218. das impressões do dia seguinte

 

O dia amanhece no canto dele. Aviso de encantos no quintal. Floreia entre o varal e o bebedouro. Reconhece a voz, enquanto sou puro delírio nas palavras dela.
A voz, quase me leva a voar.
O céu desenhando rotinas de laranja anunciando o novo dia. O sol a espreitar vontade de lua.
Ela não vê as notícias do dia. Nem sabe sobre as ondas gravitacionais. Quebra as regras mais de uma vez. Rompe rotinas antigas só para falar que o dia é mais lindo dentro da palavra dela.
A vida tão intensa dentro do instante de agora.
E eu, quase perco a lucidez na fome de querer.

Mariana Gouveia
218. das impressões do dia seguinte

217. das impressões do dia seguinte

 

O amor dormiu na minha mão e tinha a leveza da asa e fazia o vento gerar canto.
O amor chegou com nome de ave, de todo dia, em prece, como oração. Como uma sonata na vitrola antiga. Quase vintage dentro de mim.
Ganhou contornos de abraços e  tive sorte de voo.
Esse amor veio traquino e com rodopios no ar. É um menino, com ares de passarinho. Beija a flor.
Diante do espelho ele me vê e busca a alma da flor, que no jardim se abre.
Atua como música em seu canto e para as horas de encanto faz de minha mão, seu ninho.
Ah, esse amor pequenino que se agiganta e vira presença ali, no canto da sala, no galho da árvore seca do quintal.
O amor mora aqui e amanhã surgirá como se tivesse dormido fora e que morria de saudades de mim

Mariana Gouveia
217. das impressões do dia seguinte

211. da autonomia dos voos

Enquanto as mãos viram asas me contam histórias de amor.
Alguém perdeu o equilíbrio na vida. Vi a fé dentro da mesquita e o sino da igreja badalar.

Talvez o dia impossível dentro da possibilidade da flor.
Só tive a ideia… a vaga ideia de que o vento havia parado tudo com seu silêncio na folha e que o diagnóstico era quase inaudível.
A dor era confundida com a espera. Sinto dentro da ternura e o cheiro de gengibre lembra o chá da tarde o que arde – e a secura do quintal pede acolhida de água na terra.
O pássaro engole o céu e sua fome de voo combina com a minha de paz. Essa inquietude que grita e me abraça toda noite enquanto a madrugada avança junto com a chuva de meteoros e que não consigo registrar.
Era quase um registro de sonho onde seu nome é dissolvido na boca feito nuvem.
Mariana Gouveia
211. da autonomia dos voos

210. da autonomia dos voos

 

Você tem essa ternura destemida do olhar dentro da minha palavra.

 

Não colheu as flores do dia. Ouviu a canção do mar dentro nas conchas esparramadas na estante.
Fechou os olhos diante da dor – as 45 gotas lembrou as sementes da romã – o coração esparramado em pedaços nas folhas.
Choveu no jardim com o regador para o cheiro de terra exalar onde a secura predomina nesse inverno.
Falou sobre ansiedade com a alma. O silêncio do vento – quase brisa – a calar vontades.
Essa asa é quase um cheiro de maresia não solúvel no ar.
A circulação é essa coisa universal que vem com a asa.
A liberdade límpida do vento parado dentro da ave de todo dia. É a respiração viva do amor.
O varal a contar histórias dentro dos voos e sua autonomia delimitando brisas.
O produto derivado da ave é o voo e a delicadeza vem em forma de beijo.

Ave, beija!

 

Mariana Gouveia
210. da autonomia dos voos

209. da autonomia dos voos

Quando a vida passa e o tempo e seus sonhos passam juntos e o mês desanda a correr dentro dos dias.

A estação muda as cores e o sentido e a secura amarela as folhas enquanto a ave espreita o vento que muda o tempo – mas eu nem tenho tempo.

O moço que se encanta pela cidade pequena cria histórias que não existe dentro da minha história.

Ele passa silencioso na imensidão da manhã. Culpa o sistema pela vontade exagerada entre voar e sentir.

Não sente urgência na palavra amor e a paisagem traz a fumaça do mês que ainda nem veio.

Podia ser um nome em sentido de asas. A palavra curta definida no pouso. O jardim a crescer com as ervas daninhas. Se eu pudesse, apagaria os instantes diante da dor e o século seria o momento seguinte que ainda não vivi.

O mapa a desenhar as partes dos atlas. O muro feito de prego e o verbo era suspirar.

 

 

Mariana Gouveia
209. da autonomia dos voos

 

205. da autonomia dos voos

O calor no rosto me leva para outra cidade  – aprisionaram o vento dentro da intensidade da palavra –  foi uma cerimônia bonita. O rio e os envelopes rasgados. O canto da ave num dia triste. A febre e a ilusão do delírio.
Havia qualquer coisa de estranho no objeto bordado. O pássaro desenhado como se lembrava na memória obscura da pele. O toque da pena a dimensionar o voo.
Dizia que sem pressa devia partir. Ou esperar. Ou ir e voltar – esquecia da última frase da carta.
Mas sentia na ponta dos dedos, apenas essa solidão esférica. De cidade vazia e de rio longo e serpenteado perto das margens de onde avistava os papéis que não enviara a rodar, como se fosse de encontro ao mar. Como se morresse de fome e sede – e não havia nada para matar a fome. A vida seca, úmida de alma.
Invento as escalas do mês. O mundo acontece dentro do milagre.
O ausente fica fica lindo assim distante. O voo não dado é o que me leva a querer esse cheiro terrestre infinito… onde o vento apenas se finge de sopro.

Mariana Gouveia
205. da autonomia dos voos

 

202. da autonomia dos voos

Contou o verbo do dia. Perdeu – se. E ainda era o avesso da dor. E era ninho e abraço.
Dá para prender voo dentro de gaiola? O infinito é logo ali…
E de romãs tingiram as cortinas. Do sonho que revolve o mundo, tem as flores respingadas de asas. A vida é escondida em aves. E o ninho cabe a solidão a dois.

A voz a ecoar canções que de novo só repetirá quando o gravador sentir saudades de um tempo de amor.

Quando fechei a carta e o envelope travou nas palavras que diziam que era amor.

Eu escrevia sem deixar de prestar atenção à nuvens.Há casas que são feitas para os chocolates feitos em noites frias – quentes – e a delicadeza era um lugarr bordado no bastidor.

Para mim, a vida é essa oração. De dois, quando tudo se resume em presença e vontade,

Éramos viajantes em um céu que abriga peregrinos em seu espaço aéreo.

O meu amor humano tem instinto de céu e de asas

Mariana Gouveia

202. da autonomia dos voos