313. das fragilidades secretas

 

 

 

 

 

A peça pendurado no alto
oculto o gesto das mãos.
Era asa solta, a saia

Já era apenas parte no cabide, a peça.
As flores abandonaram o tecido e foram trilhar no jardim
nas palavras de poesia, onde a moça louca chora nos cantos, pendurada no teto.
Os cabelos com jeito de segredo.
Era vermelho o acaso registrado.
e do eclipse a palavra solta
Nas gavetas escondia as cartas repletas de sonho.
O manual nas artérias enchia o peito de liberdade.
Se as paredes falassem de solidão
tudo era esse grito entalado no peito e essa bendita falta de ar não combina com a falta de vestido.

Mariana Gouveia
313. das fragilidades secretas
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302. das infinitudes

 

O dia parece aquelas fotos antigas penduradas na parede. A família toda reunida em volta da mesa, e o retrato ali, lembrando os ausentes. Contando histórias de antes. O vento a dançar com as cortinas e os risos fáceis das crianças na rua.

Ainda era ontem e a felicidade estampada nos jornais. As palavras cruzadas rabiscadas nas folhas e o disco de vinil cantando a canção. Era assim antigamente…

– Não era aquela canção que a mãe gostava?

O sapato de verniz voltou à moda de novo e outra vez o rosa millenium é a cor da estação.
Releu para todos o horóscopo do jornal.

A moça do tempo refez as previsões da semana. O cheiro de pão da padaria faz lembrar quantos blocos a calçada tem até lá. A árvore favorita da rua de cima floresceu de novo. Alguém disse que havia magia naquela árvore desde tempos atrás. O café feito da maneira antiga e de novo as lembranças de outro tempo no álbum de retratos. O riso, ali, na face da criança que nem parecia ela…

A garrafa de leite que era da mãe, a panela de barro, a música e a saudade a ecoar palavras de sorte. Colocou o vestido que usava só para os dias de festa. A vida, às vezes, parece detalhe de livro.

 

Mariana Gouveia
302. das infinitudes

— Que mundos te guardem e te apartem de mim…

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A casa, à noite, era iluminada pelas lamparinas e o céu, de tão estrelado para iluminar os campos e os vaga-lumes inspiravam poesia. Não dava para ler – ou até dava, se conseguisse driblar o olho atento da mãe. O lampião veio anos mais tarde.
Contava as horas para amanhecer e devorar os livros ou escrever.

Criei um desvio para atravessar a ponte e ir além da colina. A escola foi feita no alto do morro. Ali, as crianças das fazendas vizinhas eram beneficiadas pelo invento que meu pai criara – construíra a casinha no alto da colina para que nada atrapalhasse os estudos – e a professora viera da cidade. O olho atento para os filhos do dono da escola. O cheiro dos cadernos criados por minha mãe e o descampado que mostrava lá embaixo o capim dourado a colorir a paisagem.

Todo objeto queria virar gente na minha mão. O livro quase virou na palavra escrita. O caderno todo em branco, esperando que as linhas fossem preenchidas com o verbo na palavra. A lembrança da mãe costurando o papel do saco do pão e ganhando estrutura de caderno.

Um dia, um lápis se perdeu em minha mão. Ganhou encanto no verso e na rima. Era laranja, o lápis… e a cor se encontrou no verbo e na gramática. Um lápis não pode ficar em silêncio. Ele quer gritar e usa a minha vontade de escrever e fazer um livro.

Fiquei adulta e aquela escola, no pé da colina foi me levando vida afora dentro de tantos mundos. Caibo em todos, assim como cabia na cadeira perto da janela e me perdia horas a fio a imaginar o capim dourado se transformando em arte e poesia.

Algumas cenas confundiram minha vida, mas ainda assim, me levaram para um passado onde reviro as coisas do baú.

Virei confusão nos personagens que encontro todos os dias – fora e dentro de mim – e confundi semente com flor. Amei mais nuvens que céu, mais voo do que pouso e mais letras do que palavras.

Era ali – ou ainda é – que a cozinha vira lugar de aconchego. Os objetos mudam de lugar. Ganham morada nova na cômoda do canto. A fotografia da avó com a colher de pau na mão, amarelada na parede que dá para o corredor. A janela no ponto certo onde a vista dá para a horta preparada para o alimento. Há mais janelas que cortinas. Mais riso que choro.
O rádio na cantoneira estilo curioso que a mãe mesmo pintara com as tintas feitas de folhas de árvores. Os bibelôs esquecidos no canto. Um sino de porcelana perto do elefante trazido da China – não se sabe por quem – e um quadro de flores bordado pela mãe. Ela tinha essas coisas de bruxa e índia. De sagrada e intocável. Sabia a cura através dos remédios feitos com ervas e benzia as crianças com dedos que imitavam os cataventos. Curava os males de quem sofria. De longe parecia uma mãe normal… de perto era uma mulher que ensinava a vida através das palavras. E eu sou essa página escrita no dia a dia.

Mariana Gouveia
Projeto Crônicas de Outubro
Editora Scenarium Plural

282. das infinitudes

282. das infinitudes

Era como escrever poemas na pele dela – usar os dedos como tinta e amanhecer lilás depois da madrugada intensa – pintar devaneios entre a nuca e o cabelo.
Caçar a solidão que existe na menina daquele olhar.
Tatear a pele, esculpir vontades e ir decorando textos obscenos que ela diria se estivesse aqui.
Citaria Anaïs Nin, se não misturasse os poemas, ou apenas ficaria em silencio para ouvir a respiração.
Olhou a mesa com as coisas banais. A panela preta que era da mãe. Virou objeto de decoração, ali, no mesmo lugar onde a ama todo dia. A bandeja com os medicamentos que toma. Isso a fez lembrar que era dia – hoje – de ir buscar mais.
O pacote de pão.  Riu ao se lembrar do pão que gerava uma longa conversa entre o pão daqui e o pão de lá.
Tudo isso ocupa agora lugar na mesa.
Veio a vontade absurda de jogar tudo fora. Fazer aquelas cenas de filme.
Conteve-se.
Voltou a desenhar rotinas no corpo dela. Sabia de cor os caminhos todos. A textura, o convite da boca. O olho de fome e essas vontades todas.
Era como escrever poemas na pele dela. Era apenas a cadeira na solidão vazia.
E no silêncio de minhas palavras ela quis ir.

Mariana Gouveia
282. das infinitudes

231. das impressões do dia seguinte

De frente para o medo, os corredores vasculham a alma de madrugada. A floresta é logo atrás da janela fechada.
O mar bate nas ondas com fúria das pedras.
A lucidez foge e as alucinações são os dias sem novidades e tudo sempre a mesma coisa quando se conta os segundos dentro das horas.
Citei mil vezes as cores dos olhos dela. O calor da noite a invadir o quintal. As violetas brancas a parir as flores na certeza da semente.

Na rádio, o sinal sonoro das horas. E a maresia fazendo sinal de saudade com a boca a sal.
O café servido para a turma da noite e os bules fazendo barulho em qualquer canto.

Trinava a ave de todo dia. O vento bate na janela fechada e a busca do nome a ecoar saudades do que nem foi vivido.
Essa loucura – dizem que pega – é mal de quem mente que não ama amando.

Do outro lado, as regras são quebradas em fotografias com canções dedicadas.
Desse lado, toda a noite, a lua é parda.

 

Mariana Gouveia
231. das impressões do dia seguinte

230. das impressões do dia seguinte


Quase uma semana que a janela não abre – perdeu o significado de espera – perdi a sonoridade do vento que não invade mais os corredores e nem dança com a cortina.

O tempo mudou duas vezes dentro do mesmo dia.
A ave, sozinha, acatou a possibilidade do voo, sem incentivo de asa.
As paredes mudaram a cor diante do espelho.
A noite é um ensaio longo sobre a dor. Conta-se quantas linhas entre os ladrilhos. Quantas telhas ocupam o teto e seus ninhais.
As flores se derramam entre as estações e ficou apenas o vazio da palavra fazendo eco no nunca mais.

Mariana Gouveia
230. das impressões do dia seguinte

 

 

197. da autonomia dos voos

O azulejo da cozinha, o criado mudo, a mesa posta para o café.
A porcelana esquecida no canto e a noite e seus vazios… e… e…
Esqueço-me de que a estação da flores é a primavera e nos dias de quase inverno e outono seco ( as estações se misturam meio dia e meia) e o vento invade os aposentos da casa quando o sol doura tudo que é canto. Meia noite e meio e ainda a luz detalha o canto das cortinas.
É preciso coragem para retirar os panos que tapam os porta-retratos. Pessoas conhecidas dentro de mim mesma e aquele postal do seu lugar. Um estranho postal no meio da parede a murmurar seu nome durante a noite inteira acompanhando o tic tic do relógio e o ponto turístico daquela cidade em que sonhamos conhecer e andar pelas esquinas de mãos dadas enquanto você pronuncia o idioma repetindo os versos da canção.
A mão espalhada acolhia o ser que voa e na escuridão a asa perde o poder de direção. As aves, intactas, desabitadas em seu modo de voar.
Conversa com os pássaros entalhados, para ensinar que voar não tem segredo, mas ainda assim, perdeu a autonomia dos voos enquanto o pouco céu for a estante como morada.

 

Mariana Gouveia
197. da autonomia dos voos