tinha o sonho de ser grande…

tinha o sonho de ser grande
e chegar rápido ao alto das prateleiras onde estavam os segredos guardados.
ter o nariz arrebitado da menina sardenta que cabia na janela mágica de onde não lhe conhecia portas.
e saltava o tempo todo, na inocência de se pendurar num guindaste invisível onde os adultos se prendiam, e esticados, viam para lá dos seus horizontes, de curta distância, do alto dos seus arrebitados narizes.
até aqueles que agarravam nas suas borrachas e apagavam aquelas sardas que os faziam parecer mais felizes.
os grandes gostavam de parecer sérios.
ela só gostava de parecer grande e por isso saltava o tempo todo como se em vez de pés lhe tivessem crescido molas. agora, acha que são asas.
fugiu-lhe depressa esse tempo e há demais para ver.

Rosa Maria Ribeiro
*fotografia: Kylli Sparrek

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eu sempre achei que os peixes voavam…

com pequenas asas em céus invertidos.
companheiros das estrelas que também quiseram morar do outro lado da vida.
que em troca do brilho sonham viagens.

Rosa Maria Ribeiro
*fotografia: Anka Zhuravleva

 
 
Rosa Maria Ribeiro

Alada*

Modesto Roldan (2)

um pássaro

bate asas no meu
peito
a pedir paisagens no parapeito
da tua
boca.

faz,
(de brilho suspenso
nos olhos,)
com as palavras,
fio onde baloiça penas
antigas

a pedir carícias desses
dedos
que desenrolam novelos.

és a ponta onde me encontro.
e o laço com que me enfeito.

Rosa Maria Ribeiro

* imagem: Modesto Roldan

 

nunca te sei a cor da roupa.

Rafal Oblinski*imagem: Rafal Olbinski

nem sei se te enfeitam os colares. pouco me importa a altura da saia ou até mesmo se o decote dessa blusa se abre um pouco mais aos olhos de quem passa. é o teu corpo que abraço, mesmo longe, mesmo cego. esse que sei na memória dos dedos e dos cheiros. nada mais trago ao encontro do meu peito mesmo que o frio seja a taça que se erga na mesa em que te deito e me aconchego.
conheço-te os degradés na planície do teu corpo. as faces rosadas e a lividez. o espanto e o riso. os sinais, em todos os lugares. as datas de todas as rugas. que vejo desenhar.e percorro com os dedos os rios que nascem na tua pele, devagar. até ao fundo do mar. onde nos deixamos afundar. contei até 551 os teus cabelos de prata. e desisti. conto os pretos à espera de os ver partir.
gosto tanto do que sei de ti. para que hei-de saber dessas coisas que só os outros julgam saber na aparência de te olhar?

Rosa Maria Ribeiro

era ainda muito cedo.

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um tempo de estrelas no véu
do meu colo.

não escorriam orvalhos pela face
das manhãs
adormecidas. as horas,
caladas,
encostavam-se.

eram estranhas as luzes
em teus
olhos
no caminho dos teus
dedos.

desabotoavas-me.

rosa maria ribeiro

*imagem: Google

Ser

é feminina a felicidade

Ser

lamber-te a inquieta pele e apagar
o lume
que no peito explode.
nas manhãs onde
me debruço no espelho dos teus olhos
e as tuas mãos fazem
das minhas
a vontade desamordaçada.

fazer dos lábios, a voz com que te mordo
a carne
e te tatuo com o que sou em ti.
colher-te o grito no meu
embalo,
de mãos crispadas na urgência

de ser.

Rosa Maria Ribeiro

As esperas

As esperas

as esperas são tapetes estendidos.
há quem os prefira lisos e lhes desenhe nos entretempos os bordados que os sonhos tecem com as linhas invisíveis dos dias.
outros, escolhem-nos onde a vista se canse e o corpo se ausente.
em vez de esperar, viajam.
e quando a espera acaba, os que desenham, bordam a duas mãos um tapete onde o amanhã se passeia.
os outros, serão condutores embriagados pelo medo de ficar.
e partem cheios de futuros vazios.

Rosa Maria Ribeiro
*fotografia: Oleg Oprisco