Tenho encanto por delicadezas

Tenho encanto por delicadezas
um ninho me cabe
em construção.
Colho miudezas na manhã
e a noite me acolhe como pouso.
O ar que me falta acontece no instante em que o céu me abraça.

 

Mariana Gouveia

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341. dos verbos indefinidos

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Caríssima mia,

Dizem que o melhor da festa é esperar por ela… Pelas minhas previsões, o Vermelho atingiria o ponto máximo hoje…
A manhã aconteceu no improviso das horas. O fluxo do dia foi pela atenção aos prazos, lembrei – me de você e seus prazos –  que são muito mais divertidos de cumprir – os de hoje, trazem o emblema do sistema. Lento, como sempre.
Trovejou e seu nome ecoou nos corredores longos. Choveu e o cheiro da terra molhada foi quase um engolir de lembranças. Lembrei – me das roupas que ficaram  no varal – e te chamaram atenção – e a chuva macia durou a tarde toda.  Dezembro é essa imensidão das chuvas… As poças trazem o desenho do pássaro.

Dá de pegar o voo com a mão. Dezembro é esse aconchego de aves. Esse aconchego da ave que bem me viu.
À tarde, o Vermelho por Dentro emociona na chegada. O cheiro, o toque, o fechar os olhos e as mãos a rasgar o papel…
Festejo com o carteiro o reencontro. Quando alguém tem a alma limpa abraça apenas com o olhar.
O Plural da vida me encanta só pela capa.
Releio as dedicatórias e agradeço o universo.
A vida tem essas delicadeza que me afagam… Sou esse instante de emoção.
Ainda preciso mergulhar dentro desse vermelho.
Meus próximos dias terão novos personagens a adentrar minha pele.

Mariana Gouveia
341. dos verbos indefinidos

327. das fragilidades secretas

Recebeu cartas de quem partiu.
Era puro amor além das palavras – tem dia em que o carteiro vira Papai Noel e espalha boas novas sem a música do: “então, é Natal!”- e a vozinha da menina ecoa ali, além das palavras. Fala do pássaro de todo dia. Usa o mensageiro que bagunça o cabelo – o mensageiro era o vento, esse menino torto que faz traquinagens no quintal – assobia e leva o cheiro das frutas para a rua de cima e traz de lá o cheiro dos bolos assados, nessa troca incessante de amor.
A árvore é esse corpo cheio de aves. O bem querer quase me viu.
Na rua de cima, o céu é livre e tem gente com desespero de liberdade. Tudo é direcionado de acordo com o movimento do vento. Até asa voa…

As aves da alma flutuam como se pudessem voar. O casulo da vontade, preso na liberdade da metamorfose.
Seria a nuvem atravessadora de ritmos? Era quase dança o movimento do vento na árvore seca… na rua de cima, as árvores respiram o verde que nem veio. Era apenas um desenho no muro, tatuado o nome incluso no meu e a encruzilhada onde as estradas se dividem entre o poder e o querer.
Tem noites que as árvores perdem o sentido de raiz. Tem noites em que a rua de cima é só invenção minha.
Mariana Gouveia
337. das fragilidades secretas

309. das fragilidades secretas

 

Talvez, um dia eu conte como é ser pássaro e a brisa ser essa rota do voo para além dos muros.

As flores se abrem e ainda é tarde. Logo, o noturno virá tomar conta do quintal.

A ave de todo dia é insistente no canto de eubemqueteviquasetevi e o céu parece se inclinar em um olho torto dentro da lente.

O desenho a lápis da flor na toalha ganha cores nas linhas bordadas… o gesto terno da xícara a receber o café para além das horas.

A pele virada do avesso não cabe no tato. As digitais estranham a memória do dia. Eram tantos os dias atrás que parecem outras eras. Na parede, a asa enleada de ave e o gesto simples de querer voar.

A chuva oculta na previsão que falha, o vento a espantar o trovão que não veio e o carro do churros a vender a doce mistura do chocolate ao leite, em uma voz que parece saída de uma história da infância. Derramo ternura pelo pássaro, que cede ao encanto do poente e some noite adentro em memória da lua que permanece acesa no coração dele em sua rota dissimulada rente ao chão, nas poças d’água, dos restos do que molhei o jardim.

 

Mariana Gouveia
309. das fragilidades secretas

205. da autonomia dos voos

O calor no rosto me leva para outra cidade  – aprisionaram o vento dentro da intensidade da palavra –  foi uma cerimônia bonita. O rio e os envelopes rasgados. O canto da ave num dia triste. A febre e a ilusão do delírio.
Havia qualquer coisa de estranho no objeto bordado. O pássaro desenhado como se lembrava na memória obscura da pele. O toque da pena a dimensionar o voo.
Dizia que sem pressa devia partir. Ou esperar. Ou ir e voltar – esquecia da última frase da carta.
Mas sentia na ponta dos dedos, apenas essa solidão esférica. De cidade vazia e de rio longo e serpenteado perto das margens de onde avistava os papéis que não enviara a rodar, como se fosse de encontro ao mar. Como se morresse de fome e sede – e não havia nada para matar a fome. A vida seca, úmida de alma.
Invento as escalas do mês. O mundo acontece dentro do milagre.
O ausente fica fica lindo assim distante. O voo não dado é o que me leva a querer esse cheiro terrestre infinito… onde o vento apenas se finge de sopro.

Mariana Gouveia
205. da autonomia dos voos

 

108. dos dias aleatórios de Abril

Lembrava da chuva na poça d’água e pouso do pássaro o aconchego do voo.

Havia um tempo dentro da estação e o equilíbrio vivo na fé.

O dia da força da natureza, a leveza do riso do sobrinho e saudade escolhida a dedo.

Os bibelôs intactos na instante e a solidez nos vãos di quintal.

Não existe um dia fora dele mesmo junto da imperfeição…
Mariana Gouveia

108. dos dias aleatórios de Abril

1 – Se alguma coisa nasceu para voar foi o teu coração

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“Voa coração, ou então…Arde!”
Eugênio de Andrade

 

Querida A.
Abril começa aos meus olhos como uma pintura de Monet… É tanto ouro e azul nessa manhã desavisada de pássaros… parece até que todos vieram de uma vez só… Os pruuus e gruus e euquetevi emendam em uma melodia barulhenta que me arranca risos. Parece discussão de criança… um querendo cantar mais alto que o outro.
Algum dos meninos da vizinhança perdeu uma pipa no fio da rede elétrica… está ali, o pobre esqueleto a voar de um lado para o outro seguindo a brisa mansa.
Abril chega ameno aqui… As folhas do pé de algodão forram o lado esquerdo do quintal. Adoro o cheiro do mato se decompondo… enquanto aspiro o aroma que me carrega para a infância, o sabiá laranjeira  e o bem-te-vi – corajosos, por sinal – se arriscam a roubar a ração do prato dos cães… Cada voo que dão por aqui é quase um perder de penas.
Por falar em pena, conheci um indiozinho anteontem… Ele tinha os olhos e cabelos pretinhos… Um pequeno sábio que me trouxe uma pena de presente. Colorida daria cor aos voos – para que eu voasse bonito, ele disse – ao mesmo tempo, leve… Para que as coisas não pesassem tanto e então, pensei em você e de coisas que nascem para voar…

Se alguma coisa nasceu para voar foi o seu coração.

Ele voa dentro da palavra bonita que você descreve e no mundo encantado que você me apresentou quando te abracei.

Meus pensamentos voltam para você e avanço em direção ao teu lugar… Quase visualizo as estradinhas de Minas entre as serras que minha memória busca da infância… Recordo de suas viagens e de como eu voava contigo e de como você chegou até a mim.
Ainda ontem ou anteontem foi seu dia… A memória anda em conflitos com datas e já desisti de me deixar levar por elas. Hoje, lembro mais do antigamente, ou de dias atrás. Já viu como o calendário é desavisado de presença? As redes notificam, as pessoas se lembram e vira tudo ” dia do amigo, dia da saudade, dia disso, dia daquilo”…
Eu gosto de dizer feliz todo dia! E que as coisas boas voem sempre até você.

E é esse meu presente de amor… Um voo onde te dedico a leveza do carinho.
Beijo
Mari
Projeto Missivas de Abril
Scenarium Plural Editora