é o beija – flor


aquele que reduz a dor
tão-só a amor

PedroL
@worldwidepedrol

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6 On 6 – Minhas manhãs

 

Nasço amanhã
ando onde há espaço;
– Meu tempo é quando.
Vinicius de Moraes


As minhas manhãs acontecem em frente a inquieta cortina lilás. Os dias nascem laranjas por aqui – com algumas raras exceções  – o barulho do rio atravessa a paisagem e o sol – companheiro diário – se acende. Era quase estender a mão e tocar o horizonte da infância e seus códigos indecifráveis. A rota do olho a buscar abrigo na paisagem. As memórias aquecidas no fogão a lenha e todas as outras manhãs ganhando sentido de uma.

 

As minhas manhãs são cheias de aromas. O capim dourado ainda orvalhado, o cheiro do café a atiçar memórias…
O perfume do sabonete logo após o banho… A pele a respirar poemas de saudades. Frases relembradas ao acaso. O cão da vizinha da frente que se chama Meia Noite a abanar o rabo enquanto levo as sacolas para o moço da reciclagem que – parece – vem na rua de cima.

 

 

Minhas manhãs tem as cores azuladas. O céu a desenhar mil corações e a palavra cantada na voz do homem da reciclagem entoando emoção. Os detalhes dos últimos dias como desabafo. A sorte que teve na semana passada quando encontrou a bolsa de alguém e conseguiu devolver. As histórias se tornando magia diante de meus olhos e o mundo sendo meu nas palavras do homem.

O quintal me acolhe com suas vidas minúsculas e expande na cena que me acompanhará o dia todo.
Os cães e suas alegrias em brincadeiras eternas. O som da casa vizinha a acordar.
Tudo torna especial minhas manhãs dentro das rotinas tortas. As plantas a receber a chuva que dou enquanto o regador cumpre sua função no jardim.
As aves diante de meus olhos e o pássaro de todo dia a costurar estrelas em minha alma. As mensagens de saudades escritas em um curto espaço de tempo…

O beija-flor a demarcar seu canto e o dia dentro de uma paz falsa a rabiscar saudades nas paredes das ruas. A rua de cima a me acolher ainda dentro das manhãs e os gestos de rotina da casa como continuidade das memórias.
O vasculhar das coisas a procurar os gestos seus em cada canto.
As palavras salivando nas asas do amor.

Como se no voar dentro do silêncio a manhã se fizesse voz e que por si só isso já fosse amor.
Enquanto isso, o relógio nas minhas manhãs tem a vibração do segundo.
É quase hora de ir viver o dia.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural 6 on 6 – Tema: Minhas manhãs

 

Também fazem parte desse Projeto:
Maria Vitória – estranhamente
https://aestranhamentee.wordpress.com/2018/02/06/projeto-fotografico-6-on-6-o-que-te-inspira/

Obdulio Nunes Ortega – blogue serial ser
Lunna Guedes – Catarina voltou a escrever

PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6 | O QUE TE INSPIRA?

 É dentro de ti que toda a música é ave.
Eugénio de Andrade

Ave.

A minha principal inspiração vem em primeiro lugar – e os que me acompanham sabem – de asas – das mais diversas significâncias – e de voo, de pouso e ave.
E a ave dona do meu carinho e pensamento se chama Chiquinho e é esse pequeno beija-flor – já com 6 anos, que vive aqui no meu quintal.
Nasceu dentro do meu xaxim de orquídea em uma noite chuvosa e livre, resolveu dividir seus voos entre meus varais, os quintais vizinhos e o ventilador de teto da sala.
A inspiração vem enquanto seus voos rasantes me abraçam.

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“Tenho o tempo das borboletas, uma semana é uma vida
(Graça Carpes)

Toque (borboleta).

 

Cada manhã habita -me a leveza do toque e isso me inspira enquanto o aroma das flores me abraçam. O silêncio traz o vento que pelas asas ecoam… a mão é o pouso de descanso e a poesia muito mais do que as pontas dos dedos.

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“O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando dentro”
Simone Teodoro
Céu do meu lugar

Sempre deixo de esperar o que era espera para ser entrega. O céu do meu lugar é onde a inspiração me ganha. Sou menina – a procurar figuras nas nuvens – que se encanta e com os braços danço entre o azul e o dourado – nas manhãs ou tardes de sol… apenas espaços em branco onde cabe tudo dentro de mim, inclusive, a poesia…

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“… mas preciso de magia. Não consigo viver em preto e branco.”
Nietzche

A noite mágica no meu quintal

Quando anoitece, tudo muda de tom e som… O meu quintal ganha ares de magia e nos cantos dos muros, a floresta se torna minha e única. A noite me inspira e pira. A estação na pele.

A pele,na memória e o céu, infinito em sua magia me acolhe.

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“Chamo o vento.
Para dançar comigo.
Na copa do ipê”.
Dayse Sene

Os ipês da rua de cima

A rua de cima tem a inspiração do portal mágico. É ali que a inspiração mora – feito menina travessa – e corre dentro de mim, como se a liberdade morasse na voz do homem da reciclagem, na terra amarela da rua que o homem do riso fácil varre todo dia. Na rua de cima, os ipês nascem nas manhãs serenas e ganham vida dentro de mim.

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“Canta o teu encanto que é pra me encantar”.
Los Hermanos

 

Joaninha – encanto

 

Quando se trata de paixão é dela que falo. Em cada canto da casa e do quintal ela está. Mora ali, no botão da rosa, na folha do pé de algodão e na inspiração que vem. Podia dizer que sou lembrada por ela. Que às vezes, um pequeno nada se torna gigante entre a singeleza da cor e no brilho que meus olhos ganham.
Muitas vezes, as inspirações vem de pequenos nadas que se ampliam e ganham contornos de plenitude.
É isso que ofereço – e entrego – me nas palavras – e se diante disso, eu conseguir te tocar, então, tudo terá valido a pena.

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Mariana Gouveia
PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6  | O QUE TE INSPIRA?
EDITORA SCENARIUM PLURAL – 2018
www.scenariumplural.worpress.com

Participam desse projeto: Lunna Guedes, Tatiana Kielberman, Obdúlio Nunes Ortega
e Maria Vitória.

364. dos verbos indefinidos

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Pela manha trazia taciturna e fria as dores da noite.
Enquanto a máquina travava para fazer escoar o café na xícara. Acostumara dar uma batida para então o cheiro invadir os quintais.
O ninho vazio e as horas no breu enquanto o céu antecede os fogos.
O espelho quebrado dentro do quintal. A vontade explícita nos restos dos dias.

E se eu não fosse o pássaro de todo dia?
E asa desprovida de pena não permitisse o voo. Os quadros expostos no retrato antigo. Logo ali, já o novo. Ontem ainda tinha resquícios do século. A história contada em versos.
A memória na tatuagem riscada na pele. Tem dias em que o vento clareia a solidão entre os raios.
Mariana Gouveia
364. dos verbos indefinidos

363. dos verbos indefinidos

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Na distância cabe cartas, telefonemas,
mensagens de voz, cartões-postais,
lágrimas e sorrisos de saudade.
Na ausência, nada.
Talvez só palavras inacabadas
e um silêncio de doer ossos.
Às vezes, penso, que se eu fechar os olhos
o mundo cairá morto aos meus pés.
Tríccia Araújo

 

Bambina mia!

Fecharam a rua de cima. O relógio parou no tempo e foi outro dia a estação e seus diários. O ano lunar era outro dia e tanto e estou a desfiar o tempo para você.

Antes de ontem, antes de amanhã, antes de hoje, antes de mim… depois! E já é de novo outro fim de ano. O pássaro que beija a flor vem avisar que tudo que vivi é essa história que escrevo a cada dia. O varal estende os sonhos que vivi.

Vivi Avessos. O carnaval me desvirou em imagens e a pergunta que veio para além das palavras:
“o que se pretende com o lado de dentro?”
Sabe aquela pele que arrepia e que toca a alma?

Sabe aquele gesto que faz com que você pare, suspire e inspire?

Sabe qual é a maior pretensão do lado de dentro?
Emocionar  –  foi quando comecei a envermelhecer.
Me aventurei em missivas para além das palavras. Abri janelas e mergulhei em sete luas…
Detalhei como seria minha rotina e as vontades todas dentro dos trovões que agora gritam seu nome por aqui.
Lembranças me acompanharam em 6 por 6 e um coletivo me levou por lugares onde eu não alcançaria de outro jeito. Sou essa pluralidade toda de uma maneira tão singular e agradeci de forma doce esse Scenarium que abraça meus dias e me acompanha corredores afora.
No tempero da memória ganhei um baú onde sabores e cores adoçaram a pele e alma.

Vivi sua cidade por dias e respirei carinho em suas calçadas.

Me atrevi a escolher poeta de antes e de agora.
E como se o vinho fosse raro demais, bebi o Vermelho…  E como se a garrafa custasse tanto que se eu beber tudo de uma vez, depois morrerei de vontade de novo do vinho, fui aos poucos embriagando – me nas palavras.

Falei três vezes de solidão e desenhei as missivas de uma primavera quente.

Na bendita pressa dos ponteiros e já era outubro… os prazos em dias e a viagem que não acaba nunca: a que eu ainda não fiz… – e hoje, refaço aqui nesse tempo louco de ontem – onde o café exala seu cheiro no quintal, e o amor expresso ganhou ares de sabores aqui.
Depois, a moça dos detalhes intimistas me descreveu em asas e voei… enquanto um céu desfiava um sopro quieto nos rostos.
De repente o que faz pulsar o meu vermelho por dentro?
O cheiro do branco das folhas do caderno esperando serem preenchidas com palavras.
e o sonetos…
Já era feliz ano velho de novo.
Soube que existia um mar ali… é onde mergulho esperando os dias novos que virão.

E as promessas para um ano novo é o que se desenha agora na janela que dá para a rua de cima, que fecharam hoje, mas que deixaram a chave debaixo do tapete…

Feliz tudo, todos os dias!
Bacio

Mariana Gouveia
363. dos verbos indefinidos

 

328. das fragilidades secretas

Riu na sorte do dia. Era o ar líquido que trazia a maresia. Nenhum lugar cabe quando no peito o ar falta.
A casa é pequena e perdida para quem não conhece o espaço. Todo voo é cego quando a vida pousa na sorte.
No silêncio da noite as aves não voam. Os sons da casa era minha voz rasgando os estuques.
Os rumos das viagens em roteiros marítimos. Permaneço onde bate o vento. A simbologia da vida é o toque…

[ então, não vivo ]

às vezes, a solidão é esse latido estranho do cão no portão quando vê a ave que beija a flor no varal de roupas.
às vezes, o destino certo é o pouso…

mas, o que nos prende à terra é o medo de voar.

 

Mariana Gouveia
328. das fragilidades secretas

301. das infinitudes

Às vezes, acordava – ou amanhecia – com a impossibilidade do agora.
O verbo se perdia no tempo amar.  A previsão do tempo mudou -se na imprecisão.
Pensando no caminho encontrei a rua do meio. O vento, ali, batia na janela desenhada na parede amarela.

Uma criança nasce no improviso da dor.
A vontade de flor alimenta o jardim. Já brotam as folhinhas do algodão.
A febre atravessa a garganta rouca no grito. A ave de todo dia invade a sala e voa.
Mora no fio das roupas no varal e chove.
A mansidão das horas é esse inconstante ritmo do relógio da sala enquanto lá, fora a tempestade habita no quintal que anoitece – ou amanhece…
não sei.
Mariana Gouveia
301. das infinitudes