Parabéns,Cuiabá!

Parabens,Cuiabá

Amar você virou rotina. Dessas rotinas comuns de espiar você além da janela e do meu quintal. Do céu que vejo amanhecer em tons laranja e da vida que começa em ti em cada manhã.

Amar você gera conflito, porque você mudou tanto.

Antigamente, te amar era tranquilo. Eu podia te abraçar dali da calçada e meus olhos te alcançavam na leveza do vento que batia nas folhas da mangueira que me traziam sombra e aconchego.

Eu não entendo mais teus modos e talvez você me diga que é isso que me encanta. Que é ali que esconde tua beleza. Que teus lugares são feitos para mim, que é em ti que eu me encontro. Encontro-me nas tuas esquinas onde corri, onde brinquei. Nos muros onde rabisquei meus primeiros poemas de amor.

Amor que falava de sua cor, do fruto doce que como presente você derramava no meu quintal. Do sol abrasador que me aquecia e que eu insatisfeita, sempre, reclamava.

Eu sempre te amei. Desde quando as tuas ruas se abriram pra mim me envolvendo com as folhagens das palmeiras que te ladeava. E eu, menina, corria solta pela vida em você. E sonhava com você dominando o mundo, senhora de si, com tuas cores redesenhando o amor que eu sentia por ti. Depois teu colorido foi se tornando cinza e tuas possibilidades de cores enfeitavam minha vida.

Me vestia de chita, te vestia de chita. Te cantava nas canções de amor. Te enchia de poesias pelas vielas. Serenava para você nas madrugadas frias. Umedecia nas tardes de calor.

Reclamava, reclamava e ainda assim, longe de ti, queria existir em você.

Sempre amei caminhar nas tuas rotas, desvendar as teus lugares secretos, comer e beber de ti, na essência pura de tua alma. Eu sei que tudo isto está aqui ainda, mas aquela menina que aprendeu a desvendar o amor que sentia por ti, cresceu. E o amor… esse amor infinito por você cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que em ti, se torna especial.

Com o tempo, me transformei arrogante pelo simples fato de te possuir, porque te queria a melhor.

Eu andei por aí, e nos becos, descobri que tua força não é mais a ingenuidade de menina. Você cresceu. Tomou proporção de gigante e  teu tamanho é efêmero porque ainda guarda a singeleza do teu linguajar, se tornou maior do que podia aguentar e ainda assim permanece intacta na simplicidade.

Já fui pra outros lugares,  outros amores… Eu sempre voltei para você, por vezes insatisfeita, mas com aquela sensação única de que só a ti eu poderia chamar de lar. Meu porto seguro.

Ali, entre a ponte que dividia lugares, onde guarda meus desejos mais secretos e que para ninguém descobrir você os levou pra água mansa do rio. Aqui, debaixo de teu ipê florido e nas calçadas onde cresci sentindo aroma doce do cerrado.

Busco justificativas para aquilo que eu sinto, sendo de verdade, o amor.

Ainda me encanta a tua diversidade, os teus mil jeitos e lugares que me acalma.

A mansidão com que me abraça, mas eu odeio a tua falta de regras, a tua desigualdade, a tua falta de respeito, de solidariedade.

Pode ser que eu me engane ao ver nascer uma flor debaixo de tanto concreto, onde as escadarias me leve aos lugares de fé. De tua fé e do acreditar que é possível que você continue a mesma e  mude.  Que os encantos aconteçam nas manhãs em que vejo pássaros tão variados voando no teu céu cinzento e pense que você ainda é a menina simples que me encantou.

Eu te amo e te odeio, mas não te deixo, porque você sempre coloca em meu caminho uma descoberta que me conduz para lugares lindos, pessoas inesperadas, histórias de contos de fadas e que estampa em tuas praças a esperança.

A esperança do amanhã. Um amanhã novo que se desenha e sem medo de ser feliz eu te abraço. Te abraço e nesse teu renovar de dias eu me derramo de amor pra você.

Enfim, sabe como despertar em mim a cada dia um novo sentimento que me direciona, invariavelmente, a ti, Cuiabá.

Parabéns pelos seus 300 anos, Cuiabá, meu amor.

Mariana Gouveia

goiana, cidadã cuiabana desde sempre, mas  desde 2009 cidadã orgulhosamente cuiabana e irremediavelmente apaixonada por Cuiabá.

6 on 6 – Outono

Carta à Cuiabá aos cuidados do outono

Cuiabá querida!

Queria dizer que já não tenho mais palavras para dizer para você que suas ruas na primavera tem um quê do seu próprio nome… mas, em seus 299 anos é no outono que te concedo um olhar melhor.

Você se transforma em uma cidade dourada, com o cheiro das folhas a espalhar o aroma da estação.

O outono, esse menino travesso que veio brincar no meu quintal e seu céu roubam de mim os suspiros e tão senhor de si, o sol de todo dia se modifica em cada fim de tarde.

Nunca o mesmo, nunca igual, sempre solene e as nuvens se embelezam ainda mais para mostrar para todos a magia da estação.

Ah, Cuiabá! De cidade verde você se põe dourada e enche de encantos quem vive aqui.
Nas tardes amenas sua cor se intensifica como se quisesse mostrar que no outono sua dimensão de cidade grande amplia.
A moça que lê a previsão do tempo cita seu nome e fala da possibilidade do tempo dourar – ou sou eu quem te faço mágica na brisa leve que meus olhos alcançam para além da janela.

Suas aves no voo te faz tão menina… E para mim, suas calçadas me acolhem em cada canto que vou.

Tão gigante, etérea e tão senhora de si.
Tão bravia e ao mesmo tempo acolhedora com seu povo hospitaleiro.

Cheia de falhas é completa de fé.

Te escrever, quase às vésperas de seus 299 anos na mansidão dos seus quintais
me faz refletir que já sou parte sua e levo seu nome por onde for…
Mas é dentro da estação que cobre seus dias que declaro meu amor.
Feliz idade, Felicidades, Feliz cidade, Cuiabá!
Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural

Participam desse projeto:
Maria Vitória
estranhamente

Obdulio Nunes Ortega
blogue serial ser
Lunna Guedes
Catarina voltou a escrever

Projeto fotográfico 6 on 6: a minha cidade

 

 

 

“… eu tive que nascer pra vida da cidade. Não a vida social, mas a vida da cidade e de seus cantos esquecidos. O lixo do lixo. Eu me perdia pela cidade, anônima, e esse anonimato era um vício. Eu não ter meu nome me absolvia de tudo. Eu me embebedava do desejo cego por qualquer um… E assim, eu me iniciei na solidão coletiva dos que não têm nada a perder. Mas, talvez, eu tenha até mais que os outros a tentação de corresponder ao bem. Uma tentação tão grande e absoluta, um desejo de corresponder de forma tão total, que paradoxalmente me tornou e me torna escrava cega de minha escuridão. E quando essa escuridão me possui, eu até a confundo com uma espécie de bem-aventurança.”
Fauzi Arap

Quando Lunna me enviou o tema eu derramei meus olhos por Cuiabá. Deixei-me levar pelo lugar que me acolheu e me abraça.
A minha cidade me conhece completa. Humana, explosiva,  delirante…
As ruas conhecem minhas lágrimas, meu riso e é cúmplice de minhas dores.
Com ela, sou solar. Iluminante.

 

Cuiabá com seu sol e seu calor escaldante é abraçada pelo rio que tem o seu nome.

É noite, ocaso e o céu é o pano de fundo de minhas aventuras. Das noites onde ele se enfeita de estrelas e para muitos passa despercebido. É minha rota de fuga para a inspiração e calma.

Minha cidade é também antiga. Colonial e mágica.  As ruas guardam as memórias onde os vizinhos sentam na calçada para contar os causos.

Os lugares se enfeitam para receber as pessoas. Se veste de chita, se perfuma com as flores dos ipés. Decora-se com o diamante das águas e se liberta com o verde que rodeia seus quintais.

É dourada e reflete em seus rios e lagos. É verde e frutifica nos quintais com seus frutos. Se perfuma com suas flores e seus jardins se tornam ponto de amor.

Senhora de si é bela e única. É ribeirinha e concreta.

Sempre amei caminhar rotas que traço, desvendar os  lugares secretos, comer e beber  os prato típicos, Caminhar na fé, essência pura onde encontro a paz e o amor… esse amor infinito que cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que a torna especial.
Seis fotos não conseguem retratar a essência e nem mostrar a beleza, mas em cada retrato revelo meu amor por Cuiabá.

 

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural.
Participam desse desafio:
Frasco de Memória e Catarina Voltou a escrever

98. dos dias aleatórios de Abril

98. dos dias aleatórios de Abril

Cuiabá vai além das palavras quando amanheço… Suas rotinas entre as ruas que atravessou… O pão, em algumas janelas – ainda – leva meu pensamento para a minha meninice.
O jornaleiro que agora usa uma moto cresceu. Virou homem, o menino.
As árvores se eternizam nos quintais.
Outras, perdem espaço para o novo.
Cuiabá incendeia os dias em seu calor habitual ao mesmo tempo que aconchega aos que aqui chegam.
É ponto de partida e de chegada. É novo e velho junto, mostrando uma senhora que teve de se adaptar ao tempo.
O moderno se aliando ao antigo…
Um precisando do outro para se encontrar.
Cuiabá me viu feliz, me viu chorosa, me viu sonhar.
Me acolheu em suas ruas onde a poesia caminha ao meu lado.
A cidade me dá a magia dos seus amanheceres… me oferece colo em suas paisagens que se renovam a cada dia.
Tudo é novo todo dia.
Tudo é o que já era dentro do que posso explicar.
Em seus 298 anos, Cuiabá é esse braço aberto para te abraçar.

Parabéns, Cuiabá!

Mariana Gouveia
98. dos dias aleatórios de Abril

57. das palavras das cartas

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Escrevo-te para contar sobre o eclipse solar anular. Isso mexe com todo o jardim, embora muita gente acha que não. O dia amanheceu nublado e só depois que ele surgiu radiante, com seu anel dourado a “noivar” o sol e a lua.
Quando na minha infância acontecia um fenômeno assim, meu pai dizia que era a força da natureza dando sinais.
– Influencia a chuva durante o ano – devia chover menos depois do meio do ano – o inverno será mais rigoroso – Vai ser mais quente o verão – e rogava a Deus para que o Universo fosse complacente com a colheita.

Foi um dia quente e a brisa morna aumentou ansiedade das horas.
Coube voos de pássaros no quintal. As nuvens formavam figuras engraçadas.

É engraçado dizer que é carnaval. As canções que tocaram nas casas vizinhas eram as mesmas de sempre, embora o ritmo tenha mudado e a altura do som também.

Revirei a terra das plantas, mudei algumas de lugar. E fiquei em silêncio diante do vento.
Às vezes, é preciso reequilibrar as vontades.
Tentei descobrir nas cartas a resposta, já que não consigo decifrar o aro do eclipse.

Alguém me envia a poesia de Pessoa e lá está a resposta que é para esperar.
Mariana Gouveia
57. das palavras das cartas

54. das palavras das cartas

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Havia um céu dourado quando amanheceu. A vida por um instante parecia laranja.
Parece até que o céu está em festa. E devia estar… Descobriram sete exoplanetas no espaço. Eu descobri uma flor nova que se abriu e a manhã era desenhada a lápis.

Escrevi palavras no ar… coube no horizonte suspiros de encantamento quando acordei.

Falei sobre o tempo com as meninas que sempre me acompanham na rota do trabalho. Falaram da chuva que cairia segundo a previsão do tempo.
O mapa visto colorido fica tão bonito.

Pensei em quantas palavras você diria.
Senti fome dessas palavras e das coisas que a manhã trazia em outros tempos. Desejei viajar nas histórias que você me contou e caminhar pelas calçadas segurando suas mãos. Tem dias que o sonho beira a realidade.

Tive de viver o caos dentro das horas e cantei para o vento, você.

Mariana Gouveia
54. das palavras das cartas

17. dos rituais da noite

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Conhecia os barulhos da noite e seus silêncios também.
Ouvia os pássaros noturnos como presságios de insônia.
A noite tão curta dentro das horas.
As horas tão longas dentro da noite.
Sabia das rotinas do relógio… o tic tac inconstante fora dos minutos.
O ocaso dourando o céu como se pintura fosse. A arte expressa no que os meus olhos veem…
Conhecia os gestos, o barulho da TV
em algum lugar perto.
Conhecia o caminho das horas até o amanhecer.

Mariana Gouveia
17. dos Rituais da noite