326. das fragilidades secretas

 

A espera é esse bilhete de papel na parede,  o desenho opaco do coração que rabisquei e que o tempo desbotou.
A roupa no varal a dançar com o vento.
Deveria te escrever essa carta. Falar do tempo que muda constantemente. O pé de romã brotou. Os musgos tomaram conta da parede do canil.
A erva doce exala de alguma cozinha por perto. Penso em chá.
A tarde amarelou depois da chuva; Lembrei de outras cartas que rasguei sem enviar; o homem da reciclagem apareceu. Falou de saudades que não deixou ele trabalhar. Suspirou dentro da madrugada passada. Chovia.
A cor que acolhe a noite tem os tons que aquece o peito. Devia caber na alma essa solidão.
Fujo apressadamente dos raios que envolve a noite. Cuido dos insetos para que não molhem. Um ninho deles inteiro foi salvo enquanto chovia.
Por um instante, a vida é esse aconchego que enxergo ali…

Mariana Gouveia
326. das fragilidades secretas
Anúncios

325. das fragilidades secretas

 

Já te contei que invento a rua de cima?
Que o silêncio quando ecoa, faz um barulho ensurdecedor?
Na rua de cima tem as meninas que cuidam da beleza. Coloca nos dedos, a cor. Tem cada nome o verniz que a moça de cabelos vermelhos desenha na unha.
É quase uma tentativa de colar jardim nas mãos.
A árvore que fica além da esquina, floresce. Lá, de noite, eu consigo ver as estrelas todas.
É quase vertical, o portal. Os muros altos e as trepadeiras invadem as casas com suas cores insanas.
Essa rua, inventei em detalhes.
As casas e suas cores vibrantes cheia se sons. E a vida acontece dentro dessa invenção.
A estação acontece dentro das horas.
As fotografias do instante sobre o muro. O voo dos pássaros a cruzar a linha imaginária que invento entre uma rua e outra.
Tudo ímpar. Os números da rua a combinar com as casas. A sorte desenhada nos trevos e a alma inventada na rua do nada.

Mariana Gouveia
325. das fragilidades secretas

324. das fragilidades secretas


O dia rompe as rotinas do nada. Era hora de espionar segredos. Na rota dos olhos, o espelho. Denuncia o cansaço de não dormir.
Ela anota. Eu anoto. Rasgo palavras que havia escrito. Uma espécie de silêncio no ar. Tão gritante e ao mesmo tempo, ensurdecedor.
Ando até a janela. O horizonte mostra a ilusão que vivi.
As frases ecoam na cabeça. Divagações do que poderia ter sido diferente e de como ainda brinca quando fecha etapas.
Escrevo o nome dela na janela do agora. Quase grito, quase chamo. Calo.
Ela anota. Eu apago. Rasuro. Sublinho. Acho bonito um nome sublinhado.
Desenho um coração junto. A neblina de fora oferece a opção da escrita.
Um homem pinta um portão de verde. Uma joaninha cai na lata de tinta. Eu a salvei antes que a tinta marcasse as asas.
Ela me olha. Espia os sentimentos que me atinge.
Falo de coisas surreais. Tatuei o nome dela no meu peito. Tenho um amigo imaginário que conversa comigo. Me diz que se chama Tempo e que a melhor escolha da vida, é viver. É um dragão que vive na minha mão. Sublinho a palavra tatuei. Ela ri.
Lembro do riso dela. Lembro de tanta coisa que fizemos juntas.
– Segura ele. Nunca vi um dragão.
– Ele é inofensivo. Só vive no meu imaginário.
Ela anota.
Fala da boneca de milho que era amiga dela quando era menina.
Penso na rapidez das horas. Ela olha o relógio na parede.
Confirma o diagnóstico: Falta de lucidez.
Coloca um comprimido vermelho na minha mão. Meu dragão come.

 

Mariana Gouveia – Divã
324. das fragilidades secretas

 

323. das fragilidades secretas

Quebrou o espelho de mar, faltou o ar da maresia.Os peixes perderam o medo da ave marítima – me tornei alma errante em um céu de falta – com medo de esquecer seu nome repito todo dia quando acordo – rezo ele ao meio-dia – e resmungo ele na noite, quase em sonho, sono.
Conto minha história em poesia diária. Esse rasgo de água que engasga cada vez que bebo.
Uso o amor como se fosse a origem da sede. Devo confessar que quase morri de abstinência.  Isso de falta devia ser proibido mesmo… Quebrar essa regra devia causar afogamento no mesmo mar.
Meu rio não conhece outro destino que não seja o de ir ao encontro do mar.
Sabe a sal a lágrima que cai. As orações saem como se fossem declarações.
Vivo mil anos em uma hora. Tudo esse tempo obscuro que a a hora asfixia no vento. Vivo como peixe de aquário que sonha a liberdade da correnteza. A regra da manhã é a pele descamando de amor.

Mariana Gouveia
323. das fragilidades secretas

 

322. das fragilidades secretas

Perdeu o cheiro da chuva, depois do vento.
O temporal atingiu toda a rua de cima e numa esquina qualquer o vazio das horas.
O homem da reciclagem nunca mais passou… ficou a caixa vazia com as garrafas descartáveis e refaço o mesmo percurso diário das vezes que o vi empurrando a carriola para ver se o encontro.
As meninas do clube perderam a hora na última semana. Vieram caber todas dentro de um abraço no portão. Perguntam também pelo homem da reciclagem.
A rua de cima é vazia sem ele. Fica esse oco na esquina onde os cães latem em alerta.
Lembro – me que ele conhece as constelações todas, sabe o nome dos rios e entende o movimento do vento. Contava a história da árvore que ele mesmo plantara ali, logo acima da casa da esquina, onde morava antes de se mudar. Hoje, é a árvore que abraço, com suas flores amarelas, tardias, fora de hora.
É o lugar onde os pássaros buscam abrigo, depois que fiquei órfã de árvore no meu quintal.
Podia não saber meu nome direito – me chamava de menina e eu o chamava de mestre – mas conseguia colocar esperança dentro das minhas poesias.

Mariana Gouveia
322. das fragilidades secretas

321. das fragilidades secretas

Era moça de peixe – de tanto rio –  o pai ria quando dizia que para peixe faltava apenas a nadadeira.
Cabia nos braços abertos todos os pássaros do lugar… Era menina de árvore – o pai dizia – e ria quando dizia que queria voar.
Era mulher de vento, de tanto tempo que queria partir.
O pai chorou quando a estrada a levou rumo ao desconhecido.
Era brilhante a gota no campo aonde corria, riso largos – os passos – quase voo – e a vida, mundo névoa, gota de chuva – orvalho – e o olho vigilante de pai.
No princípio, era quase o mar – era de peixe – de tanto rio – gota cristalina de mar.
Olho areia, vento na palma da mão. Conselho de vida, nas cartas do tarô – roubado – o andarilho envolto em versos e na leveza da vida a última visão tem nítida nos olhos a liberdade.

Mariana Gouveia
321. das fragilidades secretas

320. das fragilidades secretas

Quando choveu revirou cada canto da casa. As gotas na chuva lembrou as goteiras da infância.
O cansaço abre a porta, faz o chá… verte líquidos. Na mesa da sala, os discos…
Os vinis antigos esparramados entre os poemas antigos, as cartas de tarô.

Tudo antecede a sorte e a vontade da escolha.
O caminho é  logo ali, quando escurece, no canto do muro.
O café frio na xícara e as cartas que nunca enviei.
O aroma de bolo vem da casa vizinha – o vento atravessa as cortinas lilases – e traz de novo as lembranças da infância. O riso das histórias contadas, as frases dos livros lidos e o pai a dizer que tudo é poema em uma noite em que as gotas molham as flores e os azuis que enganam os olhos de amor.

Mariana Gouveia
320. das fragilidades secretas