Ave, borboleta!

Visitava a sala
depois de olhar cada canto
aposento abandonado pela saudade
precisava aspirar ela no quintal.

Olhou céu
o dia coloria as flores
dentro dela
germinava asas
pariu borboleta
em um idioma que não era o seu.

De noite, a situação era pior
o céu gemia dentro dela e as estrelas
agitava seu interior
calma aparente de quem ama.

depois que amanhece
asa feita

retrato na parede
e ali, todo dia,
quando ainda era madrugada
fazia reza pra ela
Ave, borboleta!

Mariana Gouveia
*imagem: Dina Bova

Anúncios

Ok, eu vou Universo!

Ok, eu vou Universo!*imagem: Cristina Coral

Mas em bolas. Sabão em barra, em pó, é nada poético. Os olhos ardem viu?
Obrigada, de nada.

 

Aden Leonardo

Artesania

11062656_835930476462821_4461284841731761762_n*imagem: Tumblr

montada no lume
das horas vadias
ela segue
:
o percurso
o compasso
a lida
.
.
.
percussão
persuasão
repercussão
.
banida
de toda vergonha
lambe versos
tece descomposturas
costura palavras
e disseca poemas

 

Bianca Velloso

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…"

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
*imagem: We Hearts It

Entro na sala e ela não está.
Sento próxima da janela. Vejo vultos como se fossem formigas. Apressados para a rotina diária. Refaço meu dia para a continuidade das coisas. Ela entra.
Senta. Anota.
Me inquieto na cadeira. Ela fixa seu olhar em algum ponto.

Às vezes, tenho a impressão de que não me ouve quando falo.
– Vamos falar de seu quintal? Alguma coisa nova por lá?
Estranho a pergunta. Quero sair correndo dali. Mas alguma coisa me prende, sei lá.
Nessa hora, penso que sou eu quem a ajudo.
– Há uns vinte casulos no meu quintal. – Ela se espanta –
– De borboletas – digo eu – As lagartas se espalham e criam os casulos em lugares que contando, ninguém acredita.

Ela anota, escuta. Olho fixo num ponto da parede.
– Fiquei sete dias sem poder abrir o portão todo, porque uma foi criar o casulo na dobradiça maior do portão. A ordem em casa era: abra o portão de correr.
Parece inacreditável, mas está lá, o casulo seco para quem quiser ver.
Vigio os casulos como eu fosse pari-los.

Percebo que ela anota a palavra pari-los. Pergunta:
– E depois? –
– Depois, quando nascem, elas gravitam em torno de mim como se eu pudesse voar. Mapeiam meu quintal com seus voos e pousam nas flores, plantadas ali, para elas.

De novo ela fala de suas inquietações sobre borboletas.
Olha o relógio. O assunto traz ansiedade. Não é de mim que ela quer ouvir. Acho que é dela mesmo a palavra – preciso respirar –

Saio de lá com a sensação de ter visto nas mãos dela algo que lembrasse borboletas e me pareceu ouvi-la cantarolar Raul quando a porta se fechou.
“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…”

Mariana Gouveia – do Divã

o poder encantatório das palavras…

silent_cradle_by_nataliadrepina-dbs46s3
um poeta iluminando o canto
poente da sala

uma chuva miudinha musical
em papel pardo nos teus dedos

um tecto lunar no centro de todos os nossos dias

e cá dentro o desalinho da alma

Ana Christelo
*imagem : Natalia Deprina.