331. das fragilidades secretas

Os olhos de ver embaçados pelas cortinas tênues que as nuvens oferecem.
A vida é essa coisa insana que vem com notícia de morte.
As perdas se juntas em conchas nas mãos – enquanto outra vida, logo ali, ri nos braços – e as lembranças surgem como se puxadas por um fio.
A iluminura do dia, o  irmão e seu estado de pensar, com o capim no canto da boca a mastigar poesias.
O ar que falta dentro dos passos. A ave de ontem a anunciar que os sinais se repetem.
A crença da mãe a desenhar histórias no olho da ave.
Acatava o aviso, mas não partilhava da mesma ideia. Sabia que a morte que acontecia – e o acaso sempre fazia uma coruja aparecer nos arredores – era porque tinha de ser e que era inerente ao pássaro.
Os olhos embaçados pelas cortinas que acolhem o afago…
A vida, é esse estado grandioso que se chama hoje.
Viva – o!
Mariana Gouveia
331. das fragilidades secretas
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330. das fragilidades secretas

Houve sol.em tudo que é canto no quintal, caminhou pelas ruas como quem busca sossego. Era rubro o silêncio da tarde e antecedia a ave,  Podia ser um nome, uma lembrança. O medo que a mãe tinha da ave – que segunda ela trazia mau agouro – e a tarde a findar em tons laranjas para o lado do sul.
A rua que antecede a curva do campo. O olho fixo no passado buscando alternativas de cura.

A história contada mil vezes na rua de cima. O vento branco a espalhar o cheiro do capim verde, a atrair lembranças.
Já não é o branco na parede e a cadeira ali, inanimada diante da janela e a mãe…
Tudo era esse jeito da ave que trazia nos olhos a sabedoria e no olho da mãe, a crença;
Mariana Gouveia
330. das fragilidades secretas

272. Entre uma estação e a primavera

 

A previsão se corrompeu com o tempo. Havia uma nuvem de poeira dentro do vento. Solitária, a ave que a trazia nas asas a lenda de agouro tinha o abismo do amanhã dentro dos olhos. Era a estação das flores misturadas dentro de outra estação.
relembrou histórias da infância. Viajou nos dias e suspirou.
Era criança e ouvia a mãe contar sobre os telegramas que chegavam, logo depois que avistavam a ave no toco, no tronco de madeira da porteira, no telhado…

Tudo era culpa da ave – coitada – que apenas cumpria seu destino de voar.
Acontecia de que, por acaso, o aparecimento da ave se dar por ocasião dessas notícias ruins que o carteiro trazia num envelope estranho, diferente dos normais.
A notícia da morte do avô veio em um desses que trazia códigos e letras e depois disso, a mãe viveu em luto por anos a fio. A perda do tio querido e o acidente que levara a vida de pessoas que ela nem conhecia – e a mãe amava –  e que por isso se trancou no quarto e começou a maldizer a ave, que estivera pela manhã por ali.
Para ela, a culpa era do carteiro que surgia na estradinha que fazia curva ao lado do rio, com sua farda amarela e azul. Pensou em escrever uma carta pedindo para que ele não trouxesse mais esses envelopes, fora das cartas que aguardava com a ansiedade de quem esperava uma vida.
Hoje, lembrou -se do agouro da ave, logo quando, por fim, o ônibus e sua curva lhe fez ver a ave posta, solitária. O olho atento ao que nem era exato. O sangue a fluir dentro da veia.
Relembrou as estações misturadas dentro do dia. A urbanidade dos pássaros que logo pela manhã cantam no telhado das casas vizinhas e nos envelopes dos telegramas que nunca mais viu. E no olhar da menina que a fixou com o olhar de espanto e a chamou de bruxa.
Mariana Gouveia
272. Entre uma estação e a primavera

180. da geografia das coisas

 

Quando ia imaginou o caminho da volta. A ave da sabedoria desenhou a rota em seu voo.

Virou o corpo para ver o mundo de pernas para o ar. Viu pirueta no riso das crianças. O cão que gosta da rua escala o muro em sua fuga. Tudo é rota enquanto explicou o sentido da asa. Contei histórias de princesas para quem já é uma – três já são – e as outras cabiam dentro do abraço.

A chaleira apita quando a água aquece e o cheiro do chá invade os quintais.

Às vezes, aqui, a terra se contorce debaixo dos pés; dizem que há um epicentro uns tantos de mil metros abaixo… e eu fico a pensar que a terra também sinta tremura e se a ave voará assim que sentir o tremor. Invento outra história enquanto a xícara pousa em um pires – elas, as meninas não se impressionam – fazem parte do conto de fadas ou não sabiam?
Digo que a Branca de Neve nasceu Maria  e que o brigadeiro tem a cor doce da Manu…

E a princesinha tem uma pulginha no riso da Bianca.
Crio o vento para falar outra vez de asas. Penso de novo no que faz tremer o chão e se a terra também agita, vale a pena ensaiar o destino de voos e preparar o corpo e a mente para prevenir os ritmos sísmicos das histórias.
As meninas voam dançando.

 

Mariana Gouveia
180. da geografia das coisas