315. das fragilidades secretas

Essa noite que passou fui quase todas as folhas das árvores que caíram e que o vento levou rua abaixo – e era quase suspiro sem dor – a folha indo para onde o destino quis.

Fui a vontade de claridade e o céu era escuro – e a nuvem, ocaso de nada –  e o mensageiro do vento, mudo.
Fui também as xícaras de porcelanas abandonadas na pia, ao lado dos pires sem razão nenhuma de ser amparo.
Fui sons retidos na dor – e o gemido sendo canção nas altas horas que a noite se esconde –  as dobras do tempo que não se iluminam.
Era a magia da noite. Uma borboleta dormente na mão – eu fui asa – o medo sendo dor dentro da noite e a leveza era ser dia.
As arestas do tempo a ser domínio nos ponteiros do relógio. A noite sendo dona do tempo e era hora de acontecer e eu me habituava ao modo inconfessado de rezar. Era apenas para acalmar a dor, dormir e sonhar.

 

Mariana Gouveia
315. das fragilidades secretas
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312. das fragilidades secretas

Leu a mão no improviso das rezas. A esperança nos olhos travados de medo – sabia que o destino era implacável com os insensíveis – enquanto o ofício era feito dentro da coragem do nada.
Ficou em silêncio estudando as linhas. Havia uma asa aberta ao infinito. A liberdade tinha essas coisas escondidas como se fosse segredo.

Como ver o abismo sem querer o voo? Os filigranas da pele desenho da alma – linha da vida – para além da voz.
Dentro das vontades o destino era sorte. O coração com as artérias à mostras e a perpétua busca para o amar.
Define minha vontade com um piscar de olho.
Tem dia que é tudo de noite e a sorte é esse estampido de poder amar.
Mariana Gouveia
213. das fragilidades secretas

311. das fragilidades secretas

O grito ecoa pela casa, as janelas fechadas ao vento
tudo muda de um dia para o outro à deriva, a vida foge dos planos de viagens feitos.
Era uma vez, uma menina paraíso que se encantou.Virou poesia para além das palavras e mudou-se para dentro de si.
As cartas escritas nem foram enviadas e as noites de dores, viraram poemas enquanto no jornal falam de um país de deuses e desertos.
Um carteiro indulgente que distribui aromas nas palavras – me disseram que eram poemas – E eu desconfio que era apenas entrega de vontade de voos.
Uma canção em outro idioma chega em restos de palavras. Lembra o filme de antigamente a melodia. Descobri que o próprio pouso é uma oferenda de toque. Havia vivido isso na primavera atrasada. O equinócio é a repetição de um ciclo dentro da estação.
Em cinco minutos eu vivo mil ciclos repetitivos do dia.
Um acorde em algum canto é momento para ternura.

Mariana Gouveia
311. das fragilidades secretas

306. das fragilidades secretas

De fora do olho andante, o riso por detrás da loucura… ano após ano eu ia ali, fora da data convencional.
Escrevia cartas póstumas para ela – que poderiam virar livro – em dias da semana alternativos, fugindo ou não da realidade. A foto ostentada em um porta retrato vintage, com data de vinda e de partida.

A vida, tão rasa, resumida em minha rota de desespero em noite de chuva.
As perguntas, que ela, guardada para além do paraíso – como dizia meu pai – não poderia responder.
Sempre pedi um sinal. Uma nuvem, um raio, um vento ou uma ilusão qualquer para acabar com a solidão da alma.
O código decifrado na coluna: 7.D…
As flores oferecidas em um lugar comum a todos. A luz da vela no quintal, perto da pedra de amolar, longe do olho andante do guarda, que conversava com os mortos, enquanto, na noite escura, a borboleta me dava o sinal de acolhida. A vida nascia, apesar das mortes e quando amanhecia tudo era tão normal, diante do olho andante do guarda que me via e fingia que não, além das datas convencionais.

Mariana Gouveia
306. das fragilidades secretas

305. das fragilidades secretas

De vez em quando você se mistura ao ambiente. Não é coisa de mimetismo – ou até é – e eu não me perderia nele. Poderia a metamorfose se fundir nas ações e eu queria que a vida além da esquina fosse esse equilíbrio de asas.
Qualquer coisa dentro dessa densidade toda.
O ar rarefeito, quase fosco, em ranhuras das paredes.
A sombra desenhada no teto. O coração sendo pouso e ninho.
Devia dizer que a vida se apaga além do papel de parede. O cheiro de mato no jardim, o verde desbotado no que vê.
O olho vagando na janela do ônibus em busca da imagem que toca o coração.
Os nomes das cidades envolvidos no pescoço. O colar a enfeitar a palavra quando a alma chama saudade. Era ali, escrito, descrito, nos corações a oração de fé de onde nasceu.
A taquicardia sabendo silêncio no som oco de quem sonha com voos de solidão.
Saber a cor do silêncio no símbolo da vida. Os limites da rua de cima que invadem meu quintal, enquanto a vida aérea é esse frio na barriga que ecoa em mim, as estações

Mariana Gouveia
305. das fragilidades secretas

296. das infinitudes

[Há uma mulher que caminha sobre a areia da praia e voa com as aves marinhas entre risos]

Que desenha em minha pele histórias nunca vividas e que sonha atravessar o oceano a nado.

É feita de vento e alada. Ocupa os espaços todos. Quebra as regras.

É essa roupa feita de matizes e quase um fado dentro da melodia da canção.

No avesso, é essa explosão de sentimentos. O riso entalhado na arte que a seduz.

Dentro de mim, acontece. Detalhada no poema que fabrico  – as mãos a tocar as asas aladas do amor – feito metamorfose do efeito leveza que as borboletas fazem.

 

[Há uma mulher que sonha horizontes, que sonha cidades]

Quisesse saber dela bastava abrir os braços e tocar o vento.

A pele, puro arrepio e em meu silêncio é pura fala.

Quisesse conhecer a emoção, bastava pronunciar o nome e as matas e jardins aconteceriam no instante de agora.

Quisesse saber de pouso e estenderia minhas mãos nas mãos das tuas asas e assim, nasceria de novo e de novo dentro do mais belo amor.

 

Mariana Gouveia
296. das infinitudes

286. das infinitudes

 

Desse amor, a pele
quase cítrica – agridoce
A gota da chuva – quase sede
o trovão ecoando seu nome – quase grito
e esse nó no peito – quase morro

no seu crepúsculo – quase ardo
em sua história contada – quase vivo
sou real em tua pele – quase poro
em teu voo sou asa – quase pássaro

Do mar que te rodeia – quase rio
das ruas das tuas estradas – quase atalho
das palavras do poeta – quase roubo
o poema que te chamo – todo amor
e do abraço terno – quase encontro
da mão que oferece colo – puro pouso.

 
Mariana Gouveia
286. das infinitudes