354. dos verbos indefinidos

A vida é esse arrasto de surpresas e de sorte.
É essa canção que você não entende a letra e cujo refrão gruda em sinfonia nos ouvidos.
A vida é esse búzio disposto na mesa, contando seu futuro para além das janelas. É a estrela do mar querendo sobreviver em pleno rio.
O xadrez exposto na mesa e o livro contando histórias que não as suas.Tem dia que a vida é a rainha expulsa do tabuleiro e o cavalo dominando o mundo antigo.
É o xeque – mate de um sonho.
Às vezes, verdades precisam ser estruturadas.
Mariana Gouveia
354. dos verbos indefinidos
Anúncios

353. dos verbos indefinidos

para que o rio valesse mais que a lágrima,

o orvalho devia ter sabor de vento
dessas manhãs ensolaradas
de estradinhas feitas de flores e de flores plantadas pelas crianças.
para que o pássaro tivesse voo
devia valer mais do que pouso
o céu entre o azul e as nuvens – todas – e o sol mais do que sol
e o brilho todo
para que a sorte valesse tanto
devia valer mais que a crença
devia haver mais esperança
para que a crença valesse tanto
devia ter fé…
* dos dias em que a fé foi a palavra boa.

Mariana Gouveia
353. dos verbos indefinidos

 

352. dos verbos indefinidos

Não fosse eu esse rio

que deságua em meu peito
eu morria todo dia
feito flor no deserto e com a solidão dos quintais.
não fosse eu esse céu
as asas
enquanto espero o 508
as ruas ganham o vento de companhia e na calçada
o cacto de tantos anos que floresce
não fosse eu a cor
o sabor da invenção das palavras na boca
tal qual um beijo que nunca veio.
Solidão.
Não fosse eu, seria o perfil de uma casa que não lembro o nome.

Mariana Gouveia
352. dos verbos indefinidos

351. dos verbos indefinidos

Nasceu vida no quintal. O retrato é o relicário na parede vazia.
Na mesma rua as histórias se encontram. Era o abraço da sorte no trevo da rua de cima.
A essência das roupas no varal… chovia quando o dia se encerrava nas rotinas.
Os pássaros de papel voavam além das janelas. Às vezes, é preciso aceitar o fim.
Tudo é temporário no receituário. A moça de branco mudou a cor das roupas. Nem faz mais o silêncio costumeiro de sempre. Esqueço o nome dela todo dia. Esqueço meu nome toda hora. O vento é esse menino que carrega a fragrância do cheiro da chuva nos arredores.
A tarde azul recolhe asas no varal. A profundidade da dor se misturando aos desenhos opacos feitos nos muros.
Lembrei – me dela e de que adora quebrar regras e eu de as cumpri – las… tudo é o oposto no instante das horas.
Falava da solidão dos dias curtos, de frio intenso e eu de dias imensos, sufocantes e solares.
Às vezes, o amor não consegue atravessar o oceano. Nem a nado, nem voando.

Mariana Gouveia
351. dos verbos indefinidos

350. dos verbos indefinidos

Era essa a maneira de nos encontrarmos.

A fluidez do líquido – e  a água – nas histórias contadas.
A parte do humano quase real – os ossos, a pele – ardendo em febre e a solidez do dia.
A colheita sendo parte da história. A moça de branco na ligação que não atendi. O diagnóstico mudado no envelope.
Era o amanhecer um dia típico. como a selva nas palavras que li e o jardim transversal era uma coragem dentro do medo.
Na ponta da unha, a cor. O carmim a exalar essências quando o sangue é tudo rubro.
Ausência… seu nome é quando?
A tatuagem invisível entre a primavera e outra estação.
Meu medo estampado nos tecidos da cortina e a rua de cima feita de silêncios.
Mariana Gouveia
350. dos verbos indefinidos

349. dos verbos indefinidos

Eram livres os guerreiros dos iguais… A tribo veio para a cidade como motivo de união… quando guerreiros se unem para o bem comum o universo se junta aos desejos. A grandeza da nossa vida expostas em conversas cotidianas e o riso das crianças ecoam floresta afora.
Era gestual as raízes e seu equilíbrio que a terra fazia em volta do povo. É grande demais o universo e cabe no coração de cada guerreiro.

Quando o bem comum é a vontade de todos, a terra em sua soberania age e favorece os espíritos dos homens que lutam.
Esses dias serão lembrados como uma época em que homens e mulheres, com suas crianças – de várias etnias – se uniram em ordem e graça do bem comum. Era um dia igual a hoje.
E nesse dia  a natureza vibrou em instantes e choveu…e fez sol, enquanto a arte foi motivo de encantamento e a amizade celebrada em abraços.
O homem comum se engrandeceu. Os guerreiros aprenderam que a sabedoria do compartilhar é a natureza vibrando na essência do espírito.
E a vida desabrochou em uma hora calma e a flor foi repouso onde o ninho foi pouso para o coração dos homens, onde as artérias douravam ao encanto do bater de asas.
Conta a lenda que o coração batia nas asas de uma borboleta e que os passos depois daquele dia, era quase voo nos guerreiros da floresta.

*encerramento da 19ª Reunião Ordinária dos Conselheiros Locais de Saúde Indígena na Semana de Planejamento e Gestão Indígena – DSEI Cuiabá.

Mariana Gouveia
349. dos verbos indefinidos

348. dos verbos indefinidos

Escondia nas mãos a sorte. No céu, a chuva de meteoros foi além do esperado na madrugada e somente uma estrela caiu diante dos meus olhos.

Era logo ali, além dos muros a vontade.
A dor veio de improviso quando o corpo esfria.
Tornei impossível o mar e o rio secou. Nem choveu pros lados do sul.
Em alguns momentos fica irrespirável essa falta de ar. As janelas fechadas. O céu sem cor e a ave, insone desdenhando a asa.
Em algum canto, uma mulher reescreve sua história em outro idioma.
As árvores tem a altura do sonho. As raízes – a dilatação das veias – voltadas para além da terra solta.
Hoje venho venho feito roda – gigante – o vento é esse sopro onde morro toda noite, apagando o sol e a floresta me engole.
Eu sou quase a ave, de costas para a vida enquanto o jardim é a encruzilhada para a vida.
Mariana Gouveia
348. dos verbos indefinidos