Cartas para Abril…

Projeto Scenarium PLural!

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319. das fragilidades secretas

Bambina mia

Acordei também com os pássaros
e estudei a posição em que os bordava
nos seus vestidos
e disse: para que lhes espetas a agulha no coração
e ela respondeu: para que aprendam a direcção do voo
Daniel Faria

Alguns gritos ecoam na noite, pássaros noturnos rasgam o céu do meu quintal. Se eu tivesse medo, diria que esses voos rasantes foram inspirados em uma noite de terror.
Trovejou na tarde e chamei teu nome…

e as fragilidades secretas das palavras vagou entre o que é Plural e singular.

A vida acontece logo ali, na rua de cima. Ouço risos de crianças e resolvi dialogar com você através dos ecos que vem dali. Eles costumam brincar como antigamente. Jogam bolas de gude, amarelinha e empinam pipas.

Às vezes, a rua de cima é invento meu… às vezes, eu vejo um menino que não ouve palavras comuns – e nem escuta o que eu digo – mas que entende o que mostro. Ou que leio.
Alguns silêncios só podemos ler em braile ou deciframos códigos que nem sabíamos saber.
Às vezes, é realidade bruta. As crianças empinam as pipas, que enroscam em fios de alta tensão e ali, se tornam esqueletos de pipas que ao menor vento fazem barulho enquanto o vô da casa amarela fica tão ranzinza que a rua fica quieta.

A minha rua é quieta, como no dia em que o vô da rua fica ranzinza – eu expliquei para ele a palavra preguiça dita por você e ele preferiu a ranzinza mesmo – … com exceção dos passarinhos que se agitam e voam para a árvore do vizinho, depois que meu quintal ficou “pelado” de árvores.

Tem noite que a solidão é feita de asas e voa rua acima, noite adentro e eu só vejo as luzes azuis de tvs ligadas refletidas nas janelas com cortinas esvoaçantes na rua de cima. Isso, depois que o céu reflete o clarão do relâmpago e o som do trovão ecoa rua afora, enquanto chamo o seu nome.

Por acaso, você tem medo de pássaros?

Tem coisas suas que ainda não sei – ou até sei, quando suas histórias se misturam nas minhas – mas a vontade é de mergulhar vermelho adentro quando essa noite ecoa longe o trovão e te chamo…

Vens?

Mariana Gouveia
319. das fragilidades secretas

4 – sinto falta de mim, em mim

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Eu te enfeito com histórias que ninguém, senão eu, li em ti.

Nélida Piñon

 

Querida minha.

A expectativa de um sábado à tarde é preguiça de viver. É primavera – mas em meu quintal o outono vagueia invasivo nas folhas que caem – e amanhã já será outro mês e a gente fica medindo os dias que faltam para o ano acabar.

Fico nessa agonia de buscar curas, de buscar ervas, de viver poesias, de estar em tanto lugar e ao mesmo tempo em nenhum.

Os dias aqui têm sido mornos – quentes – e sufocantes. Parece que Agosto perdura até hoje e que a qualquer momento os cachorros loucos entrarão portão adentro e lembro da infância onde não afastava tanto de casa com medo dos cachorros loucos que podiam aparecer a qualquer momento – e que nunca vi – e é como se esse mesmo medo voltasse. O medo tão real e palpável que recuo diante da tarde.

As sombras no muro refletem os cachorros loucos que existem na memória.

Não venta, não chove e o céu fica nesse cinza chumbo enquanto eu busco a cor dentro de mim. Aliás, me busco nas lembranças de tudo que já vivi. Sinto falta de mim, em mim.

A lua, atreve-se em sua fase a caminhar oblíqua no céu enquanto penso em você e seu barulho de mar. Faço declarações de amor que não envio.

Crio histórias contigo que não conto para ninguém.  Faço grafites imaginários no muro onde uma mancha lembra qualquer coisa das suas lendas.

Lembro – me da parede do prédio abandonado perto do trabalho onde havia um grafite, escrito um nome meio ilegível e uma flor arrancada a pétala. Conheci o moço que fez o desenho. É o mesmo que tatuou em mim as borboletas que fazem parte de minha vida, assim como você…

 

Beijo
M
Projeto Scenarium Plural
Missivas de Primavera

3 – estou sozinha de olhos abertos para a escuridão

* imagem: Félix Mas

escrevia-te poemas
na ponta dos lábios
todos os começos do dia

a carmim
cor de terra
laranja de vida

dizer-te todos os começos do dia
eu te amo
Ana Christelo

 

Querida A.

 

Agucei o delírio da febre e reconstruí mais uma vez nossa história. Poderia dizer que olhando através das ondas eu só mudaria algumas marés… O resto, te amaria igual – ou diferente – nesses séculos que te vivo.

Do meu quintal eu atravesso esse oceano de possibilidades. Enquanto você é mais aldeia, eu sou marítima nesse meu amor. Visito suas lendas dentro da escuridão. Estou sozinha. De noite… Sou puro cavalgar no teu oceano onde a vida exala beleza.

A primavera chegou… dizem que hoje, seria o fim do mundo – pensei que seria lindo se o mundo acabasse em plena primavera – e se isso acontecer eu ouvi tua voz mais uma vez ecoando dentro do vento.

Mas o mundo que me ronda é esse mar que invade onde é rio e eu líquida, deliro de amor.

Quando te escrevo tento me ater às ruínas dos castelos onde esteve. Te visito pelas estradinhas das vilas nos voos das borboletas – que cada vez mais nos une –  ou nos girassóis dos campos onde respira meu nome dentro da flor – ou nos habitantes do mar que te rodeia.

Converso com suas lendas e cada vez mais o que é do mar nos aproximam no mesmo tempo e espaço.

É como se dentro de mim estivessem juntos os dois mundos dentro dos nossos.
Os abismos e sua fala doce… a moldura da maresia que todos os dias reflete em minha pele teu toque e você.

 

Beijo meu

 

M.
Projeto  Missivas de Primavera
Editora Scenarium Plural

 

235. das impressões do dia seguinte


Bambina mia

O dia amanheceu amarelo. O sol, logo pela manhã, rompeu a barreira da névoa e veio radiante. Lembrei-me da moça do tempo com sua simpatia dizendo que os paulistanos viram o sol e citou até os minutos que o sol deu as caras ai.
Confesso que achei engraçado e logo pensei em tu – tão cheia de sol – que nem precisa dele para se sentir plena.
Mas, estávamos falando de amarelo. Dourou tudo aqui. Precisava ver! As gérberas do meu quintal antecipou a primavera por aqui e quando chovi sobre elas, com meu regador, me trouxeram um frescor de alma.
Na avenida principal, os ipês derramaram suas pétalas de ouro pela calçada. Cedi a tentação de descer do 609 – a linha de ônibus que me leva ao trabalho – e deitar sobre as flores.
Em cada esquina lembrei-me de Van Gogh – dizem que adorava o amarelo – e de uma carta/poema que fiz para minha mãe, onde a vida dourava nossa existência dentro da cor.
Agosto sempre me traz ela com seu vestido amarelo de florzinhas miúdas. Ela irradiava cor. O chapéu feito – por ela – com capim dourado fazia com que ela parecesse um personagem desses de fotonovelas, que ela adorava.
Enquanto anotava mentalmente essa missiva pensando em você, e já no fim do dia, a cor desenha a vitrine da esquina francesa por onde volto para casa. Uma escada toda com frases em francês – que julgo ser um poema – e que prometo fotografar, amarelava no meu fim de tarde. A vitrine onde a torre se ergue minúscula, mas imponente e os detalhes desde o manequim às garrafas coloridas me ofereciam a cor.
Em casa, o amarelo rompe os aposentos com envelopes amarelos que chegaram do lado de lá do oceano. Trouxeram-me esperança de carinho sentido na pele e sob a luz amarela da luz difusa te abraço e agradeço a pluralidade que me oferece todos os dias.
Amo mais!
Grazie
Mariana Gouveia
235. das impressões do dia seguinte

Projeto Fotográfico 6 on 6 | Lembranças…

Falar com você sempre me permite essa viagem nas lembranças… É como se você sentasse para me ouvir e eu estivesse pronta para dizer…
E elas – as lembranças – me vem em forma de cartas – missivas para ti.

Bambina Mia.

Esse mês traço o caminho da volta e antes mesmo de ir já sei o que vou encontrar… e desenho no ar, nos dias que antecede a volta as coisas que sei que encontrarei no “meu lugar”… O meu lugar é o colo de pai, abraços de irmãos e todas as lembranças intactas esperando por mim:
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2 – No pomar, a fruta temporã, plantada para a ocasião – azeda demais, talvez – totalmente fora de época, mas com o sabor lá da infância. Sei que o cheiro irá ficar nas mãos e é desse cheiro que me lembrarei quando a memória invocar a lembrança.
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3 – As manhãs, bambina, tem o sabor da neblina fria e o sol anuncia logo após a mata que o dia se prepara para nascer…
Revigoro-me na visão dos animais e a estradinha me leva para a colina, de onde eu abraçarei o Universo em orações.
Eu posso fechar os olhos e sentir cada partícula das lembranças sendo refeitas dentro de mim como se fosse um bordado feito pela minha mãe e sua memória vindo nos cheiros das plantas, no canto dos pássaros e no chá exalando poemas em mim na beira do fogão a lenha.

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4 – A leveza me carrega entre a espera do abraço e das lambidas do cão que me espera afoito e que eu ouço o latido em algumas ocasiões.
Sei que ele ficará dias a andar atrás de mim e a aguardar meus movimentos… Me levará pelos mesmos lugares e rodopiará feliz ao acordar e sentir minha presença.
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5 – E no fim da tarde, as asas virarão uma árvore inteira em brancura no pouso das garças…
Todas as vezes, isso me lembrará Manoel de Barros e seus poemas. E dentro deles me deixarei levar por palavras que coloco no papel e te dedicarei.

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6 – e mais do que lembranças, bambina, ecoará dentro de mim todos os dias o riso da criançada enquanto a vida conta os dias que eu espero.
Falta pouco e logo estarei ali, colhendo no pé, a amor que a vida me dá diariamente de várias formas.
Ali, onde busco forças e equilíbrio dentro dos dias em busca de fé e esperança.
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Grazie por me permitir escrever-te sempre. Grazie por fazer parte desse núcleo de amor.

Bacio
Mariana Gouveia

Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse desafio:
Frasco de Memória e Catarina Voltou a escrever

 

155. da geografia das coisas

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Carta ao amor aos cuidados do sol

Já é noite por aqui, meu amor e esse dia ganhou ares de lembranças… Abro a caixa de memórias – as minhas, que se misturam nas tuas – e em cada página que abro você está. Ali, perto, sempre estendendo a mão. Segurando meus passos, e companhia silenciosa enquanto eu estou nos holofotes.

Sento-me na varanda do passado e estendo as mãos no vento à tua procura. Você sempre está lá…   Lá, onde o sol é mais dourado e os minutos mais lentos e onde me espera com o mesmo jeito de antes…
sempre nestes dias em que minha alma fica solta você é o reflexo do amparo e quando meu silêncio faz barulho suficiente dentro da sua calmaria transforma em cor a dor.

O nosso amor é esse sol que avermelha as tardes quentes em um dia perfeito e modifica os dias dentro da estação… Era essa a mesma estação na manhã que você chegou e meu olho pousou e buscou segurança no seu. Depois disso, sua presença sempre esteve ali como um porto seguro, me indicando caminhos, me dando direções.

Já virei a página do calendário, amor e transformo teu dia em todos os dias. Hoje, eu queria te dar o sol, mas é você que se transforma meu sol todos os dias. Encara minhas metamorfoses como se disso dependesse a vida… e sua vida dentro da minha faz a minha história mais bonita.

Feliz Aniversário!

Te amo!

Mariana Gouveia
155. da geografia das coisas