151. dos dias diferentes dos outros dias

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Contaram para mim uma história. Queriam ler a palma da minha mão. Disseram que as manhãs aconteciam em mim como um desfolhar da folhinha com o dia do santo. E que o azul do meu céu era como um carro antigo exposto na vitrine meu quintal uma tela difusa de instantes.

Me deram as respostas e eu nem havia feito as perguntas. A arte era barroca em meio ao novo. As paredes da igreja matriz sendo mudadas e o restaurador dizia sempre o nome de quem havia doado a maior parte do dinheiro. A tinta modificada via computador e tudo tão diferente aos meus olhos.

A mulher de preto carregava um luto não previsto. Ficou comigo a espreitar o frio a sacudir as mãos, como se tocasse uma sonata no ar. Calada, segurou minha mão como se fosse pesada a dor.

Começa a ler um diário distinto e enumera o labirinto da flor. E eu descalça, nem sabia nadar… Queriam ler a palma da minha mão… falaram sobre a estrela secundária e era pobre o destino nos dias frios, enquanto nos corredores, o vento cortava a pele.

Seria perfeito essa noite se chovesse e minha mão fosse colo para acolher a vida miúda das coisas. O amor sendo feito nos gestos. O amanhã, a vida de quem a gerou ganha ares seculares… Repito a palavra fácil em todos os instantes da vida, enquanto a veia fraca conta o cabelo que cai. Mas a mão… ah! Essa é colo para acolher a vida miúda das coisas e o amor sendo feito nos gestos.

Mariana Gouveia
151. dos dias diferentes dos outros dias

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150. dos dias diferentes dos outros dias

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Há solidão que olha o mar como se fosse rio e há dias em que o outono é puro inverno na densidade das coisas.

O intervalo dos dias faz qualquer dia ser domingo e sua monotonia sem programa especial na tv e o céu cinzento a desenhar chuvas para os lados do sul.

Eu passo todo o dia sobre o rio e ele ecoa a vontade de mar e seus pássaros acendem em cantos a pena da gaivota esquecida onde antes era o pássaro de todo dia.

A natureza mente em seu estado de leveza, mesmo que o ritmo do vento seja assombroso em algum canto. Uma melodia feita dentro do assobio lembra a canção que ocupa a mente e o coração… Era preciso tanta coisa para ser tudo.

Os voos nascem na palma das mãos. Viram pulmões para o respirar alado. O Universo é feito de asas e o bater delas causa um caos onde o caos já existe.

O mundo traça uma paralela entre o acaso e a solidão, que é um bicho feito de asas e tem um relógio bomba a explodir feito asas quando voa e pousa.

 

Mariana Gouveia
150. dos dias diferentes dos outros dias

149. dos dias diferentes dos outros dias

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A caixa de costura ganhou linhas novas. Jogo água nas plantas e busco o botão novo da flor.
Todo objeto aqui tem jeito de gente. A tesoura, uma bailarina a ensaiar passos no lençol novo.
Alguém confundiu semente com flor e a solidão das coisas apareceu no quintal enquanto garoava. Tudo era a estação errada a invadir o tempo.

As paredes inventam nomes rabiscados contando histórias. O micro mundo nasce onde ainda há pouco era chuva. Reconheço a figura nova no jardim. Tinha jeito de novidade junto do meu riso e penso que em algum lugar as lágrimas devem molhar as flores. Reconheço o sabor a sal na boca. Toco a brancura da pétala.

As flores merecem o afago. Em vez de mudanças, as lembranças cabem dentro das coisas. O Universo é feito de coisas miúdas.

O tempo muda e a moça do tempo fala dos próximos dias e eu fico a esperar que mais uma vez ela erre outra vez mais uma vez.

Mariana Gouveia
149. dos dias diferentes dos outros dias

 

148. dos dias diferentes dos outros dias

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O vento se ausentou do quintal. A lua andou inquieta e invisível em seu espaço lunar…
havia qualquer coisa de azul na flor que o tempo desbotou.
Era oblíqua em seu estado letárgico de ser.
O ruído da palavra era quase encontro com meu silêncio e o canto da ave em seu sistema de asa e o medo do chão.
A monotonia das tardes de domingo contrastando com o verbo voar e o astro celeste a vingar do sol, com sua presença singular.
A garoa veio e o tempo mudou. O frio entra pelas frestas das janelas, da porta e o dia se encarrega de procurar momentos mágicos na vida.

Mariana Gouveia
148. dos dias diferentes dos outros dias

147. dos dias diferentes dos outros dias

Há solidão que é como um pássaro fixo na árvore sem folhas… os galhos a pender como garras a invadir o espaço e a alma a ouvir a canção que toca ao longe.
A estação invade a tarde e o coração ocupado demais para amar.

Há dias em que caminhamos para dentro da gente, refazendo caminhos, desenhando novas histórias.

O outono despertou aqui e as folhas caem como se ficar ali, na árvore fosse penoso demais e o chão fosse o aconchego do colo. O outono aparece nesse sábado morno quase às vésperas do inverno, que não virá também – eu sei.

As horas de fim de tarde trazem com elas um vento frio com o qual não acostumo nunca.

Há risos de crianças na rua, as pipas bailam no sol quase morrendo e o pássaro a gorjear na árvore morta, como se quisesse companhia enquanto descubro que seu canto pesadamente no galho, em um céu quase cinzento, quase noturno a anunciar chuva, e palavras que fogem dentro de mim só são ditas na solidão dos cantos das aves. Solidão é uma ave a pousar na árvore morta.

 

Mariana Gouveia
147. dos dias diferentes dos outros dias

 

146. dos dias diferentes dos outros dias

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O amarelo desbota na tarde quente. A árvore antecipa seu dourado antes do tempo. Cabia dimensões de estrelas na palma da mão. Ela quer falar sobre asas. Repete perguntas do ano passado. Distrai-se olhando pela janela.
Eu falo do tempo lá fora.

Reconto as mesmas historias e ela acha graça – não se lembra do que contei – da borboleta e das rotas delas no meu quintal. O crepúsculo é logo ali e me perco no silêncio…
Aprendi a desenhar as fugas e respiro diante da tarde que se vai.
O relógio antecipa a partida e o vento carrega o amarelo para a noite.
Quem sabe, eu volte amanhã.

Mariana Gouveia

146. dos dias diferentes dos outros dias

145. dos dias diferentes dos outros dias

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Os olhos fitam a parede com o Kandinsky com a mesma admiração de quem olha o álbum de fotografia e os dedos a passar imaginariamente nas linhas e tudo tão frágil diante da figura tensa a querer falar de artes – e de memórias – falo dos bordados que fiz e de como as flores ganharam cores com as linhas.
Ela se anima enquanto detalho o dedal e as agulhas especiais e os pontos que aprendi com a mãe, lá na infância.
A camisola de voal, com suas florzinhas miúdas e o véu que já bordei – falo do vestido de noiva que foi bordado com pérolas e tingido no modo antigo, de minha mãe, com raízes e casca de cebolas.
Retrata sua paixão pelos monogramas bordados com letras cursivas e eu mostro os riscos que eu mesma criei…

Os lençóis de linho engomados lavados com anil e eu falo das lembranças que guardo sem querer…
Ela busca no olhar os retratos em sépia na parede e as palavras pronunciadas dentro da saudade, como se tivesse passado um século… como se o bordado detalhado buscasse na memória lembranças que a vida guardou em gavetas.

Ela fala de um amor vivido enquanto os olhos buscam os retratos soltos e invocam um nome que não consigo definir.

Para além da sessão, hoje fui eu quem a ouvi.

Mariana Gouveia
145. dos dias diferentes dos outros dias