonou-se pelo bordado livre e desenhou na mente as flores e as cores todas.
Carregou os sonhos através dos anos e foi aprimorando a arte das agulhas. 
Não costurava, mas fazia o acabamento e os bordados com dedicação.
Às vezes, desejava entrar, tocar cada um bordados depois de prontos. 
Reconhecia os pontos feito à noite, entre o sono e a insônia. A flor que madrugava dentro das mãos, nas saias rodadas que o manequim vestia. As borboletas quase saiam voando fora do tecido, a espalhar asas no rodado da saia e quando vez ou outra cruzava com alguém que trazia o vento na saia e as borboletas voavam em volta, ela sorrindo dizia: eu que fiz!

Mariana Gouveia

97. dos dias aleatórios de Abril

85. da estação das águas

85. da estação das águas

Estou nos dias antigos dentro de minhas histórias. Minha mãe a desenhar riscos para um novo bordado, escolher as linhas, tesoura, obra de arte a caminho; meu pai a espanar o chapéu panamá – uma das suas paixões – os irmãos a tentar um ganhar do outro a bola de gude enquanto uma das irmãs cuida pela milésima vez do cabelo em frente ao espelho, mesmo com orientações da mãe sobre os raios.

Na época, eu não percebia que isso viraria um quadro para minhas memórias e nem que a imagem ficaria dentro de mim com sons, cores e saudade. O cheiro da terra molhada a invadir os aposentos. O tempo da chuva passando e as flores de preparando para abrirem dentro de uma nova estação… as gotas a beijar as que já se abriram e o vento que entra pela porta era poesia na alma.

Hoje, dentro dos dias antigos a história se repete e as lembranças ganham vontade de ouvir a voz da mãe a chamar os meninos que se perdem na varanda atrás da bola de gude e as linhas nas mãos a bordar os sonhos.

Mariana Gouveia
85. da estação das águas