6 on 6 – Outono

Carta à Cuiabá aos cuidados do outono

Cuiabá querida!

Queria dizer que já não tenho mais palavras para dizer para você que suas ruas na primavera tem um quê do seu próprio nome… mas, em seus 299 anos é no outono que te concedo um olhar melhor.

Você se transforma em uma cidade dourada, com o cheiro das folhas a espalhar o aroma da estação.

O outono, esse menino travesso que veio brincar no meu quintal e seu céu roubam de mim os suspiros e tão senhor de si, o sol de todo dia se modifica em cada fim de tarde.

Nunca o mesmo, nunca igual, sempre solene e as nuvens se embelezam ainda mais para mostrar para todos a magia da estação.

Ah, Cuiabá! De cidade verde você se põe dourada e enche de encantos quem vive aqui.
Nas tardes amenas sua cor se intensifica como se quisesse mostrar que no outono sua dimensão de cidade grande amplia.
A moça que lê a previsão do tempo cita seu nome e fala da possibilidade do tempo dourar – ou sou eu quem te faço mágica na brisa leve que meus olhos alcançam para além da janela.

Suas aves no voo te faz tão menina… E para mim, suas calçadas me acolhem em cada canto que vou.

Tão gigante, etérea e tão senhora de si.
Tão bravia e ao mesmo tempo acolhedora com seu povo hospitaleiro.

Cheia de falhas é completa de fé.

Te escrever, quase às vésperas de seus 299 anos na mansidão dos seus quintais
me faz refletir que já sou parte sua e levo seu nome por onde for…
Mas é dentro da estação que cobre seus dias que declaro meu amor.
Feliz idade, Felicidades, Feliz cidade, Cuiabá!
Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural

Participam desse projeto:
Maria Vitória
estranhamente

Obdulio Nunes Ortega
blogue serial ser
Lunna Guedes
Catarina voltou a escrever
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Projeto fotográfico 6 on 6: a minha cidade

 

 

 

“… eu tive que nascer pra vida da cidade. Não a vida social, mas a vida da cidade e de seus cantos esquecidos. O lixo do lixo. Eu me perdia pela cidade, anônima, e esse anonimato era um vício. Eu não ter meu nome me absolvia de tudo. Eu me embebedava do desejo cego por qualquer um… E assim, eu me iniciei na solidão coletiva dos que não têm nada a perder. Mas, talvez, eu tenha até mais que os outros a tentação de corresponder ao bem. Uma tentação tão grande e absoluta, um desejo de corresponder de forma tão total, que paradoxalmente me tornou e me torna escrava cega de minha escuridão. E quando essa escuridão me possui, eu até a confundo com uma espécie de bem-aventurança.”
Fauzi Arap

Quando Lunna me enviou o tema eu derramei meus olhos por Cuiabá. Deixei-me levar pelo lugar que me acolheu e me abraça.
A minha cidade me conhece completa. Humana, explosiva,  delirante…
As ruas conhecem minhas lágrimas, meu riso e é cúmplice de minhas dores.
Com ela, sou solar. Iluminante.

 

Cuiabá com seu sol e seu calor escaldante é abraçada pelo rio que tem o seu nome.

É noite, ocaso e o céu é o pano de fundo de minhas aventuras. Das noites onde ele se enfeita de estrelas e para muitos passa despercebido. É minha rota de fuga para a inspiração e calma.

Minha cidade é também antiga. Colonial e mágica.  As ruas guardam as memórias onde os vizinhos sentam na calçada para contar os causos.

Os lugares se enfeitam para receber as pessoas. Se veste de chita, se perfuma com as flores dos ipés. Decora-se com o diamante das águas e se liberta com o verde que rodeia seus quintais.

É dourada e reflete em seus rios e lagos. É verde e frutifica nos quintais com seus frutos. Se perfuma com suas flores e seus jardins se tornam ponto de amor.

Senhora de si é bela e única. É ribeirinha e concreta.

Sempre amei caminhar rotas que traço, desvendar os  lugares secretos, comer e beber  os prato típicos, Caminhar na fé, essência pura onde encontro a paz e o amor… esse amor infinito que cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que a torna especial.
Seis fotos não conseguem retratar a essência e nem mostrar a beleza, mas em cada retrato revelo meu amor por Cuiabá.

 

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural.
Participam desse desafio:
Frasco de Memória e Catarina Voltou a escrever

98. dos dias aleatórios de Abril

98. dos dias aleatórios de Abril

Cuiabá vai além das palavras quando amanheço… Suas rotinas entre as ruas que atravessou… O pão, em algumas janelas – ainda – leva meu pensamento para a minha meninice.
O jornaleiro que agora usa uma moto cresceu. Virou homem, o menino.
As árvores se eternizam nos quintais.
Outras, perdem espaço para o novo.
Cuiabá incendeia os dias em seu calor habitual ao mesmo tempo que aconchega aos que aqui chegam.
É ponto de partida e de chegada. É novo e velho junto, mostrando uma senhora que teve de se adaptar ao tempo.
O moderno se aliando ao antigo…
Um precisando do outro para se encontrar.
Cuiabá me viu feliz, me viu chorosa, me viu sonhar.
Me acolheu em suas ruas onde a poesia caminha ao meu lado.
A cidade me dá a magia dos seus amanheceres… me oferece colo em suas paisagens que se renovam a cada dia.
Tudo é novo todo dia.
Tudo é o que já era dentro do que posso explicar.
Em seus 298 anos, Cuiabá é esse braço aberto para te abraçar.

Parabéns, Cuiabá!

Mariana Gouveia
98. dos dias aleatórios de Abril

57. das palavras das cartas

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Escrevo-te para contar sobre o eclipse solar anular. Isso mexe com todo o jardim, embora muita gente acha que não. O dia amanheceu nublado e só depois que ele surgiu radiante, com seu anel dourado a “noivar” o sol e a lua.
Quando na minha infância acontecia um fenômeno assim, meu pai dizia que era a força da natureza dando sinais.
– Influencia a chuva durante o ano – devia chover menos depois do meio do ano – o inverno será mais rigoroso – Vai ser mais quente o verão – e rogava a Deus para que o Universo fosse complacente com a colheita.

Foi um dia quente e a brisa morna aumentou ansiedade das horas.
Coube voos de pássaros no quintal. As nuvens formavam figuras engraçadas.

É engraçado dizer que é carnaval. As canções que tocaram nas casas vizinhas eram as mesmas de sempre, embora o ritmo tenha mudado e a altura do som também.

Revirei a terra das plantas, mudei algumas de lugar. E fiquei em silêncio diante do vento.
Às vezes, é preciso reequilibrar as vontades.
Tentei descobrir nas cartas a resposta, já que não consigo decifrar o aro do eclipse.

Alguém me envia a poesia de Pessoa e lá está a resposta que é para esperar.
Mariana Gouveia
57. das palavras das cartas

54. das palavras das cartas

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Havia um céu dourado quando amanheceu. A vida por um instante parecia laranja.
Parece até que o céu está em festa. E devia estar… Descobriram sete exoplanetas no espaço. Eu descobri uma flor nova que se abriu e a manhã era desenhada a lápis.

Escrevi palavras no ar… coube no horizonte suspiros de encantamento quando acordei.

Falei sobre o tempo com as meninas que sempre me acompanham na rota do trabalho. Falaram da chuva que cairia segundo a previsão do tempo.
O mapa visto colorido fica tão bonito.

Pensei em quantas palavras você diria.
Senti fome dessas palavras e das coisas que a manhã trazia em outros tempos. Desejei viajar nas histórias que você me contou e caminhar pelas calçadas segurando suas mãos. Tem dias que o sonho beira a realidade.

Tive de viver o caos dentro das horas e cantei para o vento, você.

Mariana Gouveia
54. das palavras das cartas

17. dos rituais da noite

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Conhecia os barulhos da noite e seus silêncios também.
Ouvia os pássaros noturnos como presságios de insônia.
A noite tão curta dentro das horas.
As horas tão longas dentro da noite.
Sabia das rotinas do relógio… o tic tac inconstante fora dos minutos.
O ocaso dourando o céu como se pintura fosse. A arte expressa no que os meus olhos veem…
Conhecia os gestos, o barulho da TV
em algum lugar perto.
Conhecia o caminho das horas até o amanhecer.

Mariana Gouveia
17. dos Rituais da noite

A cidade por trás das palavras…

Sol

A cor dessa cidade sou eu
O canto dessa cidade é meu
(Daniela Mercury)

 
Escrevo- me nas ruas ainda desertas. Um cão late na rua de cima.
É na madruga que as palavras me tinge de cidade.
Nunca sei se sou eu que espio a cidade… ou se é ela que me vigia. Sei apenas que me coloco dentro dela, passo a passo.
O sol vem surgindo – a cidade começa a acordar – e seus raios envolve a vida no meu quintal e dentro de mim.
Quando amanhece de verdade, ela passa a ser dourada. O sol colore as vidraças dos prédios. Queima a pele ou acaricia – depende da visão por trás das ruas, dos muros.
As minhas palavras, às vezes, alcançam as nuvens. É céu de encantos no meu lugar.
Meço o azul até aonde a vista alcança. O ouro do sol e o calor típico dela é como aconchego.
A tarde, as sombras vão se transformando em silhuetas e mais uma vez, minha cidade fica dourada de sol…que beija o rio, as árvores, as casas e minhas palavras.
O lugar de fé inicia seu ritual. O mantra me corrige dentro do agradecer.
É quando as palavras dançam dentro de mim e vão dormir nos arredores da minha cidade.

Mariana Gouveia
Scenarium livros artesanais
Diário das Quatro Estações
Lançamento 27 | 08 | 16 – a partir das 16h
Biblioteca Mário de Andrade
R. da Consolação, 94 – Consolação