Ousadia

ousadia*imagem: Tumblr

Fala das horas mortas – embora vivas – todo dia.
Do fascínio que uma menina faceira provoca nele.
repete o nome dela infinitas vezes.
Assiste sua dança no seu quintal.
A chama de deusa e eu, atrevida, dou-lhe o nome de deuso.
Nome que achei para a magia das palavras que ele assopra em um Teatro de Ousadias.

É contraventor. Usa anagramas e se perde dela em um céu vermelho quando desaba um temporal.
Não se cala, fala, inventa idiomas,cria cidade.

Como as mãos da cartomante, corta baralho de linhas e letras.
Dá voz ao poder de lua, mesmo ela querendo minguar.
Mas toca o que é proibido,
Porque ousa quebrar os espelhos
E me chama ela pelo nome que acha mais bonito.

Pinta flores em carvão ou giz
usa origami mesmo sem dominar.
Chama os ventos astrais para as marcas da pele
onde o vento não voa e cria mais sentidos numa noite simples.

enquanto eu, em sessão solene vivo a poesia
porque a ousadia não pode parar.

 

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

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289. das infinitudes

 

Tinha medo da noite e era dia.

Vasculhava as paredes todas atrás de lembranças. Buscava as digitais dela nos objetos que ela tocou.

Na parede, do lado esquerdo da porta, as horas sem ela corriam ligeiras. Voavam feito aves no céu.

Em algum canto, rabiscou um coração com o nome dela e foi nesse momento que um arco-íris cruzou o céu de ponta a ponta.

Era quase imperceptível. Mas parecia ter zoom ao olhar para a parede do lado esquerdo da porta, quando via as horas a voar e o vento agitava a cortina.

De noite, parecia que as asas brilhavam e dançavam saudade olhando para ela.

Por isso, tinha medo da noite.

Era quando os fantasmas surgiam em forma de asas.

 

Mariana Gouveia
289. Das infinitudes

271. Entre uma estação e a primavera

 

Eu devia saber dessa coisa – tempo – espaço… Desses vãos que trazem ventos e  entram afastando os móveis de lugar. Sabia que seria difícil essa coisa da dor, logo depois que se desfazem os gestos de comida pronta na cozinha quando a noite chega e o relógio – tão silencioso durante o dia – ganha ecos de um tic – tac sem fim.
Eu devia saber que quando a primavera invadisse meu quintal e o cheiro de hortelã invadisse os quartos e a falta de ar não permitisse o sono eu ia chamar o nome dela e depois disso, a alma já poderia suportar tudo.
Mariana Gouveia
271. Entre uma estação e a primavera

144. dos dias dias diferentes dos outros dias

144. dos dias diferentes dos outros dias

O tempo dentro dos relógios não tem noite nem dia.

Um caos se instala na luta. Os mitos quebram os espelhos. Vejo- me aos pedaços nos cacos. Deformam minha solidão inspirada na esperança.

A vida fica instável na palavra cantada.

Era necessário que o tempo estabelecesse a ordem…

O homem sangra na pele e a natureza cumpre sua rotina de beleza…

Em alguns dias, o mundo fica ao contrário e a leveza pende em um galho de flor.

Alguém fala de jazz ou de blues – nunca sei – e as cartas chegam espelhadas de vida.

No ônibus alguém faz os relatos do acaso e a moça tagarela diz sobre o que a patroa acha de tudo isso.

O cansaço domina a mente.  Lá fora a noite sabe pouco disso. As buzinas ecoam. O prédio vigia a rua no silêncio vazio da periferia. O silêncio é gritante diante do que se sabe. A inquietação toma conta do silêncio – que grita – e o espaço sufoca entre a teoria e as notícias.
É necessário ocupar a alma de leveza e apesar das horas invadirem o silêncio, ainda se pode conviver com a inquietação.

Mariana Gouveia
144. dos dias diferentes dos outros dias

O silêncio aumentou tanto que o relógio parou

a-invencao-do-relogio

“Mil anos que escrevas”, disse, “não saberás a quem”

  Maria Gabriela Llansol

 

Querida Ana,

Eu já li em algum lugar o quanto é difícil escrever em primeira pessoa. Falar até eu falo – Eu falo comigo mesma e quase que o tempo todo e no fim, vem a ser você – mas escrever é mais complicado. Por isso, terei cuidado em escrever para mim e falo com você.
Escrevo essa carta na solidão do agora. Volto aos corredores quando eu não estava contigo. As paredes vazias de cores.
Você distrai nas palavras antigas. Escreve poemas na mente enquanto as pessoas de branco, anônimas, quase, passam e desviam o olhar. Não querem ver a solidão dos seus olhos. Abrigam-se em seus jalecos como se procurassem no bolso a fórmula de ser invisíveis.
Eu não estava ai e nem sabia que os corredores nos ligavam e que a palavra cura viria em minha boca quando você nem sabia das promessas de beijo que  dedicaríamos através dos séculos.
Hoje, atravessamos juntas os corredores do tempo. Transpiramos emoções.
Hoje, o relógio para dentro da solidão desse silêncio. Aqui também as pessoas desviam o olhar enquanto medem a pressão, temperatura e procuram a veia melhor para o procedimento. Já vivi isso antes e parece que tudo está se repetindo – os mesmos gestos, os mesmos olhares e a mesma resignação de antes – e ainda assim é tudo diferente.
A sala está vazia e a moça que está sempre por aqui antes de mim não veio. Ela melhora o ambiente com o lenço vermelho que eu sempre brinco que ela roubou de mim. Contou-me coisas da vida dela. Meu deu risos de confiança e durante um momento difícil segurou minha mão e cantou canções para eu dormir.
No fim de semana as coisas acontecem devagar. Em algum lugar, toca uma canção do momento. Um celular dá o bip de alguma notificação e eu conto os minutos. Queria que tudo fosse rápido e passo a vigiar o relógio diminuindo o tempo que falta.
Não queria falar sobre isso, nem com você nem com ninguém…mas sinto que te tranquilizo quando repito que a esperança fica aqui do lado da porta e sai comigo de mãos dadas quando tudo isso acaba e daí, durante a semana me faz companhia todos os dias, exceto quando atravessa o oceano e vai até você.
A moça de branco repete os rituais e parece indiferente ao meu olhar. Volta os olhos para suas anotações em uma ficha que tem meu nome e um código que não define o que tenho. Confesso que isso, todas as vezes, me lembra Clarice e seu poema : “Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome” e como eu não sei o nome posso dar o nome que eu quiser.
Agora, preciso ir…a esperança, às vezes, é impaciente e serelepe igual criança.
A vida é esse bem precioso que se torna muito melhor quando temos a certeza da presença de alguém que amamos, mesmo tão longe.

Beijo,

Mariana

Participam do projeto Missivas de primavera, os autores:
Adriana Aneli: www.adrianaanelicosta.com
Lunna Guedes: https://catarinavoltouaescrever.wordpress.com
Tatiana Kielberman: https://meusabismosfaceis.wordpress.com/
Chris Herrmann: http://www.christinaherrmann.com/
Mariana Gouveia: https://marianameggouveia.wordpress.com
Manogon Manoel Gonçalves: http://coisasdemanogon.blogspot.com
Emerson Braga: http://embusteiroviajante.jimdo.com/
Ingrid Morandian: https://www.facebook.com/ingrid.morandian?ref=ts&fref=ts

Fico a mercê das horas.

Fico a mercê das horas.

O relógio me cata a procura de tempo.
Enquanto viajo para dentro do aconchego, o espaço viaja dentro de mim.
Respiro ansiedade para o encontro. Sei que vou sentir saudades, mas vou.
Às vezes, é preciso enfrentar as lembranças. Reviver instantes de ontem.
Colher sorrisos de crianças que brincam. Conhecer outras que nasceram e são tão minhas que se misturam em mim.
Hora de pintar nas emoções do dia a cor do amanhecer, o tom elevado que desponta horizonte afora.
É ali, dentro da memória que busco esperança.
O dia já é quase e a noite já foi.
Amanhã já é quase hoje e é pra lá que eu vou.
Vou colher vontades e respirar melodia no riso que ainda vou viver.
Às vezes, é preciso repor a energia perdida.
Hora de voar.

Mariana Gouveia
*fotografia: Marc Lamey