348. dos verbos indefinidos

Escondia nas mãos a sorte. No céu, a chuva de meteoros foi além do esperado na madrugada e somente uma estrela caiu diante dos meus olhos.

Era logo ali, além dos muros a vontade.
A dor veio de improviso quando o corpo esfria.
Tornei impossível o mar e o rio secou. Nem choveu pros lados do sul.
Em alguns momentos fica irrespirável essa falta de ar. As janelas fechadas. O céu sem cor e a ave, insone desdenhando a asa.
Em algum canto, uma mulher reescreve sua história em outro idioma.
As árvores tem a altura do sonho. As raízes – a dilatação das veias – voltadas para além da terra solta.
Hoje venho venho feito roda – gigante – o vento é esse sopro onde morro toda noite, apagando o sol e a floresta me engole.
Eu sou quase a ave, de costas para a vida enquanto o jardim é a encruzilhada para a vida.
Mariana Gouveia
348. dos verbos indefinidos
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343. dos verbos indefinidos

é ainda a minha lembrança e meu abandono. os olhos que de tarde, cansados procuram seu rosto nas pessoas que passam apressadas.

é a canção que toca nas ruas antecedendo o natal. é a brevidade da minha espera. mas é dor e cansaço – então deixo que saia de mansinho como quem não partiu –
por isso, fico em silêncio e finjo não sofrer nas tardes mornas e nas madrugadas serenas, porque o ir tem a mesma magnitude do ficar. o  ir é esse avanço no tempo para mudar o que já não pode ser.
as escolhas são como as gotas da chuva e o voo do pássaro – necessários – para que a vida seja adiante, duas casas a mais na rua de cima.
duas perdas doloridas que esvaziam o peito e deixa essa sensação de lotação esgotada.
é ainda o amor das lendas, das histórias não escritas
mas que não coube no final feliz.

Mariana Gouveia
343. dos verbos indefinidos

341. dos verbos indefinidos

341. dos verbos indefinidos.JPG

Caríssima mia,

Dizem que o melhor da festa é esperar por ela… Pelas minhas previsões, o Vermelho atingiria o ponto máximo hoje…
A manhã aconteceu no improviso das horas. O fluxo do dia foi pela atenção aos prazos, lembrei – me de você e seus prazos –  que são muito mais divertidos de cumprir – os de hoje, trazem o emblema do sistema. Lento, como sempre.
Trovejou e seu nome ecoou nos corredores longos. Choveu e o cheiro da terra molhada foi quase um engolir de lembranças. Lembrei – me das roupas que ficaram  no varal – e te chamaram atenção – e a chuva macia durou a tarde toda.  Dezembro é essa imensidão das chuvas… As poças trazem o desenho do pássaro.

Dá de pegar o voo com a mão. Dezembro é esse aconchego de aves. Esse aconchego da ave que bem me viu.
À tarde, o Vermelho por Dentro emociona na chegada. O cheiro, o toque, o fechar os olhos e as mãos a rasgar o papel…
Festejo com o carteiro o reencontro. Quando alguém tem a alma limpa abraça apenas com o olhar.
O Plural da vida me encanta só pela capa.
Releio as dedicatórias e agradeço o universo.
A vida tem essas delicadeza que me afagam… Sou esse instante de emoção.
Ainda preciso mergulhar dentro desse vermelho.
Meus próximos dias terão novos personagens a adentrar minha pele.

Mariana Gouveia
341. dos verbos indefinidos

336. dos verbos indefinidos

A vida é esse jeito todo de ave, meio voo

os olhos de existir, completos
a asa – essa liberdade escrita –
é obscena a gaiola no vizinho
o vento, travesso espalhando penas
a árvore recheada de aves.
o dia foi para além dos instantes
o tempo nos cabe quando o pouso é certo.
minha alma é essa sintonia de céu.
Ainda era noite quando a chuva cobria o quintal.
o sol era esse improviso de cor no galho.
há dias em que existir dói
é quando toda asa é pouso.

Mariana Gouveia
336. dos verbos indefinidos

331. das fragilidades secretas

Os olhos de ver embaçados pelas cortinas tênues que as nuvens oferecem.
A vida é essa coisa insana que vem com notícia de morte.
As perdas se juntas em conchas nas mãos – enquanto outra vida, logo ali, ri nos braços – e as lembranças surgem como se puxadas por um fio.
A iluminura do dia, o  irmão e seu estado de pensar, com o capim no canto da boca a mastigar poesias.
O ar que falta dentro dos passos. A ave de ontem a anunciar que os sinais se repetem.
A crença da mãe a desenhar histórias no olho da ave.
Acatava o aviso, mas não partilhava da mesma ideia. Sabia que a morte que acontecia – e o acaso sempre fazia uma coruja aparecer nos arredores – era porque tinha de ser e que era inerente ao pássaro.
Os olhos embaçados pelas cortinas que acolhem o afago…
A vida, é esse estado grandioso que se chama hoje.
Viva – o!
Mariana Gouveia
331. das fragilidades secretas

330. das fragilidades secretas

Houve sol.em tudo que é canto no quintal, caminhou pelas ruas como quem busca sossego. Era rubro o silêncio da tarde e antecedia a ave,  Podia ser um nome, uma lembrança. O medo que a mãe tinha da ave – que segunda ela trazia mau agouro – e a tarde a findar em tons laranjas para o lado do sul.
A rua que antecede a curva do campo. O olho fixo no passado buscando alternativas de cura.

A história contada mil vezes na rua de cima. O vento branco a espalhar o cheiro do capim verde, a atrair lembranças.
Já não é o branco na parede e a cadeira ali, inanimada diante da janela e a mãe…
Tudo era esse jeito da ave que trazia nos olhos a sabedoria e no olho da mãe, a crença;
Mariana Gouveia
330. das fragilidades secretas

328. das fragilidades secretas

Riu na sorte do dia. Era o ar líquido que trazia a maresia. Nenhum lugar cabe quando no peito o ar falta.
A casa é pequena e perdida para quem não conhece o espaço. Todo voo é cego quando a vida pousa na sorte.
No silêncio da noite as aves não voam. Os sons da casa era minha voz rasgando os estuques.
Os rumos das viagens em roteiros marítimos. Permaneço onde bate o vento. A simbologia da vida é o toque…

[ então, não vivo ]

às vezes, a solidão é esse latido estranho do cão no portão quando vê a ave que beija a flor no varal de roupas.
às vezes, o destino certo é o pouso…

mas, o que nos prende à terra é o medo de voar.

 

Mariana Gouveia
328. das fragilidades secretas