Inquietação pelas borboletas

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*imagem: Mira Nedyalkova

Sentei de novo na poltrona cinza, voltada para a janela.
Depois dos cumprimentos banais a visão de uma borboleta voando rente a janela me tirou a atenção.
Eu sabia decifrar os sinais. Ri.

Ela percebeu meu olhar distraído e seguiu para onde eu olhava.
– A distração das borboletas – ela disse.
– Ah, não sei por que, onde estou sempre aparece uma – falei.
– É coincidência…
Percebi que ela procurava as palavras certas para dizer. Evitou o assunto borboletas.
– Vamos aos trâmites convencionais – ela continuou.
– Não acredito em ninguém convencional. Essa hipocrisia boba do comum.

Pediu que eu decifrasse o incomum. Qual o objetivo do imaginário.
– Eu disse comum.
– Algumas pessoas gostam de imaginar que tem um lado secreto. Ajuda a enfrentar a realidade.
– Eu gosto de imaginar que tenho um lado real. Me ajuda e enfrentar o meu lado secreto.

a borboleta voltou.
Ela me conta sobre sua infância e sua inquietação pelas borboletas.

Mariana Gouveia – do Divã

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Divã

Divã
*Imagem: Nan Goldin

Essa sou eu,
mas, às vezes, uma confusão bate e vou na janela.
Pergunto se posso tirar os sapatos. Mostrar quem sou de fato.
Tiro as roupas também? – pergunto –
Nua me mostro no espelho e o reflexo que vejo é ela.
Sempre ali. Cara sobreposta na minha. Olhosdelameninadosolhoseu.
É típica de tempestade interna essa indecisão/procura.
O espelho nunca te mostra onde é você mesma.
O reflexo me vende olheiras. Vazio branco oco por dentro.
Desatino.
Saio com riso de louca no olhar. Quebro o espelho.
Mais sete anos de sorte.
Tem consulta hoje?

Mariana Gouveia

Das horas

das horas

As horas não passam no sentido das coisas.
Ela anota meus desafios diários.
A cortina não combina com meu estado de espírito. Permanecem fechadas e isso foi ontem.
Hoje eu falo calada. Eu olho o relógio. Ela olha o relógio. Anota.
Deve ser essa pressa de ir embora que me move.
– Pra onde?
– De nada para lugar nenhum.
Eu tive de desenhar um mapa.
Falando em mapa tive de fazer o mapa astral dela.
Falei de horóscopo. Ela riu.

Eu tinha síndrome de fuga.
Diagnóstico conhecido e exemplificado em palavras confusas
que eu precisaria de um dicionário para entender.

– Não quero fugir. Nunca quis. – falei entre um sussurro que acho que só eu ouvi.
Ela anotou.

O relógio na parede.
Tic-tac só não era maior do meu suspiro.

O tempo mudou de repente.
Não quis dizer que não acredito em meteorologia.
Seria considerado fuga do tempo
e esse, para mim, seria como diz a música:
um dos deuses mais lindo.

E ela disparou a falar de canções.
Dancei.

Mariana Gouveia – Divã

A solidão na astrologia das coisas.

Li a sorte na borra do café.
Encontrei trevo de quatro folhas, no quintal.
Ri da moça que queria encontrar a linha da vida.
Estava a beira de um cais,
– no outro lado do rio… o mar!
Nos jornais, a notícia do eclipse
Contei os dias nos dedos da mão…
O mar emudeceu
Não me traz mais o som da sua voz
Entendi coisas antigas…
A solidão na astrologia das coisas.

Mariana Gouveia
In, Sete luas – Editora Scenarium Plural
Eclipse – pág. 51
*Imagem: Julija Jankelaityte

Nada parcial me agrada.

Gosto de incompletudes integrais, pois sofro de claustrofobia a céu aberto. Não bebo meio copo de água, tenho sede de um corpo e meio – e que seja completo. Não me encanta a solitária folha que baila sozinha em direção ao chão; tenho apreço pelo Outono – me excita a queda livre – das temperaturas.
Não gosto de poucas nuvens, o que a mim comove são tempestades.

Alexandre Pedro
*imagem: Pinterest