323. das fragilidades secretas

Quebrou o espelho de mar, faltou o ar da maresia.Os peixes perderam o medo da ave marítima – me tornei alma errante em um céu de falta – com medo de esquecer seu nome repito todo dia quando acordo – rezo ele ao meio-dia – e resmungo ele na noite, quase em sonho, sono.
Conto minha história em poesia diária. Esse rasgo de água que engasga cada vez que bebo.
Uso o amor como se fosse a origem da sede. Devo confessar que quase morri de abstinência.  Isso de falta devia ser proibido mesmo… Quebrar essa regra devia causar afogamento no mesmo mar.
Meu rio não conhece outro destino que não seja o de ir ao encontro do mar.
Sabe a sal a lágrima que cai. As orações saem como se fossem declarações.
Vivo mil anos em uma hora. Tudo esse tempo obscuro que a a hora asfixia no vento. Vivo como peixe de aquário que sonha a liberdade da correnteza. A regra da manhã é a pele descamando de amor.

Mariana Gouveia
323. das fragilidades secretas

 

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234. das impressões do dia seguinte

 

Guardou a mão para o vento da tarde. A carícia rondava a alma, a pele.

O elemento água me pertencia com jeito de mar. Naufragou nas esquinas todas. Doida de pedra mergulhou em um rio rasante. Engoliu a mudança das marés. Cavou com a própria mão a areia e sentiu-a dentro da pele, couro rasgando sendo tocado. Maresia a saber na boca e o eco das ondas a bater no muro.
O rio é esse abismo de mar e o peixe a voar para além das muralhas… as conchas contando histórias dos búzios que vieram pelo correio e trouxe o cheiro de mar e nunca mais deixou de ser marítima. A anatomia na pele de vida marinha. Quase ser úmida de tanto amar. Soubesse nadar, voaria.

 

Mariana Gouveia
234. das impressões do dia seguinte

220. das impressões do dia seguinte

 

Você poderia me dizer se amanhã vai ser quente, se a cortina azul ainda dança na sua janela e que a brisa faz lembrar de mim.
Poderia me falar das coisas bobas que você fez. Da areia da praia onde encontrou os búzios coloridos e de como a exatidão da conchas cabem dentro do meu quintal.
Às vezes, as conversas bobas trazem o encanto e o sol debrua buscando a maresia que sopra aqui.
O vento te conta histórias que antigamente você lia. Os séculos perduram em relógios quebrados com as ondas do mar.
Os teus olhos buscam a incompletude onde o mar avança sobre meus passos.
Como desenhar as digitais de sua mão dentro de minhas histórias?
Como atravessar em pensamento um oceano inteiro onde é secura logo além da varanda e meu suspiro avança noite adentro.
De noite, o mar é dourado, enquanto pirilampos invadem meu quintal sem luz.
O teu corpo vazado em meus dedos de artesã.

Mariana Gouveia
220. das impressões do dia seguinte

131. dos dias diferentes dos outros dias

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O dia de ontem teve oscilações de saudades. A moça que diz entender de destino quis ler minha mão – a desenhou entre o oceano e o rio –  a areia a moldar seus pés e o mar a mandar recados dentro de poemas…

O vento do lado sudoeste da casa derrubou as paredes todas – ventou em tudo que é canto – lembrei-me da canção de Calcanhoto…
Andei descalças sobre os destinos soltos… O mapa teve a rota traçada dentro da palavra saudades. Tem dias em que o calendário absorve a vivência, em outros tatuam ausência até na parte da folhinha que traz o nome do santo.
Mariana Gouveia
131. dos dias diferentes dos outros dias

127. dos dias diferentes dos outros dias

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Era sagrada a lua quando teus pés pulavam a poça d’água no chão e tocava o céu com as mãos na água onde refletia as nuvens e seus azuis entremeados de branco.
Procurava figuras nelas, tentava encontrar estrelas cadentes num céu de maio desmaiado de luz.
Era noite quando regressava de sua viagem transgressiva e me contava seu caso de amor interestelar com a areia do mar… trazia para dentro de casa a maresia e invadia o quarto com sua intenção de amar.
E deixava meu quintal com o ritual marítimo de ser e cheio do desejo de estar.

Mariana Gouveia
127. dos dias diferentes dos outros dias

93. dos dias aleatórios de Abril

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Acreditava nas histórias marinhas. Sabia o sabor de mar à pele mesmo sendo de rio.Já vira um peixe voar, fora da mão, de asa. Alguém contou sobre coisas mitológicas…
Rabiscava as ondas nos muros da cidade, de madrugada.
Guardava dentro das lendas que criava o encontro marítimo entre a maresia e o quintal. Entre a terra e o mar.
Muitos diziam ser invenção ou qualquer coisa assim… Loucura barco de rio atravessar o oceano. Batia-se além das marés e ali, morria na praia.
Ela, apenas acreditava que qualquer coisa poderia acontecer… Bastava fechar os olhos e viver.

Mariana Gouveia
93. dos dias aleatórios de Abril