Ela era inteira rua…

fa61e120a2ff51204a5c6586b5875bce*Imagem: José Machado

Mas a menina andava nua,
livres de coisas banais
Ela inteira rua,
Era lua e laranjais.

                                                                                         — Velha Cigana & Frasear

Num fogo de cerejas

num fogo de cerejas

No leito aberto do teu corpo
não durmo.

Ardo.

Entranho-me humidamente
num fogo de cerejas
que cresce no teu peito.

E a meio de ti,
nesse vértice incendiado,
sorvo água
nascente
das raízes
da tua carne.

Vitor Encarnação
*imagem: Tumblr

a vida por um instante, é agridoce

a vida por um instante é agridoce

Delírios derretem dentro de mim

o olho que espera o beijo

a boca que beija a fruta

 

é muito desejo para um corpo só

(era a saudade batendo ponto no meu quintal)

 

a vida por um instante é agridoce

 

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Sei o som dos passos…

Sei o som dos passos*imagem: Tumblr

 

com que regressas a casa.

No quarto virado a norte,

a prevenir-nos de todos os invernos,

aguardo que prolongues em mim

a tua sombra intacta.

De frutos doces me enfeito.

Uma luz quase clandestina

inunda minhas margens

e deixa-me um rio no vinco da cintura.

O teu desejo terrivelmente puro!

 

Graça Pires in ” O silêncio: lugar habitado”

Passo o teu nome da minha boca

Kassandra*imagem: Elena Vizerskaya

.

E assim tu vens, menina do rio, louca e desastrada,
nessa tua canoa de silêncios, a entrar no poema.
Mãos em existência felina e respirando sem pausas.
Voltas a cabeça para o lado da luz e abre-se devagar
o talento incendidado do teu rosto.
(…)

Se existe uma chave,
se existe uma chave que não derreta na boca,
se existe uma boca capaz de se abrir para outra boca,
então eu amo,eu beijo,
eu deixo de esperar.

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo no gesto
sem mágoa
de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar, e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.

Ah forte como a loucura é o amor,
o amor como a electricidade dos campos.
O amor-pirâmide, o amor-trevo-de-quatro-folhas,
o amor-moeda-achada-no-chão.
Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva.
Não recues, assombra-te.
(…)

A minha alegria é um aroma de tangerina nos dedos,
comer aos gomos a paisagem e limpar depois
a boca à manga do espanto.

Tu puxas-me e somos duas crianças num trilho de mata,
num banco de pedra, num portão verde
dividindo o aqui e o ali.
Porque nós estamos aqui.
Aqui onde te entrego os meus bolsos,
e – repara – as tuas mãos cabem.

Nós estamos aqui.

Menina do rio na tua canoa de silêncios, a tua voz
enrola-se na minha voz como prédios e sombra numa cidade,
como leite e açúcar na infância, como o destino de um navio.
Atravesso quilometricamente a pobreza deste reino para te ver,
para te ver uma bússola de neve, uma corda vermelha,
a destreza de um telhado através dos dias.

Tu não precisas falar uma outra língua,
o persa é uma língua que nos chega!
Tu não precisas oferecer-me portas e milhares de portas,
basta que apareças.
Que apareças nesta fogueira de bruxas,
na inquisição canina de uma época longe, muito longe,
dolorosamente longe da magia de um homem e de uma mulher.

Nós estamos aqui para arder pelo nosso corpo completo.
Tu e eu, leões estirados ao sol,
harpa para os nossos dedos quentes,
poema numa sala de lâminas.

Nós estamos aqui para fugir,
nós estamos aqui para chegar de vez.


Vasco Gato

meio amargo meio doce

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Nas cores tão vibrantes, fica marcado no vermelho-rubro a lembrança de você me doando por companhia a solidão.
 
Da minha lucidez na tua cama esvazio de mim desejos meus de ser tão (e tão e só) tua.
 
Me dá teu doce, teu cio, senão fico divagando sobre o medo,o segredo…
 
Do amor, o meu, tão seu, tão tudo. Mas é de entrega que falo. Dessa entrega que sou quase você de tanto amor.
 
Eu fico meio doce, meio amargo então. Quebro rotinas, derreto geleiras.
 
Fico assim, de querer muito você, de querer e gostar de ser tua.
 
Tanto faz que eu exista em você tanto e tanto. O que quero é sentir você nas digitais tatuadas no corpo onde tuas mãos me tocam, ou no ar que eu respiro você.
 
Mariana Gouveia
*imagem: Oleg Oprisco

340. dos verbos indefinidos

O cheiro da grama recém cortada dá a sensação de passado. A memória resgata lembranças que fizeram parte da infância.

Contei minha vida em carta. O rádio e sua maneira de resgatar verdades.
Tudo acontecia no século passado. A música da sua vida na voz do locutor. As ondas gravitacionais fazendo com que a viagem seja feita passo a passo.
O porta retrato guardando a família toda. Os que já foram parecem mais presentes ainda, mesmo depois de tanto tempo.
O verbo era quase um propósito de espera.
As ervas no jardim, criando sementes – as flores sendo colo para a vida – e da semente, a flor… fruto.
O amor sendo a palavra feminina na cor. Era apenas o regresso de um mundo que sonha vontade.
Mariana Gouveia
340. dos verbos indefinidos