292. das infinitudes

292. das infinitudes.JPG

A mão dela me trazia barulho do mar
O braço ondula silêncios da tarde
Sombras tatuam melodias no vento – que venta – e desmancham sob os cabelos dela…

Não sabia extrapolar as coisas
– dizia – era feita de matéria perene, ela – a que eu criei.
A outra – a de verdade – quebrava regras.

Falava alto nas bibliotecas… Declarava amor nas livrarias.
Chegou a declamar poemas ao lado da placa – PROIBIDO FALAR AO TELEFONE –  e pisar na grama desajeitadamente, sob os olhos da viatura oficial da polícia.

Há sonatas que a areia descreve
E escreve
E o riso dela tem qualquer coisa de ave

Que voa

Leva na mão o carinho portátil, desse pronto pro uso.
Mesmo quando meu silêncio ruge feito fera. Tem a delicadeza do poema no verso.
Usa quando tomo um chá de sumiço

Mal sabe ela que toda noite
Eu olho pro céu e a encontro
Em uma constelação ou em um pouso rumo ao coração.

 

Mariana Gouveia
292. Das infinitudes

Anúncios

281. das infinitudes

Cavoucou na parede o estuque. Descobriu o azul morto três tinturas depois – ou seria o verde desmaiado do ano anterior? – e se perdeu dentro da cor, nas lembranças.

Salvou a formiga do afogamento em um balde e a viu segura duas folhas do gervão depois da cerca.
O vento mudou-se daqui – pensou – pois já não sente mais a presença dele. Depois do vazio das árvores não ouve mais a canção das folhas. Tudo é esse desgaste de tempo.
Replantou o jardim de novo. Revirou a terra e inventou sementes.
Daqui alguns meses a estação terá mudado, mas reviverá a primavera no amanhecer.

Mariana Gouveia
281. das infinitudes

279. das infinitudes

Eu não troco a essência
E a paciência

Dedicação de amor
É isso

Eu vou contar história
De glória

Vou escrever a nossa história
de amor Num livro

Eu vou dançar na rua
Com a lua

Vou rabiscar seu nome
Nos muros

Eu vou cantar canções ao vento
Vou viajar no pensamento

Pro futuro
Quem sabe a nossa história

Ganha um final
Vira manchete de jornal

E vídeo com um poema quente
pra rimar
O amor da gente.

 

Mariana Gouveia
279. das infinitudes

259. Entre uma estação e a primavera

Passeava pelo meu coração como se conhecesse as ranhuras, as cicatrizes.
Por onde passava, abria as janelas da alma e deixava o sol entrar.
Era estranho sentir as pegadas dela – aqui e ali – mas a sensação de ocupação em mim
era a coisa mais magnífica da vida.

Mariana Gouveia
259. Entre uma estação e a primavera

248. Entre uma estação e a primavera

A saudade tem a forma de um poema e sua risada pela manhã, melodia que toca em mim.
Busco a sensação do toque.
Lembro a canção que você cantou e a palavra monocórdica ressoando entre risos e beijos.
Convido-a para dançar
e a plenitude ganha lembranças.
O poema declarado e que eu gravei. – fica na memória mais do que em qualquer outro som.
Conto as pintas que você tem nas costas. Desenho nelas um coração.
Tudo, às vezes, é tão bonito.

Mariana Gouveia
248. Entre uma estação e a primavera

228. das impressões do dia seguinte

 

Vi o coração rabiscado no muro. Desenhei um na folha de papel para o menino que eu achava que fazia anos.
A flor cabia na docilidade do dia. Na vitrine uma floresta falsa com sonhos de mentira.

A torre da cidade-luz exposta como se fosse logo ali, o ponto para a passagem. L’a hamorny no salão da Esquina – tudo isso tinha coração em cada coisa – até a flor imitava no jardim. A semente do amor-agarradinho se derreteu pela asa com amor em dobro. Deixava a vida de cabeça para baixo esse tal de amor. Cabia saudade em cada grito. A alma responde em ecos onde nem o coração escuta.
Tem dia que o coração se desfaz feito reflexo de lua na piscina quando a luz se apaga.
Mariana Gouveia
228. das impressões do dia seguinte

222. das impressões do dia seguinte

222. das impressões do dia seguinte.

I

Havia papéis rasgados
Corações que alguém descolou

– o lado certo virado para o negrume da noite –

O avesso.

II
Junto ao chão
A poeira dos dias

– o vento a rastejar enquanto deseja voo –

O espaço.

III
Era apenas a palavra poesia
Que findou.

– outro dia seria assim, se desejasse –

Não quis.

Mariana Gouveia
222. das impressões do dia seguinte