334. das fragilidades secretas

334. das fragilidades secretas

Listou os livros que leu. Perdeu – se dentro das histórias que lembrava.
Escolheu a nova tatuagem e a frase do dia para a rotina das horas.
O vento é esse menino travesso que traz a chuva pelas mãos. A árvore maior sem folhas, o galho sendo motivo de asas e há uma discordância entre a pena e o pouso.
As palavras escritas em um idioma noturno. A história da flor contada de mil maneiras diferentes.
Era uma vez, o tempo que acabou. Rio abaixo, todo vento é torto.
As flores traduzem a expressão da semente. O coração é essa ocupação constante dos sem-ninguém.
A lista, as regras, a colheita… perdeu – se.
As fragilidades secretas traduzem a cor que o jardim inventa.

Mariana Gouveia
334. das fragilidades secretas

 

 

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305. das fragilidades secretas

De vez em quando você se mistura ao ambiente. Não é coisa de mimetismo – ou até é – e eu não me perderia nele. Poderia a metamorfose se fundir nas ações e eu queria que a vida além da esquina fosse esse equilíbrio de asas.
Qualquer coisa dentro dessa densidade toda.
O ar rarefeito, quase fosco, em ranhuras das paredes.
A sombra desenhada no teto. O coração sendo pouso e ninho.
Devia dizer que a vida se apaga além do papel de parede. O cheiro de mato no jardim, o verde desbotado no que vê.
O olho vagando na janela do ônibus em busca da imagem que toca o coração.
Os nomes das cidades envolvidos no pescoço. O colar a enfeitar a palavra quando a alma chama saudade. Era ali, escrito, descrito, nos corações a oração de fé de onde nasceu.
A taquicardia sabendo silêncio no som oco de quem sonha com voos de solidão.
Saber a cor do silêncio no símbolo da vida. Os limites da rua de cima que invadem meu quintal, enquanto a vida aérea é esse frio na barriga que ecoa em mim, as estações

Mariana Gouveia
305. das fragilidades secretas

292. das infinitudes

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A mão dela me trazia barulho do mar
O braço ondula silêncios da tarde
Sombras tatuam melodias no vento – que venta – e desmancham sob os cabelos dela…

Não sabia extrapolar as coisas
– dizia – era feita de matéria perene, ela – a que eu criei.
A outra – a de verdade – quebrava regras.

Falava alto nas bibliotecas… Declarava amor nas livrarias.
Chegou a declamar poemas ao lado da placa – PROIBIDO FALAR AO TELEFONE –  e pisar na grama desajeitadamente, sob os olhos da viatura oficial da polícia.

Há sonatas que a areia descreve
E escreve
E o riso dela tem qualquer coisa de ave

Que voa

Leva na mão o carinho portátil, desse pronto pro uso.
Mesmo quando meu silêncio ruge feito fera. Tem a delicadeza do poema no verso.
Usa quando tomo um chá de sumiço

Mal sabe ela que toda noite
Eu olho pro céu e a encontro
Em uma constelação ou em um pouso rumo ao coração.

 

Mariana Gouveia
292. Das infinitudes

281. das infinitudes

Cavoucou na parede o estuque. Descobriu o azul morto três tinturas depois – ou seria o verde desmaiado do ano anterior? – e se perdeu dentro da cor, nas lembranças.

Salvou a formiga do afogamento em um balde e a viu segura duas folhas do gervão depois da cerca.
O vento mudou-se daqui – pensou – pois já não sente mais a presença dele. Depois do vazio das árvores não ouve mais a canção das folhas. Tudo é esse desgaste de tempo.
Replantou o jardim de novo. Revirou a terra e inventou sementes.
Daqui alguns meses a estação terá mudado, mas reviverá a primavera no amanhecer.

Mariana Gouveia
281. das infinitudes

279. das infinitudes

Eu não troco a essência
E a paciência

Dedicação de amor
É isso

Eu vou contar história
De glória

Vou escrever a nossa história
de amor Num livro

Eu vou dançar na rua
Com a lua

Vou rabiscar seu nome
Nos muros

Eu vou cantar canções ao vento
Vou viajar no pensamento

Pro futuro
Quem sabe a nossa história

Ganha um final
Vira manchete de jornal

E vídeo com um poema quente
pra rimar
O amor da gente.

 

Mariana Gouveia
279. das infinitudes

259. Entre uma estação e a primavera

Passeava pelo meu coração como se conhecesse as ranhuras, as cicatrizes.
Por onde passava, abria as janelas da alma e deixava o sol entrar.
Era estranho sentir as pegadas dela – aqui e ali – mas a sensação de ocupação em mim
era a coisa mais magnífica da vida.

Mariana Gouveia
259. Entre uma estação e a primavera

248. Entre uma estação e a primavera

A saudade tem a forma de um poema e sua risada pela manhã, melodia que toca em mim.
Busco a sensação do toque.
Lembro a canção que você cantou e a palavra monocórdica ressoando entre risos e beijos.
Convido-a para dançar
e a plenitude ganha lembranças.
O poema declarado e que eu gravei. – fica na memória mais do que em qualquer outro som.
Conto as pintas que você tem nas costas. Desenho nelas um coração.
Tudo, às vezes, é tão bonito.

Mariana Gouveia
248. Entre uma estação e a primavera