Uma bailarina sem pés, uma ave sem asas.

Uma bailarina sem pés, uma ave sem asas

I

Cubro-te de beijos.
Percorro-te.
Desenfreadamente.
A maciez da pele, o respirar tosco, o olhar sibilante.
Sou das tuas mãos.

Do teu amor.
Aconchego-te a roupa, enrosco-me no teu calor.
Sou um gato, uma bailarina doida.

Uma bailarina sem pés, uma ave sem asas.
Sou do teu amor.

Deixo-me estar.

E um rio? um silêncio?

Uma forma de música invade-me o corpo.
Sou o sol.
E tu a luz.

II

Pinto-te as cores.

Peço-te os minutos, as asas e os pés.

Mio. Quero ser um gato.

Enroscar-me no teu calor, pertencer ao teu carinho.

Peço-te os minutos, as asas e os pés.

Sou uma bailarina, numa dança tosca, onde percorro a maciez da tua pele, onde me perco no teu olhar.
E sonho o sol. Os dias de sol ao quadrado.

Agripina Roxo

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Abstinência

abstinência*imagem: Tumblr
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Virei alcóolatra
bebi tua falta
tua ausência

Bebi essa vontade absurda de você

e agora sofro de abstinência
todo dia invado os jardins
como pétalas
arranco as flores
vago entre os canteiros

busco vestígios de você
e na loucura absurda das horas e da falta

tenho alucinações de que você está aqui
na minha boca
e eu bebo você.

Mariana Gouveia

Conhecia tão pouco do olhar dela…

Conhecia tão pouco do olhar dela...*imagem: Tumblr

Mas a voz…
A voz conseguia decifrar em tempo, instância e conjugações verbais todas.

Sabia de cor o dialeto dela. A linguagem do mar. De amar.
As gírias que causava arrepio na alma quando ela falava.
Mas ela não sabia
nem atrevia a dizer.
Era como se precaver da loucura que antecipava nos dias.

Mas a voz, conhecia os rumos,
os assuntos repetidos em um ciclo impulsivo de querer ver.
A pausa que fazia entre um assunto e outro.
Até mesmo o silêncio e o que ele queria dizer.

Conhecia os mapas que as palavras dela levava.
A canção repetida pela maresia e o desejo atento no falar.

Conhecia tão pouco o olhar dela…
coisa de quinze dias navegou no mar cinza denso…

Depois era só palavra e voz…
da voz conhecia tudo.
Os acentos, o acordo ortográfico que não morava ali.

E era ali, na voz dela que mergulhava na vontade absurda de viver.

Mariana Gouveia

Selvagem

selvagem.JPG

Como um sopro eriçando os pelos
como o assanhar leve dos cabelos
e a saia que teima em subir
e o perfume que cheguei a sentir
Selvagem é o vento que te traz a mim

Selvagem é tudo que me liga a você
o vento que Van Gogh pintou
dos movimentos que ele expressou
dos ipês que ele não desenhou…
e a folha que o vento derrubou
selvagem é o me leva a teu amor…

Mariana Gouveia

313. das fragilidades secretas

 

 

 

 

 

A peça pendurado no alto
oculto o gesto das mãos.
Era asa solta, a saia

Já era apenas parte no cabide, a peça.
As flores abandonaram o tecido e foram trilhar no jardim
nas palavras de poesia, onde a moça louca chora nos cantos, pendurada no teto.
Os cabelos com jeito de segredo.
Era vermelho o acaso registrado.
e do eclipse a palavra solta
Nas gavetas escondia as cartas repletas de sonho.
O manual nas artérias enchia o peito de liberdade.
Se as paredes falassem de solidão
tudo era esse grito entalado no peito e essa bendita falta de ar não combina com a falta de vestido.

Mariana Gouveia
313. das fragilidades secretas

302. das infinitudes

 

O dia parece aquelas fotos antigas penduradas na parede. A família toda reunida em volta da mesa, e o retrato ali, lembrando os ausentes. Contando histórias de antes. O vento a dançar com as cortinas e os risos fáceis das crianças na rua.

Ainda era ontem e a felicidade estampada nos jornais. As palavras cruzadas rabiscadas nas folhas e o disco de vinil cantando a canção. Era assim antigamente…

– Não era aquela canção que a mãe gostava?

O sapato de verniz voltou à moda de novo e outra vez o rosa millenium é a cor da estação.
Releu para todos o horóscopo do jornal.

A moça do tempo refez as previsões da semana. O cheiro de pão da padaria faz lembrar quantos blocos a calçada tem até lá. A árvore favorita da rua de cima floresceu de novo. Alguém disse que havia magia naquela árvore desde tempos atrás. O café feito da maneira antiga e de novo as lembranças de outro tempo no álbum de retratos. O riso, ali, na face da criança que nem parecia ela…

A garrafa de leite que era da mãe, a panela de barro, a música e a saudade a ecoar palavras de sorte. Colocou o vestido que usava só para os dias de festa. A vida, às vezes, parece detalhe de livro.

 

Mariana Gouveia
302. das infinitudes