6 on 6 — minhas noites!

Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas.
Joakim Antonio

DSCF9899.JPG

Confesso que minhas noites são feitas de silêncios. Ou de monólogos intensos pelo quintal.
Quando o sol se prepara para a troca com a lua, minha cidade – que dia 8/04 completa 300 anos – se transforma em silhuetas através das janelas do ônibus.
Aspiro ali, o lugar de fé, também o prédio mais alto da cidade e a respiração acalenta nas sombras o que foi o dia.

DSCF5821.JPG

E dependendo da fase, lá vem ela dominar o decanato e ascendente. Cada tempo tem sua necessidade e ela em sua fase de cheia invoca os deuses e faz o cabelo engrossar e mais uma vez, nessas noites eu relembro as lições do pai.

DSCF8899.JPG

No meu quintal, nas minhas noites, às vezes, a lenda acontece na caixa velha de eternit e o eco se renova perto do pé de vento. Era ali que as histórias eram contadas e é ali que minhas noites são feitas de sopros. O calor, quase sempre, é asfixiante e bem embaixo do pé de ipê o cogumelo arrebenta e a frescura toma conta da alma. É onde aconteço dentro de minha história.

DSCF2591.JPG

Há noites em que ela surge em vírgula e me vejo lunar nas minhas noites. Chamo um nome, lembro do uivo, refaço rituais que aprendi quando criança e sou pura fascinação. O céu ganha minha atenção e conto histórias que nuca esqueci.

DSCF9466.JPG

Nas histórias, o que me envolve é a lua – e na ausência dela minhas noites ficam ocas, vazias – e o céu é meu templo. Realinho os mantras e faço orações para o universo em todas as fases de lua e de quebra, ainda ganho estrelas.

DSCF7058.JPG

E para finalizar, sou colo do pássaro de todo dia que em minhas noites é aconchego para além da alma. Ali, no varal, pouco antes de deitar ele vem em oferta de carinho e poesia.

Sou quase extensão de histórias que se aninham entre si e fazem de mim o que sou hoje: uma insone nas noites sem lua. E como diz um dos meus poetas queridos Joaquim Antônio: “Eu gosto muito das horas despretensiosas. A beleza mora nelas”.

 

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural – 2019 Participam também desse projeto: Lunna Guedes Obdúlio Ortega Maria Vitória

PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6 | O QUE TE INSPIRA?

 É dentro de ti que toda a música é ave.
Eugénio de Andrade

Ave.

A minha principal inspiração vem em primeiro lugar – e os que me acompanham sabem – de asas – das mais diversas significâncias – e de voo, de pouso e ave.
E a ave dona do meu carinho e pensamento se chama Chiquinho e é esse pequeno beija-flor – já com 6 anos, que vive aqui no meu quintal.
Nasceu dentro do meu xaxim de orquídea em uma noite chuvosa e livre, resolveu dividir seus voos entre meus varais, os quintais vizinhos e o ventilador de teto da sala.
A inspiração vem enquanto seus voos rasantes me abraçam.

6 on 6.JPG

“Tenho o tempo das borboletas, uma semana é uma vida
(Graça Carpes)

Toque (borboleta).

 

Cada manhã habita -me a leveza do toque e isso me inspira enquanto o aroma das flores me abraçam. O silêncio traz o vento que pelas asas ecoam… a mão é o pouso de descanso e a poesia muito mais do que as pontas dos dedos.

6 on 6 (2).JPG

“O céu sempre me pareceu
tão masculino
todo azul
e com um deus morando dentro”
Simone Teodoro
Céu do meu lugar

Sempre deixo de esperar o que era espera para ser entrega. O céu do meu lugar é onde a inspiração me ganha. Sou menina – a procurar figuras nas nuvens – que se encanta e com os braços danço entre o azul e o dourado – nas manhãs ou tardes de sol… apenas espaços em branco onde cabe tudo dentro de mim, inclusive, a poesia…

6 on 6-001.JPG

“… mas preciso de magia. Não consigo viver em preto e branco.”
Nietzche

A noite mágica no meu quintal

Quando anoitece, tudo muda de tom e som… O meu quintal ganha ares de magia e nos cantos dos muros, a floresta se torna minha e única. A noite me inspira e pira. A estação na pele.

A pele,na memória e o céu, infinito em sua magia me acolhe.

6 on 6-002.JPG

 

“Chamo o vento.
Para dançar comigo.
Na copa do ipê”.
Dayse Sene

Os ipês da rua de cima

A rua de cima tem a inspiração do portal mágico. É ali que a inspiração mora – feito menina travessa – e corre dentro de mim, como se a liberdade morasse na voz do homem da reciclagem, na terra amarela da rua que o homem do riso fácil varre todo dia. Na rua de cima, os ipês nascem nas manhãs serenas e ganham vida dentro de mim.

6 on 6-004

“Canta o teu encanto que é pra me encantar”.
Los Hermanos

 

Joaninha – encanto

 

Quando se trata de paixão é dela que falo. Em cada canto da casa e do quintal ela está. Mora ali, no botão da rosa, na folha do pé de algodão e na inspiração que vem. Podia dizer que sou lembrada por ela. Que às vezes, um pequeno nada se torna gigante entre a singeleza da cor e no brilho que meus olhos ganham.
Muitas vezes, as inspirações vem de pequenos nadas que se ampliam e ganham contornos de plenitude.
É isso que ofereço – e entrego – me nas palavras – e se diante disso, eu conseguir te tocar, então, tudo terá valido a pena.

6 on 6-005.JPG

Mariana Gouveia
PROJETO FOTOGRAFICO 6 ON 6  | O QUE TE INSPIRA?
EDITORA SCENARIUM PLURAL – 2018
www.scenariumplural.worpress.com

Participam desse projeto: Lunna Guedes, Tatiana Kielberman, Obdúlio Nunes Ortega
e Maria Vitória.

358. dos verbos indefinidos

A vida cabia no instante do dia.
Ela me contava a história da lenda. Em algum canto do mundo, um nascimento mudou a simbologia da fé.
Eu apenas a ouvia e a floresta cabia na invenção de um presépio.
Alguns anos depois, repito o gestual das histórias.
Trago ela para o cheiro do quintal, enquanto no jardim a vida nasce todo dia.

*para todos que me acompanham um Natal repleto de amor e harmonia.

Mariana Gouveia
258. dos verbos indefinidos

297. das infinitudes

 

Abro a porta para um mundo imaginário.
A vida, é esse portal que se abre para a floresta.

O quintal tem os muros derrubados para fluir o vento para além das ruas.
A terra, esse aconchego de umidade de mar nas mãos.

Era silêncio na sintonia da noite.

Os avisos chegavam em ritmos de sonhos. A previsão do tempo exposta nos galhos virados para os lados do sul.
As cartas escritas como se fossem palavras tropicais. Os diários relidos um a um mudando os verbos na estação – chovera ali, onde o outono bate ao pôr do sol – a palavra definida dentro da sede – o frio invadia a brisa mansa da primavera –  e o sentimento ardendo na febre do corpo – era verão em algum canto do mundo – e a floresta absorvia a invenção do ritmo das folhas – e o inverno biologicamente antecipa as vontades de abraço – e o dialeto do rito é o silêncio.

 

Mariana Gouveia
297. das infinitudes

273. Entre uma estação e a primavera

 

Começou a escrever a história pelas mãos dele
– as mesmas que arrancam as ervas do jardim –

a que cuida do jantar me levanta quando acontece dias como esse.

Calçou-me os sapatos e riu. Brincou com as bolinhas da roupa.

Perguntou sobre a estação. Colheu as amoras. Quis receita de geleias.

Cantou desajeitado na sorte da palavra. Sempre era o lugar daqui.

Ligou o rádio. Me olhou com olhos de serenata.

A intimidade contemplada. Desafiou-me ao riso.

Falou da geografia das horas.

– O tempo é o sinal de tudo. Tudo passa.

Mostrou-me o jardim. Era ali a direção da cura.

Fui.

Mariana Gouveia
273. Entre uma estação e a primavera

173. da geografia das coisas

Estou aqui onde me convence ficar e onde todos já sabem onde me encontrar
onde a posição de dona do mundo me abraça e os dedos tocam a natureza das coisas.
Abrigando a geografia instalada nos segredos dos cogumelos.
Aqui onde escuto a sinfonia da floresta e a água do rio manso – que cantava na minha infância – repete o mesmo chuá chuá…

Como se o tempo tivesse composto a mesma melodia em mim.

As explicações que me pedem são de improviso para o que vejo além da janela e a verdade a ecoar no vento que fala com as folhas.
prefiro que a janela abra para o sol entrar, ou que a poesia repita o nome cantado no poema que fala de amor.
Quero a singeleza do ritmo do tempo – que aqui não passa e a todo instante me renasço dentro das lembranças.

Mariana Gouveia
173. da geografia das coisas

170. da geografia das coisas

 

Na hora em que os telhados velhos trazem lembranças da infância e o cheiro do mato se mistura ao orvalho da manhã, permito-me o cansaço, a saudade, o cuidado, o amanhecer.
A permissão para sentir vem da natureza e ela me concedeu a fé.
A memória resgata coisas que a menina dentro da mulher não quer esquecer.
Sabe quando a lembrança aparece em sua mente como se fosse um retrato na parede?
Calcificou em mim como osso na alma. O cogumelo colhido na floresta como se fosse a cura e de novo, dentro do pensamento o conselho do pai para o veneno das coisas bonitas e isso era base para mais um ensinamento.
Teve aquele dia, em que o corte no pé foi o momento certo para mostrar a cura eu chorei uma vida inteira. Ali, como se cada parte do corpo cada átomo do Universo parte de mim.
Quero te dizer que tenho shitake colhido ali, na parte onde a infância mostrava que tudo é o começo, meio e fim
e a poesia acabada de fazer, olho no olho, onde o orvalho cresce na minha própria alma.

Mariana Gouveia
170. da geografia das coisas