152. da geografia das coisas

Carta ao meu pai aos cuidados do encanto.

Pai,

Cada ano que passa nesse dia, eu visto a melhor roupa e venho ao teu encontro e embora sei que nessa hora você já descansa, estendo minha mão dentro de nossa história.

Acho que vou fazer isso a vida inteira… os caminhos me levam para além de quando eu era criança e você desenhava em palavras os contos que eu lembraria em tantas noites vida afora.

Que luz era aquela que brilhava ao longe? – e você detalhava os monstros com diversos nomes e instigava nossa imaginação com a brincadeira – treinava nossa coragem até a gente perceber o vagalume a bailar e fazer decoração na mata além da horta.

Você me entregou o delírio em uma caixinha disfarçada de cogumelo e nela me fez enxergar a leveza das coisas, o encanto mágico que acontecia a cada instante. O elixir que curava ou matava… a ciência de conhecer a melodia da floresta a nos indicar onde era o lugar seguro, como conseguir água ou simplesmente para parar em uma clareira e sentir a sintonia única com o universo.

Nas coisas miúdas você me mostrou a grandeza e o cheiro a preencher a memória com toques e suavidade.

O tempo passa e seu dia é muito além desse 1º de junho de todos os anos.
As músicas que você me ensinou a cantar e as lembranças a misturar épocas dentro de mim.

(Escrevo para você essa carta para que a irmã mais velha trate de ler para você amanhã… Mais uma vez, o rádio falará de seu nome em uma carta de amor e saberá que eu te amo todos os dias. Às vezes, acho que nunca soube escrever sobre você. O que faço é apenas retratar o sentido que você escreveu em minha história e que enumero como memórias):

Memória 1:

Era um ritual da madrugada e o cheiro do café a invadir os quartos… o rádio ligado no programa madrugador e o barulho do gado no curral… o leite tirado diretamente na caneca e a sensação de céu na boca… Esse era o tempo das minhas primeiras recordações.

Memória 2:

As noites em minha vida eram de encantamentos – ainda são – enquanto os dias eram feitos de ensinamentos, as noites eram de retratar a vivência do dia. Lembra de como o cheiro do arroz maduro na roça invadia cada canto do quintal e ao redor da fogueira a gente cantava as músicas do santo?

O cheiro do chá de canela – feito com as folhas tiradas logo ali, da arvorezinha mágica que soltava a casca em pedaços de pau que cheirava a encanto – mais uma vez… e a batata assada na fogueira e o sabor ainda me dá água na boca.

A reza ensinada ali mesmo, ao lado da fogueira, enquanto você nos ensinava sobre a fé.
O conto de fadas declamado em sua voz, com os ecos e assovios e a fada invisível, nossa madrinha.

Memória 3:

Estava nervosa e falava do meu primeiro amor… seus olhos apreensivos entre a resignação e o medo.
– a minha inquietação dos 14 anos e você lá, a desenhar as regras sobre o que podia ou não. E o medo de te desiludir – que continua comigo. E seu jeito de mãe – e a perda a doer a alma.

Memória 4:

Havia o amor que escolhi e o vestido era simples e dentro de nós, a festa desenhada lá atrás, quando nasci e você fala de borboletas para mim enquanto a juíza me pede para dizer o Sim e você ali, do lado direito, com o olho de amor e benção. E me cede em proteção a outro homem e percebe que a minha paz foi aceita e acolhida.

Memória 5:

Sabe que as memórias, todas elas se misturam nessa noite e em todo esse tempo, em minha solidão, na ardência das horas, eu sempre te chamo. A segurança do teu colo e a densidade de sua presença – mesmo tão longe – quase um menino, ainda é meu porto seguro. Você me ensinou coisas miúdas, cheia de delicadezas e me fez grande aos seus olhos.

Você que me deu a liberdade de uma vida toda e me deu asas no seu amor rotineiro e cuidados onde me prendia às regras e mesmo sem perceber, cada um de nós as seguia… Porque todo mundo precisa de direção, de um guia e você me deu…
Exemplo vivo e real de caráter, força e fé. Porque cada lembrança é como se fosse um casulo a criar mudanças… e como se o que for pequeno crescesse e com isso, na amplitude do querer é a única coisa que ainda me faz voar)

Feliz Aniversário, pai!

Mariana Gouveia
152. da geografia das coisas

 

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140. dos dias diferentes dos outros dias

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Não se pode dar alforria para quem já nasceu livre.
A menina que fazia flores desenhou rastros no meu quintal. Cantou canções que falava de borboletas.
Quis espantar o dragão que comia em minha mão.
À noite, os monstros são gigantes – as silhuetas das mãos criam fantasmas na sombra – e invadem a porta dos fundos.
Chove em algum lugar do planeta e os cogumelos nascem no jardim do vizinho.
A liberdade é declamada em versos e a menina se faz princesa nos contos de fada.
O caminho é logo ali, na esquina que se dobra entre o lugar de fé e a estação paraíso.
Em algumas noites, o efeito é alucinógeno quando se bebe água.

Mariana Gouveia
140. dos dias diferentes dos outros dias

 

83. da estação das águas

As chuvas iam diminuindo a medida que a estação caminhava. Era uma preparação da natureza para o equilíbrio das coisas.

O sol demorava mais tempo no dia e às vezes, nem chovia.

O chão molhado enfeitava a singeleza do capim… O cogumelo era o adorno que a vida oferecia. Parecia o sorvete decorado que a gente via na propaganda da Revista e a gente comparava com o sabor do bolo de coco que a mãe fazia para o chá da tarde.

“Cuidado com as vontades tolas – a mãe dizia, ou mesmo a bá – elas podem envenenar o corpo ou a alma..”

Aprendi a reconhecer aos poucos os venenosos e me recordava sempre da frase repetida infinitas vezes – o que cura também pode matar – e isso me livrou de algumas enrascadas…

Aconteceu de uma vez cortar o pé em um pedaço de vidro jogado contra uma árvore por um dos irmãos. O corte imenso foi estancado, limpo e nele foi colocado o pó do cogumelo colhido logo além do quintal… No dia seguinte, já não havia resquícios de dores, nem de infecção.

Mas a lição ficara para a vida toda sobre o poder da cura e de como a natureza nos envolvia dentro de sua oferta.

Mariana Gouveia

83. da estação das águas

 

70.da estação das águas

70. da estação das águas

no dia seguinte, depois da chuva, saíamos para procurar cogumelos.

A mata ficava logo depois da curva que dava para o rio e por causa das chuvas, era o lugar propício para eles… Íamos sempre acompanhados da nossa bá – que sabia qual era o venenoso e o que podíamos comer – e ali, aprendíamos sobre o que matava e o que curava.

Ela tinha o dom da magia nas mãos e aquele jeito de bruxa e mãe.

Falava da folha que tirava dor… da árvore que continha água, caso ficávamos presos algum dia em alguma floresta do mundo e sentisse sede e não encontrasse o caminho do rio – vai saber! – e como recolher água de chuva na floresta…

– Sabia que há uma fruta pão na mata? E que algumas frutas matam em segundos?

Estar ali, era como se estivesse dentro de um livro e a figura principal a desenhar histórias dentro da gente.

Mariana Gouveia
70. da estação das águas

31. dos rituais

31-dos-rituais

O guarda chuvas não continha o equilíbrio do vento, quebrou na esquina de cima, antes mesmo que a chuva passasse.
A água escorria do céu feito afagos.

A solidão é mesmo feita de horas vazias.

Uma mulher me contou uma história do pai – vi a emoção dentro dos olhos dela –
O pai, sempre deixava para ela e os irmãos, um pouco da comida da marmita. Dava uma colher para cada, só porque eles gostavam.

O olho do pai brilhava vendo a comida ser compartilhada entre os filhos.
Dentro dos olhos dela o céu brilhava de azul e chovia.

A voz embargou na lembrança.

Tão perto, ali, a revelar memórias. Tão longe, ali, a viver dentro delas.
Não foi preciso abraçá-la… o gesto continha o abraço.
Mariana Gouveia
31. dos Rituais