Bichinhos para a solidão

Bichinhos para a solidão

Dê-me dois
Daqueles bichinhos
De silêncio
Dois fofinhos
Um macho e uma fêmea
Vou soltá-los no
Apartamento
Para silenciosas cópulas
E comerão silenciosamente
Qualquer barulho
Sobrarão apenas sons que
Venham de música ou livro
Talvez fique uma
Risadinha de criança
Que vibre de muito longe

Logo terei variações de
Silêncios
Eles irão se multiplicar
Feito coelhos.

Adriane Garcia

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255. Entre uma estação e a primavera

Que nome dar para esse rio que vaza do meu peito?
Você viu a lua nessa madrugada? – além dessa que surge cheia em teus olhos? –  Viu Júpiter dormiu de conchinha com ela?
O vento veio suave na pele. Pensei em carícias e pele. Os poros soerguerem e a vida se transforma nesse pulmão de respirar… As asas não respeitam a densidade das pedras.
E as flores…?  – não captam a solidão dentro da noite – aceitam os casulos que  se abrem e a  metamorfose acontece.
Enquanto você vê seu mar nessa sombra de asa, o ar sendo presságio de coisa boa. De presença além do infinito e dos séculos e séculos – amém – e pousando em um beijo que é tua boca e voo… Pulmão.
Cadê meu ar de respirar dentro dessa ausência que se impôs? E esse rio que vaza entre as folhas?
Mariana Gouveia
255. Entre uma estação e a primavera

114. dos dias aleatórios de Abril

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Conheci uma menina que andava descalça e possuía sapatos dourados.

Em uma das mãos o rio desaguava. Levava a correnteza no sentido dos dedos, e fazia o vento desmaiar nas margens onde olho nenhum conseguia alcançar.

Na outra, possuía o dom do deserto – onde oásis era miragem mesmo – e a flor que brotava desenhava espinhos nos cabelos dela.

Cabia dentro do riso do dia e nas noites de insônia colecionava a saudade subversiva de amar.

Cantava canções de mar… Declarava poesia de rio e repentinamente desavisava o redemoinho de vento. Criava casulos para se renovar.

Era mão para pouso, ao mesmo tempo que amava a liberdade de voar…

Sabia da necessidade de sentir, mas mudava a metamorfose de viver.

Mariana Gouveia
114. dos dias aleatórios de Abril

67. da estação das águas

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Um dia, ela se encantara pelos seres que voam.

Adorava a graça da liberdade entre o céu e a terra. Queria sentir o toque em comunhão do bicho de asas em suas mãos e a mãe, dentro da poesia dos dias dava-lhe a liberdade da escolha.

Quando chovia à tarde, a mãe costurava tranças no cabelo dela. Contava histórias de fada que jurava ser real. Da magia que alguns seres poderiam fazer em sua vida.

Ria das perguntas e alimentava a imaginação com leve toque de ousadia no que ensinava:

– Até onde você iria pela liberdade de poder usar a palavra voar?
Ela, em sua criancice dizia:
– Até onde me permitirem – ela dizia.

Tempos depois, dentro do sagrado da oração, repetiu a mesma pergunta:

– Até onde você iria pela liberdade de entender os voos.
Ela, em seu espírito adolescente, dizia:
– Até onde a palavra pousar – respondia no seu intuito de pouso.

Em outro tempo, na dureza dos corredores de um hospital, a mãe via a menina se tornar mulher e disse que pela última vez a lição seria repassada:

– Até onde você iria pela luta de ser mulher.
Olhando dentro dos olhos de dor da mãe finalmente entendeu…

A chuva caia fininha – de molhar bobo, a mãe diria.
– Vou até onde eu quiser!
Suspirando a mãe diz:
– Você, finalmente, já pode voar.
8 de Março de 2017.
Continuo com o espírito acolhedor de amar os seres alados e continuo dentro da palavra liberdade.

Feliz Todos os dias, mulher!
Mariana Gouveia
67. da estação das águas

2. dos Rituais do orvalho

Havia acostumado molhar os pés com o orvalho das plantas… capim rasteiro que grudava na pele… relva que curava qualquer dor.

Quando podia, bebia na própria flor… Tinha essa mania de seiva.

Alguns diziam que era para se impregnar de perfume…

Apenas ela sabia que era para se manter viva.
Mariana Gouveia

Bis

Bis

Da base ao topo
deslizantes areias
uma cama de teias
de aranhas
e manhas.
E a manhã escondida
por detrás da cortina
permitiu meia-luz
ante dois corpos nus.
Despidos do dia
entregues à euforia
de fazer chorar
Imersos em bocas
sussurros e roucas
palavras de amar
A língua percorre
o habitat natural
em doses perfeitas
de açúcar e sal
Adentra profundo
arromba as entranhas
teu sexo um mundo
fecundo…

Cravada em teu corpo
como em sonhos te quis
pensamento segreda:
– quero bis…

Isabel Machado