282. das infinitudes

282. das infinitudes

Era como escrever poemas na pele dela – usar os dedos como tinta e amanhecer lilás depois da madrugada intensa – pintar devaneios entre a nuca e o cabelo.
Caçar a solidão que existe na menina daquele olhar.
Tatear a pele, esculpir vontades e ir decorando textos obscenos que ela diria se estivesse aqui.
Citaria Anaïs Nin, se não misturasse os poemas, ou apenas ficaria em silencio para ouvir a respiração.
Olhou a mesa com as coisas banais. A panela preta que era da mãe. Virou objeto de decoração, ali, no mesmo lugar onde a ama todo dia. A bandeja com os medicamentos que toma. Isso a fez lembrar que era dia – hoje – de ir buscar mais.
O pacote de pão.  Riu ao se lembrar do pão que gerava uma longa conversa entre o pão daqui e o pão de lá.
Tudo isso ocupa agora lugar na mesa.
Veio a vontade absurda de jogar tudo fora. Fazer aquelas cenas de filme.
Conteve-se.
Voltou a desenhar rotinas no corpo dela. Sabia de cor os caminhos todos. A textura, o convite da boca. O olho de fome e essas vontades todas.
Era como escrever poemas na pele dela. Era apenas a cadeira na solidão vazia.
E no silêncio de minhas palavras ela quis ir.

Mariana Gouveia
282. das infinitudes

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231. das impressões do dia seguinte

De frente para o medo, os corredores vasculham a alma de madrugada. A floresta é logo atrás da janela fechada.
O mar bate nas ondas com fúria das pedras.
A lucidez foge e as alucinações são os dias sem novidades e tudo sempre a mesma coisa quando se conta os segundos dentro das horas.
Citei mil vezes as cores dos olhos dela. O calor da noite a invadir o quintal. As violetas brancas a parir as flores na certeza da semente.

Na rádio, o sinal sonoro das horas. E a maresia fazendo sinal de saudade com a boca a sal.
O café servido para a turma da noite e os bules fazendo barulho em qualquer canto.

Trinava a ave de todo dia. O vento bate na janela fechada e a busca do nome a ecoar saudades do que nem foi vivido.
Essa loucura – dizem que pega – é mal de quem mente que não ama amando.

Do outro lado, as regras são quebradas em fotografias com canções dedicadas.
Desse lado, toda a noite, a lua é parda.

 

Mariana Gouveia
231. das impressões do dia seguinte

230. das impressões do dia seguinte


Quase uma semana que a janela não abre – perdeu o significado de espera – perdi a sonoridade do vento que não invade mais os corredores e nem dança com a cortina.

O tempo mudou duas vezes dentro do mesmo dia.
A ave, sozinha, acatou a possibilidade do voo, sem incentivo de asa.
As paredes mudaram a cor diante do espelho.
A noite é um ensaio longo sobre a dor. Conta-se quantas linhas entre os ladrilhos. Quantas telhas ocupam o teto e seus ninhais.
As flores se derramam entre as estações e ficou apenas o vazio da palavra fazendo eco no nunca mais.

Mariana Gouveia
230. das impressões do dia seguinte

 

 

197. da autonomia dos voos

O azulejo da cozinha, o criado mudo, a mesa posta para o café.
A porcelana esquecida no canto e a noite e seus vazios… e… e…
Esqueço-me de que a estação da flores é a primavera e nos dias de quase inverno e outono seco ( as estações se misturam meio dia e meia) e o vento invade os aposentos da casa quando o sol doura tudo que é canto. Meia noite e meio e ainda a luz detalha o canto das cortinas.
É preciso coragem para retirar os panos que tapam os porta-retratos. Pessoas conhecidas dentro de mim mesma e aquele postal do seu lugar. Um estranho postal no meio da parede a murmurar seu nome durante a noite inteira acompanhando o tic tic do relógio e o ponto turístico daquela cidade em que sonhamos conhecer e andar pelas esquinas de mãos dadas enquanto você pronuncia o idioma repetindo os versos da canção.
A mão espalhada acolhia o ser que voa e na escuridão a asa perde o poder de direção. As aves, intactas, desabitadas em seu modo de voar.
Conversa com os pássaros entalhados, para ensinar que voar não tem segredo, mas ainda assim, perdeu a autonomia dos voos enquanto o pouco céu for a estante como morada.

 

Mariana Gouveia
197. da autonomia dos voos

138. dos dias diferentes dos outros dias

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O corredor longo me faz prestar mais atenção à vida, no que sobra dentro da memória dos restos de imagem que vejo da janela.

Alguém busca notícia da menina que gosta de verde… chega a desenhar a palavra no ar.
Ele tem apenas memórias, uma vez que nunca mais a viu e faz a peregrinação todas as noites revisitando os lugares de onde se lembra que ela passou.

Tem a mão dela desenhada em uma camiseta estampada com poemas e agora tão fora de alcance. Então, o amor…

Ignoro a história toda… contabilizo as gotas no vazio da espera e dentro disso folheio em um livro a ignorância da história, a nossa própria – e penso na menina que adora o verde nas palavras todas – escrita a punho, em cartas que não enviei

Alguém diz que sou duas, nas facilidades da força. Repete meu nome dentro de uma música que conta meu nome de diversas maneiras…

Enquanto o corredor escuro é apenas o portal do encantamento que acontece no meu quintal.

Mariana Gouveia
138.dos dias diferentes dos outros dias

Teu corpo

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pausei o sono e de olhos em êxtase
contemplo na noite, o teu corpo adormecido
na distância
toco teu rosto
e de leve tua boca, te impedindo a palavra
dou voz ao silêncio
dou vazão a inquietude da alma que deseja
e na pulsação do peito que ordena e ama
ao teu lado desfaleço.

Margarida DI
*imagem: Kari Lehr Art

4 – Conduz-me ao precipício onde hibernou a alma

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“Havia duas maneiras de partir: uma era ir embora, outra era enlouquecer”.
Mia Couto

                                                                                                                                     Querido abismo,

Hoje, mais uma vez estou de frente para você, na tentativa do pulo ou da coragem de enfrentá-lo. Você tão desafiador, mais uma vez me oferece colo, espaço e eu, tão cheia de liberdade arrisco essa carta como se pudesse voltar atrás, recontar histórias, recriar recomeços, mudar rumos – sei que não posso – mas posso modificar caminhos a partir daqui.
Você já conhece os telhados por onde em noites seguidas encarei para vigiar o céu e as estrelas – você estava sempre ali, à frente da escada – enquanto eu, fascinada olhava o espaço infinito.

Também já sabe das montanhas que avistei… longas horas a ver sua imensidão e sua cor disfarçadas nas cores das árvores e o verde a convidar para o abraço.

Já te enfrentei algumas vezes… atravessei vales inteiros, desci colinas e senti seu toque a me abraçar. Devo confessar que você é tentador.

Nas noites de insônia, você surgia absoluto, incógnito e tolerante… Única opção madrugada inteira, vigia constante das minhas dores e fraquezas.

Hoje te encaro, olho no olho… sem vacilo, chego mais perto daquilo que me oferece e estendo a mão… quase um toque em seu vento oscilante e convidativo.

Você não sabe, mas me fortalece, com sua presença intrigante, sempre a me entregar a amplitude pela qual sempre lutei e seu nome muitas vezes, vem disfarçado de liberdade.

Você me enxerga normal, com medo e me faz ter coragem sempre que te enfrento. Me lembra todas as vezes que o medo rouba sonhos e me instiga ao pulo…

Me instiga diante de sua presença – você tão gigante – e me oferece a opção de escolher. Posso ir embora e reconhecer meu ponto fraco diante de sua magnitude… Devo dizer que você é o precipício e que a loucura seria minha companheira, se eu permitisse… Que minha alma se esconde dentro de sua palavra, como se buscasse acalanto.

Mas eu não permito e não aceito seu chamado voraz em cada instante que me aproximo de seu espaço, mesmo porque o espaço é meu e sou eu a dona das minhas vontades. Você é apenas uma das coisas que tenho de enfrentar e encarar nesse mundo de cão.

Eu aceito sua presença infinita em mim e nessa hora, me permito ao voo.

Mariana Gouveia
Projeto Missivas de Abril
Scenarium Plural Editora