Estudo sobre Distâncias

Estudo sobre Distâncias

I

Descanso seu nome
em meus lábios

assim, beijo-o.

II

Enlaço meu decote
aos botões da sua ausência

assim, abrigo-me.

III

Deste corpo, pouso
Deste abraço, ninho.

Karinne Santiago
*imagem: Mira Nedyalkova

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Conhecia tão pouco do olhar dela…

Conhecia tão pouco do olhar dela...*imagem: Tumblr

Mas a voz…
A voz conseguia decifrar em tempo, instância e conjugações verbais todas.

Sabia de cor o dialeto dela. A linguagem do mar. De amar.
As gírias que causava arrepio na alma quando ela falava.
Mas ela não sabia
nem atrevia a dizer.
Era como se precaver da loucura que antecipava nos dias.

Mas a voz, conhecia os rumos,
os assuntos repetidos em um ciclo impulsivo de querer ver.
A pausa que fazia entre um assunto e outro.
Até mesmo o silêncio e o que ele queria dizer.

Conhecia os mapas que as palavras dela levava.
A canção repetida pela maresia e o desejo atento no falar.

Conhecia tão pouco o olhar dela…
coisa de quinze dias navegou no mar cinza denso…

Depois era só palavra e voz…
da voz conhecia tudo.
Os acentos, o acordo ortográfico que não morava ali.

E era ali, na voz dela que mergulhava na vontade absurda de viver.

Mariana Gouveia

Aqui eu bebo abismos.

Aqui eu bebo abismos.

Digo dos mergulhos líquidos ao infinito medular
em busca do fundo que não há.
Aqui eu engulo temporais. Digo dos verbos necessários,
como as lágrimas dos ventos a me fazer tempestade
na alma.

Eu ontem chupei beijos de laranja
espremida na boca. Empurrei de leve
o teu peito pra tocar o coração e vazei o invisível.
Digo das mãos o imprescindível, o inacessível
da alma sorvida no oco
das digitais da língua, no tato da palma.

Eu ontem me afiei na lâmina da tua luz para ser aguda e furar o abismo inalcançável onde o amor descansa na véspera do humano.

No fundo talvez seja só isso. Essa vontade de ser eterno dentro.

A morte é um vento grávido e morno que não tem pressa de parir. Quando finalmente ferve, derrete dentes, nervos e aspas. Então sorri.

Shala Andirá
*imagem: Lauren Treece

À espera de um sistema solar…

À espera de um sistema solar.jpg

… Onde seja possível uma sombra maior … :

Conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.

Víamos – pelo lado menos sombrio do pensamento – todo o sistema planetário.

Víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos. O latejar do tempo na humidade dos lábios.

E a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos.

As estrelas mortas das cidades imaginadas. Os ossos (tristes) das palavras.

A noite cerca a mão inteligente do homem que possui uma cabeça transparente. Em redor dele chove. Podemos adivinhar uma chuva espessa, negra, plúmbea. Depois, o homem abre a mão, uma laranja surge, esvoaça.

As cidades (como em todos os livros que li) ardem.

Incêndios que destroem o último coração do sonho.

Mas aquele que se veste com a pele porosa da sua própria escrita olha, absorto, a laranja. A queda da laranja provocará o poema? A laranja voadora é, ou não é, uma laranja imaginada por um louco? E um louco, saberá o que é uma laranja? E se a laranja cair? E o poema?

E o poema com uma laranja a cair? E o poema em forma de laranja? E se eu comer a laranja, estarei a devorar o poema? A ficar louco? (…) E a palavra laranja existirá sem a laranja? E a laranja voará sem a palavra laranja? E se a laranja se iluminar a

partir do seu centro, do seu gomo mais secreto, e alguém a (esquecer) no meio da noite – servirá (o brilho) da laranja para iluminar as cidades há muito mortas? E se a laranja se deslocar no espaço – mais depressa que o pensamento, e muito mais devagar que a laranja escrita – criará uma ordem ou um caos? O homem que possui uma cabeça de vidro habita o lado de fora das muralhas da cidade. Foi escorraçado. (E) na desolação das terras, noite dentro, vigia os seus próprios sonhos e pesadelos. Os seus próprios gestos – e um rosto suspenso na solidão. Onde mora o homem que ousou escrever com a unha na sua alma, no seu sexo, no seu coração? E se escreveu laranja na alma, a alma ficará saborosa? E se escreveu laranja no coração, a paixão impedi-lo-á de morrer? E se escreveu laranja no sexo, o desejo

aumentará? Onde está a vida do homem que escreve, a vida da laranja, a vida do poema – a Vida, sem mais nada – estará aqui? Fora das muralhas da cidade? No interior do meu corpo? Ou muito longe de mim – onde sei que possuo uma outra razão… E me suicido na tentativa de me transformar em poema e poder, enfim, circular livremente.

Al Berto
*imagem: Alexander Sulimov

34. das palavras das cartas

34-das-palavras-das-cartas

O envelope que chegava era laranja e as letras corridas como se tivessem pressa de chegar.
Havia desenhos floridos na linhas que se misturavam aos corações onde se entrelaçavam vontades.

Os risos, pareciam vir junto e a brisa suave das ruas da cidade, do rio que circundava a pequena floresta de eucaliptos e outras árvores do lugar – o cheiro – dançavam na imaginação como uma folha solta no ar.

Falava dos detalhes da vida, da rotina. Do jornaleiro do qual sabia o nome, até a história dele me contou – e parecia que eu também o conhecia – dos nomes dos filhos.

Dos tsurus que delicadamente adornavam o céu do seu quarto, todo lilás e da janela podia ver o pé de lanterna chinesa que a vizinha plantara e oferecia dezenas de flores no canto do muro… iluminando o dia com seu laranja – e repetia a frase da canção de Gadu – que me faz ficar bem mais. A flor parecia que tinha a energia de acordar a alma, mesmo depois de um dia frio, um dia triste.

Assim, em cada mês, a delicadeza vinha em cores e versos. Uma tela de arte colorida de carinho, recheado de palavras que abraçavam e coloriam o dia.

Mariana Gouveia
34. das palavras das cartas

é o silêncio…

e-o-silencio

era o sopro distante das manhãs sobre o mar
e eu disse sentindo os seus passos nos pátios do
coração
é o silêncio é por fim o silêncio

vai desabar

Eugénio de Andrade

*imagem: Mira Nedyalkova