Ave, borboleta!

Visitava a sala
depois de olhar cada canto
aposento abandonado pela saudade
precisava aspirar ela no quintal.

Olhou céu
o dia coloria as flores
dentro dela
germinava asas
pariu borboleta
em um idioma que não era o seu.

De noite, a situação era pior
o céu gemia dentro dela e as estrelas
agitava seu interior
calma aparente de quem ama.

depois que amanhece
asa feita

retrato na parede
e ali, todo dia,
quando ainda era madrugada
fazia reza pra ela
Ave, borboleta!

Mariana Gouveia
*imagem: Dina Bova

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Estudo sobre Distâncias

Estudo sobre Distâncias

I

Descanso seu nome
em meus lábios

assim, beijo-o.

II

Enlaço meu decote
aos botões da sua ausência

assim, abrigo-me.

III

Deste corpo, pouso
Deste abraço, ninho.

Karinne Santiago
*imagem: Mira Nedyalkova

Conhecia tão pouco do olhar dela…

Conhecia tão pouco do olhar dela...*imagem: Tumblr

Mas a voz…
A voz conseguia decifrar em tempo, instância e conjugações verbais todas.

Sabia de cor o dialeto dela. A linguagem do mar. De amar.
As gírias que causava arrepio na alma quando ela falava.
Mas ela não sabia
nem atrevia a dizer.
Era como se precaver da loucura que antecipava nos dias.

Mas a voz, conhecia os rumos,
os assuntos repetidos em um ciclo impulsivo de querer ver.
A pausa que fazia entre um assunto e outro.
Até mesmo o silêncio e o que ele queria dizer.

Conhecia os mapas que as palavras dela levava.
A canção repetida pela maresia e o desejo atento no falar.

Conhecia tão pouco o olhar dela…
coisa de quinze dias navegou no mar cinza denso…

Depois era só palavra e voz…
da voz conhecia tudo.
Os acentos, o acordo ortográfico que não morava ali.

E era ali, na voz dela que mergulhava na vontade absurda de viver.

Mariana Gouveia

what a sweet lullaby

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Querer,
quero uma canção
sussurrada ao búzio do meu ouvido
um murmúrio apenas
sem penas,
palavras nenhumas.

Querer,
quero o teu cheiro
depois do amor,
o teu hálito morno,
verão do meu passado
perdido no limite do mar
a embalar – me o corpo até o sono.

Raquel Serejo Martins.
In: Aves de Incêndio – pág. 14
*imagem: Natalia Deprina

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…"

Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
*imagem: We Hearts It

Entro na sala e ela não está.
Sento próxima da janela. Vejo vultos como se fossem formigas. Apressados para a rotina diária. Refaço meu dia para a continuidade das coisas. Ela entra.
Senta. Anota.
Me inquieto na cadeira. Ela fixa seu olhar em algum ponto.

Às vezes, tenho a impressão de que não me ouve quando falo.
– Vamos falar de seu quintal? Alguma coisa nova por lá?
Estranho a pergunta. Quero sair correndo dali. Mas alguma coisa me prende, sei lá.
Nessa hora, penso que sou eu quem a ajudo.
– Há uns vinte casulos no meu quintal. – Ela se espanta –
– De borboletas – digo eu – As lagartas se espalham e criam os casulos em lugares que contando, ninguém acredita.

Ela anota, escuta. Olho fixo num ponto da parede.
– Fiquei sete dias sem poder abrir o portão todo, porque uma foi criar o casulo na dobradiça maior do portão. A ordem em casa era: abra o portão de correr.
Parece inacreditável, mas está lá, o casulo seco para quem quiser ver.
Vigio os casulos como eu fosse pari-los.

Percebo que ela anota a palavra pari-los. Pergunta:
– E depois? –
– Depois, quando nascem, elas gravitam em torno de mim como se eu pudesse voar. Mapeiam meu quintal com seus voos e pousam nas flores, plantadas ali, para elas.

De novo ela fala de suas inquietações sobre borboletas.
Olha o relógio. O assunto traz ansiedade. Não é de mim que ela quer ouvir. Acho que é dela mesmo a palavra – preciso respirar –

Saio de lá com a sensação de ter visto nas mãos dela algo que lembrasse borboletas e me pareceu ouvi-la cantarolar Raul quando a porta se fechou.
“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante…”

Mariana Gouveia – do Divã

Recaída

poema na camiseta com a tua assinatura

Tem dias em que acontecem recaídas – acho que falei sobre isso – mas tudo acontece na sala de espera. Há um atraso no tempo, ou eu, no adiantado da hora. Essa mania minha de precipitações.
Eu poderia desenhar essa sala quinhentas vezes e ainda assim ficaria algum detalhe por dizer. Ou prestar atenção.
As cortinas não são abertas totalmente, porque as janelas, nessa hora ganham o sol em pleno peito. As frestas e os fios de luz tentam romper a barreira do tecido sei lá que cor desbotado pelo tempo. Um quadro de Kandinsky dá cor ao ambiente. Rouba a cena, eu acho.
Na outra parede os alvarás, diplomas e essas coisas necessárias sei lá porque.
No vaso à direita do sofá cor de esponja uma palmeira mirim que juro ser de plástico. E a secretária na mesa do canto com ar de “coitada, ela é louca” me avisa para eu entrar.
Lá dentro, fico em espécie de bolha. Me falta o ar. Corro para a janela. Meu lugar de decisões. Ela anota.
Me perguntou sobre o baú. Tiro da bolsa o pequeno móvel que me pesa mais nas lembranças do que propriamente no peso.
Primeiro sinto o cheiro. Essa coisa estranha de vidro de perfume vazio. A camiseta com o poema de Ekelöf, dobrada, selos de cartas que não vieram e as fotografias. Registradas em momentos de risos, onde o vento agitava meu cabelo e a subida do morro me deixava com olhar feliz.
Uma, me fez lembrar do dia em que cai da escada. Antes de acontecer, lá está eu, fotografada em risos e no impressionante descuido do seu olhar.
Não preciso dizer mais nada. Ela anota meus silêncios.
Era para ser o desfazer das coisas, mas o grito que eu calo me faz fechar o baú e despedir com o olhar.
Quem sabe amanhã consigo.
Desfazer das coisas é quase um bloqueio de alma.
Falo da canção que escuto lá fora. E ela começa a falar de poesias.

 

Mariana Gouveia – do Divã

 

– Às vezes, é preciso enfrentar o imaginário.

Às vezes, é preciso enfrentar o imaginário.
*imagem: Omerika

Ela senta. Anota.
– Sugiro que fale mais sobre isso.
Disparo a falar sobre possibilidades de espera.
O mundo é um lugar comum. Dispensa atenuantes de comparação.

O sonho de conquistar o mundo cabe em um abraço.
Meninos espreitam a solidão, enquanto espanto pássaros no jardim.
Levo eles para o céu. É a estação que sopra em direção do voo.
Coisa de menina dentro da estação..
Despeço do homem na porta da esquina.
Lembro do corpo dela dentro de mim.

Lembro dela dentro de mim.
Eu. Dentro dela.
A pele com cheiro da maresia. Ela todo mar. Direção da minha nau. Ela, meu porto.

Divago sobre vento. Falo da alusão ao que minha mãe dizia:
– Vento é o Espírito Santo. Assovie e ele virá.
Faço isso só pra demonstrar. Uma brisa suave mexe o cabelo dela. Anota.
Imagino roubar as anotações dela.
Ela me pergunta sobre o que penso do imaginário – suspiro –
– voos…
Pássaros?
– Asas. Liberdade. O voo não é solúvel no ar.
De toda queda. Só às vezes, eu quero o chão. Há dez maneiras do imaginário agir.

-Liberdade?
– De dançar, voar, pousar…
Empurra os pássaros com a mão.

Ela anota. Pega na minha mão. Olha na direção da janela.

– Me mostra.
E começa a falar de ninhos.

 

Mariana Gouveia