Sei o som dos passos…

Sei o som dos passos*imagem: Tumblr

 

com que regressas a casa.

No quarto virado a norte,

a prevenir-nos de todos os invernos,

aguardo que prolongues em mim

a tua sombra intacta.

De frutos doces me enfeito.

Uma luz quase clandestina

inunda minhas margens

e deixa-me um rio no vinco da cintura.

O teu desejo terrivelmente puro!

 

Graça Pires in ” O silêncio: lugar habitado”

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Passo o teu nome da minha boca

Kassandra*imagem: Elena Vizerskaya

.

E assim tu vens, menina do rio, louca e desastrada,
nessa tua canoa de silêncios, a entrar no poema.
Mãos em existência felina e respirando sem pausas.
Voltas a cabeça para o lado da luz e abre-se devagar
o talento incendidado do teu rosto.
(…)

Se existe uma chave,
se existe uma chave que não derreta na boca,
se existe uma boca capaz de se abrir para outra boca,
então eu amo,eu beijo,
eu deixo de esperar.

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo no gesto
sem mágoa
de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar, e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.

Ah forte como a loucura é o amor,
o amor como a electricidade dos campos.
O amor-pirâmide, o amor-trevo-de-quatro-folhas,
o amor-moeda-achada-no-chão.
Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva.
Não recues, assombra-te.
(…)

A minha alegria é um aroma de tangerina nos dedos,
comer aos gomos a paisagem e limpar depois
a boca à manga do espanto.

Tu puxas-me e somos duas crianças num trilho de mata,
num banco de pedra, num portão verde
dividindo o aqui e o ali.
Porque nós estamos aqui.
Aqui onde te entrego os meus bolsos,
e – repara – as tuas mãos cabem.

Nós estamos aqui.

Menina do rio na tua canoa de silêncios, a tua voz
enrola-se na minha voz como prédios e sombra numa cidade,
como leite e açúcar na infância, como o destino de um navio.
Atravesso quilometricamente a pobreza deste reino para te ver,
para te ver uma bússola de neve, uma corda vermelha,
a destreza de um telhado através dos dias.

Tu não precisas falar uma outra língua,
o persa é uma língua que nos chega!
Tu não precisas oferecer-me portas e milhares de portas,
basta que apareças.
Que apareças nesta fogueira de bruxas,
na inquisição canina de uma época longe, muito longe,
dolorosamente longe da magia de um homem e de uma mulher.

Nós estamos aqui para arder pelo nosso corpo completo.
Tu e eu, leões estirados ao sol,
harpa para os nossos dedos quentes,
poema numa sala de lâminas.

Nós estamos aqui para fugir,
nós estamos aqui para chegar de vez.


Vasco Gato

meio amargo meio doce

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Nas cores tão vibrantes, fica marcado no vermelho-rubro a lembrança de você me doando por companhia a solidão.
 
Da minha lucidez na tua cama esvazio de mim desejos meus de ser tão (e tão e só) tua.
 
Me dá teu doce, teu cio, senão fico divagando sobre o medo,o segredo…
 
Do amor, o meu, tão seu, tão tudo. Mas é de entrega que falo. Dessa entrega que sou quase você de tanto amor.
 
Eu fico meio doce, meio amargo então. Quebro rotinas, derreto geleiras.
 
Fico assim, de querer muito você, de querer e gostar de ser tua.
 
Tanto faz que eu exista em você tanto e tanto. O que quero é sentir você nas digitais tatuadas no corpo onde tuas mãos me tocam, ou no ar que eu respiro você.
 
Mariana Gouveia
*imagem: Oleg Oprisco

340. dos verbos indefinidos

O cheiro da grama recém cortada dá a sensação de passado. A memória resgata lembranças que fizeram parte da infância.

Contei minha vida em carta. O rádio e sua maneira de resgatar verdades.
Tudo acontecia no século passado. A música da sua vida na voz do locutor. As ondas gravitacionais fazendo com que a viagem seja feita passo a passo.
O porta retrato guardando a família toda. Os que já foram parecem mais presentes ainda, mesmo depois de tanto tempo.
O verbo era quase um propósito de espera.
As ervas no jardim, criando sementes – as flores sendo colo para a vida – e da semente, a flor… fruto.
O amor sendo a palavra feminina na cor. Era apenas o regresso de um mundo que sonha vontade.
Mariana Gouveia
340. dos verbos indefinidos

261. Entre uma estação e a primavera

 

Fazia o chá para além das xícaras – era a espera antecipada da estação – amanheceu hoje com gosto de inverno.

O meu quintal é alheio a tudo – tem vida própria – pássaros cantam.

Refaço horóscopos para o mês seguinte. Os astros estão em ebulição. A natureza grita pelo vento de um furacão.

Veria algo novo no raiar do dia…. A maresia chegou de mansinho pelas palavras dela. O pássaro voa alheio a tudo. O cão late na folha seca que cai.

Remexe nas sementes perdidas. Escoa a água da pia. O chá ferve.

Aprisiona desejos secretos. Ri sozinha dos pensamentos loucos.

Refaz o roteiro do horóscopo. Alterna os dias. Gelo para a luxação do pé. A dor acalma quando a alma dança. Chorou no poema que leu. Havia coração em toda parte.

Morde a fruta e vai esperar o dia de amanhã.

 

Mariana Gouveia
261. Entre uma estação e a primavera

88. da estação das águas

Era o tempo da preparação de algumas colheitas. Os vegetais que foram beneficiados pela chuva estavam em pleno verdor.
Os quiabos exibiam flores e frutos e a horta era a maravilha que a mãe exaltava nas conversas com as comadres e tias.
A quaresma tinha o ritual mais do que comum na região toda. Nas quartas e sextas não comiamos carne vermelha e os legumes e vegetais – juntamente com ovos de galinhas – ganhavam ares de ceia na mesa nesses dias.
As histórias que o pai contava sobre quem teimava sobre esse “jejum” de carne beirava ao terror.
Era a visão do céu e inferno desenhada por palavras em gestos e onomatopéia…
Todos esses instantes foram moldando nossas vidas e ali, diante da estação que ia passando a gente aprendia entre o real e imaginário.

Mariana Gouveia

88. da estação das águas

81. da estação das águas


Minha mãe adorava fotonovelas. Ficava horas a ler e a explicar o que significava as histórias de amor… Lembro – me que a atriz principal era Claudia Ravelli – italiana – e seu par romântico Franco Gaspari…

Minha história preferida era de uma órfã que trabalhava de vender melancia na beira da estrada para sustentar os irmãos menores e a avó.

Ali, na beira da estrada, ela conheceu o amor de sua vida, um príncipe rico… Da história, o que ficou na memória foi a melancia cortada aos cubinhos para as pessoas experimentarem. O amor aconteceu em um dia chuvoso…

Minha mãe aproveitava os dias de chuva para dar ênfase no tempo – chovia forte como agora – e dentro da leitura vinha junto relatos de sabedoria, respeito e amor.

Quando aprendi a ler, descobri que grande parte do que me lembrava das histórias lidas não era igual ao que eu lia. Só depois compreendi que na verdade, minha mãe usava apenas as imagens para ilustrar o que ela nos queria passar.

A fruta era apenas o pretexto de nos falar de como a natureza era generosa com aqueles que plantavam – e sobre a liberdade de plantar e a obrigação de colher – e de como a sorte podia morar em um dia chuvoso.

Ainda guardei por um tempo as fotonovelas. Perdi a maioria emprestando para amigas. Outras, nas mudanças perderam – se em caixas que molharam em dias de chuva, por causa de goteiras.

As histórias que minha mãe lia ficaram gravadas em mim. Poderia descrever cada frase, cada ensinamento e de como ela nos ensinou o amor.

Mariana Gouveia

81. da estação das águas