Não sou capaz de estranhas paixões…

e amo, como muitos, o vento forte
que agita a roupa estendida nas cordas,
as bicicletas ferrugentas
de pneus furados
esquecidas em garagens e arrecadações,
a água fresca que mata a sede
ao mais miserável dos homens.
Mas se, como outros, amo os dias de intensa luz
e o descuido dos pássaros no ar,
ninguém ama como eu
as estrias do teu ventre,
a primeira casa de dois filhos.
de todas as coisas prodigiosas que conheço
são elas o que mais se parece
com os rasgos abertos por um arado
na terra crua deste mundo.

Luís Filipe Parrado
*imagem: Marta Orlowska

como se o voo do pássaro pousasse

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Como se eu fosse uma ave presa em tuas mãos
e tu abre os pulsos para me livrar da gaiola

que é tua pele, teu cheiro e eu em tua carne sonhasse
como se achasse a ilha, meu ninho

seu corpo

como se o voo do pássaro pousasse
sobre os sonhos de tua cabeça
e suas asas delirantes
fossem o mapa do caminho que tenho de trilhar

como se eu  fosse o jardim
na tua mão, eu, semente florindo desejos

como se hoje apenas eu fosse a dançarina que povoa vontades  e voasse plena de sentidos

no céu
da tua boca. 

 

Mariana Gouveia

* imagem: Cheong-ah Hwang

pelos teus olhos e as tuas asas.

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O rugido das estrelas,
o fervor na água do mundo,
purificaram o céu
e a terra
pelos teus olhos e as tuas asas.

Desta vez,
o teu profeta e salvador
fragmentou
as nuvens de granito,
que lhe sufocavam a cintura,

conseguiu regressar para ti!

João Veríssimo
*imagem: Duy Huynh

Como dizer que este amor não morre ?

Mil vezes olhei essa porta, por ti desejei
chegar a terra, perder um grito onde ninguém
ouvisse. E quando íamos falando de tudo
só isso proibia calar o amor. Algumas vezes 
não sabes as coisas que mais guardo.

Hélder Moura Pereira
*Imagem: Tumblr

Inquilina

Inquilina
Foi me visitar,
como se fosse casa…
asa,
foi em mim: voar como
se árvore fosse,
moradia
Foi como se eu fosse chuva.
Água.

E como se eu fosse sede
me bebeu…
– e na imensidão do mundo, eu,
peregrina


Foi me visitar,
como se eu fosse jardim
aí, de mim!

Uma inquilina mora em mim.

Mariana Gouveia

És

És
És a asa secreta do meu voo
o pouso que aconchega minha alma

a calma que contorna minha paz.

a solidão que acompanha meu espaço.
És.

Não sei se é ninho
se é vento
miragem nos olhos que te alcança.
És

Corpo que habita a essência
e a esperança livre das manhãs.
Junto de ti, o espaço infinito de voar.

Mariana Gouveia.