82. da estação das águas

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O rádio era nosso elo com o mundo lá fora. Ele nos trazia notícias, diversão, conhecimento e informações. Foi ali, a beira da cantoneira que amparava ele – objeto venerado por pai, mãe e todos nós – que me apaixonei por ele e qualquer coisa na mão funcionava como microfone para uma narração em tempo real do que acontecia ao redor. Fazia a previsão do tempo e em tom de brincadeira narrava a chuva que caia do lado direito enquanto do esquerdo um arco-íris fazia aliança com o céu e o rio.

Minha mãe gostava da rádio novela e os personagens se desenhavam em nossas imaginações. O direito de Nascer marcou presença nessa época. Maria Helena, Albertinho Limonta e a história dramática era acompanhada diariamente.

O rádio nos trazia a magia para dentro da cozinha e nos jargões de cada locutor e sua programação…

” Oiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii, geeeeente!!!”

“Acorda, Dona Maria!”

“Banheeeeira!”

Desde o futebol ao riso… do horóscopo à piada…Das canções do Roberto ao programa de correspondência para onde mandávamos nossas cartas e ganhamos amigos para a vida toda.

Esperar as cartas era a mesma coisa que esperar que o locutor falasse nossos nomes e tocava a canção que pedíamos. Um olhava para o outro e ria como se aquele momento tivesse eternizado dentro do mundo… e estava.

Para nós, o mundo cabia num Semp autêntico   ou se em momentos de chuvas mais fortes, o velho Motor Rádio que pegava até pensamento. Com isso, aprendi o ZYK 963… e ali jurei que um dia caberia dentro das ondas Médias do rádio e coube… Mas isso é uma outra história…

Mariana Gouveia

82. da estação das águas

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81. da estação das águas


Minha mãe adorava fotonovelas. Ficava horas a ler e a explicar o que significava as histórias de amor… Lembro – me que a atriz principal era Claudia Ravelli – italiana – e seu par romântico Franco Gaspari…

Minha história preferida era de uma órfã que trabalhava de vender melancia na beira da estrada para sustentar os irmãos menores e a avó.

Ali, na beira da estrada, ela conheceu o amor de sua vida, um príncipe rico… Da história, o que ficou na memória foi a melancia cortada aos cubinhos para as pessoas experimentarem. O amor aconteceu em um dia chuvoso…

Minha mãe aproveitava os dias de chuva para dar ênfase no tempo – chovia forte como agora – e dentro da leitura vinha junto relatos de sabedoria, respeito e amor.

Quando aprendi a ler, descobri que grande parte do que me lembrava das histórias lidas não era igual ao que eu lia. Só depois compreendi que na verdade, minha mãe usava apenas as imagens para ilustrar o que ela nos queria passar.

A fruta era apenas o pretexto de nos falar de como a natureza era generosa com aqueles que plantavam – e sobre a liberdade de plantar e a obrigação de colher – e de como a sorte podia morar em um dia chuvoso.

Ainda guardei por um tempo as fotonovelas. Perdi a maioria emprestando para amigas. Outras, nas mudanças perderam – se em caixas que molharam em dias de chuva, por causa de goteiras.

As histórias que minha mãe lia ficaram gravadas em mim. Poderia descrever cada frase, cada ensinamento e de como ela nos ensinou o amor.

Mariana Gouveia

81. da estação das águas

80. da estação das águas

Frutas.jpgTeve um dia desse tempo que não choveu. Tiramos os paletós de flanela para ensolarar e fomos todos ver as margens do rio por onde a enchente passou.
O cerrado apresentava-se em festa e estava em plena gestação de frutos. O murici carregadinho e as cores eram das mais variadas. O pé de mangaba quase beijava o chão. Enchíamos as nossas cestas enquanto meu pai repetia da generosidade da natureza, erguendo o chapéu para nos lembrar que a natureza era Deus.

O cheiro chamava a atenção das abelhas e o cajuzinho do cerrado, apesar de ser mais azedo era muito bom para o suco. A marmelada nos lembrava a música do Sítio do Pica Pau Amarelo e entoávamos a canção enquanto descobríamos uma planta nova que nascia.
No banhado, as araras faziam a algazarra de quem estava há um tempo longo sem bater as asas. Era tempo de sol e dia de catar os frutos enquanto a gente podia.
A colheita no fim do dia era imensa e dali saía doces em compotas que minha mãe fazia tão bem para adoçar as nossas vidas.

Mariana Gouveia
80. da estação das águas

79. da estação das águas

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Embora começasse outra estação, e como os livros diziam que começavam o equinócio do outono, para nós ainda era a estação das águas, porque a chuva persistia nos dias e a água tomava conta de todo lugar.

As gotas pareciam brincar com a natureza e a enchente sempre acontecia nas margens onde o rio beijava as matas.

Sabíamos que a natureza cumpria seu papel de estiochuvaestio…

Às vezes, chovia a noite toda e o barulho das gotas a cair no telhado era um convite para o sonho… Em outros dias, a chuva durava dias inteiros e ficávamos presos dentro de casa…
O cheiro do chá a invadir os aposentos… os irmãos a inventar brincadeiras e o céu a derramar bênçãos dentro da presença da estação.
Outono só nos brindaria em instantes nos meses seguintes e só aí, o vento nos beijariam em sopros com a amenidade do tempo
Mariana Gouveia
79. Da estação das águas

79. da estação das águas

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Embora começasse outra estação, e como os livros diziam que começavam o equinócio do outono, para nós ainda era a estação das águas, porque a chuva persistia nos dias e a água tomava conta de todo lugar.

As gotas pareciam brincar com a natureza e a enchente sempre acontecia nas margens onde o rio beijava as matas.

Sabíamos que a natureza cumpria seu papel de estiochuvaestio…

Às vezes, chovia a noite toda e o barulho das gotas a cair no telhado era um convite para o sonho… Em outros dias, a chuva durava dias inteiros e ficávamos presos dentro de casa…
O cheiro do chá a invadir os aposentos… os irmãos a inventar brincadeiras e o céu a derramar bênçãos dentro da presença da estação.
Outono só nos brindaria em instantes nos meses seguintes e só aí, o vento nos beijariam em sopros com a amenidade do tempo
Mariana Gouveia
79. Da estação das águas

78. da estação das águas

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Todos os anos havia o ritual do milho no dia de São José. A escolha das sementes era feita por meu pai que escolhia uma a uma que seria plantada. O ciclo era feito de forma que quando chegasse as festas de Junho teríamos milho fresquinho para o bolo, o curau, a pamonha e depois seco para o ano inteiro para as criações, pro fubá, a canjica, pro cuscuz e outras iguarias que minha mãe fazia tão bem.

A trovoada era sinal de que se confirmava a chuva necessária para a plantação.
Nesse dia, sempre chovia – e em alguns anos que não choveu foi uma catástrofe para a colheita – e era o sinal que todos esperavam para começar a plantação das sementes.
Logicamente, pelo calendário, era o fim do verão e começava o outono com suas manhãs mais amenas… Porém, para nós ainda era a estação das águas e durava até o fim de Março.
O ciclo era de fé – e meu pai olhava o céu levantando o chapéu em forma de agradecimento – e ali, entre a máquina de plantar, o pé a cobrir a semente colocada como se fosse uma joia, ele repetia frases
de oferta e de agradecer.
Os dias a seguir eram de expectativas até a gente ver o raminho brotar e contar a partir dali, os três meses para a colheita.
A boneca a se formar em espiga, o verde tenro das folhas até a colheita eram momentos de magia dentro dos dias.

Mariana Gouveia
78. da estação das águas

76. da estação das águas

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Meu pai sabia da previsão do tempo pelas formigas e seu intenso caminho até a armazenar mantimentos – embora ele entendesse também da migração das aves e sua fuga repentina para o sul – era com as formigas que ele sabia do equilíbrio da terra e de onde ele poderia plantar qualquer coisa sem o ataque delas.

Na verdade, parecia que ele fazia um acordo com elas e reservava um canto da roça para elas… Mas quando elas apareciam em carrilhão e apressadas, sabia que seria intensa a estação das águas.

Eu adorava os rituais delas… e seguia cada uma em seu trieiro e a mudança de ritmo logo assim que começava as chuvas… Era quase um instante morno dentro dos dias o sumiço delas e logo que uma ou outra surgia sabíamos que o sol surgiria logo depois…

Parecia que meu pai tinha a ciência do tempo nas mãos cheia de calos e alguns animais era o elo entre o tempo e a mudança dele.

Nos dias de chuva os rituais se repetiam dentro da magia dos dias.

Às vezes, a chuva chegava de forma furiosa, rompante e suas águas vinham arrastando tudo próximo do rio e as águas iam procurando um lugar onde se esquivava, como se estivesse a fugir do mundo… Da janela, ficávamos a espiar a correnteza a levar o que encontrasse pela frente como se a fome do rio fosse a mesma que a da formiga que repousava no tempo das águas como quem encontra a serenidade na desolação. E todo mundo passava a olhar para o céu como se esperasse que já tivesse sido o tempo da estação das águas.

Mariana Gouveia
76. da estação das águas