228. das impressões do dia seguinte

 

Vi o coração rabiscado no muro. Desenhei um na folha de papel para o menino que eu achava que fazia anos.
A flor cabia na docilidade do dia. Na vitrine uma floresta falsa com sonhos de mentira.

A torre da cidade-luz exposta como se fosse logo ali, o ponto para a passagem. L’a hamorny no salão da Esquina – tudo isso tinha coração em cada coisa – até a flor imitava no jardim. A semente do amor-agarradinho se derreteu pela asa com amor em dobro. Deixava a vida de cabeça para baixo esse tal de amor. Cabia saudade em cada grito. A alma responde em ecos onde nem o coração escuta.
Tem dia que o coração se desfaz feito reflexo de lua na piscina quando a luz se apaga.
Mariana Gouveia
228. das impressões do dia seguinte

222. das impressões do dia seguinte

222. das impressões do dia seguinte.

I

Havia papéis rasgados
Corações que alguém descolou

– o lado certo virado para o negrume da noite –

O avesso.

II
Junto ao chão
A poeira dos dias

– o vento a rastejar enquanto deseja voo –

O espaço.

III
Era apenas a palavra poesia
Que findou.

– outro dia seria assim, se desejasse –

Não quis.

Mariana Gouveia
222. das impressões do dia seguinte

163. da geografia das coisas

Acontecia o dia do amor. A gente sempre acontece na rotina das coisas. Havia recado estampado em tudo. O céu estampado em cores suaves.
Uma canção repetida ao limite e o riso ecoando coragem antes da viagem.
Cabia qualquer amor em declaração ardente. O nome da flor declamado em versos.
A palavra do dia esparramada no gesto. O eu te amo dito em alta voz e o rodopio lembrando asas em voos.

Mariana Gouveia
163. da geografia das coisas

Sem saber o porquê

caminhou até onde o sol batia, deu três toques na madeira e a alisou suavemente, sentindo uma parte quente e outra fria. Naquele instante percebeu que não era diferente da casa, seu coração inflamava ou gelava, conforme o calor que recebia.

Joaquim Antonio

115. dos dias aleatórios de Abril

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Conhecia o ritual das flores…

O ritmo em que elas cresciam no quintal
Era ali, entre o canto do muro e a leveza do vento.
O mapa feito de pulsar e orações…
Ave, flor!
Bendita seja a semente que possui um jardim inteiro…
Brota coração em tudo que flor.
O corpo presente em nuances distintas e havia o homem que acreditava nos milagres.
Ave, dor!
Do outono, líquido o orvalho, a paisagem quase furta cor…
Ave cor!
E há palavras que vira esperança
mas isso era antes de eu amar…
Ave, amor!

Mariana Gouveia
115. dos dias aleatórios de Abril

96. dos dias aleatórios de Abril

O boletim do dia relata o mistério. Havia dor em qualquer grito. O unicórnio na parede lembra o desenho da minha infância. Cartazes pediam silêncio onde ninguém se mexia. Rascunhos rasgados de cartas que nem foram escritas.

O cheiro do verniz limita distância. A moça de branco procura a veia e agita o frasco onde purpurinas flutuam na alma.

A menina ri diante do mapa. Conhece o portal da imaginação. O relicário pendurado no peito. Sentia as asas do pássaro como se fosse dela. Via coração em tudo que é flor…

Fechava os olhos e cantava coragem.

A vida, esse doar incessante de dor.

Mariana Gouveia

96. dos dias aleatórios de Abril

“todo teu amor é só esse?”

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Se conseguíssemos puxar o coração pela garganta e colocá-lo em cima da mesa, ou da cama, diriam ou “ai que nojo” ou perguntariam: “todo teu amor é só esse?”

Raul Drewnick
*imagem: Tumblr