foi quando lhe disse amo-te

que despido da mais intima palavra se ocultou.
Era ainda cedo para tanta nudez.
e tremiam-lhe medos de se mostrar.
Ainda.

Rosa Maria Ribeiro

um dia acordarei o sol.

 que te podia eu dizer, depois de todas
as luas,
deitadas num céu perdido
entre as palavras enredadas
em conversas sem sono,
na luz da manhã
estremunhada, quando o teu cheiro
me desperta os dias
que deixei adormecer?

vivo neste interregno, em que me
visito, porta adentro,
pelos meus próprios passos.
e onde minhas mãos,
ocupadas,
tacteiam as luzes
por acender.

um dia acordarei o sol.

rosa maria ribeiro
*imagem: Google

Teu corpo no meu, dança risos inteiros

no trago do espaço que em mim
abraço
engulo-te aroma,
sabor que és
assim.

e tenho-te inteira

no avesso
do espelho, claro,
do que sou
em ti.

teu corpo
no meu, dança risos
inteiros

sem ti ficariam
presos em lábios
alheios

de nós.

(abraço teus lábios.
meu beijo
tem sedes
de ti.)

rosa maria ribeiro
* Imagem: Laura Makabresku

tinha o sonho de ser grande…

tinha o sonho de ser grande

e chegar rápido ao alto das prateleiras onde estavam os segredos guardados.

ter o nariz arrebitado da menina sardenta que cabia na janela mágica de onde não lhe conhecia portas.
e saltava o tempo todo, na inocência de se pendurar num guindaste invisível onde os adultos se prendiam, e esticados, viam para lá dos seus horizontes, de curta distância, do alto dos seus arrebitados narizes.
até aqueles que agarravam nas suas borrachas e apagavam aquelas sardas que os faziam parecer mais felizes.
os grandes gostavam de parecer sérios.
ela só gostava de parecer grande e por isso saltava o tempo todo como se em vez de pés lhe tivessem crescido molas. agora, acha que são asas.
fugiu-lhe depressa esse tempo e há demais para ver.

Rosa Maria Ribeiro
*fotografia: Kylli Sparrek

Alada*

Modesto Roldan (2)

um pássaro

bate asas no meu
peito
a pedir paisagens no parapeito
da tua
boca.

faz,
(de brilho suspenso
nos olhos,)
com as palavras,
fio onde baloiça penas
antigas

a pedir carícias desses
dedos
que desenrolam novelos.

és a ponta onde me encontro.
e o laço com que me enfeito.

Rosa Maria Ribeiro

* imagem: Modesto Roldan