171. da geografia das coisas

Em todo lado a palavra pássaro faz asas e cor. Julgo ver nele a cura para a dor…
Do outro lado da árvore, a lua tem a cor de mel e eu acreditava nas coisas do destino e lembrei-me de fotografias que nunca tirei. O som da letra do canto da ave é como um poema esculpido na árvore e toma-se a forma das flores.

As relvas frescas a molhar os pés e os sorrisos estendidos em mil
árvores e o céu a desenhar presença de nuvens e eu procuro as lembranças que escrevi ali.

Havia a mão de criança a segurar a saia e um vulto marcou o voo e o pouso… enquanto as lembranças da mãe eram desenhadas nas falas das irmãs, trazendo recordações que parecem tão recentes diante das histórias narradas.

Lê-se a presença diante das memórias, lê-se silêncio, sim, tantas vezes…

Era o silêncio dos gritos dos dias vividos e as recordações a ecoar dentro das palavras.

O quintal molhado de poema é aqui, quando levanto e o olhar impregnado de memórias
e deixo que elas venham sem metáforas e crio na mente o poema e com ele invento histórias para relembrar em dias sem sono e o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e tudo continuar presente mesmo distante.

E no pomar as árvores espreitam a corrida para
abraçar o pai e esperar que a asa seja leve…

Guardar tudo isso na fala da solidão para aprender o olhar de presença mesmo quando a palavra poema aproxima do que meus olhos veem eu só sei escrever o seu sentido.

Mariana Gouveia
171. da geografia das coisas

167. da geografia das coisas

o que eu conto de mim tem a parte daquela rua, onde o rio se dobra e o chuá chuá sopra ao ouvido enquanto durmo.

o que eu escrevo tem esse riso de irmão sentado na porta
contando meus defeitos e olho molhado de amor

metade de mim no cabelo branco, com a ruga na testa, suor da sua pele magra, que o tempo contou nos dias.

o que carrego é essa história

e a terra a cavoucar meu pé
é a lembrança de quem está aqui e não está

o irmão que mora longe e a voz ecoa reclamando ausência.

o que eu conto de mim
é esse riso solto

a colina a desvendar as sombras
com os codinomes de uma fada louca

que desenhou histórias nos meus dias

o que conto de mim
tem o cheiro do pai

o leite servido na caneca esmaltada
e a poesia que eu pesco
o ombro ali,
e na boca que pronuncia o silêncio
toda vez que a gente fala de amor.é tudo uma reza cantada

o avesso da pele
aquele que ama mesmo sendo tudo mentira
e o som do pássaro e a ave exótica a cantar no quintal
o que conto é o terço em todas as cores espalhadas entre o dia que acontece dentro de mim.Mariana Gouveia
167. da geografia das coisas

166. da geografia das coisas

Hoje

[Os gritos vem de janelas fechadas]

Há alguns pássaros que não voam
um, se isola na diferença da cor.

então

o pai fala do respeito ao que é diferente – como se eu fosse criança –

fala da história da menina muda que nunca canta

mas que tem a música nos olhos.

Por enquanto para mim ela é só silêncio.

 

Mariana Gouveia
166. da geografia das coisas

160. da geografia das coisas

Escrevo o roteiro da viagem dentro da poesia e coloco nome nas coisas de amor.
A canção repete em mim o gesto. O gosto de férias aproxima e a rotina ganha anotações diárias.

Faço listas, cumpro metas… Jogo fora lembranças que só aumentam a bagagem… Preparo sementes para jogar nas estradas. Refaço planos que tinha esquecido… Hoje, já posso quase tudo dos rituais. Varrer as folhas, aspirar as flores, beijar os cães – me imunizo das vontades todas. O sorvete de pistache a me contar sabores… Quase uma rusga de felicidade.
Houve mudança no tempo. A estação dá seus sinais na frieza do dia. O vento antecipa a queda da temperatura e a febre é só um presságio na ave que beija a flor.
Guardo os mapas, recrio instantes que ainda vou viver…

 

Mariana Gouveia
160. da geografia das coisas

156. da geografia das coisas

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O homem da esquina contou sobre o pássaro solitário. Nunca havia motivo para voo, nem pouso. Que ele ficava ali, parado sem nenhum motivo aparente de alegria. E que a missão dele era encaminhar aves sem rumo. Que a maçaneta da porta da casa azul foi ele quem fez, depois de levar comida às aves. E que o pé de amoras foi plantado no quintal em um dia de chuva e que ele ficara ali, com o céu a derramar a água e o cheiro de terra molhada a invadir as janelas onde violetas brotavam… Que a água foi dando vida entre a raiz e a terra e que naquele dia desejou o pássaro para ser parte da árvore que nascia e que pássaro nasceu para pousar em galhos, onde frutos oferecessem o universo no sumo e não para pousar em fio, seco, sem vento, suporte ou sem algo para a fome.

Desenhou para mim as palavras dentro do mesmo tempo – a ave e a árvore –  Os dois. Entre o reencontro e a perfeição. Que era assim que tinha sonhado e que passaria a vida inteira a ser ponte para asa e pouso.

Havia quem dizia que era doido – o homem – e que o sonho era tão maluco quanto ele…

Eu, apenas imaginava que não importava o que falassem dele… que dentro dos olhos dele o céu criava jeito de espaço e morada para pássaros sem árvores. E que das mãos dele, já com instinto de cansaço ainda continuavam espalhando sementes em dias de chuvas.
Em cada dia ele repetia a história… Cada dia com uma ave diferente, cada dia com uma árvore nova e seu quintal se juntava ao meu e em oração pelas aves sem árvores ele criava dentro de sua história motivo para viver.

 

Mariana Gouveia
156. da geografia das coisas

148. dos dias diferentes dos outros dias

148. dos dias diferentes dos outros dias.JPG

O vento se ausentou do quintal. A lua andou inquieta e invisível em seu espaço lunar…
havia qualquer coisa de azul na flor que o tempo desbotou.
Era oblíqua em seu estado letárgico de ser.
O ruído da palavra era quase encontro com meu silêncio e o canto da ave em seu sistema de asa e o medo do chão.
A monotonia das tardes de domingo contrastando com o verbo voar e o astro celeste a vingar do sol, com sua presença singular.
A garoa veio e o tempo mudou. O frio entra pelas frestas das janelas, da porta e o dia se encarrega de procurar momentos mágicos na vida.

Mariana Gouveia
148. dos dias diferentes dos outros dias

147. dos dias diferentes dos outros dias

Há solidão que é como um pássaro fixo na árvore sem folhas… os galhos a pender como garras a invadir o espaço e a alma a ouvir a canção que toca ao longe.
A estação invade a tarde e o coração ocupado demais para amar.

Há dias em que caminhamos para dentro da gente, refazendo caminhos, desenhando novas histórias.

O outono despertou aqui e as folhas caem como se ficar ali, na árvore fosse penoso demais e o chão fosse o aconchego do colo. O outono aparece nesse sábado morno quase às vésperas do inverno, que não virá também – eu sei.

As horas de fim de tarde trazem com elas um vento frio com o qual não acostumo nunca.

Há risos de crianças na rua, as pipas bailam no sol quase morrendo e o pássaro a gorjear na árvore morta, como se quisesse companhia enquanto descubro que seu canto pesadamente no galho, em um céu quase cinzento, quase noturno a anunciar chuva, e palavras que fogem dentro de mim só são ditas na solidão dos cantos das aves. Solidão é uma ave a pousar na árvore morta.

 

Mariana Gouveia
147. dos dias diferentes dos outros dias