Arrastão

arrastão

Seria leve e azul
Fossem apenas a seda e o mar
Mas coleciona conchas
Ao andar
E todo búzio que joga
Acerta
Uma nova estadia

Tempo de choco
Espera e nada
De pérola

Passando século
Naufragada
Junta na franja
Do pano
a milésima casa de ostras.

Adriane Garcia
*imagem: Tumblr

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domicílio

Brooke shaden

Quando terminou de construir a casa com três quartos,
se viu morando sozinho.
Dormia cada noite em um cômodo diferente,
para ter a ilusão que preenchia o vazio deixado.

Julio Damasio
*imagem: Brooke Shaden
Da página: Divã

Uma bailarina sem pés, uma ave sem asas.

Uma bailarina sem pés, uma ave sem asas

I

Cubro-te de beijos.
Percorro-te.
Desenfreadamente.
A maciez da pele, o respirar tosco, o olhar sibilante.
Sou das tuas mãos.

Do teu amor.
Aconchego-te a roupa, enrosco-me no teu calor.
Sou um gato, uma bailarina doida.

Uma bailarina sem pés, uma ave sem asas.
Sou do teu amor.

Deixo-me estar.

E um rio? um silêncio?

Uma forma de música invade-me o corpo.
Sou o sol.
E tu a luz.

II

Pinto-te as cores.

Peço-te os minutos, as asas e os pés.

Mio. Quero ser um gato.

Enroscar-me no teu calor, pertencer ao teu carinho.

Peço-te os minutos, as asas e os pés.

Sou uma bailarina, numa dança tosca, onde percorro a maciez da tua pele, onde me perco no teu olhar.
E sonho o sol. Os dias de sol ao quadrado.

Agripina Roxo

Ave, borboleta!

Visitava a sala
depois de olhar cada canto
aposento abandonado pela saudade
precisava aspirar ela no quintal.

Olhou céu
o dia coloria as flores
dentro dela
germinava asas
pariu borboleta
em um idioma que não era o seu.

De noite, a situação era pior
o céu gemia dentro dela e as estrelas
agitava seu interior
calma aparente de quem ama.

depois que amanhece
asa feita

retrato na parede
e ali, todo dia,
quando ainda era madrugada
fazia reza pra ela
Ave, borboleta!

Mariana Gouveia
*imagem: Dina Bova

Estudo sobre Distâncias

Estudo sobre Distâncias

I

Descanso seu nome
em meus lábios

assim, beijo-o.

II

Enlaço meu decote
aos botões da sua ausência

assim, abrigo-me.

III

Deste corpo, pouso
Deste abraço, ninho.

Karinne Santiago
*imagem: Mira Nedyalkova

Conhecia tão pouco do olhar dela…

Conhecia tão pouco do olhar dela...*imagem: Tumblr

Mas a voz…
A voz conseguia decifrar em tempo, instância e conjugações verbais todas.

Sabia de cor o dialeto dela. A linguagem do mar. De amar.
As gírias que causava arrepio na alma quando ela falava.
Mas ela não sabia
nem atrevia a dizer.
Era como se precaver da loucura que antecipava nos dias.

Mas a voz, conhecia os rumos,
os assuntos repetidos em um ciclo impulsivo de querer ver.
A pausa que fazia entre um assunto e outro.
Até mesmo o silêncio e o que ele queria dizer.

Conhecia os mapas que as palavras dela levava.
A canção repetida pela maresia e o desejo atento no falar.

Conhecia tão pouco o olhar dela…
coisa de quinze dias navegou no mar cinza denso…

Depois era só palavra e voz…
da voz conhecia tudo.
Os acentos, o acordo ortográfico que não morava ali.

E era ali, na voz dela que mergulhava na vontade absurda de viver.

Mariana Gouveia

what a sweet lullaby

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Querer,
quero uma canção
sussurrada ao búzio do meu ouvido
um murmúrio apenas
sem penas,
palavras nenhumas.

Querer,
quero o teu cheiro
depois do amor,
o teu hálito morno,
verão do meu passado
perdido no limite do mar
a embalar – me o corpo até o sono.

Raquel Serejo Martins.
In: Aves de Incêndio – pág. 14
*imagem: Natalia Deprina