306. das fragilidades secretas

De fora do olho andante, o riso por detrás da loucura… ano após ano eu ia ali, fora da data convencional.
Escrevia cartas póstumas para ela – que poderiam virar livro – em dias da semana alternativos, fugindo ou não da realidade. A foto ostentada em um porta retrato vintage, com data de vinda e de partida.

A vida, tão rasa, resumida em minha rota de desespero em noite de chuva.
As perguntas, que ela, guardada para além do paraíso – como dizia meu pai – não poderia responder.
Sempre pedi um sinal. Uma nuvem, um raio, um vento ou uma ilusão qualquer para acabar com a solidão da alma.
O código decifrado na coluna: 7.D…
As flores oferecidas em um lugar comum a todos. A luz da vela no quintal, perto da pedra de amolar, longe do olho andante do guarda, que conversava com os mortos, enquanto, na noite escura, a borboleta me dava o sinal de acolhida. A vida nascia, apesar das mortes e quando amanhecia tudo era tão normal, diante do olho andante do guarda que me via e fingia que não, além das datas convencionais.

Mariana Gouveia
306. das fragilidades secretas
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94. dos dias aleatórios de Abril

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Não cabia na palma da mão a audácia do voo e o casulo abriu-se…

o som e a briga constante com o silêncio. A vontade absoluta de nada. Vidros partidos na reza silenciosa de agora.
Os estranhos se misturam à paisagem do dia e perdem o nome a medida que o tempo avança. Enquanto caminho, penso no cachorro perdido que nunca mais vi… Na rota da fuga, uma estrela desavisada. O moço da bicicleta perdeu-se na cidade encantada. Mandou postal da nuvem que desenhei de madrugada.
Vem a coragem lavada na calçada sem flores. A mariposa voa em volta do lume da rua de cima. Busca a própria solidão em asas. O pé de frutas socorre o faminto.
A rua ecoa meus passos. Era quase isso no ano que acabou ontem… escrevi duas cartas na memória. Nota mental de quem sufoca o grito.
Tenho fé imensa em quem acaba de nascer com asa na vida.

Mariana Gouveia
94. dos dias aleatórios de Abril

4 – Porque a morte pulsa nas veias da existência e ata minha vida ao bater dos segundos?


“Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,

Medi minha vida em colherinhas de café”

Lunna Guedes

 

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Querida T,

Essa carta era para ter sido escrita ainda em Dezembro, mas os dias ganharam o simbolismo dos relógios e a vida tão ligeira quanto eles se embrenhou dentro das horas e quando dei por mim, já era ano novo, apesar de trazer o gosto do ontem em mim.
Acho que já disse que sou meio avessa a essa coisa de datas – que a maioria usa para mascarar de fato o que se devia fazer todo dia – e assim dou ênfase aos dias que são meus.
Dessas datas detesto os fogos  – apesar dos meus filhos caninos adorarem eles – e não sei porque comemorar qualquer coisa com barulhos a pipocar no céu. Ainda aqui escuto alguns nos arredores. É verdade que Lolla e Yoshi saem correndo para o quintal ao menor sinal chiado de que vai haver o pipoco. Pulam em direção ao alto e latem, como se fosse brincadeira.
A vida aqui no meu quintal renasce nesse primeiro dia do ano… os casulos enfeitam os lugares mais estranhos como se fosse normal gerar vida em um padrão de energia elétrica… mas como aqui nada é normal, acho luxo que a vida se estabeleça onde e quando quer. Mas, assim como viver é lindo, morrer também deveria ser. Ou talvez seja. A morte esteve ligada à mim de diversas maneiras nesse ano que passou. Perdi pessoas incríveis e sei que você também. Porém, como se fosse um peso compensador da saudade ganhei pessoinhas lindas na minha vida e você também…
Vejo risos se desenhando enquanto a família aumenta e se for fazer um balanço esse é o grande segredo da vida. Alegrarmos com o que vem e entristecermos com o que vai.
Aqui, além dos casulos e asas se abrindo no meu lugar, as flores dão sua imensa alegria de existirem…Abrem-se os cravos vindos como sementes do outro lado do oceano… As minhas rosinhas pequenas se projetaram em cachos que mais parece um buquê… também a dama da noite já antecede um botão dentro da expectativa de flor.
Eu presencio milagres todos os dias e é dentro deles que busco a palavra esperança e com essa esperança vivifico a vida.
Agradeço ao Universo por ele me proporcionar o encantamento diante dos fatos e até mesmo a revolta diante de outros… mas a vida é esse constante modificar e dentro disso devemos nos orientar pela presença divina que nos habita.
Sou grata por você em minha vida e mais uma vez meu carinho vai até você em forma de palavras.
Que os dias sejam de renascimentos em sua vida e que em cada  um deles traga a magia do encanto.

Beijos

Mariana Gouveia

3 – Seu perfume são acentos no livro de seu corpo

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Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.

Alberto Caeiro, in “O Pastor Amoroso”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Bambina mia,

A solidão abraça as paredes da casa…muitos braços para alcançar os vãos todos
a luz da vidraça enfraquecida pelo gesto da cortina…
O dia tem sua rotina quebrada entre o chuvisco, chuva forte, um sol ardente de meia hora e não fosse pelas histórias que a TV mostra eu nem me tocaria que é Natal. A casa responde em eco minhas perguntas… repete minhas frases lidas em voz alta.
Na casa vizinha o assado começa a ser preparado – posso sentir o aroma dos temperos todos – e a canção de uma dupla sertaneja de mulheres e que está em primeiro lugar nas paradas é repetida ao extremo e vira um mantra insuportável aos meus ouvidos.

As luzes da casa do vizinho lateral brilham em um pisca-pisca incessante. O cheiro do outono mesmo sendo verão vindo do bosque ao lado invade a manhã. O céu é uma aquarela de cores e seus matizes diversos. Lembro-me de um poema e os lilases outonais.
Fico a admirar como os tons mudam rapidamente. O que era agora a pouco já não é mais. Elevo uma prece ao universo e sua magnitude de beleza. Nos fios, os pássaros em seu estado de asas. Parece uma brincadeira o equilíbrio todo.

Anteontem conheci um cão… me seguiu até o ponto de ônibus. Não parecia perdido, nem faminto… apenas queria companhia, eu acho. E hoje ele apareceu no meu portão e parece que me reconhece. Acompanha o menino que entrega pão e que nem é mais menino. Mas não é dele – apenas o segue em alguns dias como se quisesse companhia – e assim vai vivendo livre dentro das ruas do bairro. Acho que vai voltar, já que agora sabe onde moro.

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Assim, começo meu dia na singeleza dos instantes.
Ouço os trovões todos e em seguida a tempestade anunciada chega invadindo esse domingo – lembro-me da promessa de ontem e realmente você esteve presente o dia todo… nas trovoadas, nos pingos da chuva, na leitura dos livros que editou e no cheiro que invade meu lugar e penso em tua rosca e teus aromas de infância – abençoo a chuva e seu estado de graça… Às vezes preciso de vento e ele chega rompendo as cortinas todas…

Algumas palavras traduzem os sons desse dia onde as canções se repetem nas casas vizinhas… as mesmas entre gritos estridentes de alguém que tenta cantar igual a dupla de nome estranho… Desse dia fica o cheiro de minha mãe como se fossem acentos dentro de minha memória. O cabelo preso no alto da cabeça, em tranças, o vestido godê num azul suave – quase céu – era assim que ela se vestia para o dia. Nos outros dias, ela era a índia solta, liberta, descalça e faminta de natureza. Comia de cócoras com as mãos em montinhos que distribuía entre os sete filhos, ali, alinhados em sua volta… Lia os livros – os poucos que tínhamos – a maioria puídos, alguns sem algumas folhas, mas ali em cada página ela criava outra história dentro da história, as fotonovelas que em sua maioria eram de artistas italianos – como tu – cuja história de uma agricultora que perdeu a família e vendia melancia na beira de uma estrada e no dia de Natal conhece o amor de sua vida nunca me saiu da cabeça. Posso descrever cada frase, cada foto… inclusive, o pedaço de melancia cortado quadrado e não em fatias, como costumamos fazer.
A chuva não cessa… faz o dia ficar lento em seu estado de ser. A vida germina no meu quintal.
Penso em proteger os casulos, mas deixo a natureza seguir seu curso e logo teremos asas a bailar por aqui.
Serei mãe de mais seres que voam e é dentro desse aroma de terra molhada que vibro a vida que se refaz em cada canto desse meu lugar, afinal o dia é mesmo para comemorar um nascimento.

Que assim seja!

Bacio…
Mariana

As borboletas nascem pela manhã

As borboletas nascem pela manhã
As mudanças acontecem no meu quintal. Os frutos amadurecem, casulos aparecem. A natureza prepara o tempo para a transformação.
Agosto sempre foi essa sede constante de chuva – não chove, dizem que há três meses. Parei de contar no vigésimo dia, porque a chuva tem ligação com você.
Escrevo para você como se fosse um diário. Falo das rotinas todas. Apago tudo. Crio tudo de novo. Mudo as coisas de lugar. Invento nomes para falar com você.
A vida se transforma diante dos meus olhos. Você já viu isso acontecer?
Depois de alguns dias, as lagartas seguem seus destinos de asas e se camuflam. Falta pouco para o desejo virar voo no meu lugar.
A aceitação com que o casulo se impõe é lindo de ver. E aos poucos, vai ganhando forma e o intuito é protegê-los dos pássaros e dos cães.
A vigília se evidencia nos dias finais. Aprendi a descobrir quando nascerá a borboleta.
Será amanhã. As borboletas nascem pela manhã que é quando mais dói a saudade.

Mariana Gouveia