342. dos verbos indefinidos

Ainda é a lembrança daquele dia que a resgatei que insiste em dias como esse.. Poderia enumerar o dia a dia – a mudez exata de seis meses, depois que chegou e o latido inesperado depois do gato no telhado – na viagem, as árvores ganhavam a expectativa da chegada. Na chegada, o medo e a insegurança de um lugar desconhecido para ela, mas de oferta para ela  e ela era minha. Parecia que sempre estivera ali. E eu era dela.

Nos olhos, a virtude do amor.
A salvei de uma vida de sofrimento – mentira! – ela salvou – me de uma vida sem a doçura dela.
Cada vez que volto para casa, ela é a espera e a entrega. O abraço longo que causa derruba. O acalanto doce do ficar deitada aos meus pés.
Os anos são contados nos dedos de uma mão. Mas é como se fosse a vida inteira. Como se fosse um reencontro de outras vidas e amor mais humano acontece dentro do olhar de uma branquela canina que se chama Lolla.
O dia em que a encontrei foi o dia que o amor se apresentou para mim nos olhos dela.

Mariana Gouveia
342. dos verbos indefinidos

 

176. da geografia das coisas


Havia um tempo que ele me esperava
e nem ligava se a meteorologia errava a previsão do tempo e nem mesmo se a porteira estava fechada.
Havia um tempo em que o olho dele buscava minha presença no cheiro impregnado nas coisas. Não importava se fazia sol ou frio.
O olho dele era um menino errante na estradinha onde a curva desenhava o riacho.
Mudasse a estação ou as horas do dia, ele era presença de espera.
Mas quando surgiam os dias determinados pelo destino e minha voz ecoava o nome dele através da cerca a alegria fazia morada por ali.
Bastava dar um assovio e toda a traquinagem aparecia em forma de pelos e cor.
Havia um tempo em que nós cruzávamos as cercas em busca dos cogumelos e a floresta era nosso lugar preferido.  Sabíamos que haveria de chegar o dia de partida e que a precisão do amor era apenas a medida da espera.

Mariana Gouveia
176. da geografia das coisas

 

172. da categoria das coisas

 

Costurava a certeza das coisas dentro da memória.
O cheiro invadindo o espaço e a natureza com seus mistérios exalando lembranças da infância.
Era como se uma janela se abrisse e fosse me mostrando cada espaço dos anos vividos.
O cães a farejar no mato o bicho estranho. O banho no rio quase passa dentro do quintal.  O riso manso a festejar estrepolias e a certeza de que os momentos ficam para sempre, como se uma gavetinha ficasse ali, os guardando para quando a saudade bater – ou a viagem me trazer de volta ao aconchego da alma – a gente abrisse e dela saíssem esses momentos que me fez forte até aqui.

Mariana Gouveia
172. da geografia das coisas

118. dos dias aleatórios de Abril

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Definhava nas horas do dia, em frente a casa abandonada da rua lateral. O abandono era costume nas noites em qua fazia sol.
A grama fazia colo para os contos de fadas, escritos nas horas de insônia.
Os sons dos carros e suas buzinas e a cidade silenciosa diante das coisas.
Os jornais contavam histórias que alguém inventou. A sorte é tirada na sorte de quem acreditava em figas.
Alguém tentava adivinhar qual futuro ficou no meu passado. A mão única não pertence na velocidade das coisas…
Tudo se definia dentro da lógica do tempo. Havia um modo solitário de enxergar presença na vida do cão. Quando ela me escreveu, me desenhou na porta errada e eu virei retrato preto e branco na paisagem.

Mariana Gouveia
118. dos dias aleatórios de Abril

3 – Seu perfume são acentos no livro de seu corpo

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Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

Alberto Caeiro, in “O Pastor Amoroso”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Bambina mia,

A solidão abraça as paredes da casa…muitos braços para alcançar os vãos todos
a luz da vidraça enfraquecida pelo gesto da cortina…
O dia tem sua rotina quebrada entre o chuvisco, chuva forte, um sol ardente de meia hora e não fosse pelas histórias que a TV mostra eu nem me tocaria que é Natal. A casa responde em eco minhas perguntas… repete minhas frases lidas em voz alta.
Na casa vizinha o assado começa a ser preparado – posso sentir o aroma dos temperos todos – e a canção de uma dupla sertaneja de mulheres e que está em primeiro lugar nas paradas é repetida ao extremo e vira um mantra insuportável aos meus ouvidos.

As luzes da casa do vizinho lateral brilham em um pisca-pisca incessante. O cheiro do outono mesmo sendo verão vindo do bosque ao lado invade a manhã. O céu é uma aquarela de cores e seus matizes diversos. Lembro-me de um poema e os lilases outonais.
Fico a admirar como os tons mudam rapidamente. O que era agora a pouco já não é mais. Elevo uma prece ao universo e sua magnitude de beleza. Nos fios, os pássaros em seu estado de asas. Parece uma brincadeira o equilíbrio todo.

Anteontem conheci um cão… me seguiu até o ponto de ônibus. Não parecia perdido, nem faminto… apenas queria companhia, eu acho. E hoje ele apareceu no meu portão e parece que me reconhece. Acompanha o menino que entrega pão e que nem é mais menino. Mas não é dele – apenas o segue em alguns dias como se quisesse companhia – e assim vai vivendo livre dentro das ruas do bairro. Acho que vai voltar, já que agora sabe onde moro.

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Assim, começo meu dia na singeleza dos instantes.
Ouço os trovões todos e em seguida a tempestade anunciada chega invadindo esse domingo – lembro-me da promessa de ontem e realmente você esteve presente o dia todo… nas trovoadas, nos pingos da chuva, na leitura dos livros que editou e no cheiro que invade meu lugar e penso em tua rosca e teus aromas de infância – abençoo a chuva e seu estado de graça… Às vezes preciso de vento e ele chega rompendo as cortinas todas…

Algumas palavras traduzem os sons desse dia onde as canções se repetem nas casas vizinhas… as mesmas entre gritos estridentes de alguém que tenta cantar igual a dupla de nome estranho… Desse dia fica o cheiro de minha mãe como se fossem acentos dentro de minha memória. O cabelo preso no alto da cabeça, em tranças, o vestido godê num azul suave – quase céu – era assim que ela se vestia para o dia. Nos outros dias, ela era a índia solta, liberta, descalça e faminta de natureza. Comia de cócoras com as mãos em montinhos que distribuía entre os sete filhos, ali, alinhados em sua volta… Lia os livros – os poucos que tínhamos – a maioria puídos, alguns sem algumas folhas, mas ali em cada página ela criava outra história dentro da história, as fotonovelas que em sua maioria eram de artistas italianos – como tu – cuja história de uma agricultora que perdeu a família e vendia melancia na beira de uma estrada e no dia de Natal conhece o amor de sua vida nunca me saiu da cabeça. Posso descrever cada frase, cada foto… inclusive, o pedaço de melancia cortado quadrado e não em fatias, como costumamos fazer.
A chuva não cessa… faz o dia ficar lento em seu estado de ser. A vida germina no meu quintal.
Penso em proteger os casulos, mas deixo a natureza seguir seu curso e logo teremos asas a bailar por aqui.
Serei mãe de mais seres que voam e é dentro desse aroma de terra molhada que vibro a vida que se refaz em cada canto desse meu lugar, afinal o dia é mesmo para comemorar um nascimento.

Que assim seja!

Bacio…
Mariana

Há dias que nem era preciso anoitecer

Há dias que nem era preciso anoitecerpara que me ampare
vasculho coisas que me levam a você
ou trazem-te até a mim
desenho com dedos
histórias
um sol de pelúcia
dorme no chão

é lua cheia
troco de lugar
com os cães
vou ao quintal
e na hora do ocaso não vi o sol
dormia no chão em forma de pelúcia
e o cão o arrastava

Há dias que nem era preciso anoitecer

Mariana Gouveia