Carta ao Ano Novo


E aí está você! Logo atrás da cortina e daqui há algumas horas… voilá! Você chegará pelas portas, janelas e tomará conta dos próximos 365 dias!
Devo dizer que carrego a esperança nessa brisa que corre para além da rua de cima e assim como meu pé de ipé floriu e me deu a imagem cujo objetivo para o qual ele foi plantado, vejo as sementes germinarem.


O pé de tomate está cheiinho de flores e os frutos já são visíveis.

A vida floreia no meu quintal e logo ali, nos galhos mais acima do pé de algodão um ninho se fez e os tico-tico nasceram…

Já percebeu que a palavra nascer e seus derivados é repetitiva aqui? É que apesar das perdas, houve ganhos… Não que uma coisa reponha a outra, mas fica o exemplo de que tudo passa e a vida segue seu fluxo.


Portas Abertas – Codinome: Lucidez saiu do papel e ganhou os corações de leitores e colho o fruto do filho que nasceu pelas mãos de Lunna Guedes e a Scenarium Plural Editora. Minha poesia ganhando vida através de pessoas que me leem aqui e em outros lados meus. Não podia começar melhor um ano!


Então, que você seja bem vindo e que todos aqueles que por aqui passeiam recebam meu abraço carinhoso e meu toque de amor pela vida.

Feliz Ano Novo!

6 on 6 — minhas noites!

Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas.
Joakim Antonio

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Confesso que minhas noites são feitas de silêncios. Ou de monólogos intensos pelo quintal.
Quando o sol se prepara para a troca com a lua, minha cidade – que dia 8/04 completa 300 anos – se transforma em silhuetas através das janelas do ônibus.
Aspiro ali, o lugar de fé, também o prédio mais alto da cidade e a respiração acalenta nas sombras o que foi o dia.

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E dependendo da fase, lá vem ela dominar o decanato e ascendente. Cada tempo tem sua necessidade e ela em sua fase de cheia invoca os deuses e faz o cabelo engrossar e mais uma vez, nessas noites eu relembro as lições do pai.

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No meu quintal, nas minhas noites, às vezes, a lenda acontece na caixa velha de eternit e o eco se renova perto do pé de vento. Era ali que as histórias eram contadas e é ali que minhas noites são feitas de sopros. O calor, quase sempre, é asfixiante e bem embaixo do pé de ipê o cogumelo arrebenta e a frescura toma conta da alma. É onde aconteço dentro de minha história.

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Há noites em que ela surge em vírgula e me vejo lunar nas minhas noites. Chamo um nome, lembro do uivo, refaço rituais que aprendi quando criança e sou pura fascinação. O céu ganha minha atenção e conto histórias que nuca esqueci.

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Nas histórias, o que me envolve é a lua – e na ausência dela minhas noites ficam ocas, vazias – e o céu é meu templo. Realinho os mantras e faço orações para o universo em todas as fases de lua e de quebra, ainda ganho estrelas.

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E para finalizar, sou colo do pássaro de todo dia que em minhas noites é aconchego para além da alma. Ali, no varal, pouco antes de deitar ele vem em oferta de carinho e poesia.

Sou quase extensão de histórias que se aninham entre si e fazem de mim o que sou hoje: uma insone nas noites sem lua. E como diz um dos meus poetas queridos Joaquim Antônio: “Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas”.

 

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019 Participam também desse projeto: Lunna Guedes Obdúlio Ortega Maria Vitória

6 On 6 – Minhas manhãs

 

Nasço amanhã
ando onde há espaço;
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes


As minhas manhãs acontecem em frente a inquieta cortina lilás. Os dias nascem laranjas por aqui – com algumas raras exceções  – o barulho do rio atravessa a paisagem e o sol – companheiro diário – se acende. Era quase estender a mão e tocar o horizonte da infância e seus códigos indecifráveis. A rota do olho a buscar abrigo na paisagem. As memórias aquecidas no fogão a lenha e todas as outras manhãs ganhando sentido de uma.

 

As minhas manhãs são cheias de aromas. O capim dourado ainda orvalhado, o cheiro do café a atiçar memórias…
O perfume do sabonete logo após o banho… A pele a respirar poemas de saudades. Frases relembradas ao acaso. O cão da vizinha da frente que se chama Meia Noite a abanar o rabo enquanto levo as sacolas para o moço da reciclagem que – parece – vem na rua de cima.

 

 

Minhas manhãs tem as cores azuladas. O céu a desenhar mil corações e a palavra cantada na voz do homem da reciclagem entoando emoção. Os detalhes dos últimos dias como desabafo. A sorte que teve na semana passada quando encontrou a bolsa de alguém e conseguiu devolver. As histórias se tornando magia diante de meus olhos e o mundo sendo meu nas palavras do homem.

O quintal me acolhe com suas vidas minúsculas e expande na cena que me acompanhará o dia todo.
Os cães e suas alegrias em brincadeiras eternas. O som da casa vizinha a acordar.
Tudo torna especial minhas manhãs dentro das rotinas tortas. As plantas a receber a chuva que dou enquanto o regador cumpre sua função no jardim.
As aves diante de meus olhos e o pássaro de todo dia a costurar estrelas em minha alma. As mensagens de saudades escritas em um curto espaço de tempo…

O beija-flor a demarcar seu canto e o dia dentro de uma paz falsa a rabiscar saudades nas paredes das ruas. A rua de cima a me acolher ainda dentro das manhãs e os gestos de rotina da casa como continuidade das memórias.
O vasculhar das coisas a procurar os gestos seus em cada canto.
As palavras salivando nas asas do amor.

Como se no voar dentro do silêncio a manhã se fizesse voz e que por si só isso já fosse amor.
Enquanto isso, o relógio nas minhas manhãs tem a vibração do segundo.
É quase hora de ir viver o dia.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural 6 on 6 – Tema: Minhas manhãs

 

Também fazem parte desse Projeto:
Maria Vitória – estranhamente
https://aestranhamentee.wordpress.com/2018/02/06/projeto-fotografico-6-on-6-o-que-te-inspira/

Obdulio Nunes Ortega – blogue serial ser
Lunna Guedes – Catarina voltou a escrever

PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6 | O QUE TE INSPIRA?

 É dentro de ti que toda a música é ave.
Eugénio de Andrade

Ave.

A minha principal inspiração vem em primeiro lugar – e os que me acompanham sabem – de asas – das mais diversas significâncias – e de voo, de pouso e ave.
E a ave dona do meu carinho e pensamento se chama Chiquinho e é esse pequeno beija-flor – já com 6 anos, que vive aqui no meu quintal.
Nasceu dentro do meu xaxim de orquídea em uma noite chuvosa e livre, resolveu dividir seus voos entre meus varais, os quintais vizinhos e o ventilador de teto da sala.
A inspiração vem enquanto seus voos rasantes me abraçam.

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“Tenho o tempo das borboletas, uma semana é uma vida
(Graça Carpes)

Toque (borboleta).

 

Cada manhã habita -me a leveza do toque e isso me inspira enquanto o aroma das flores me abraçam. O silêncio traz o vento que pelas asas ecoam… a mão é o pouso de descanso e a poesia muito mais do que as pontas dos dedos.

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“O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando dentro”
Simone Teodoro
Céu do meu lugar

Sempre deixo de esperar o que era espera para ser entrega. O céu do meu lugar é onde a inspiração me ganha. Sou menina – a procurar figuras nas nuvens – que se encanta e com os braços danço entre o azul e o dourado – nas manhãs ou tardes de sol… apenas espaços em branco onde cabe tudo dentro de mim, inclusive, a poesia…

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“… mas preciso de magia. Não consigo viver em preto e branco.”
Nietzche

A noite mágica no meu quintal

Quando anoitece, tudo muda de tom e som… O meu quintal ganha ares de magia e nos cantos dos muros, a floresta se torna minha e única. A noite me inspira e pira. A estação na pele.

A pele,na memória e o céu, infinito em sua magia me acolhe.

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“Chamo o vento.
Para dançar comigo.
Na copa do ipê”.
Dayse Sene

Os ipês da rua de cima

A rua de cima tem a inspiração do portal mágico. É ali que a inspiração mora – feito menina travessa – e corre dentro de mim, como se a liberdade morasse na voz do homem da reciclagem, na terra amarela da rua que o homem do riso fácil varre todo dia. Na rua de cima, os ipês nascem nas manhãs serenas e ganham vida dentro de mim.

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“Canta o teu encanto que é pra me encantar”.
Los Hermanos

 

Joaninha – encanto

 

Quando se trata de paixão é dela que falo. Em cada canto da casa e do quintal ela está. Mora ali, no botão da rosa, na folha do pé de algodão e na inspiração que vem. Podia dizer que sou lembrada por ela. Que às vezes, um pequeno nada se torna gigante entre a singeleza da cor e no brilho que meus olhos ganham.
Muitas vezes, as inspirações vem de pequenos nadas que se ampliam e ganham contornos de plenitude.
É isso que ofereço – e entrego – me nas palavras – e se diante disso, eu conseguir te tocar, então, tudo terá valido a pena.

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Mariana Gouveia
PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6  | O QUE TE INSPIRA?
EDITORA SCENARIUM PLURAL – 2018
www.scenariumplural.worpress.com

Participam desse projeto: Lunna Guedes, Tatiana Kielberman, Obdúlio Nunes Ortega
e Maria Vitória.

364. dos verbos indefinidos

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Pela manha trazia taciturna e fria as dores da noite.
Enquanto a máquina travava para fazer escoar o café na xícara. Acostumara dar uma batida para então o cheiro invadir os quintais.
O ninho vazio e as horas no breu enquanto o céu antecede os fogos.
O espelho quebrado dentro do quintal. A vontade explícita nos restos dos dias.

E se eu não fosse o pássaro de todo dia?
E asa desprovida de pena não permitisse o voo. Os quadros expostos no retrato antigo. Logo ali, já o novo. Ontem ainda tinha resquícios do século. A história contada em versos.
A memória na tatuagem riscada na pele. Tem dias em que o vento clareia a solidão entre os raios.
Mariana Gouveia
364. dos verbos indefinidos

363. dos verbos indefinidos

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Na distância cabe cartas, telefonemas,
mensagens de voz, cartões-postais,
lágrimas e sorrisos de saudade.
Na ausência, nada.
Talvez só palavras inacabadas
e um silêncio de doer ossos.
Às vezes, penso, que se eu fechar os olhos
o mundo cairá morto aos meus pés.
Tríccia Araújo

 

Bambina mia!

Fecharam a rua de cima. O relógio parou no tempo e foi outro dia a estação e seus diários. O ano lunar era outro dia e tanto e estou a desfiar o tempo para você.

Antes de ontem, antes de amanhã, antes de hoje, antes de mim… depois! E já é de novo outro fim de ano. O pássaro que beija a flor vem avisar que tudo que vivi é essa história que escrevo a cada dia. O varal estende os sonhos que vivi.

Vivi Avessos. O carnaval me desvirou em imagens e a pergunta que veio para além das palavras:
“o que se pretende com o lado de dentro?”
Sabe aquela pele que arrepia e que toca a alma?

Sabe aquele gesto que faz com que você pare, suspire e inspire?

Sabe qual é a maior pretensão do lado de dentro?
Emocionar  –  foi quando comecei a envermelhecer.
Me aventurei em missivas para além das palavras. Abri janelas e mergulhei em sete luas…
Detalhei como seria minha rotina e as vontades todas dentro dos trovões que agora gritam seu nome por aqui.
Lembranças me acompanharam em 6 por 6 e um coletivo me levou por lugares onde eu não alcançaria de outro jeito. Sou essa pluralidade toda de uma maneira tão singular e agradeci de forma doce esse Scenarium que abraça meus dias e me acompanha corredores afora.
No tempero da memória ganhei um baú onde sabores e cores adoçaram a pele e alma.

Vivi sua cidade por dias e respirei carinho em suas calçadas.

Me atrevi a escolher poeta de antes e de agora.
E como se o vinho fosse raro demais, bebi o Vermelho…  E como se a garrafa custasse tanto que se eu beber tudo de uma vez, depois morrerei de vontade de novo do vinho, fui aos poucos embriagando – me nas palavras.

Falei três vezes de solidão e desenhei as missivas de uma primavera quente.

Na bendita pressa dos ponteiros e já era outubro… os prazos em dias e a viagem que não acaba nunca: a que eu ainda não fiz… – e hoje, refaço aqui nesse tempo louco de ontem – onde o café exala seu cheiro no quintal, e o amor expresso ganhou ares de sabores aqui.
Depois, a moça dos detalhes intimistas me descreveu em asas e voei… enquanto um céu desfiava um sopro quieto nos rostos.
De repente o que faz pulsar o meu vermelho por dentro?
O cheiro do branco das folhas do caderno esperando serem preenchidas com palavras.
e o sonetos…
Já era feliz ano velho de novo.
Soube que existia um mar ali… é onde mergulho esperando os dias novos que virão.

E as promessas para um ano novo é o que se desenha agora na janela que dá para a rua de cima, que fecharam hoje, mas que deixaram a chave debaixo do tapete…

Feliz tudo, todos os dias!
Bacio

Mariana Gouveia
363. dos verbos indefinidos