Projeto Scenarium 6 Missivas – Setembro

Setembro, 30/2018

 L,

Essa carta não será enviada e fará companhia as tantas outras que escrevi – e não digo sobre as que rasguei, embolei, joguei fora – e será apenas palavras escritas no vento, como o coração que vagueia nas nuvens.

Perdi a conta dos dias de solidão sem sua voz, sem seu riso e sem o olá tão único e distinto. Aqui, continua quase tudo igual. Os cães ainda vivem ao pé de mim e essa frase dita assim me faz lembrar teu sotaque. Já te contei que busquei seu rosto em outras pessoas? Dias desses, ao atravessar a rua te vi, ou melhor, pensei ter te visto. A pessoa atravessou a faixa de segurança e cruzou a avenida rumo a praça dos correios.

Corri logo depois do ônibus parar ao meu sinal – loucura minha, digo – para ao chamar teu nome, perceber que a solidão me faz ver coisas e a vi de novo dias atrás na missa. Cheguei a pensar que a tal pessoa poderia ser sua parente.

Minha analista acha que crio projeções de vontades que tenho aqui dentro. É verdade, tenho uma analista que fica a me ouvir e apenas repete o que um dia você disse sobre esse amor ser o mais bonito dos amores.

Como disse Silvia Plath:  Acho que te criei no interior de minha mente e te busco nos aromas das flores, na chuva morna que já te lavou a alma aqui. É engraçado como as coisas tomam formas dentro da imaginação. Parece que foi ontem tudo e hoje, não consigo nem relembrar as datas. O calendário vira do avesso e me engana na sorte das rotinas. O dia do santo do seu lugar, o aniversário que é logo ali, o endereço que não lembro mais e o telefone que busco o número nas mensagens antigas.

Aqui, tudo é bloqueio entre as frases cortadas e o engano de sua presença.

A vida é assim mesmo, L,  os finais são necessários para um novo começo, mas no fim o que fica mesmo é saudade.

Beijo meu

M

 

Projeto Scenarium 6 missivas | Setembro -18
Participam: Lunna Guedes Maria Vitória | Adriana Aneli | Obdulio Nunes Ortega

 

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Maratone – se #06 – Penúltimo dia

mui de muito cor de coração dou de dourado pé de pétala vem do ventre algo de algodão.
Tomás Cunha Ferreira

Pela ordem natural das coisas o casarão ficou pronto e no jardim o amor agarradinho brotou poucos dias antes da primavera. O riso dela ecoava pela casa e Amy era a sinfonia que mais se ouvia.

Nas árvores ao redor havia ninhos de aves e o canto delas era o que se ouvia pela manhã – soube disso depois da noite que dormi aqui, em uma dessas noites em que ela ardia em febre – e a leveza do lugar me faz sentir em casa.

Ajeito os lençóis para que ela fique bem dentro do delírio. As cartas do baú se transformaram em minha leitura preferida, enquanto a luz do abajur muda a cor dos cabelos dela.

As fotografias estão espalhadas em quadros diversos e algumas cartas também fazem parte da decoração. Ela rascunhou uma em spray na parede que fica perto da janela. A impressão que dá é de que as palavras voam a cada balanço das cortinas.

Ela acorda. Pergunta sobre as horas e pede algo para comer.
Meu instinto de mãe antecede a vontade dela e ouço histórias de carrocel, de quando ela e Madalena atravessava a cidade para que ela brincasse na roda – gigante…

– Já te contei que adoro roda – gigante? – ela antecede meus pensamentos, enquanto devora a sopa de legumes – e que havia um parquinho ao fim da avenida e que pelo que me lembro eu e minha mãe éramos as únicas clientes. O carrocel era uma delícia! Eu chamava o cavalo azul de alazão e voava nos braços de minha mãe.

Amanhã ela faz 40. Lembra de detalhes do bolo de cinco anos, do de dez e do de quinze. Depois disso, viveu de solidão na casa dos tios e só descobriu que o casarão era dela dois anos depois que os pais morreram em um acidente.
Sempre viveu de ausência – essa era a verdade – e é verdade que nunca sentiu falta de presença. Essencialmente, as visitas dos tios e parentes próximos eram apenas para cumprir rituais e foram espaçadamente diminuindo até não se fazerem mais necessárias.
Nunca questionou o destino, nem a dor que sentia nos dias em que a presença da mãe clamava no peito.
Lembrava sempre do que a mãe dizia como ensinamento. Buscava interesses na literatura, na arte e nos gostos pelo que era vivo e aprofundava a pintura. Sabia que o dom rondava a forma crítica que encarava o mundo. Não permitia ninguém se aproximar tanto. Era mais por proteção, como a mãe ensinara.

Amanhã ela faz 40 e é tão menina dentro dos dias. Os fones no ouvido – o que desencadeou a febre que passou, enfim, foi a dor de ouvido – e ela não ouve o vento que agita as flores no jardim, enquanto dorme…

O jardim é só meu nessa noite, enquanto espreito o sono dela enquanto o vento faz melodias no jardim…

O jardim aonde ela plantou corações e que em plena primavera a vida lhe sorri.

 

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural – Maratone – se : Tema livre

 

 

334. das fragilidades secretas

334. das fragilidades secretas

Listou os livros que leu. Perdeu – se dentro das histórias que lembrava.
Escolheu a nova tatuagem e a frase do dia para a rotina das horas.
O vento é esse menino travesso que traz a chuva pelas mãos. A árvore maior sem folhas, o galho sendo motivo de asas e há uma discordância entre a pena e o pouso.
As palavras escritas em um idioma noturno. A história da flor contada de mil maneiras diferentes.
Era uma vez, o tempo que acabou. Rio abaixo, todo vento é torto.
As flores traduzem a expressão da semente. O coração é essa ocupação constante dos sem-ninguém.
A lista, as regras, a colheita… perdeu – se.
As fragilidades secretas traduzem a cor que o jardim inventa.

Mariana Gouveia
334. das fragilidades secretas

 

 

305. das fragilidades secretas

De vez em quando você se mistura ao ambiente. Não é coisa de mimetismo – ou até é – e eu não me perderia nele. Poderia a metamorfose se fundir nas ações e eu queria que a vida além da esquina fosse esse equilíbrio de asas.
Qualquer coisa dentro dessa densidade toda.
O ar rarefeito, quase fosco, em ranhuras das paredes.
A sombra desenhada no teto. O coração sendo pouso e ninho.
Devia dizer que a vida se apaga além do papel de parede. O cheiro de mato no jardim, o verde desbotado no que vê.
O olho vagando na janela do ônibus em busca da imagem que toca o coração.
Os nomes das cidades envolvidos no pescoço. O colar a enfeitar a palavra quando a alma chama saudade. Era ali, escrito, descrito, nos corações a oração de fé de onde nasceu.
A taquicardia sabendo silêncio no som oco de quem sonha com voos de solidão.
Saber a cor do silêncio no símbolo da vida. Os limites da rua de cima que invadem meu quintal, enquanto a vida aérea é esse frio na barriga que ecoa em mim, as estações

Mariana Gouveia
305. das fragilidades secretas

292. das infinitudes

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A mão dela me trazia barulho do mar
O braço ondula silêncios da tarde
Sombras tatuam melodias no vento – que venta – e desmancham sob os cabelos dela…

Não sabia extrapolar as coisas
– dizia – era feita de matéria perene, ela – a que eu criei.
A outra – a de verdade – quebrava regras.

Falava alto nas bibliotecas… Declarava amor nas livrarias.
Chegou a declamar poemas ao lado da placa – PROIBIDO FALAR AO TELEFONE –  e pisar na grama desajeitadamente, sob os olhos da viatura oficial da polícia.

Há sonatas que a areia descreve
E escreve
E o riso dela tem qualquer coisa de ave

Que voa

Leva na mão o carinho portátil, desse pronto pro uso.
Mesmo quando meu silêncio ruge feito fera. Tem a delicadeza do poema no verso.
Usa quando tomo um chá de sumiço

Mal sabe ela que toda noite
Eu olho pro céu e a encontro
Em uma constelação ou em um pouso rumo ao coração.

 

Mariana Gouveia
292. Das infinitudes

281. das infinitudes

Cavoucou na parede o estuque. Descobriu o azul morto três tinturas depois – ou seria o verde desmaiado do ano anterior? – e se perdeu dentro da cor, nas lembranças.

Salvou a formiga do afogamento em um balde e a viu segura duas folhas do gervão depois da cerca.
O vento mudou-se daqui – pensou – pois já não sente mais a presença dele. Depois do vazio das árvores não ouve mais a canção das folhas. Tudo é esse desgaste de tempo.
Replantou o jardim de novo. Revirou a terra e inventou sementes.
Daqui alguns meses a estação terá mudado, mas reviverá a primavera no amanhecer.

Mariana Gouveia
281. das infinitudes