364. dos verbos indefinidos

364, dos verbos indefinidos.JPG
Pela manha trazia taciturna e fria as dores da noite.
Enquanto a máquina travava para fazer escoar o café na xícara. Acostumara dar uma batida para então o cheiro invadir os quintais.
O ninho vazio e as horas no breu enquanto o céu antecede os fogos.
O espelho quebrado dentro do quintal. A vontade explícita nos restos dos dias.

E se eu não fosse o pássaro de todo dia?
E asa desprovida de pena não permitisse o voo. Os quadros expostos no retrato antigo. Logo ali, já o novo. Ontem ainda tinha resquícios do século. A história contada em versos.
A memória na tatuagem riscada na pele. Tem dias em que o vento clareia a solidão entre os raios.
Mariana Gouveia
364. dos verbos indefinidos
Anúncios

363. dos verbos indefinidos

363. dos verbos indefinidos.JPG

Na distância cabe cartas, telefonemas,
mensagens de voz, cartões-postais,
lágrimas e sorrisos de saudade.
Na ausência, nada.
Talvez só palavras inacabadas
e um silêncio de doer ossos.
Às vezes, penso, que se eu fechar os olhos
o mundo cairá morto aos meus pés.
Tríccia Araújo

 

Bambina mia!

Fecharam a rua de cima. O relógio parou no tempo e foi outro dia a estação e seus diários. O ano lunar era outro dia e tanto e estou a desfiar o tempo para você.

Antes de ontem, antes de amanhã, antes de hoje, antes de mim… depois! E já é de novo outro fim de ano. O pássaro que beija a flor vem avisar que tudo que vivi é essa história que escrevo a cada dia. O varal estende os sonhos que vivi.

Vivi Avessos. O carnaval me desvirou em imagens e a pergunta que veio para além das palavras:
“o que se pretende com o lado de dentro?”
Sabe aquela pele que arrepia e que toca a alma?

Sabe aquele gesto que faz com que você pare, suspire e inspire?

Sabe qual é a maior pretensão do lado de dentro?
Emocionar  –  foi quando comecei a envermelhecer.
Me aventurei em missivas para além das palavras. Abri janelas e mergulhei em sete luas…
Detalhei como seria minha rotina e as vontades todas dentro dos trovões que agora gritam seu nome por aqui.
Lembranças me acompanharam em 6 por 6 e um coletivo me levou por lugares onde eu não alcançaria de outro jeito. Sou essa pluralidade toda de uma maneira tão singular e agradeci de forma doce esse Scenarium que abraça meus dias e me acompanha corredores afora.
No tempero da memória ganhei um baú onde sabores e cores adoçaram a pele e alma.

Vivi sua cidade por dias e respirei carinho em suas calçadas.

Me atrevi a escolher poeta de antes e de agora.
E como se o vinho fosse raro demais, bebi o Vermelho…  E como se a garrafa custasse tanto que se eu beber tudo de uma vez, depois morrerei de vontade de novo do vinho, fui aos poucos embriagando – me nas palavras.

Falei três vezes de solidão e desenhei as missivas de uma primavera quente.

Na bendita pressa dos ponteiros e já era outubro… os prazos em dias e a viagem que não acaba nunca: a que eu ainda não fiz… – e hoje, refaço aqui nesse tempo louco de ontem – onde o café exala seu cheiro no quintal, e o amor expresso ganhou ares de sabores aqui.
Depois, a moça dos detalhes intimistas me descreveu em asas e voei… enquanto um céu desfiava um sopro quieto nos rostos.
De repente o que faz pulsar o meu vermelho por dentro?
O cheiro do branco das folhas do caderno esperando serem preenchidas com palavras.
e o sonetos…
Já era feliz ano velho de novo.
Soube que existia um mar ali… é onde mergulho esperando os dias novos que virão.

E as promessas para um ano novo é o que se desenha agora na janela que dá para a rua de cima, que fecharam hoje, mas que deixaram a chave debaixo do tapete…

Feliz tudo, todos os dias!
Bacio

Mariana Gouveia
363. dos verbos indefinidos

 

328. das fragilidades secretas

Riu na sorte do dia. Era o ar líquido que trazia a maresia. Nenhum lugar cabe quando no peito o ar falta.
A casa é pequena e perdida para quem não conhece o espaço. Todo voo é cego quando a vida pousa na sorte.
No silêncio da noite as aves não voam. Os sons da casa era minha voz rasgando os estuques.
Os rumos das viagens em roteiros marítimos. Permaneço onde bate o vento. A simbologia da vida é o toque…

[ então, não vivo ]

às vezes, a solidão é esse latido estranho do cão no portão quando vê a ave que beija a flor no varal de roupas.
às vezes, o destino certo é o pouso…

mas, o que nos prende à terra é o medo de voar.

 

Mariana Gouveia
328. das fragilidades secretas

301. das infinitudes

Às vezes, acordava – ou amanhecia – com a impossibilidade do agora.
O verbo se perdia no tempo amar.  A previsão do tempo mudou -se na imprecisão.
Pensando no caminho encontrei a rua do meio. O vento, ali, batia na janela desenhada na parede amarela.

Uma criança nasce no improviso da dor.
A vontade de flor alimenta o jardim. Já brotam as folhinhas do algodão.
A febre atravessa a garganta rouca no grito. A ave de todo dia invade a sala e voa.
Mora no fio das roupas no varal e chove.
A mansidão das horas é esse inconstante ritmo do relógio da sala enquanto lá, fora a tempestade habita no quintal que anoitece – ou amanhece…
não sei.
Mariana Gouveia
301. das infinitudes

290. das infinitudes

Morreu uma estrela ontem. O dia começa com horário atrasado dentro do tempo. Era às vezes asas no quintal. Um menino que voa vem dar o bom dia e de noite quer colo de asa. A morte da estrela não afeta o voo da ave que beija e nem causa efeito no afeto que ele busca em minha mão.
Quando ele foge do vento no quintal e não encontra árvores no lugar – que o vento levou – cabe na mão dentro do abraço. O menino é um ser de asas em mim. O menino é um ser de voo na sala.
E quando um dia se torna intrigante, doído e fora da lógica ele é um sopro de amor mesmo com estrelas morrendo no céu.

Mariana Gouveia
290. das infinitudes

218. das impressões do dia seguinte

 

O dia amanhece no canto dele. Aviso de encantos no quintal. Floreia entre o varal e o bebedouro. Reconhece a voz, enquanto sou puro delírio nas palavras dela.
A voz, quase me leva a voar.
O céu desenhando rotinas de laranja anunciando o novo dia. O sol a espreitar vontade de lua.
Ela não vê as notícias do dia. Nem sabe sobre as ondas gravitacionais. Quebra as regras mais de uma vez. Rompe rotinas antigas só para falar que o dia é mais lindo dentro da palavra dela.
A vida tão intensa dentro do instante de agora.
E eu, quase perco a lucidez na fome de querer.

Mariana Gouveia
218. das impressões do dia seguinte