289. das infinitudes

 

Tinha medo da noite e era dia.

Vasculhava as paredes todas atrás de lembranças. Buscava as digitais dela nos objetos que ela tocou.

Na parede, do lado esquerdo da porta, as horas sem ela corriam ligeiras. Voavam feito aves no céu.

Em algum canto, rabiscou um coração com o nome dela e foi nesse momento que um arco-íris cruzou o céu de ponta a ponta.

Era quase imperceptível. Mas parecia ter zoom ao olhar para a parede do lado esquerdo da porta, quando via as horas a voar e o vento agitava a cortina.

De noite, parecia que as asas brilhavam e dançavam saudade olhando para ela.

Por isso, tinha medo da noite.

Era quando os fantasmas surgiam em forma de asas.

 

Mariana Gouveia
289. Das infinitudes

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288. das infinitudes

 

Talvez eu tenha essa fome de pássaros, de asas
a liberdade é essa flecha que atravessa a garganta,
rompe abismos e salta.
A fome é esse desejo imensurável de pegar em tua mão e voar – mas isso eu faço sempre quando fecho os olhos – e descobrir lugares onde poderia te amar.
As calçadas de Paris ou qualquer rua de Florence.
Na verdade, meu sonho é Provence e o sotaque lilás que amo.
Acho que o céu deve ser feito desses momentos que vem em sonhos…
as estradinhas de terra e a cor exalando poros na fragrância, mas alerto que deve ter pássaros e asas porque a vida com você é esse voo mesmo quando pouso.

Mariana Gouveia
288. das infinitudes

275. Das infinitudes

 

Morreu de improviso as árvores no quintal. O vento veio tão forte que retorceu os galhos, derrubou os ninhos e as sementes voaram se espalhando para além dos muros. Ainda de manhã, encontrei apenas as folhas já murchas no chão. Em cada canto do quintal um lamento de ave buscando amparo diante da tempestade.

Choveu e a água que caiu levou rua abaixo os ninhos desfeitos. O esboço de asas, o ritmo da brisa se misturaram ao eco que o vento fazia.  Algo irritara demais o poder que o vento vindo do sudoeste tem. Ficou violento e raivoso. Seu eco espalhou-se pelo bairro todo. Tornou-se penoso amanhecer e o pé de algodão que era sombra e abrigo, virou entulho no meio do quintal.
O meu bosque – árvore de nada nenhum – encerrado em ciclo imposto pela natureza.
Eu falo de fim enquanto a ave me lembra renascimento.
Mariana Gouveia
275. Das infinitudes

272. Entre uma estação e a primavera

 

A previsão se corrompeu com o tempo. Havia uma nuvem de poeira dentro do vento. Solitária, a ave que a trazia nas asas a lenda de agouro tinha o abismo do amanhã dentro dos olhos. Era a estação das flores misturadas dentro de outra estação.
relembrou histórias da infância. Viajou nos dias e suspirou.
Era criança e ouvia a mãe contar sobre os telegramas que chegavam, logo depois que avistavam a ave no toco, no tronco de madeira da porteira, no telhado…

Tudo era culpa da ave – coitada – que apenas cumpria seu destino de voar.
Acontecia de que, por acaso, o aparecimento da ave se dar por ocasião dessas notícias ruins que o carteiro trazia num envelope estranho, diferente dos normais.
A notícia da morte do avô veio em um desses que trazia códigos e letras e depois disso, a mãe viveu em luto por anos a fio. A perda do tio querido e o acidente que levara a vida de pessoas que ela nem conhecia – e a mãe amava –  e que por isso se trancou no quarto e começou a maldizer a ave, que estivera pela manhã por ali.
Para ela, a culpa era do carteiro que surgia na estradinha que fazia curva ao lado do rio, com sua farda amarela e azul. Pensou em escrever uma carta pedindo para que ele não trouxesse mais esses envelopes, fora das cartas que aguardava com a ansiedade de quem esperava uma vida.
Hoje, lembrou -se do agouro da ave, logo quando, por fim, o ônibus e sua curva lhe fez ver a ave posta, solitária. O olho atento ao que nem era exato. O sangue a fluir dentro da veia.
Relembrou as estações misturadas dentro do dia. A urbanidade dos pássaros que logo pela manhã cantam no telhado das casas vizinhas e nos envelopes dos telegramas que nunca mais viu. E no olhar da menina que a fixou com o olhar de espanto e a chamou de bruxa.
Mariana Gouveia
272. Entre uma estação e a primavera

265. Entre uma estação e a primavera

Não consegui desfazer nada daquelas lembranças, onde a madrugada era o pano de fundo para as loucuras de amor.

Do outro lado, as lembranças desfiadas uma a uma como contas jogadas ao mar.
Virei marítima dela. O mar esvaziando pela boca. Os poros abertos em ondas e a verdade ecoando no eu te amo. O céu, azulando em asa de voo, dentro da solidão.

A lua, atrevida com desafio as marés – é primavera aqui no meu quintal – e o outono desfolha a tua árvore de ave.

Fui migratória dentro de suas palavras e invadi seu estado de pensar.

Do mar, na boca eu bebo a lucidez de uma estação junto do peito.
É tempo de lavar as memórias no meu rio enquanto o homem da esquina invade o mar do meu quintal. O jardim canta a sinfonia das conchas e búzios que leem minha sorte aqui e isso me leva para junto dela.

Tenho a sensação de que o mar é esse estado de primavera onde eu sou mais de lá do que daqui.

A vida é esse estado de graça diante do desejo das coisas que não aconteceram.

Quem sabe, na estação seguinte…naquele instante fico coberta de flor e começo a fundir-me com a alma dela.

 

 

Mariana Gouveia
265. Entre uma estação e a primavera

253. Entre uma estação e a primavera

Dos seus pássaros que voaram,  ficou aquele na mão, preso – a gaiola dependurada no peito – sem jeito de asa ou ninho.
Contei nos dedos os séculos sem você e o relógio na parede, vazio de horas e em silêncio lembrou-me da vitrola quebrada sem os vinis.
A dispensa abarrotada de lembranças e o céu rendado de tela não me permitiu te oferecer asas. Não posso ver daqui, pela janela fechada a alegria nos teus olhos pelo voo dos teus pássaros.

… que marítimos não atravessam para meu rio.
… que brigam com os meus
… que migratórios não atravessam o oceano.
… que os meus voam rasantes com medo do voo perto desse abismo.
… que é essa solidão.
… que moram na árvore morta onde não podem fazer ninhos nem migrar para te oferecerem asas.
… que descobrem que a estação muda de acordo com o destino do quintal.
… que não alcança a maresia que alimenta o jardim.
Mariana Gouveia
253. Entre uma estação e a primavera

242. das impressōes do dia seguinte

A saudade aconteceu nos murais. O moço de ontem da aldeia falou da vontade de chuva do sabiá.

O calor acontece no meu lugar. Ultrapassa o máximo que o relógio consegue marcar.

O cerrado arde, queima e a ave pede em canto alívio de sol.

De novo, encontro a janela fechada e mais uma vez te avisto no poema triste do vazio.

Cabe ausência em cada lugar.

A soludão, às vezes, é esse desafio de voo solo.

Mariana Gouveia

242. das impressões do dia seguinte