236. das impressões do dia seguinte

 

Já não chove como antes. Agosto arde dentro da tarde, enquanto o cerrado respira lentamente a vida e a seiva prepara-se para os frutos e o verde.

Os meus lugares reais me povoa de sensação de magia e os de fugas viram portas onde te procuro.
Caminho entre o seco e o novo. Tenros brotos a brigar com a secura do deserto.
Era ali, amanhã, um dia qualquer. O destino traçado em minha mão de sorte.
A palavra entre nós – surdas que somos – tem a receita da dor. Era de novo o dia da dor e o arder da tarde latejava na pele, o aviso. O braço parado para o aceno e os dias perdidos dentro do calendário.
Era uma vez, assim. Tão tarde. Que arde.

Mariana Gouveia
236. das impressões do dia seguinte
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214. das impressões do dia seguinte

O fogo ardeu dentro do sol. A labareda alcançou o cerrado e a fumaça, o céu.
O boletim do tempo atravessou a meteorologia.  O paraíso tem as chamas dentro das folhas.
Havia o dia de amanhã na espera do beijo. O coração gera a expectativa de canção.
No verso do poema sua mão sobre a minha onde  chuva promete coisas desavisadas que não acontece.
Fala de flores que nascerão no cerrado cinzento e de frutas temporãs de agosto em uma invasão antecipada de outra estação – a chuva da estação era presságio de colheita –  o verbo mudado para o instante seguinte.
A direção errada de uma nação sem coisa nenhuma.
Tudo muda o sentido das coisas quando o arder também invade a alma.

 

Mariana Gouveia
214. das impressões do dia seguinte

190. da autonomia dos voos

Era ali, o meu palato inspirado na sorte, alguém falou sobre as notícias da noite e o dia nem acabara de surgir. As cortinas abrem para a janela lateral enquanto a canção ecoa no quintal.
O vento fresco anuncia a mudança da estação.
Além do muro a esperança era escrita nas paredes pelas crianças.
Queria essa solidão de todos e o exílio das asas levando o vento onde pousava e os pés dourados a procurar segurança.
Minha varanda tem vista para a floresta e as malvas a derramar aromas silvestres no quintal.
Todas as manhãs eu renascia dentro da autópsia de vidas que iam e revivia nos versos que elas me deixavam em relicários de voos que ainda não fiz.

Mariana Gouveia
190. da autonomia dos voos

181. da geografia das coisas

Não foi a mudança na meteorologia que trouxe o vento, nem a estação nova que se aproximou.

Tudo era uma coisa assim quase névoa, pouso.

Havia o propósito de colocar as orações em dia. A solidão é essa invasão dentro da verdade. O homem só, mostra a companhia das coisas. Conhece o vento pelo nome e sabe o dia certo que vai chover e nunca viu a previsão do tempo na TV.

A brisa é tal como a felicidade, é um produto derivado e não vem todo de uma vez.

Para ele é indispensável esse ar, solúvel e palpável.  Para ele, a ave é presságio de sorte. Alguém disse hoje que vai chover e foi de novo o dia da dor.

 

Mariana Gouveia
181. da geografia das coisas

4 – Conduz-me ao precipício onde hibernou a alma

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“Havia duas maneiras de partir: uma era ir embora, outra era enlouquecer”.
Mia Couto

                                                                                                                                     Querido abismo,

Hoje, mais uma vez estou de frente para você, na tentativa do pulo ou da coragem de enfrentá-lo. Você tão desafiador, mais uma vez me oferece colo, espaço e eu, tão cheia de liberdade arrisco essa carta como se pudesse voltar atrás, recontar histórias, recriar recomeços, mudar rumos – sei que não posso – mas posso modificar caminhos a partir daqui.
Você já conhece os telhados por onde em noites seguidas encarei para vigiar o céu e as estrelas – você estava sempre ali, à frente da escada – enquanto eu, fascinada olhava o espaço infinito.

Também já sabe das montanhas que avistei… longas horas a ver sua imensidão e sua cor disfarçadas nas cores das árvores e o verde a convidar para o abraço.

Já te enfrentei algumas vezes… atravessei vales inteiros, desci colinas e senti seu toque a me abraçar. Devo confessar que você é tentador.

Nas noites de insônia, você surgia absoluto, incógnito e tolerante… Única opção madrugada inteira, vigia constante das minhas dores e fraquezas.

Hoje te encaro, olho no olho… sem vacilo, chego mais perto daquilo que me oferece e estendo a mão… quase um toque em seu vento oscilante e convidativo.

Você não sabe, mas me fortalece, com sua presença intrigante, sempre a me entregar a amplitude pela qual sempre lutei e seu nome muitas vezes, vem disfarçado de liberdade.

Você me enxerga normal, com medo e me faz ter coragem sempre que te enfrento. Me lembra todas as vezes que o medo rouba sonhos e me instiga ao pulo…

Me instiga diante de sua presença – você tão gigante – e me oferece a opção de escolher. Posso ir embora e reconhecer meu ponto fraco diante de sua magnitude… Devo dizer que você é o precipício e que a loucura seria minha companheira, se eu permitisse… Que minha alma se esconde dentro de sua palavra, como se buscasse acalanto.

Mas eu não permito e não aceito seu chamado voraz em cada instante que me aproximo de seu espaço, mesmo porque o espaço é meu e sou eu a dona das minhas vontades. Você é apenas uma das coisas que tenho de enfrentar e encarar nesse mundo de cão.

Eu aceito sua presença infinita em mim e nessa hora, me permito ao voo.

Mariana Gouveia
Projeto Missivas de Abril
Scenarium Plural Editora

87. da estação das águas


Os dias marcam o fim da estação. As águas se espaçam e quando chove é mais tranquilo, sem o risco de enchentes.

Hora de cuidar da horta… Tirar as ervas daninhas, visitar os insetos e seus ninhos…

O pai cuida dos arredores do curral… É hora de nascer o bezerro da Estrela.

As sementes que foram plantadas começam a brotar…

O tempo passa mais lento e algumas frutas do pomar já pedem colheita.

Os papagaios começam a se aproximarem para roubar comida do pomar.

O tempo das águas durou o tempo certo para as plantações e mais uma vez fomos abençoados pela natureza…

É a vida tocando nossas almas com toque de mestre.

Mariana Gouveia

87. da estação das águas

84. da estação das águas

Meu pai tocava sanfona e a melodia entrava na alma dele quando abraçava o instrumento. Parecia que era outro homem… Os olhos ganhavam um brilho incomum… Irradiava a luz de algo que ele adorava fazer.

As mãos calejadas da vida dura no campo arrancavam com maestria do acordeon a canção que ele queria. Asa Branca trazia o sertão tão latente no ritmo que ele gostava…

Virava em festa em casa e a dança dominava os aposentos.

A chuva caia e entre uma canção e outra, meu pai admirava a névoa densa na serra.

– Amanhã chove de novo na terra – ele dizia –  neblina na serra…

E mais uma vez, repetia a frase que eu ouvia desde sempre:

” Neblina na serra, chuva na terra… neblina no chão, chuva não…”

Assim, os dias dentro da estação das águas cumpri seu destino de ser amor enquanto a sanfona espalhava seu som pelas mãos dele.

Mariana Gouveia

84. da estação das águas