A solidão na astrologia das coisas.

Li a sorte na borra do café.
Encontrei trevo de quatro folhas, no quintal.
Ri da moça que queria encontrar a linha da vida.
Estava a beira de um cais,
– no outro lado do rio… o mar!
Nos jornais, a notícia do eclipse
Contei os dias nos dedos da mão…
O mar emudeceu
Não me traz mais o som da sua voz
Entendi coisas antigas…
A solidão na astrologia das coisas.

Mariana Gouveia
In, Sete luas – Editora Scenarium Plural
Eclipse – pág. 51
*Imagem: Julija Jankelaityte

Anúncios

Náufraga

d9009233bcb2e6c7d29621cb1c8a5c46
*imagem: Tumblr

Como a maré alta
invadiste o meu corpo,
em todos os cantos
todas as ravinas.
A cada vazia e enchente
alargou-se-me o peito,
onde tu com prepotência
entras para vir buscar
o que é teu.

Estelle Vargas

 

Nada parcial me agrada.

Gosto de incompletudes integrais, pois sofro de claustrofobia a céu aberto. Não bebo meio copo de água, tenho sede de um corpo e meio – e que seja completo. Não me encanta a solitária folha que baila sozinha em direção ao chão; tenho apreço pelo Outono – me excita a queda livre – das temperaturas.
Não gosto de poucas nuvens, o que a mim comove são tempestades.

Alexandre Pedro
*imagem: Pinterest 

Deixo para ela as loucuras todas…

vivian maier

O dia vagou em esperas. O vento sacudia tudo lá fora. Da janela revejo movimentos que conheço.
Ela anota.
Fico em silêncio.
Ela revela vontades desconhecidas. Não parece a mesma de antes e nem é.
Torço para que as horas voem. É sempre assim quando a vontade de ir é maior do que a vontade de ficar.
Respiro suavidade numa inquietação que reconheço – leve – minha, de antes.
Falo sobre a instabilidade que me atingiu e deixou morna a vida.
Ela anota a palavra instabilidade e entre aspas está a palavra “eu”.
Não sei se de mim ou dela que falo.
Deixo para ela as loucuras todas…
essa graça leve que ela tem em profanar os
prazeres que sinto.
A palavra suprema e a história contada entre os dentes.
O corpo pensado. O sopro. As dores.
O dia que acontece em rotinas. Mas eu jurei que tudo isso vai passar e vai.
Ela anota e começa a falar de esperança.

Mariana Gouveia
* fotografia: Vivian Maier

Ouvidos silentes…

 

Não impossibilitam
Sinfonias sempiternas.
Música é sentir
E eu sinto muito!
Há sempre um concerto em andamento
Na pele,
Na memória,
Na alma
No coração…
Eliane Morgado
*imagem:Cler Raichuk

 

Por ti

Por ti

É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso

António Ramos Rosa
*imagem: Dina Bova