358. dos verbos indefinidos

A vida cabia no instante do dia.
Ela me contava a história da lenda. Em algum canto do mundo, um nascimento mudou a simbologia da fé.
Eu apenas a ouvia e a floresta cabia na invenção de um presépio.
Alguns anos depois, repito o gestual das histórias.
Trago ela para o cheiro do quintal, enquanto no jardim a vida nasce todo dia.

*para todos que me acompanham um Natal repleto de amor e harmonia.

Mariana Gouveia
258. dos verbos indefinidos

Anúncios

297. das infinitudes

 

Abro a porta para um mundo imaginário.
A vida, é esse portal que se abre para a floresta.

O quintal tem os muros derrubados para fluir o vento para além das ruas.
A terra, esse aconchego de umidade de mar nas mãos.

Era silêncio na sintonia da noite.

Os avisos chegavam em ritmos de sonhos. A previsão do tempo exposta nos galhos virados para os lados do sul.
As cartas escritas como se fossem palavras tropicais. Os diários relidos um a um mudando os verbos na estação – chovera ali, onde o outono bate ao pôr do sol – a palavra definida dentro da sede – o frio invadia a brisa mansa da primavera –  e o sentimento ardendo na febre do corpo – era verão em algum canto do mundo – e a floresta absorvia a invenção do ritmo das folhas – e o inverno biologicamente antecipa as vontades de abraço – e o dialeto do rito é o silêncio.

 

Mariana Gouveia
297. das infinitudes

273. Entre uma estação e a primavera

 

Começou a escrever a história pelas mãos dele
– as mesmas que arrancam as ervas do jardim –

a que cuida do jantar me levanta quando acontece dias como esse.

Calçou-me os sapatos e riu. Brincou com as bolinhas da roupa.

Perguntou sobre a estação. Colheu as amoras. Quis receita de geleias.

Cantou desajeitado na sorte da palavra. Sempre era o lugar daqui.

Ligou o rádio. Me olhou com olhos de serenata.

A intimidade contemplada. Desafiou-me ao riso.

Falou da geografia das horas.

– O tempo é o sinal de tudo. Tudo passa.

Mostrou-me o jardim. Era ali a direção da cura.

Fui.

Mariana Gouveia
273. Entre uma estação e a primavera

173. da geografia das coisas

Estou aqui onde me convence ficar e onde todos já sabem onde me encontrar
onde a posição de dona do mundo me abraça e os dedos tocam a natureza das coisas.
Abrigando a geografia instalada nos segredos dos cogumelos.
Aqui onde escuto a sinfonia da floresta e a água do rio manso – que cantava na minha infância – repete o mesmo chuá chuá…

Como se o tempo tivesse composto a mesma melodia em mim.

As explicações que me pedem são de improviso para o que vejo além da janela e a verdade a ecoar no vento que fala com as folhas.
prefiro que a janela abra para o sol entrar, ou que a poesia repita o nome cantado no poema que fala de amor.
Quero a singeleza do ritmo do tempo – que aqui não passa e a todo instante me renasço dentro das lembranças.

Mariana Gouveia
173. da geografia das coisas

170. da geografia das coisas

 

Na hora em que os telhados velhos trazem lembranças da infância e o cheiro do mato se mistura ao orvalho da manhã, permito-me o cansaço, a saudade, o cuidado, o amanhecer.
A permissão para sentir vem da natureza e ela me concedeu a fé.
A memória resgata coisas que a menina dentro da mulher não quer esquecer.
Sabe quando a lembrança aparece em sua mente como se fosse um retrato na parede?
Calcificou em mim como osso na alma. O cogumelo colhido na floresta como se fosse a cura e de novo, dentro do pensamento o conselho do pai para o veneno das coisas bonitas e isso era base para mais um ensinamento.
Teve aquele dia, em que o corte no pé foi o momento certo para mostrar a cura eu chorei uma vida inteira. Ali, como se cada parte do corpo cada átomo do Universo parte de mim.
Quero te dizer que tenho shitake colhido ali, na parte onde a infância mostrava que tudo é o começo, meio e fim
e a poesia acabada de fazer, olho no olho, onde o orvalho cresce na minha própria alma.

Mariana Gouveia
170. da geografia das coisas

 

152. da geografia das coisas

Carta ao meu pai aos cuidados do encanto.

Pai,

Cada ano que passa nesse dia, eu visto a melhor roupa e venho ao teu encontro e embora sei que nessa hora você já descansa, estendo minha mão dentro de nossa história.

Acho que vou fazer isso a vida inteira… os caminhos me levam para além de quando eu era criança e você desenhava em palavras os contos que eu lembraria em tantas noites vida afora.

Que luz era aquela que brilhava ao longe? – e você detalhava os monstros com diversos nomes e instigava nossa imaginação com a brincadeira – treinava nossa coragem até a gente perceber o vagalume a bailar e fazer decoração na mata além da horta.

Você me entregou o delírio em uma caixinha disfarçada de cogumelo e nela me fez enxergar a leveza das coisas, o encanto mágico que acontecia a cada instante. O elixir que curava ou matava… a ciência de conhecer a melodia da floresta a nos indicar onde era o lugar seguro, como conseguir água ou simplesmente para parar em uma clareira e sentir a sintonia única com o universo.

Nas coisas miúdas você me mostrou a grandeza e o cheiro a preencher a memória com toques e suavidade.

O tempo passa e seu dia é muito além desse 1º de junho de todos os anos.
As músicas que você me ensinou a cantar e as lembranças a misturar épocas dentro de mim.

(Escrevo para você essa carta para que a irmã mais velha trate de ler para você amanhã… Mais uma vez, o rádio falará de seu nome em uma carta de amor e saberá que eu te amo todos os dias. Às vezes, acho que nunca soube escrever sobre você. O que faço é apenas retratar o sentido que você escreveu em minha história e que enumero como memórias):

Memória 1:

Era um ritual da madrugada e o cheiro do café a invadir os quartos… o rádio ligado no programa madrugador e o barulho do gado no curral… o leite tirado diretamente na caneca e a sensação de céu na boca… Esse era o tempo das minhas primeiras recordações.

Memória 2:

As noites em minha vida eram de encantamentos – ainda são – enquanto os dias eram feitos de ensinamentos, as noites eram de retratar a vivência do dia. Lembra de como o cheiro do arroz maduro na roça invadia cada canto do quintal e ao redor da fogueira a gente cantava as músicas do santo?

O cheiro do chá de canela – feito com as folhas tiradas logo ali, da arvorezinha mágica que soltava a casca em pedaços de pau que cheirava a encanto – mais uma vez… e a batata assada na fogueira e o sabor ainda me dá água na boca.

A reza ensinada ali mesmo, ao lado da fogueira, enquanto você nos ensinava sobre a fé.
O conto de fadas declamado em sua voz, com os ecos e assovios e a fada invisível, nossa madrinha.

Memória 3:

Estava nervosa e falava do meu primeiro amor… seus olhos apreensivos entre a resignação e o medo.
– a minha inquietação dos 14 anos e você lá, a desenhar as regras sobre o que podia ou não. E o medo de te desiludir – que continua comigo. E seu jeito de mãe – e a perda a doer a alma.

Memória 4:

Havia o amor que escolhi e o vestido era simples e dentro de nós, a festa desenhada lá atrás, quando nasci e você fala de borboletas para mim enquanto a juíza me pede para dizer o Sim e você ali, do lado direito, com o olho de amor e benção. E me cede em proteção a outro homem e percebe que a minha paz foi aceita e acolhida.

Memória 5:

Sabe que as memórias, todas elas se misturam nessa noite e em todo esse tempo, em minha solidão, na ardência das horas, eu sempre te chamo. A segurança do teu colo e a densidade de sua presença – mesmo tão longe – quase um menino, ainda é meu porto seguro. Você me ensinou coisas miúdas, cheia de delicadezas e me fez grande aos seus olhos.

Você que me deu a liberdade de uma vida toda e me deu asas no seu amor rotineiro e cuidados onde me prendia às regras e mesmo sem perceber, cada um de nós as seguia… Porque todo mundo precisa de direção, de um guia e você me deu…
Exemplo vivo e real de caráter, força e fé. Porque cada lembrança é como se fosse um casulo a criar mudanças… e como se o que for pequeno crescesse e com isso, na amplitude do querer é a única coisa que ainda me faz voar)

Feliz Aniversário, pai!

Mariana Gouveia
152. da geografia das coisas

 

140. dos dias diferentes dos outros dias

140. dos dias diferentes dos outros dias.jpg

Não se pode dar alforria para quem já nasceu livre.
A menina que fazia flores desenhou rastros no meu quintal. Cantou canções que falava de borboletas.
Quis espantar o dragão que comia em minha mão.
À noite, os monstros são gigantes – as silhuetas das mãos criam fantasmas na sombra – e invadem a porta dos fundos.
Chove em algum lugar do planeta e os cogumelos nascem no jardim do vizinho.
A liberdade é declamada em versos e a menina se faz princesa nos contos de fada.
O caminho é logo ali, na esquina que se dobra entre o lugar de fé e a estação paraíso.
Em algumas noites, o efeito é alucinógeno quando se bebe água.

Mariana Gouveia
140. dos dias diferentes dos outros dias