365. dos verbos indefinidos

Retirou a tipoia do braço nessa ânsia imprecisa da escrita.
O vento lembrou Berlim em uma época que não estava lá.
Havia margaridas alimentando insetos com seus polens. O último dia antecede ao primeiro.
As janelas dão vistas para a lateral da canção.
Um ciclo se encerra e outro recomeça no agora.
Rabiscou à lápis as cidades que nunca visitou. Adoraria andar descalça pelas ruas de Paris. Lisboa conheceria sua voz dentro dos fados pelas vielas e ficaria em silêncio reverencioso nos arrozais da China.
Lembrou – se de que viu em algum lugar as vilas coloridas e suas casinhas brancas com gerânios florindo nas janelas – parecia uma pintura que a irmã sabia fazer desde pequena – ficou em dúvida se era de verdade isso tudo ou apenas poesia para acalmar a alma e afastar a solidão de um dia grande.
O pai incutiu- lhe a ideia de reverenciar os dias grandes. Seguia sempre os rituais que aprendeu desde criança e embora soubesse que isso era superstição seguia rigorosamente cada um deles.
Por isso, em um desafio no início de 2017  resolveu reverenciar os dias grandes. Todos os dias do ano e durante os 365 dias que se seguiram reverenciou-os com os rituais, as palavras das cartas, vibrou na estação das águas e se renovou nos dias aleatórios de abril.
Viveu cada um dos grandes com momentos únicos dentro dos dias diferentes dos outros dias.
Conheceu a autonomia dos voos e sentiu as impressões do dia seguinte, que era nada mais do que o agora.
Entre uma estação e a primavera coube nas infinitudes das coisas .
Tudo tão mágico e grande. Tudo tão pequeno e tão tanto.
Dentro dos verbos indefinidos ousou viver mesmo quando o diagnóstico dizia o contrário.
A vida é logo ali.
Cada dia é um dia grande para viver.
O desafio foi cumprido. Somente um dia, em todos esses 365 dias se resumiu em umas poucas palavras. Mas, você que me acompanha, nem deve ter percebido porque mesmo nesse dia ruim, eu o vivi como dia grande. Seja você o definidor do verbo que vai gerenciar seus dias em 2018.
Os próximos dias serão de dias grandes!  Façam valer a pena!

Feliz tudo novo!

beijo
Mariana Gouveia
365. dos verbos indefinidos

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364. dos verbos indefinidos

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Pela manha trazia taciturna e fria as dores da noite.
Enquanto a máquina travava para fazer escoar o café na xícara. Acostumara dar uma batida para então o cheiro invadir os quintais.
O ninho vazio e as horas no breu enquanto o céu antecede os fogos.
O espelho quebrado dentro do quintal. A vontade explícita nos restos dos dias.

E se eu não fosse o pássaro de todo dia?
E asa desprovida de pena não permitisse o voo. Os quadros expostos no retrato antigo. Logo ali, já o novo. Ontem ainda tinha resquícios do século. A história contada em versos.
A memória na tatuagem riscada na pele. Tem dias em que o vento clareia a solidão entre os raios.
Mariana Gouveia
364. dos verbos indefinidos

363. dos verbos indefinidos

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Na distância cabe cartas, telefonemas,
mensagens de voz, cartões-postais,
lágrimas e sorrisos de saudade.
Na ausência, nada.
Talvez só palavras inacabadas
e um silêncio de doer ossos.
Às vezes, penso, que se eu fechar os olhos
o mundo cairá morto aos meus pés.
Tríccia Araújo

 

Bambina mia!

Fecharam a rua de cima. O relógio parou no tempo e foi outro dia a estação e seus diários. O ano lunar era outro dia e tanto e estou a desfiar o tempo para você.

Antes de ontem, antes de amanhã, antes de hoje, antes de mim… depois! E já é de novo outro fim de ano. O pássaro que beija a flor vem avisar que tudo que vivi é essa história que escrevo a cada dia. O varal estende os sonhos que vivi.

Vivi Avessos. O carnaval me desvirou em imagens e a pergunta que veio para além das palavras:
“o que se pretende com o lado de dentro?”
Sabe aquela pele que arrepia e que toca a alma?

Sabe aquele gesto que faz com que você pare, suspire e inspire?

Sabe qual é a maior pretensão do lado de dentro?
Emocionar  –  foi quando comecei a envermelhecer.
Me aventurei em missivas para além das palavras. Abri janelas e mergulhei em sete luas…
Detalhei como seria minha rotina e as vontades todas dentro dos trovões que agora gritam seu nome por aqui.
Lembranças me acompanharam em 6 por 6 e um coletivo me levou por lugares onde eu não alcançaria de outro jeito. Sou essa pluralidade toda de uma maneira tão singular e agradeci de forma doce esse Scenarium que abraça meus dias e me acompanha corredores afora.
No tempero da memória ganhei um baú onde sabores e cores adoçaram a pele e alma.

Vivi sua cidade por dias e respirei carinho em suas calçadas.

Me atrevi a escolher poeta de antes e de agora.
E como se o vinho fosse raro demais, bebi o Vermelho…  E como se a garrafa custasse tanto que se eu beber tudo de uma vez, depois morrerei de vontade de novo do vinho, fui aos poucos embriagando – me nas palavras.

Falei três vezes de solidão e desenhei as missivas de uma primavera quente.

Na bendita pressa dos ponteiros e já era outubro… os prazos em dias e a viagem que não acaba nunca: a que eu ainda não fiz… – e hoje, refaço aqui nesse tempo louco de ontem – onde o café exala seu cheiro no quintal, e o amor expresso ganhou ares de sabores aqui.
Depois, a moça dos detalhes intimistas me descreveu em asas e voei… enquanto um céu desfiava um sopro quieto nos rostos.
De repente o que faz pulsar o meu vermelho por dentro?
O cheiro do branco das folhas do caderno esperando serem preenchidas com palavras.
e o sonetos…
Já era feliz ano velho de novo.
Soube que existia um mar ali… é onde mergulho esperando os dias novos que virão.

E as promessas para um ano novo é o que se desenha agora na janela que dá para a rua de cima, que fecharam hoje, mas que deixaram a chave debaixo do tapete…

Feliz tudo, todos os dias!
Bacio

Mariana Gouveia
363. dos verbos indefinidos

 

362. dos verbos indefinidos

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Na folhinha é oitava de Natal. Há apenas 3 folhas do calendário para serem arrancadas. Os verbos indefinidos conjugam o tempo no passado. Era ainda ontem, a vida. Era ontem aquele desejo – lembra? – a vontade de ser mais na vida de alguém. As regras sendo mudadas dentro do diagnóstico. Os corredores lentos e frios.
A casa sendo indicadora da rua de cima. De lá, o quintal é esse vão de janelas invisíveis.
O vento sendo mensageiro de boas novas. Nasceu a vida ali no quintal.

A única regra da manhã é a ternura instalada nos ramos de maracujás silvestres.
Escrevia as rotinas sentindo a fragrância da flor. A rota da fuga sendo espaço onde atravesso a solidão em meio ao  jardim.
A flor já é oferenda do tempo.
Nunca é permitido os pés descalços na relva seca. As respostas surgem secas nas folhas em branco enquanto o vento arranca mais um dia da folhinha na parede.

Mariana Gouveia
362. dos verbos indefinidos

361. dos verbos indefinidos

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Conheceu uma galáxia estranha no quintal.  Há séculos que reescrevi a mesma história. O ponto final era um poema vertical. A dor instalada na garganta.
A palma da mão estendida na reza:
– Leio sorte ao meio – dia!
A intimidade é o ponto fraco para os fortes.
Há que estender o verbo indefinido. A casa sem janela que marcava o canto do muro na rua de cima. O desejo de viver na dor. Os olhos exaltados no ocaso do agora.
O retrato fosco no silêncio. As árvores ganham garras de monstros. O azul destoa do céu escuro. A solidão é o vestígio dos últimos dias de desafios que a alma enfrenta.
Palavra do dia: resignar.

Mariana Gouveia
361. dos verbos indefinidos

360. dos verbos indefinidos

Ainda havia tempo para dor. A cartografia da pele exposta, nervos, poros.
A tintura feita a mão para contar as horas. As portas noturnas acusando a solidão.
Cortinas sendo puxadas para o espanto da noite. Um corredor intenso onde o silêncio domina a janela. Lá fora, o vento úmido flagra uma ave solitária. As fotografias expostas em preto e branco. A ave, modulada no azul. Molduras descritas dentro da saudade.
Tenho nas mãos as horas que antecedem a noite no improvável som de um pássaro mudo.

A voz na garganta é esse grito onde a solidão, por exemplo, encontra -se com a minha na esquina da rua de cima.

Mariana Gouveia
360. dos verbos indefinidos

358. dos verbos indefinidos

A vida cabia no instante do dia.
Ela me contava a história da lenda. Em algum canto do mundo, um nascimento mudou a simbologia da fé.
Eu apenas a ouvia e a floresta cabia na invenção de um presépio.
Alguns anos depois, repito o gestual das histórias.
Trago ela para o cheiro do quintal, enquanto no jardim a vida nasce todo dia.

*para todos que me acompanham um Natal repleto de amor e harmonia.

Mariana Gouveia
258. dos verbos indefinidos