290. das infinitudes

Morreu uma estrela ontem. O dia começa com horário atrasado dentro do tempo. Era às vezes asas no quintal. Um menino que voa vem dar o bom dia e de noite quer colo de asa. A morte da estrela não afeta o voo da ave que beija e nem causa efeito no afeto que ele busca em minha mão.
Quando ele foge do vento no quintal e não encontra árvores no lugar – que o vento levou – cabe na mão dentro do abraço. O menino é um ser de asas em mim. O menino é um ser de voo na sala.
E quando um dia se torna intrigante, doído e fora da lógica ele é um sopro de amor mesmo com estrelas morrendo no céu.

Mariana Gouveia
290. das infinitudes
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289. das infinitudes

 

Tinha medo da noite e era dia.

Vasculhava as paredes todas atrás de lembranças. Buscava as digitais dela nos objetos que ela tocou.

Na parede, do lado esquerdo da porta, as horas sem ela corriam ligeiras. Voavam feito aves no céu.

Em algum canto, rabiscou um coração com o nome dela e foi nesse momento que um arco-íris cruzou o céu de ponta a ponta.

Era quase imperceptível. Mas parecia ter zoom ao olhar para a parede do lado esquerdo da porta, quando via as horas a voar e o vento agitava a cortina.

De noite, parecia que as asas brilhavam e dançavam saudade olhando para ela.

Por isso, tinha medo da noite.

Era quando os fantasmas surgiam em forma de asas.

 

Mariana Gouveia
289. Das infinitudes

288. das infinitudes

 

Talvez eu tenha essa fome de pássaros, de asas
a liberdade é essa flecha que atravessa a garganta,
rompe abismos e salta.
A fome é esse desejo imensurável de pegar em tua mão e voar – mas isso eu faço sempre quando fecho os olhos – e descobrir lugares onde poderia te amar.
As calçadas de Paris ou qualquer rua de Florence.
Na verdade, meu sonho é Provence e o sotaque lilás que amo.
Acho que o céu deve ser feito desses momentos que vem em sonhos…
as estradinhas de terra e a cor exalando poros na fragrância, mas alerto que deve ter pássaros e asas porque a vida com você é esse voo mesmo quando pouso.

Mariana Gouveia
288. das infinitudes

275. Das infinitudes

 

Morreu de improviso as árvores no quintal. O vento veio tão forte que retorceu os galhos, derrubou os ninhos e as sementes voaram se espalhando para além dos muros. Ainda de manhã, encontrei apenas as folhas já murchas no chão. Em cada canto do quintal um lamento de ave buscando amparo diante da tempestade.

Choveu e a água que caiu levou rua abaixo os ninhos desfeitos. O esboço de asas, o ritmo da brisa se misturaram ao eco que o vento fazia.  Algo irritara demais o poder que o vento vindo do sudoeste tem. Ficou violento e raivoso. Seu eco espalhou-se pelo bairro todo. Tornou-se penoso amanhecer e o pé de algodão que era sombra e abrigo, virou entulho no meio do quintal.
O meu bosque – árvore de nada nenhum – encerrado em ciclo imposto pela natureza.
Eu falo de fim enquanto a ave me lembra renascimento.
Mariana Gouveia
275. Das infinitudes

272. Entre uma estação e a primavera

 

A previsão se corrompeu com o tempo. Havia uma nuvem de poeira dentro do vento. Solitária, a ave que a trazia nas asas a lenda de agouro tinha o abismo do amanhã dentro dos olhos. Era a estação das flores misturadas dentro de outra estação.
relembrou histórias da infância. Viajou nos dias e suspirou.
Era criança e ouvia a mãe contar sobre os telegramas que chegavam, logo depois que avistavam a ave no toco, no tronco de madeira da porteira, no telhado…

Tudo era culpa da ave – coitada – que apenas cumpria seu destino de voar.
Acontecia de que, por acaso, o aparecimento da ave se dar por ocasião dessas notícias ruins que o carteiro trazia num envelope estranho, diferente dos normais.
A notícia da morte do avô veio em um desses que trazia códigos e letras e depois disso, a mãe viveu em luto por anos a fio. A perda do tio querido e o acidente que levara a vida de pessoas que ela nem conhecia – e a mãe amava –  e que por isso se trancou no quarto e começou a maldizer a ave, que estivera pela manhã por ali.
Para ela, a culpa era do carteiro que surgia na estradinha que fazia curva ao lado do rio, com sua farda amarela e azul. Pensou em escrever uma carta pedindo para que ele não trouxesse mais esses envelopes, fora das cartas que aguardava com a ansiedade de quem esperava uma vida.
Hoje, lembrou -se do agouro da ave, logo quando, por fim, o ônibus e sua curva lhe fez ver a ave posta, solitária. O olho atento ao que nem era exato. O sangue a fluir dentro da veia.
Relembrou as estações misturadas dentro do dia. A urbanidade dos pássaros que logo pela manhã cantam no telhado das casas vizinhas e nos envelopes dos telegramas que nunca mais viu. E no olhar da menina que a fixou com o olhar de espanto e a chamou de bruxa.
Mariana Gouveia
272. Entre uma estação e a primavera

269. Entre uma estação e a primavera

 

Devia ver as roupas secando no varal… O vento convidando para o lençol dançar e a ave, com seu jeito de asa sendo instante no momento. Era primavera dentro dos dias no quintal.

Na estante, os bibelôs trazem lembranças de um tempo que já não é – a vida desavisa os calendários – e a lua, incerta do caminho do sol muda o decanato em meu mapa astral desenhado a dedo no vidro da janela embaçada.

Ainda era ontem, menina eu e os lençóis de linho branco, bordados com monogramas em ponto cruz e a mãe, ali, ao pé do rio, a água a correr e o riso dos irmãos a brincarem de viver.

Devia ver as roupas secando no varal e quem sabe as suas histórias se parecessem com as minhas e a carta de um parente distante, com fotografias desbotadas de quando ainda era a menina de trança.

O olho perdido no espaço e a irmã a relembrar que ela já fora personagem de um filme e que abraçava o cão da infância com nome de Capuchinho – de tão peludo que era – e que toda cidade lotou o único espaço da cidade para ver ela.

A filha do pai que carregava o cão no colo e tinha olho de voo.

Devia ver as roupas no varal… ali, estendeu as lembranças de uma vida toda e até as cartas de amor.

 

Mariana Gouveia
269. Entre uma estação e a primavera

265. Entre uma estação e a primavera

Não consegui desfazer nada daquelas lembranças, onde a madrugada era o pano de fundo para as loucuras de amor.

Do outro lado, as lembranças desfiadas uma a uma como contas jogadas ao mar.
Virei marítima dela. O mar esvaziando pela boca. Os poros abertos em ondas e a verdade ecoando no eu te amo. O céu, azulando em asa de voo, dentro da solidão.

A lua, atrevida com desafio as marés – é primavera aqui no meu quintal – e o outono desfolha a tua árvore de ave.

Fui migratória dentro de suas palavras e invadi seu estado de pensar.

Do mar, na boca eu bebo a lucidez de uma estação junto do peito.
É tempo de lavar as memórias no meu rio enquanto o homem da esquina invade o mar do meu quintal. O jardim canta a sinfonia das conchas e búzios que leem minha sorte aqui e isso me leva para junto dela.

Tenho a sensação de que o mar é esse estado de primavera onde eu sou mais de lá do que daqui.

A vida é esse estado de graça diante do desejo das coisas que não aconteceram.

Quem sabe, na estação seguinte…naquele instante fico coberta de flor e começo a fundir-me com a alma dela.

 

 

Mariana Gouveia
265. Entre uma estação e a primavera