Maratona de Outubro – 5 – Minhas manias literárias

Quando se viaja sozinho
pelas imagens que perduram
as evocações ganham um modo tão real…
José Tolentino Mendonça

 

Bambina mia,

 

Lembra quando te contei sobre os livros lá da infância que não tinham algumas páginas e que minha mãe nos incentivava a escrever a história? Pois é… virou mania reescrever algumas partes de poemas ou histórias que leio.
Vou traçando as palavras em contracapas de livros, grifando partes que me dizem mais do que o poema todo e muitas vezes viajo naquilo que o autor quis dizer.

Já te contei também que minha mãe dizia que todo poema/texto/história é uma viagem? Embora a frase seja um clichê usada o tempo todo, é a voz de minha mãe que ouço quando pego um livro:
– Senhorita, filha minha, embarque e viaje…
Até hoje tenho chave para esse caminho e mesmo sendo feita de asas eu sigo ainda a mesma estrada que me foi mostrada lá atrás.

Tatuo na alma algumas frases que me tocam e talvez essa seja mesmo uma mania. Volta e meia me pego relembrando coisas lidas na infância-adolescência e é essa é a melhor parte da viagem. Em alguns fatos lembro – me até da página.

Sabe, bambina, é como se eu também tivesse feito parte do texto e o tato nas folhas, assim como quando agora, nessa manhã que se inicia volto na noite de ontem e sigo com você no trem enquanto meu céu é quase uma ostentação de homenagem a você.

Bacio,

 

Mariana Gouveia
|Projeto Maratona de Outubro
Participam desse projeto
Ale Helga | Cilene Mansini | Fernanda Akemi | Mari de Castro | Obdúlio Nunes OrtegaLunna Guedes

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Maratona de Outubro – 2 – Como organizo a minha estante?

“Vou guardar tuas cores… Vou te guardar comigo…
Teu sorriso eu vou deixar na estante pra eu ter um dia melhor…”

O Teatro Mágico

 

Bambina mia,

 

Sei que irá abrir teu sorriso mais bonito aqui… A minha estante é Plural em seu estado de graça. Meus livros estão expostos entre a leveza da vida – que faz com meu filho esteja ali, entre os brinquedos dele e com isso, mais perto de mim – e em cada canto da casa onde costumo estar.
Confesso que acho eles tão delicadamente cúmplices um do outro, lado a lado. Folheio todo dia um, como se fosse minha bíblia leio um poema, ou uma capítulo todo entre uma estação e outra.

Mas a minha estante, bambina é itinerante e passeia entre os cômodos da casa.
Posso ler Lua de Papel – ler não, rerereler – na varanda, onde ele vagueia entre o vasinho de violetas brancas e o quintal.
E Vermelho por Dentro faz companhia para o meu vino bianco italiano chardonnay – uma aquisição para dançar ao som de Boccelli e suas palavras – e o copo com a borboleta amparada pelos baldinhos de corações…

Ali, um a um estão sós e ao mesmo tempo fazem companhia um ao outro. A pluralidade tomando conta de cada espaço e o orgulho estampado no rosto quando alguém admira o trabalho.

A minha estante tem o gesto de um Scenarium imenso. De pessoas que escrevem porque escrever faz parte da alma de cada um que está ali, adormecidos sobre o móvel e seus brinquedos de gente grande.

Mas, junto deles, bambina, também estão uma coleção de Fernando Pessoa, Eça de Queiroz e seus Os Maias, Raquel Serejo Martins, Drummond e outros mais.

Tiro o pó, ajeito, mudo eles de lugar e levo sempre um comigo. É como um ritual feito de delicadeza e a cada um dia, o que eu pego me diz exatamente o que preciso saber, enquanto o café fica pronto, e me preparo para viver o dia e o aroma toma conta da casa toda.
E como como diz Sam Savage: “De uma maneira geral, os livros sabem ao cheiro de café.”

Vamos ao dia!

Grazie,
Bacio

Mariana Gouveia
Editora Scenarium Plural
|Projeto Maratona de Outubro
Participam desse projeto
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Maratona de Outubro:1 – Como teve inicio a minha vida de leitora?

 

Bambina mia,

 

As perguntas chegam até a mim feitas por você e lá vou eu, em uma infinitude de palavras te responder. Sabe aquele instante que fica vivo na memória e quando alguém pergunta as imagens atravessam a barreira do tempo e te toca como se fosse hoje?

Eu era a quarta entre meus irmãos – somos sete no total – embora depois de anos, meu pai teve mais um filho. Porém, lá, onde tudo começou éramos sete e os livros nos chegavam em forma de doações. Em alguns, faltavam as páginas e era a desculpa que minha mãe usava para  que a gente criasse a continuação.

O livro era usado quando chegou em minhas mãos. Como fazia sempre, minha mãe me colocava em um banquinho em um dos cantos da cozinha e enquanto ela tratava de alguma das refeições o livro ganhava vida dentro de mim. Meu pé de laranja lima tinha a docilidade do pomar logo depois da horta. Por vezes, era ali que eu costumava ler.

Os olhos de minha mãe seguia meus passos para além da beira do rio. Eram variados os exemplares que chegava até nós.

Engraçado como a vida de antes trazia esse delicado traçado. As letras formavam palavras e com elas eu entrava em um mundo além das porteiras.
E assim teve início minha vida de leitora. O amor pelos livros foi só aumentando com o passar do tempo e até hoje, minha vida é feita de livros e palavras.

 

Grazie tanto!

Bacio,

Mariana Gouveia
Editora Scenarium Plural
|Projeto Maratona de Outubro
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Projeto Scenarium 6 Missivas – Setembro

Setembro, 30/2018

 L,

Essa carta não será enviada e fará companhia as tantas outras que escrevi – e não digo sobre as que rasguei, embolei, joguei fora – e será apenas palavras escritas no vento, como o coração que vagueia nas nuvens.

Perdi a conta dos dias de solidão sem sua voz, sem seu riso e sem o olá tão único e distinto. Aqui, continua quase tudo igual. Os cães ainda vivem ao pé de mim e essa frase dita assim me faz lembrar teu sotaque. Já te contei que busquei seu rosto em outras pessoas? Dias desses, ao atravessar a rua te vi, ou melhor, pensei ter te visto. A pessoa atravessou a faixa de segurança e cruzou a avenida rumo a praça dos correios.

Corri logo depois do ônibus parar ao meu sinal – loucura minha, digo – para ao chamar teu nome, perceber que a solidão me faz ver coisas e a vi de novo dias atrás na missa. Cheguei a pensar que a tal pessoa poderia ser sua parente.

Minha analista acha que crio projeções de vontades que tenho aqui dentro. É verdade, tenho uma analista que fica a me ouvir e apenas repete o que um dia você disse sobre esse amor ser o mais bonito dos amores.

Como disse Silvia Plath:  Acho que te criei no interior de minha mente e te busco nos aromas das flores, na chuva morna que já te lavou a alma aqui. É engraçado como as coisas tomam formas dentro da imaginação. Parece que foi ontem tudo e hoje, não consigo nem relembrar as datas. O calendário vira do avesso e me engana na sorte das rotinas. O dia do santo do seu lugar, o aniversário que é logo ali, o endereço que não lembro mais e o telefone que busco o número nas mensagens antigas.

Aqui, tudo é bloqueio entre as frases cortadas e o engano de sua presença.

A vida é assim mesmo, L,  os finais são necessários para um novo começo, mas no fim o que fica mesmo é saudade.

Beijo meu

M

 

Projeto Scenarium 6 missivas | Setembro -18
Participam: Lunna Guedes Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

 

Carta à primavera aos cuidados de minha mãe

 

Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.
LeonTolstói

 

 

Ah, mãe… a vida é engraçada e muitas vezes, pintada ao avesso… São 36 anos sem você e parece que foi ontem. Olhando da janela para trás, ainda era dia e o rádio ligado na radionovela e você, muitas vezes, torcia para os vilões.

–  Os mocinhos são previsíveis – você diria – e são tão comuns que me faz preferir sempre o inusitado.

E com isso, você mudava o dia com suas pinturas e seus bordados. Sua habilidade em costurar retalhos e atravessar a visão de seus filhos e transformar o destino de cada um com sua sabedoria.

As cartas, mãe… ah, essas cartas que atravessam o universo todo foram ensinadas por você.  Os destinatários não interessam… o que importa é que você escreva e leve sua palavra onde o vento alcança.

Muitas vezes, a palavra é feita sozinha. O papel manteiga dos riscos dos bordados, esse da foto, feito por você, já mostrava a singela das asas que rodeiam minha vida.

Os galhos colhidos com suas cores diversas, para que a linha ganhasse a tintura que você queria. O som da roca a desfiar o algodão e dali, se formar o fio. Eu ficava horas a te espiar diante do papel e lápis para  então o desenho ganhar vida e diante de meus olhos a magia acontecer em um pano comum e eis a arte.

Os filtros do vento invadindo o silêncio em sintonia com as folhas das árvores.

Devo dizer que a saudade me abraça e que hoje te chamei muitas vezes? Estou aqui como mãe, a rezar para que a vida faça de meu filho coluna forte da descendência herdada de você. Dá para você soprar e vir aquele instante de magia em que você conseguia sarar a dor com um sopro? Ou beijo?

Me ensina a fazer assim com ele, mãe e que eu seja nas lembranças dele tudo aquilo que você é para mim:
Leveza, sem negar a força. Coragem sem perder o medo e principalmente colo sem esquecer o amor.

Mariana Gouveia

Maratone – se #07 último dia

Eles olhavam e não a viam. Ela fazia mais sombra do que existia.
Clarice Lispector

Querida A.

Escrevo- te como presente. Deveria te dizer que as letras são tuas e que você é apenas a personagem das minhas memórias. Te nomeio Ana e assim te faço real, quase toco – a nas palavras que avançam dentro da noite.

Era você ali, no meu lugar comum e o riso cabia no ritmo das ruas. Para amanhã, as mãos escrevem a palavra final.

Não cabe a verdade das palavras tolas. O que vejo é você para além das cartas e diários que dizem mais sobre mim do que sobre você.

Era você ali, menina mulher com cheiro das folhas caídas no quintal. Sua história cantada nos cordéis da feira da rua de cima e vi que você é inventada na fé. Do espelho que quebrou ainda restam os cacos na pazinha na porta do fundo e o casarão já tem seu nome escancarado nas cores intensas e nas flores lilases esparramando – se nos muros.

É primavera e você poderia ter nascido em qualquer dia e fixo meu olhar nos dias em que te esperei.

Hoje, te guardo dentro do meu abraço e ficamos partículas de um acaso, de encontros e reencontros nas esquinas entre a rua do meio e a rua de cima.

Atravesso a tarde como o vento que sacode as cortinas. As cartas espalhadas na cama e seu nome sendo perpetuado nas mulheres de sua vida e agora na minha.
Dou – te a estrela mais brilhante e afirmo na densidade dos dias que ele te pertence em pura espécie de benção e de vontades.  E que a liberdade te abrace na rotina dos dias.

Na sua estante, livros que desenham sua história na minha e você se transforma na personagem que cuido, trato e defino com nome de flor. O que será amanhã, quando o dia romper a aurora e você virar apenas sopro ou suspiros?
Amanhã, você será apenas a liberdade das gaiolas abertas.
Voa, menina, voa!

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr
Projeto Scenarium Plural – Maratone – se : Tema livre

Projeto Fotográfico 6 on 6 – Passos

“São os passos que fazem os caminhos”.
Mario Quintana

Luci, faz tempo que eu queria te escrever….

Mas meus dias esteve – ou estão – tão cheios de realidade que as palavras não cabiam dentro do seu mundo. Escrever sobre a realidade, Luci, é quase como rasgar as folhas do caderno quando você tem pouco papel para a caneta trilhar entre as linhas e a gente aproveita cada cantinho em branco para desenvolver escrita. Realidade é o álcool gel de uma UTI, touca e pantufas sem bichinhos engraçados… realidade é o apito estridente de um aparelho que te assusta e te faz tremer feito vara verde. Realidade para além dos dias é a reza para tudo que é místico e acreditar que a vaga venha, que a febre ceda e que o amor minúsculo – tamanho da irmã caçula – vença a luta contra a morte – aquela imagem da foice e uma boca aberta vem à memória e você acha tudo tão engraçado que a fé se torna concreta em tudo que é santo-nossa-senhora-ave-maria…
Hoje tenho que falar de passos e pensei que esse seria um tema ideal para que eu pudesse fugir do trilho do tocável e te alcançar dentro da magia que seu olho me alcança.

Vem comigo?

Já te contei que ando sobre instantes e que quando meus passos tocam terra-chão-grama acontece coisas inimagináveis? Às vezes, até eu mesmo duvido, Luci e juro que esses momentos me levam ao estuque do seu quarto e sua parede quase azul – era isso mesmo? ou seria verde? – e lembro – me de que nessa altura da lembrança você não queria comer – e que te dei asas para além das florestas e dos pajés que reverencio todo dia… não comer era quase um desaforo diante de tanta fome no mundo. A fome atravessa os séculos e as florestas e para ali, dentro da imaginação do meu quintal, não comer é quase um atentado contra o que de mais sagrado que existe. Você tem o que comer? Tem de onde tirar a comida? Tem a sonoridade da alegria de quem encontra a comida, em qualquer lugar que seja?
Ainda bem que isso seja só lembranças, Luci e que ela nos leva sempre para as cartas e palavras.

Acontece que em alguns acontecimentos me transmuto para além do que escrevo e só para comprovar que não é miragem, eu registro o minuto dentro da magia.
Por falar em magia, conheci um cacique tão mágico – que parecia ter surgido de um filme desses da sessão da tarde – e que trazia a mansidão no olhar – a realidade, pelos olhos dele, tem a docilidade da aceitação.

” O que não se pode mudar, aceite… “

Falou na sonoridade do ar condicionado que acontecia entre um gruuu – ou seria vraaaaa?

E meu pensamento viaja para onde não posso estar e nesse momento sou quase rebeldia dentro da fé, Luci, enquanto o olho dele me atinge e leio quase uma floresta inteira e suas densidades. Um dia, Luci, quero te mostrar esse olhar… Você nunca mais vai querer ficar sem comer nessa vida e em todas as outras vidas que tiver – e eu, nunquinha mais, perderei a fé – e tudo será apenas gratidão.

Tem o jeito tão fácil de pai – o cacique – que quase me aninhei nos braços dele, Luci. Tive que me conter, devido a seriedade do encontro. Dava a impressão de que ele era o Samurai de todas as histórias e até da música do Djavan – se bem que nunca entendi direito essa música do Djavan, que pensei no tal verbo inventado sobre djavanear…

Os passos nos levam para cada caminho, que muitas vezes, só o lúdico nos faz fortes para que a caminhada seja fácil.
Lá na rua de cima tem cada instante de rua florida que dou uma volta enorme para não pisar nas flores. Você iria rir e talvez até me convencesse a deitar sobre elas – aposto…

Mas você não faria isso com o quintal “florido de teias de aranhas”…

Isso, eu consegui registrar e não importa se é aqui, logo que abro o portão, depois desses dias frios, de garoa – ou na rua de cima, logo além das porteiras do sítio Altos da Mata, para onde os olhos do meu pai vigia.
A vida, é o aceitar, Luci… tipo presente ou bolo da vizinha que insiste em nos imputar o pecado da cobiça. Vai me dizer que nunca cobiçou o cheiro de bolo que vem pelo vento e que a gente nunca sabe de qual casa vem o tal cheiro?

É um querer tudo e até o que não nos cabe na mão. Se minha mãe estivesse aqui, talvez, o olho fosse o termômetro para a vontade de ser, Luci… e ser é apenas aceite… Aceite dos caminhos que os passos cruzarem…

Os passo fazem parte do caminho… seja no ar, na imaginação ou na terra…

Luci… ah! Chego a suspirar quando me lembro dos pés a beijar a terra e a vida se torna tão gigante nos retratos pendurados nas memórias.
Era Maria, Branca de Neve, era Dolly e logo atrás de tudo aonde a câmara-olhos não alcançaram Manu, brigadeiro a desenhar instantes do para sempre. Devia ter escrito conto de fadas, Luci… igualzinho tu fez com Baunilha e tua Anna e nessa hora imagino tua grandeza dentro do poema do Bukowski…

Já te contei que meus passos me levaram às nuvens, Luci e que lá de cima sua cidade ficou quase que ao toque das minhas mãos? Juro que se tivesse poder de verdade, soprava as dores e tudo viraria apenas histórias para tua Anna.

Eu estive aí, Luci… tão perto de você que em alguns momentos a visualizei no rompante da escada e lá estava seu riso anos 60 e Anna para os passos do abraço.
Corredores me alcançou na graça do amor e resiliência dentro dos dias. Foi pura emoção, Luci. O livro sendo fonte de resiliência e amor.

Enumerei um a um a quem eu daria abraços no ar – porque alguns, abracei de cheiro de perfume e de café – e esse cheiro sempre me levará para a magia que me rodeava como se fosse eu mesma uma personagem das histórias que a vida escreve…

Talvez seja! Vai saber!

Mas a vida, Luci… Ah, a vida? A vida é feita de passos.. Ah, se eu pudesse escrever sobre os passos da vida…

Ainda bem que existe a fotografia pra se fazer entender.

Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Editora Scenarium Plural
Participam desse projeto:
Cilene Mansini | Maria Vitoria | | Mari de Castro | Obdulio Nuñes Ortega | Lunna Guedes