Amor:

amor

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ser ave no ninho do abraço

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Marcelo Soriano
*imagem: Laura Makabresku

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6 on 6 – J.u.n.h.o

 

Ah, junho! Desde pequena aprendi a viver seus sabores,

Suas cores e seus dias…
Logo no primeiro dia do mês, a vida do pai sendo reverenciada e o amor ali, renascendo nos dias que se seguem. Tudo é jeito de mãe a fazer gostosuras com o milho.

O frio, no aquecer improvisado  nos casacos desbotados e as festas de seus santos revivendo tradições… é como se repetisse em mim, nas memórias as bandeirinhas e os balões a dançarem com a lua… As festas onde os primos se encontravam para as lembranças todas.

As lanternas chinesas trazendo cheiros nos quintais, lembrando o santo casamenteiro, as simpatias e a fogueira acalentando nossos corações.

 

É logo ali, seus dias passam rapidor e o sol a aquecer as manhãs frias enquanto no cerrado, os ipês recriam mais um ciclo da natureza.

E na devoção do pai, a reza,
e a ave em comunhão com o tempo.
Junho é esse desaviso na folhinha quando o calendário marca a lógica de amar.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural

Participam desse Projeto:

Lunna GuedesMaria Vitoria |Obdulio Nunes Ortega

– Às vezes, é preciso enfrentar o imaginário.

Às vezes, é preciso enfrentar o imaginário.
*imagem: Omerika

Ela senta. Anota.
– Sugiro que fale mais sobre isso.
Disparo a falar sobre possibilidades de espera.
O mundo é um lugar comum. Dispensa atenuantes de comparação.

O sonho de conquistar o mundo cabe em um abraço.
Meninos espreitam a solidão, enquanto espanto pássaros no jardim.
Levo eles para o céu. É a estação que sopra em direção do voo.
Coisa de menina dentro da estação..
Despeço do homem na porta da esquina.
Lembro do corpo dela dentro de mim.

Lembro dela dentro de mim.
Eu. Dentro dela.
A pele com cheiro da maresia. Ela todo mar. Direção da minha nau. Ela, meu porto.

Divago sobre vento. Falo da alusão ao que minha mãe dizia:
– Vento é o Espírito Santo. Assovie e ele virá.
Faço isso só pra demonstrar. Uma brisa suave mexe o cabelo dela. Anota.
Imagino roubar as anotações dela.
Ela me pergunta sobre o que penso do imaginário – suspiro –
– voos…
Pássaros?
– Asas. Liberdade. O voo não é solúvel no ar.
De toda queda. Só às vezes, eu quero o chão. Há dez maneiras do imaginário agir.

-Liberdade?
– De dançar, voar, pousar…
Empurra os pássaros com a mão.

Ela anota. Pega na minha mão. Olha na direção da janela.

– Me mostra.
E começa a falar de ninhos.

 

Mariana Gouveia

Às vezes, é preciso enfrentar a verdade.

Às vezes, é preciso enfrentar a verdade.
Aquela que dói no peito e bate na porta avisando: não tem jeito.

Eu anoto.
Não antecipei o contexto. Apenas repeti. E previ.
Era outono nas manhãs do nada. Um pássaro morre no meu quintal. Tento fazer a simpatia que minha mãe fazia quando eu era criança. Coloco o pescoço do pássaro em volta dele mesmo. Molho a cabeça dele e depois o coloco debaixo de um balde. Dou as três batidas e mais três. Já não tem vida ali.
Já não há voos na minha manhã sombria. Pensei que seria véspera de asas. Acabou.
– Tem dificuldades em lidar com o que acaba?
– Não! Sou áspera na palavra respirar. Acato. Aceito.Sou submissa na atenção dos dias. O fim é sempre uma porta para um novo começo.
– Mas?
– É a reconstrução de um tecido que já foi rasgado. Ditados populares de séculos – Não deite remendo novo em pano velho – e por aí, vai. Diante da verdade possível fica um vão de medo. Planejei o dia de hoje em uma conversa simples, limpa, feliz e pensei nisto com o coração, lembrei de todas as conversas que quis ter, cafés, sorvetes, sombras e varais repletos de palavras e libélulas penduradas na palavra acariciar.
– E não aconteceu?
– Não. Tive de lidar com a morte logo cedo.
Seria possível remendar sonhos?
Anoto eu mesma a minha resposta.
A verdade é que às vezes, é preciso enfrentar a verdade.
Há um pássaro vazio de voo na minha mão.
Hoje, ela não fala…

Mariana Gouveia – Divã

tinha o sonho de ser grande…

tinha o sonho de ser grande
e chegar rápido ao alto das prateleiras onde estavam os segredos guardados.
ter o nariz arrebitado da menina sardenta que cabia na janela mágica de onde não lhe conhecia portas.
e saltava o tempo todo, na inocência de se pendurar num guindaste invisível onde os adultos se prendiam, e esticados, viam para lá dos seus horizontes, de curta distância, do alto dos seus arrebitados narizes.
até aqueles que agarravam nas suas borrachas e apagavam aquelas sardas que os faziam parecer mais felizes.
os grandes gostavam de parecer sérios.
ela só gostava de parecer grande e por isso saltava o tempo todo como se em vez de pés lhe tivessem crescido molas. agora, acha que são asas.
fugiu-lhe depressa esse tempo e há demais para ver.

Rosa Maria Ribeiro
*fotografia: Kylli Sparrek