Open

Aberto

Fechar a loja, para que o amor, se um dia vier, tenha como resposta isto, de um vizinho:
“Loja? Olhe, eu moro aqui há dez anos e não me lembro de ter visto uma.
Morava aqui um sujeito estranho, que dizem ter virado fantasma.

Raul Drewnick
*imagem: Marta Orlowska

 

Anúncios

6 on 6 — Serendipity

Quando esse tema chegou até a mim, fiquei a imaginar quais seriam os instantes que eu colocaria nas palavras.
O acaso vive me trazendo momentos quase que diários onde meu suspiro vai de encontro ao inesperado.

                                                                                                   ” O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar distraído
O acaso vai me proteger
Enquanto eu andar”
Titãs


Logo nas primeiras horas da manhã, a sorte me chama no amor do pássaro de todo dia que o acaso traz para meu quintal. Chiquinho é a emoção diante do inesperado gesto de pousar em meus dedos… ou sobrevoar meu pescoço em busca do afago nas asas. É como se um elo entre a natureza fizesse o sopro do acaso em minha vida.

Na rua de cima, me deparo com a leveza do ipê, como se beijasse a rua e as calçadas – e ainda nem é tempo deles se despertarem para as flores – que tem no mês de agosto sua florada magistral. Mas quem disse que o acaso não pode ser vivido dentro da rotina?
A extensão da rua, logo depois da casa da esquina, a pétala que cai, o cão que late a espera do meu bom dia – ou do biscoito que trago todo dia para ele – e meu afago em sua cabeça é sinal de confiança.

As múltiplas opções que o acaso me desenha vai desde uma árvore quase morta cheia de pássaros em meio a um trânsito caótico e o dia fechando as portas rumo ao poente e um coração de pedra, com as cicatrizes que a natureza causou logo acima da rua do meio.

O cheiro da garoa – que mais parecia uma chuva fina – caindo sobre a grama me trouxe a serenidade para além dos dias tumultuados e dentro da palavra serendipity, uma visita acalentou o dia.

E como se não bastasse um pouso, a vida de asas faz festas no focinho de quem sempre tem olho mágico diante da vida. Tudo é tão cheio de singularidades que a melodia do vento faz jus à sinfonia do silêncio que impera na alma.

Como Pasteur disse: “O acaso favorece apenas a mente preparada“. Mas para absorver as felizes descobertas ao longo dos dias, devemos ter o entendimento de aceitar o inesperado e reinterpretá-lo com o coração.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019
Participam também desse projeto: Lunna Guedes– Obdúlio Ortega Maria Vitória

das singularidades dos dias

viu o luto nas memórias das caixas vazias
escreveu histórias que ninguém leu…
Desenhou mecanismo para a rota das formigas.
Não dormiu

sonhou com viagens além dos rios e pisou descalça na grama
comeu o verdume das folhas. era ainda criança quando ousou voar

Tatuou a liberdade em asas
nas costas

viu a cura ao alcance dos olhos
falhou nos abraços dados
coloriu o jardim nas sementes plantadas

e a vida se renovou em germinação.

a vida, por um instante é cíclica.
Afinal de contas, os séculos se repetem em consonância com os verbos do passado…
O ponto só é final quando se chega ao fim.

Mariana Gouveia

E aí, me descobri, tua.

 

Ninguém me avisou que ela viria e nem teve como dizer que não dava pra receber.
Já era tanto presença que nem dava pra disfarçar ausência. Ela tomou corredores inteiros em mim. Se fez presente na porta. Eu saía do banho. Toalha e vapor. Minha visão através do olho-mágico. Grande. Tomou conta do que o pensamento buscou. Teu olho me olhando bem de pertinho no buraco que é meu. Intrusa.  – Se deixo entrar, não sai mais – pensei. Eu sabia. Mas abri. E ela não saiu. Reside desde então na minha cama, nos meus lençóis. Em mim. Ela inclusive, toda.

E ela entrou linda. E ficou em pé diante de mim. Pude sentir o cheiro.

A pele macia em tons que me aquece… Os olhos não sei… Desviou o olhar.

Por quê?!

Quis te conhecer.

E assim, invadiu-me inteira. E tudo ficou tão pequeno diante dela. Tudo ganhou proporções de inho, inha. Ela ali, gigante, mãos, toque e meu cantinho, minhas palavrinhas, minha inha… e o que eu ensaiei que diria, se foi em verso e prosa, a música da Bethânia que eu declamaria ficou lá atrás da porta do banheiro.

E eu me perdi… me desmanchei pingos d’águas em toalhas, pequena, pingando, quieta, pronta, quase pronta pra sair e encontrar…ela.

Mas me fala, me fala de ti… Você disse, e suspirou, e se debruçou no parapeito da janela.

Tem que me puxar e encaminhar-me para o seu caminho e eu te mostrei. Moro ali, naquela curva quase laranja em direção a ti. Falei do tempo, de política. De economia. Do meu país.

E eu que disse que a amo 300 anos, procuro as palavras e elas fogem, burburinho escada abaixo. Brincam comigo. Com meu dom da palavra. A moldura de um retrato antigo. Uma flor.

Foi ali que eu calei em você. Aspiro o cheiro. É o mesmo que desenhei noites intensas e o olfato buscava presença num livro, num lenço. E com medo de abrir os olhos e não ser ela ali. Pisco várias vezes até me certificar.

O que eu podia contra a força dos clichês, falar do tempo, do calor… Hum?
Contra a surpresa da tua mão pegando a minha e pingando nela um universo de saudade que você mesma provaria por mim, com a sua língua?
Contra esse universo de saudade eu não podia mais nada, a não ser nadar às cegas dentro do mar imenso que se apoderava em mim abrindo a mão, fechando, te vasculhando ao revés, me perdendo as braçadas, mergulhando, submarino humano, sem ar nem escafandro, buscando oxigênio no fio de ar que escapava da tua boca enquanto você balbuciava ah, e ocupava com seu corpo e presença até o espaço da minha existência que já estavam loteados.

Quando a porta se abriu e você pisou no chão da minha vida de borboleta eu estava até o meio de outra vida vinculada à tua vida.

E aí, me descobri, tua.

Mariana Gouveia
*Imagem: Tumblr

Ensaio sobre a origem vermelha da rosa

Estava escrito que eu temeria tuas mãos
O florescimento da tua boca
A suntuosidade dos teus lábios
Tuas raízes atravessando-me o peito
O fogo e a ternura da tua carne
Estava escrito que eu morreria
Muitas mortes em teu cortejo de língua

José de Assis Freitas Filho in Há um poema morto na sala, Pág. 81 Editora UEFS
Imagem : Natália Deprina