Carta à Anne,

Devo te confessar que meu ritual ao te escrever possui a magia simples de entrega — tão eu/você aqui — em frente a janela repetindo nos gestos ao longo dos dias: isso de ser mulher é angustiante…

Scenarium livros artesanais

Por Mariana Gouveia

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Mariana Gouveia, autora.

Devo te confessar que meu ritual ao te escrever possui a magia simples de entrega — tão eu/você aqui — em frente a janela repetindo nos gestos ao longo dos dias: isso de ser mulher é angustiante. É estranho imaginar como seria se você vivesse nesse tempo. Teriam teus poemas a mesma forma de atingir quem te lê? A mulher que luta pelo que acredita, agora.
Você conseguiria ao longo desse tempo tecer um diálogo comigo sobre os tabus da época em que você viveu? Lembro-me de minha adolescência e da força que minha mãe possuía com seu livro na mão.
Ela era como você… CONFESSIONAL! Estava ali, de pé, as mãos sobre as cortinas esvoaçantes e os olhos dentro do livro, a brisa a tocar a alma e ela tão real, diante da vida e tão certa das dores de quem não queria ser…

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Minha Cecilia,

Das cartas…

Scenarium livros artesanais

Por Mariana Gouveia

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Mariana Gouveia, autora

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Venta por aqui…
É madrugada ainda… e o tempo parece, que vai acatar a previsão — é que, às vezes, ele dá uma de menino teimoso e foge à regra dos cientistas, conhecedores do assunto — e vai mudar mesmo. O frio já bate nas folhas do ipê e elas cantam uma canção ao vento.
Mas, o céu está limpo” Falta um dia para a lua cheia e enquanto busco por ela entre as folhas das árvores, relembro seu poema, as fases lunares e ao me lembrar de cada um dos versos, as memórias retornam feito mágica.
Eu era mocinha, e havia a festa da Santa do dia de amanhã, enquanto minha mãe e as tias preparavam os doces bolos, biscoitos e comidas… o vestido da rainha da festa era bordado pelas mãos da bá, que sabia como ninguém, cruzar a linha em volta das…

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Carta à Alejandra

Missivas de Agosto!

Scenarium livros artesanais

Por Mariana Gouveia

Não é você a culpada
de que teu poema
fale do que não é

‘Diarios’,
2 de Enero, París, 1963.

.Mariana Gouveia, autora

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.Caríssima minha!

Enquanto te escrevo fito teus olhos que sobressai como se me analisasse na entrega da carta. Vi nesses olhos, minha mãe, com fome de viver enquanto a noite fria de inverno anos atrás tragava-lhe a vida. Vi também os olhos de minha irmã espiando o rio — antes que a curva levasse as flores de oferenda para algum santo — e despetalava o mal-me-quer na busca de uma resposta que nem ela mesma sabia a pergunta.
Vendo teus olhos — agudos — me vem à memória a Capitu — do Bentinho — e logo uma canção me instiga a ler/ver você, com seus olhos de fome de vida — igual minha mãe — que tinha olhos que intimidava iguais aos teus.
Na noite passada…

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Projeto 6 missivas — uma carta a um amigo

O Homem cansa-se;
o espírito não.
O Homem rende-se;
o espírito nunca.
O Homem arrasta-se;
o espírito voa.
O espírito vive
quando o Homem morre.

 

O Homem parece;
o espírito é.
O Homem sonha;
o espírito vive

O Homem está amarrado;
o espírito é livre.

O que o espírito é…

o Homem pode ser
Mike Scot
(Waterboys)

Já faz tempo que não falo com você e hoje, quando passei na rua que tem seu nome fiquei imaginando como se sentiria sabendo que você tem uma rua toda sua.
Lembrei-me do dia em que colocaram a primeira placa e de como seu irmão segurou minha mão bem forte.

– Cara, ele agora é dono de uma rua inteira! A rua em que ele soltou pipa e brincou de bola de gude. A rua em que ele caiu e ralou todo o joelho e namorou com a menina mais linda da cidade naquele canto.

A gente riu e chorou e mais uma vez repeti como te conheci e como fomos parceiros no rádio uma vida inteira. Uma vida que durou o tempo de uma curva e um sopro te levou. Os intervalos eram tão caros para o cliente e tão baratos para nós e você conseguia o meio termo. A roupa da loja de tecido, o tênis que você desejou a vida toda… o cartão transporte gratuito – infiniiiito para uma vida toda – e seu grito ecoava nos corredores.

Ali, não tinha um que não tivesse uma história com você e depois que tudo passou fiquei eu, só, na sua rua. Relembrei cada instante dourado de nossas vidas. O dia em que sua mão me ofereceu parceria e nem meu nome você sabia. A marmita com ovo frito e a parte maior oferecida sua para mim com ombro de amigo.

Isso foi bem antes de você ganhar uma rua com seu nome…

O ônibus que pego passa todos os dias por ela e nas madrugadas as placas com seu nome escrito me levam para além do rádio – nossa paixão – e como nossa parceria era divertida. E de como a vida ficou vazia sem você.

A compota de laranja que o pote escondia e você dividia na delicadeza do abraço. O microfone dividido, as canções escolhidas e o riso que era seu companheiro rotineiro. E a reciclagem que você fazia no caminho a pé com as latinhas – e que virou seu apelido. E se pudesse te chamaria a vida toda de Divisão. Você era pura divisão de amor.

Nunca te vi triste e essa leveza você carregava e fazia leve quem te tocava.

O rádio nos ligou e quantas vezes dessas janelas – da foto – a gente ria de qualquer bobagem. Dávamos apelidos para quem passava lá embaixo, na calçada.
Eu, a menina caipira que escrevia as coragens que você narrava e você o menino do girassol e dos cabelos ao vento que trazia a magia na voz. Uma voz que ecoava estado afora.

Um vento te levou para além das ondas do rádio e hoje você foi saudade no meu coração. Te senti de leve quando meus olhos avistaram seu nome na placa de rua.

Moço, moço!

Mais do que duas janelas você tem uma rua que é só sua.

Saudades!

Beijo molhado de carinho (frase nossa ao terminar o programa Todo sábado é de festa – Radio A Voz do Oeste)

*minha homenagem ao meu amigo de um infiniiito inteiro Edson Luís da Silva. Radialista que foi soprado pelo vento em um acidente de carro ocasionado por um motorista embriagado.  A rua com nome dele citada fica na avenida principal do bairro Tijucal, Cuiabá – MT

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Editora Scenarium Plural Editora — uma carta a um amigo
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

Projeto 6 missivas — uma carta para seu autor favorito

“Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo”.
Manoel de Barros

 

Fico imaginando como começo essa carta e escrevo mil vezes – dentro do meu exagero conhecido – bom dia, mestre! Ou seria boa tarde? Também tentei o Querido Manoel, Caríssimo e achei que ficou um tanto quanto comum. Como se começam as cartas para quem a gente se dobra e reverencia sem ser muito igual?

Vi que Drummond em uma das cartas que te escreveu usou simplesmente seu nome e me encoraja apenas a dizer:
Manoel,

Hoje venta muito no meu quintal e desde cedo penso nas palavras que quero te dizer. Talvez você gostaria de saber que aquela menina que chorou ao te entrevistar, cresceu. Ganhou poesias vida afora e abre os braços para dançar com o vento.
Ah, é, eu falava do vento no meu quintal e a leveza das folhas correm para um canto do muro. Olhando de perto não tem tanta folha seca no pé de algodão. Mas como cai!!

Quero te contar dos calangos que vivem aqui, entre meu muro e a parede da casa vizinha… já vi muitos e até fotografei eles e seus olhinhos assustados. Sempre os salvo dos cães que por vezes, são mais rápidos do que eles. Cada vez que vejo um, lembro de você e de seu poema que fala da lagartixa. Tem até a Rabicó, que perdeu parte de seu rabo em uma dessas fugas desastradas da Lolla e Yoshi.

Aqui, a vida me parece ensaiada dentro de poemas seus. Quando as borboletas enfeitam meu pé de Maria Sem Vergonha e cismam de brincarem nas minhas mãos, quando a nuvem chacoalham dentro da bacia de água e a lua banha dentro do balde e arranca meu riso, quando os insetos vem morar no meu pé de boldo – hoje surgiu a lagartinha que mede os centímetros – e eu carrego a ilusão de que seus poemas foram desenhados aqui… bem no meu quintal.

Tenho sorte de ter olho para o encanto. De ver imagens nos estuques das paredes do muro. De ver o portal que dá lugar para minhas emoções esparramadas na grama verde e de poder viver o lambeijo dos meus cães quando deito no chão. De enxergar coração em tudo que é coisa.

Tenho sorte porque lá fora, para além dos instantes de encanto, o mundo está de ponta cabeça e não sei se você gostaria de vê-lo como se apresenta hoje. Talvez, aqui, no meu lugar seja um daqueles achadouros que você criava em seu mundo.

O meu quintal é desabitado de realidade e levo ele na bolsa sempre que saio calçadas afora para viver o mundo real e lá, quando o baque vem em grau maior eu retiro um pequeno bocado para sobreviver.

O mundo está moderno demais e atravessado. Então, eu busco como escape essa inteireza de criança que meu pai ainda acha que sou e com isso tento dar verbo às coisas que me rodeiam e bem ali, no cantinho do espaço imaginário, perto das lanternas chinesas eu te abraço e agradeço pela inspiração que me ofereceu diante da palavra e tentando entender a cor dos pássaros faço o verbo esperançar renascer cada vez mais dentro de mim.

Um abraço,

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Editora Scenarium Plural Editora — uma carta para seu autor favorito
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

Projeto 6 missivas — uma carta a um desconhecido

Embora não saiba seu nome eu a vejo todos os dias. Meu horário combina com seus rituais de abrir as portas do seu lugar de trabalho.

Há sempre um cão a te acompanhar e seu olho vasculha o ponto de ônibus onde estou. Não chego a ouvir tua voz – o que me faz pensar em como você se dirige ao cão que te atende ao primeiro chamado.

Há tantos anos sua maneira de abrir as cortinas já é conhecida. O cabelo esvoaçante e as portas de correr sobre tuas mãos. Pudesse eu atravessar, atravessaria a faixa de pedestres e te daria o abraço que às vezes, sinto que você procura.

Moça, você desenha unhas, pele e embeleza a alma. Te vejo leve nas manhãs e nas tardes, quando volto, sua figura aparece para mim como um vulto. Às vezes, a sinto cansada. Em outras, você é pura alegria – chega a arrancar um riso aqui também – parece que dança enquanto manipula a tesoura, o secador, as agulhas.

Já desejei saber teu nome para te ligar e dizer que sei de sua luta diária.
Sou apenas aquela que te espia e de longe te admira diante da leveza com que carrega a coragem de todo dia.

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Editora Scenarium Plural Editora – uma carta a um desconhecido
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega