Artesania

11062656_835930476462821_4461284841731761762_n*imagem: Tumblr

montada no lume
das horas vadias
ela segue
:
o percurso
o compasso
a lida
.
.
.
percussão
persuasão
repercussão
.
banida
de toda vergonha
lambe versos
tece descomposturas
costura palavras
e disseca poemas

 

Bianca Velloso

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"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…"

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
*imagem: We Hearts It

Entro na sala e ela não está.
Sento próxima da janela. Vejo vultos como se fossem formigas. Apressados para a rotina diária. Refaço meu dia para a continuidade das coisas. Ela entra.
Senta. Anota.
Me inquieto na cadeira. Ela fixa seu olhar em algum ponto.

Às vezes, tenho a impressão de que não me ouve quando falo.
– Vamos falar de seu quintal? Alguma coisa nova por lá?
Estranho a pergunta. Quero sair correndo dali. Mas alguma coisa me prende, sei lá.
Nessa hora, penso que sou eu quem a ajudo.
– Há uns vinte casulos no meu quintal. – Ela se espanta –
– De borboletas – digo eu – As lagartas se espalham e criam os casulos em lugares que contando, ninguém acredita.

Ela anota, escuta. Olho fixo num ponto da parede.
– Fiquei sete dias sem poder abrir o portão todo, porque uma foi criar o casulo na dobradiça maior do portão. A ordem em casa era: abra o portão de correr.
Parece inacreditável, mas está lá, o casulo seco para quem quiser ver.
Vigio os casulos como eu fosse pari-los.

Percebo que ela anota a palavra pari-los. Pergunta:
– E depois? –
– Depois, quando nascem, elas gravitam em torno de mim como se eu pudesse voar. Mapeiam meu quintal com seus voos e pousam nas flores, plantadas ali, para elas.

De novo ela fala de suas inquietações sobre borboletas.
Olha o relógio. O assunto traz ansiedade. Não é de mim que ela quer ouvir. Acho que é dela mesmo a palavra – preciso respirar –

Saio de lá com a sensação de ter visto nas mãos dela algo que lembrasse borboletas e me pareceu ouvi-la cantarolar Raul quando a porta se fechou.
“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…”

Mariana Gouveia – do Divã

o poder encantatório das palavras…

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um poeta iluminando o canto
poente da sala

uma chuva miudinha musical
em papel pardo nos teus dedos

um tecto lunar no centro de todos os nossos dias

e cá dentro o desalinho da alma

Ana Christelo
*imagem : Natalia Deprina.

349. dos verbos indefinidos

Eram livres os guerreiros dos iguais… A tribo veio para a cidade como motivo de união… quando guerreiros se unem para o bem comum o universo se junta aos desejos. A grandeza da nossa vida expostas em conversas cotidianas e o riso das crianças ecoam floresta afora.
Era gestual as raízes e seu equilíbrio que a terra fazia em volta do povo. É grande demais o universo e cabe no coração de cada guerreiro.

Quando o bem comum é a vontade de todos, a terra em sua soberania age e favorece os espíritos dos homens que lutam.
Esses dias serão lembrados como uma época em que homens e mulheres, com suas crianças – de várias etnias – se uniram em ordem e graça do bem comum. Era um dia igual a hoje.
E nesse dia  a natureza vibrou em instantes e choveu…e fez sol, enquanto a arte foi motivo de encantamento e a amizade celebrada em abraços.
O homem comum se engrandeceu. Os guerreiros aprenderam que a sabedoria do compartilhar é a natureza vibrando na essência do espírito.
E a vida desabrochou em uma hora calma e a flor foi repouso onde o ninho foi pouso para o coração dos homens, onde as artérias douravam ao encanto do bater de asas.
Conta a lenda que o coração batia nas asas de uma borboleta e que os passos depois daquele dia, era quase voo nos guerreiros da floresta.

*encerramento da 19ª Reunião Ordinária dos Conselheiros Locais de Saúde Indígena na Semana de Planejamento e Gestão Indígena – DSEI Cuiabá.

Mariana Gouveia
349. dos verbos indefinidos

315. das fragilidades secretas

Essa noite que passou fui quase todas as folhas das árvores que caíram e que o vento levou rua abaixo – e era quase suspiro sem dor – a folha indo para onde o destino quis.

Fui a vontade de claridade e o céu era escuro – e a nuvem, ocaso de nada –  e o mensageiro do vento, mudo.
Fui também as xícaras de porcelanas abandonadas na pia, ao lado dos pires sem razão nenhuma de ser amparo.
Fui sons retidos na dor – e o gemido sendo canção nas altas horas que a noite se esconde –  as dobras do tempo que não se iluminam.
Era a magia da noite. Uma borboleta dormente na mão – eu fui asa – o medo sendo dor dentro da noite e a leveza era ser dia.
As arestas do tempo a ser domínio nos ponteiros do relógio. A noite sendo dona do tempo e era hora de acontecer e eu me habituava ao modo inconfessado de rezar. Era apenas para acalmar a dor, dormir e sonhar.

 

Mariana Gouveia
315. das fragilidades secretas