meio amargo meio doce

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Nas cores tão vibrantes, fica marcado no vermelho-rubro a lembrança de você me doando por companhia a solidão.
 
Da minha lucidez na tua cama esvazio de mim desejos meus de ser tão (e tão e só) tua.
 
Me dá teu doce, teu cio, senão fico divagando sobre o medo,o segredo…
 
Do amor, o meu, tão seu, tão tudo. Mas é de entrega que falo. Dessa entrega que sou quase você de tanto amor.
 
Eu fico meio doce, meio amargo então. Quebro rotinas, derreto geleiras.
 
Fico assim, de querer muito você, de querer e gostar de ser tua.
 
Tanto faz que eu exista em você tanto e tanto. O que quero é sentir você nas digitais tatuadas no corpo onde tuas mãos me tocam, ou no ar que eu respiro você.
 
Mariana Gouveia
*imagem: Oleg Oprisco
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340. dos verbos indefinidos

O cheiro da grama recém cortada dá a sensação de passado. A memória resgata lembranças que fizeram parte da infância.

Contei minha vida em carta. O rádio e sua maneira de resgatar verdades.
Tudo acontecia no século passado. A música da sua vida na voz do locutor. As ondas gravitacionais fazendo com que a viagem seja feita passo a passo.
O porta retrato guardando a família toda. Os que já foram parecem mais presentes ainda, mesmo depois de tanto tempo.
O verbo era quase um propósito de espera.
As ervas no jardim, criando sementes – as flores sendo colo para a vida – e da semente, a flor… fruto.
O amor sendo a palavra feminina na cor. Era apenas o regresso de um mundo que sonha vontade.
Mariana Gouveia
340. dos verbos indefinidos

261. Entre uma estação e a primavera

 

Fazia o chá para além das xícaras – era a espera antecipada da estação – amanheceu hoje com gosto de inverno.

O meu quintal é alheio a tudo – tem vida própria – pássaros cantam.

Refaço horóscopos para o mês seguinte. Os astros estão em ebulição. A natureza grita pelo vento de um furacão.

Veria algo novo no raiar do dia…. A maresia chegou de mansinho pelas palavras dela. O pássaro voa alheio a tudo. O cão late na folha seca que cai.

Remexe nas sementes perdidas. Escoa a água da pia. O chá ferve.

Aprisiona desejos secretos. Ri sozinha dos pensamentos loucos.

Refaz o roteiro do horóscopo. Alterna os dias. Gelo para a luxação do pé. A dor acalma quando a alma dança. Chorou no poema que leu. Havia coração em toda parte.

Morde a fruta e vai esperar o dia de amanhã.

 

Mariana Gouveia
261. Entre uma estação e a primavera

88. da estação das águas

Era o tempo da preparação de algumas colheitas. Os vegetais que foram beneficiados pela chuva estavam em pleno verdor.
Os quiabos exibiam flores e frutos e a horta era a maravilha que a mãe exaltava nas conversas com as comadres e tias.
A quaresma tinha o ritual mais do que comum na região toda. Nas quartas e sextas não comiamos carne vermelha e os legumes e vegetais – juntamente com ovos de galinhas – ganhavam ares de ceia na mesa nesses dias.
As histórias que o pai contava sobre quem teimava sobre esse “jejum” de carne beirava ao terror.
Era a visão do céu e inferno desenhada por palavras em gestos e onomatopéia…
Todos esses instantes foram moldando nossas vidas e ali, diante da estação que ia passando a gente aprendia entre o real e imaginário.

Mariana Gouveia

88. da estação das águas

81. da estação das águas


Minha mãe adorava fotonovelas. Ficava horas a ler e a explicar o que significava as histórias de amor… Lembro – me que a atriz principal era Claudia Ravelli – italiana – e seu par romântico Franco Gaspari…

Minha história preferida era de uma órfã que trabalhava de vender melancia na beira da estrada para sustentar os irmãos menores e a avó.

Ali, na beira da estrada, ela conheceu o amor de sua vida, um príncipe rico… Da história, o que ficou na memória foi a melancia cortada aos cubinhos para as pessoas experimentarem. O amor aconteceu em um dia chuvoso…

Minha mãe aproveitava os dias de chuva para dar ênfase no tempo – chovia forte como agora – e dentro da leitura vinha junto relatos de sabedoria, respeito e amor.

Quando aprendi a ler, descobri que grande parte do que me lembrava das histórias lidas não era igual ao que eu lia. Só depois compreendi que na verdade, minha mãe usava apenas as imagens para ilustrar o que ela nos queria passar.

A fruta era apenas o pretexto de nos falar de como a natureza era generosa com aqueles que plantavam – e sobre a liberdade de plantar e a obrigação de colher – e de como a sorte podia morar em um dia chuvoso.

Ainda guardei por um tempo as fotonovelas. Perdi a maioria emprestando para amigas. Outras, nas mudanças perderam – se em caixas que molharam em dias de chuva, por causa de goteiras.

As histórias que minha mãe lia ficaram gravadas em mim. Poderia descrever cada frase, cada ensinamento e de como ela nos ensinou o amor.

Mariana Gouveia

81. da estação das águas

80. da estação das águas

Frutas.jpgTeve um dia desse tempo que não choveu. Tiramos os paletós de flanela para ensolarar e fomos todos ver as margens do rio por onde a enchente passou.
O cerrado apresentava-se em festa e estava em plena gestação de frutos. O murici carregadinho e as cores eram das mais variadas. O pé de mangaba quase beijava o chão. Enchíamos as nossas cestas enquanto meu pai repetia da generosidade da natureza, erguendo o chapéu para nos lembrar que a natureza era Deus.

O cheiro chamava a atenção das abelhas e o cajuzinho do cerrado, apesar de ser mais azedo era muito bom para o suco. A marmelada nos lembrava a música do Sítio do Pica Pau Amarelo e entoávamos a canção enquanto descobríamos uma planta nova que nascia.
No banhado, as araras faziam a algazarra de quem estava há um tempo longo sem bater as asas. Era tempo de sol e dia de catar os frutos enquanto a gente podia.
A colheita no fim do dia era imensa e dali saía doces em compotas que minha mãe fazia tão bem para adoçar as nossas vidas.

Mariana Gouveia
80. da estação das águas

78. da estação das águas

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Todos os anos havia o ritual do milho no dia de São José. A escolha das sementes era feita por meu pai que escolhia uma a uma que seria plantada. O ciclo era feito de forma que quando chegasse as festas de Junho teríamos milho fresquinho para o bolo, o curau, a pamonha e depois seco para o ano inteiro para as criações, pro fubá, a canjica, pro cuscuz e outras iguarias que minha mãe fazia tão bem.

A trovoada era sinal de que se confirmava a chuva necessária para a plantação.
Nesse dia, sempre chovia – e em alguns anos que não choveu foi uma catástrofe para a colheita – e era o sinal que todos esperavam para começar a plantação das sementes.
Logicamente, pelo calendário, era o fim do verão e começava o outono com suas manhãs mais amenas… Porém, para nós ainda era a estação das águas e durava até o fim de Março.
O ciclo era de fé – e meu pai olhava o céu levantando o chapéu em forma de agradecimento – e ali, entre a máquina de plantar, o pé a cobrir a semente colocada como se fosse uma joia, ele repetia frases
de oferta e de agradecer.
Os dias a seguir eram de expectativas até a gente ver o raminho brotar e contar a partir dali, os três meses para a colheita.
A boneca a se formar em espiga, o verde tenro das folhas até a colheita eram momentos de magia dentro dos dias.

Mariana Gouveia
78. da estação das águas