Projeto 6 missivas — uma carta a um desconhecido

Embora não saiba seu nome eu a vejo todos os dias. Meu horário combina com seus rituais de abrir as portas do seu lugar de trabalho.

Há sempre um cão a te acompanhar e seu olho vasculha o ponto de ônibus onde estou. Não chego a ouvir tua voz – o que me faz pensar em como você se dirige ao cão que te atende ao primeiro chamado.

Há tantos anos sua maneira de abrir as cortinas já é conhecida. O cabelo esvoaçante e as portas de correr sobre tuas mãos. Pudesse eu atravessar, atravessaria a faixa de pedestres e te daria o abraço que às vezes, sinto que você procura.

Moça, você desenha unhas, pele e embeleza a alma. Te vejo leve nas manhãs e nas tardes, quando volto, sua figura aparece para mim como um vulto. Às vezes, a sinto cansada. Em outras, você é pura alegria – chega a arrancar um riso aqui também – parece que dança enquanto manipula a tesoura, o secador, as agulhas.

Já desejei saber teu nome para te ligar e dizer que sei de sua luta diária.
Sou apenas aquela que te espia e de longe te admira diante da leveza com que carrega a coragem de todo dia.

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês –
Editora Scenarium Plural Editora – uma carta a um desconhecido
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

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Projeto 6 Missivas — uma carta para o seu personagem favorito

Tenho para mim que não habitamos o mesmo mundo.
Lua de Papel


*Ale,

Talvez eu devia dizer que a frase me pegou pela mão e me vi dialogando com você:
Realmente, não habitamos o mesmo mundo, mas posso tocar -te para além das páginas tecidas artesanalmente, costuradas página por página e volto lá, na cidadezinha tua. Consigo até caminhar por ela e fazer o sinal da cruz em frente a igreja e lembro – me da menina que eu era.

Não sei se enveredamos pelos mesmos caminhos  e descubro que em alguns sonhos e desejos somos tão iguais.  Ou como imagino, talvez eu te pinta mais leve nos dias. 

O que sei é que te adotei desde a primeira linha e segui de mãos dadas contigo até o Livro III.
Ah, adorável Lua de Papel que te desenhou insegura e reticente e somente por isso pude te moldar aos meus olhos uma Ale minha. 

Sabe, em muitas leituras feitas às avessas buscando só frases tuas, me perdi em suas anotações:

” aquela mulher não tem diálogo. Vive de suas linhas e pedaços de panos que ela emenda para os outros. É uma estranha”

Você é aquela de mim que quero mudar. E ao mesmo tempo possui os defeitos que abomino em quem gosto. 

Você é quase real, Ale… De tanto que a decifrei e de tanto que a desencorajei quando se trancava nos desejos que nunca conseguia expor. É a menina que guardo dentro da memória e a mulher que não consegue a fuga com a qual luta constantemente.

Quem te desenhou nas rotas do avesso trouxe para mim o cheiro dos eucaliptos, os arrepios na pele e a vontade de viver-existir dentro das fotografias…
E como a própria autora disse sobre você:

‘As histórias desenham personagens… alguns, escapam da realidade e saltam direto para as páginas. Outros se deixam inventar…’

Eu me deixei inventar sobre tua história.

Beijo,

Mariana Gouveia
Projeto Uma Carta por mês 
Editora Scenarium Plural Editora
*Personagem do Livro Lua de Papel: Alessandra – 
autora: Lunna Guedes

Projeto Scenarium 6 Missivas – Outubro

“Era toda errada…Fora feita pelo avesso
Sentia primeiro e só depois via
Era toda trocada…Andava na contramão
Amava antes a alma…Não queria explicação
Era totalmente sem noção
Se jogava em um mar…Sem nem ver a tempestade
Era só emoção…Esqueceram de lhe dar a razão
Tinha suas próprias verdades e nem se
importava se fossem imaginárias ou não
Era o reverso do universo
Somente uma gota…Mas pura imensidão”
(Dina Isserlin)

Carta Outubro.jpg

 

Outubro, 2008

M,

Daqui da minha janela vejo quase o mundo inteiro. Era primavera em algum lugar para além das ruas e ainda nem existia a rua do meio, nem a de cima. Havia ali, um trieiro pelo qual eu avançava em meio às libélulas e as teias de aranha faziam carícias nos meus pés. O riozinho era uma imensidão de desejos e você não sabia que irá ser subversiva. Era apenas a palavra dona de casa dentro de outras imensidões de palavras. Mas lá na frente, você seria conhecedora do futuro. Olharia a borra de café nas xícaras e contaria para as pessoas o segredo delas e nem será preciso ser adivinha.

O mundo se agiganta aos seus olhos e as gotas mostram as estações nos dias em que você conta a solidão. Era ali, ainda, menina e ao mesmo tempo, mulher e lutava pela vida em sua forma gigante de ser.

A vida é esse fio de seda que quase arrebenta quando se estica. Você deve saber que tirando a crise que o mundo enfrenta – e ainda enfrentará daqui a dez anos também – o mundo comemora o primeiro presidente negro da história. A esperança atravessa o mundo e Pequim abraça os campeões olímpicos. Aprendi a ver ouro nas medalhas de Cielo, Maurren e as meninas do vólei. O espírito olímpico é bonito de ver. As histórias nas entrelinhas me causam mais emoção do que a própria prova.

Dercy, Caymmi, Jamelão se foram para sempre e para sempre viverão em quem gostava deles. O universo aponta sabedoria e eu escrevo cartas de amor. Descobri o amor em versos e vesti a primavera de flores.

Dizem que a cura vem a passos lentos, enquanto busco refúgio em colo de pai e irmãos. O rio é um convite dessa viagem no tempo. Embora eu seja resistência em todos os tempos, escrevo na certeza de que você se redescubra dentro da coragem e se sinta livre no grito que querem fazer calar e acredite que nas palavras do passado o futuro renasce, mesmo que seja daqui a dez anos.

Eu,

Projeto Scenarium 6 missivas | Outubro -18
Participam: Lunna Guedes |  Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

Maratona de Outubro – 5 – Minhas manias literárias

Quando se viaja sozinho
pelas imagens que perduram
as evocações ganham um modo tão real…
José Tolentino Mendonça

 

Bambina mia,

 

Lembra quando te contei sobre os livros lá da infância que não tinham algumas páginas e que minha mãe nos incentivava a escrever a história? Pois é… virou mania reescrever algumas partes de poemas ou histórias que leio.
Vou traçando as palavras em contracapas de livros, grifando partes que me dizem mais do que o poema todo e muitas vezes viajo naquilo que o autor quis dizer.

Já te contei também que minha mãe dizia que todo poema/texto/história é uma viagem? Embora a frase seja um clichê usada o tempo todo, é a voz de minha mãe que ouço quando pego um livro:
– Senhorita, filha minha, embarque e viaje…
Até hoje tenho chave para esse caminho e mesmo sendo feita de asas eu sigo ainda a mesma estrada que me foi mostrada lá atrás.

Tatuo na alma algumas frases que me tocam e talvez essa seja mesmo uma mania. Volta e meia me pego relembrando coisas lidas na infância-adolescência e é essa é a melhor parte da viagem. Em alguns fatos lembro – me até da página.

Sabe, bambina, é como se eu também tivesse feito parte do texto e o tato nas folhas, assim como quando agora, nessa manhã que se inicia volto na noite de ontem e sigo com você no trem enquanto meu céu é quase uma ostentação de homenagem a você.

Bacio,

 

Mariana Gouveia
|Projeto Maratona de Outubro
Participam desse projeto
Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi | Mari de Castro | Obdúlio Nunes OrtegaLunna Guedes

Maratona de Outubro – 2 – Como organizo a minha estante?

“Vou guardar tuas cores… Vou te guardar comigo…
Teu sorriso eu vou deixar na estante pra eu ter um dia melhor…”

O Teatro Mágico

 

Bambina mia,

 

Sei que irá abrir teu sorriso mais bonito aqui… A minha estante é Plural em seu estado de graça. Meus livros estão expostos entre a leveza da vida – que faz com meu filho esteja ali, entre os brinquedos dele e com isso, mais perto de mim – e em cada canto da casa onde costumo estar.
Confesso que acho eles tão delicadamente cúmplices um do outro, lado a lado. Folheio todo dia um, como se fosse minha bíblia leio um poema, ou uma capítulo todo entre uma estação e outra.

Mas a minha estante, bambina é itinerante e passeia entre os cômodos da casa.
Posso ler Lua de Papel – ler não, rerereler – na varanda, onde ele vagueia entre o vasinho de violetas brancas e o quintal.
E Vermelho por Dentro faz companhia para o meu vino bianco italiano chardonnay – uma aquisição para dançar ao som de Boccelli e suas palavras – e o copo com a borboleta amparada pelos baldinhos de corações…

Ali, um a um estão sós e ao mesmo tempo fazem companhia um ao outro. A pluralidade tomando conta de cada espaço e o orgulho estampado no rosto quando alguém admira o trabalho.

A minha estante tem o gesto de um Scenarium imenso. De pessoas que escrevem porque escrever faz parte da alma de cada um que está ali, adormecidos sobre o móvel e seus brinquedos de gente grande.

Mas, junto deles, bambina, também estão uma coleção de Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e seus Os Maias, Raquel Serejo Martins, Drummond e outros mais.

Tiro o pó, ajeito, mudo eles de lugar e levo sempre um comigo. É como um ritual feito de delicadeza e a cada um dia, o que eu pego me diz exatamente o que preciso saber, enquanto o café fica pronto, e me preparo para viver o dia e o aroma toma conta da casa toda.
E como como diz Sam Savage: “De uma maneira geral, os livros sabem ao cheiro de café.”

Vamos ao dia!

Grazie,
Bacio

Mariana Gouveia
Editora Scenarium Plural
|Projeto Maratona de Outubro
Participam desse projeto
Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi | Mari de Castro | Obdúlio Nunes OrtegaLunna Guedes

Maratona de Outubro:1 – Como teve inicio a minha vida de leitora?

 

Bambina mia,

 

As perguntas chegam até a mim feitas por você e lá vou eu, em uma infinitude de palavras te responder. Sabe aquele instante que fica vivo na memória e quando alguém pergunta as imagens atravessam a barreira do tempo e te toca como se fosse hoje?

Eu era a quarta entre meus irmãos – somos sete no total – embora depois de anos, meu pai teve mais um filho. Porém, lá, onde tudo começou éramos sete e os livros nos chegavam em forma de doações. Em alguns, faltavam as páginas e era a desculpa que minha mãe usava para  que a gente criasse a continuação.

O livro era usado quando chegou em minhas mãos. Como fazia sempre, minha mãe me colocava em um banquinho em um dos cantos da cozinha e enquanto ela tratava de alguma das refeições o livro ganhava vida dentro de mim. Meu pé de laranja lima tinha a docilidade do pomar logo depois da horta. Por vezes, era ali que eu costumava ler.

Os olhos de minha mãe seguia meus passos para além da beira do rio. Eram variados os exemplares que chegava até nós.

Engraçado como a vida de antes trazia esse delicado traçado. As letras formavam palavras e com elas eu entrava em um mundo além das porteiras.
E assim teve início minha vida de leitora. O amor pelos livros foi só aumentando com o passar do tempo e até hoje, minha vida é feita de livros e palavras.

 

Grazie tanto!

Bacio,

Mariana Gouveia
Editora Scenarium Plural
|Projeto Maratona de Outubro
Participam desse projeto
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Projeto Scenarium 6 Missivas – Setembro

Setembro, 30/2018

 L,

Essa carta não será enviada e fará companhia as tantas outras que escrevi – e não digo sobre as que rasguei, embolei, joguei fora – e será apenas palavras escritas no vento, como o coração que vagueia nas nuvens.

Perdi a conta dos dias de solidão sem sua voz, sem seu riso e sem o olá tão único e distinto. Aqui, continua quase tudo igual. Os cães ainda vivem ao pé de mim e essa frase dita assim me faz lembrar teu sotaque. Já te contei que busquei seu rosto em outras pessoas? Dias desses, ao atravessar a rua te vi, ou melhor, pensei ter te visto. A pessoa atravessou a faixa de segurança e cruzou a avenida rumo a praça dos correios.

Corri logo depois do ônibus parar ao meu sinal – loucura minha, digo – para ao chamar teu nome, perceber que a solidão me faz ver coisas e a vi de novo dias atrás na missa. Cheguei a pensar que a tal pessoa poderia ser sua parente.

Minha analista acha que crio projeções de vontades que tenho aqui dentro. É verdade, tenho uma analista que fica a me ouvir e apenas repete o que um dia você disse sobre esse amor ser o mais bonito dos amores.

Como disse Silvia Plath:  Acho que te criei no interior de minha mente e te busco nos aromas das flores, na chuva morna que já te lavou a alma aqui. É engraçado como as coisas tomam formas dentro da imaginação. Parece que foi ontem tudo e hoje, não consigo nem relembrar as datas. O calendário vira do avesso e me engana na sorte das rotinas. O dia do santo do seu lugar, o aniversário que é logo ali, o endereço que não lembro mais e o telefone que busco o número nas mensagens antigas.

Aqui, tudo é bloqueio entre as frases cortadas e o engano de sua presença.

A vida é assim mesmo, L,  os finais são necessários para um novo começo, mas no fim o que fica mesmo é saudade.

Beijo meu

M

 

Projeto Scenarium 6 missivas | Setembro -18
Participam: Lunna Guedes Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega