É domingo

e o silêncio estende-se pela casa. há muito que não te escrevo. dizer-te que existes ainda nos corredores, nos espelhos.
começo a esquecer-me da tua voz. oiço-te dentro de mim mas não consigo reproduzir a tua voz.

é tão difícil guardar a memória de uma voz

Al Berto
©️ Magdalena Benny

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Maratone – se – #02

Era outono mas o inverno resolveu bater forte na porta. O calor típico da cidade deu lugar a uma garoa fina e o vento gelado me obrigava a apressar os passos. Como estava frio resolvi beber um café na padaria da esquina, um pouco antes do meu local de trabalho.
Só depois de tomar o café é que percebi a fila que se formava no caixa. O que me atrasaria um bocado. Perto da minha vez, comecei a procurar na bolsa a carteira para pagar. Uma mão atravessou na minha frente e colocou o dinheiro no balcão.
– Hoje, sou eu quem pago – ela disse – lembra de mim? – o riso a invadir o rosto e a iluminar o lugar todo.
Entre a surpresa e o espanto meu olho buscou a boca que tanto me intrigou nesses dias todos. Amy voltou ao meus ouvidos e o perfume.
– Lembro sim! Pelo jeito quem teve a mágica da carteira sumida fui eu.
Saímos rua afora e ela abraçou-me. Reclamou do frio e de como amava o calor.
– Prefiro o sol radiante – ela disse – enquanto eu sempre repetia o também num gesto de que tô sonhando.
– Bora lá que te levo onde vai – disse enfiando o braço em volta do meu e a rua se encheu de graça.

– A terceira vez é a melhor – disse e entre meu olhar de interrogação respondeu a pergunta que só consegui fazer mentalmente:

–  o nosso próximo encontro será melhor – riu mostrando as covinhas – Espero que queira me ver mais uma vez, dessa feita sem acaso… ou seria melhor o acaso?
Eu apenas murmurei alguma coisa, enquanto ela me conduzia pela rua que me sabia de todo dia e naquele em especial a voz era o encanto para além do meu canto.

–  Não faz mal! Seja por acaso ou marcado, será melhor!

Os passos me levaram até a porta do trabalho. O riso fácil era para além das delicadezas e a promessa de me mostrar os voos dos pássaros na casa vazia ao fim da rua do meio.

O abraço entre um agradecer e suspiros meus era quase a sintonia do dia. E a promessa de encontros futuros fazia meu coração acelerar.

Ela possuía a vontade dentro do riso e embora o frio me fizesse tremer a cada vento, ela, de leve trazia em meu corpo o calor do seu e assim se foi deixando um ritmo de Amy em mim.

 

Mariana Gouveia
*imagem: Laura Makabresku
Projeto Scenarium Plural – Maratone – se : Tema livre

Pai,

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Pai, a vida é esse pouso na mão. Isso de comemorar um dia seu, tem minha implicância desde sempre. Teu dia é todo dia em que seu ombro foi amparo.

Hoje, as janelas se abrem e dizem que vai ter chuva de meteoros. Sei que você riria e diria que quando as estrelas “chovem” alguma coisa de importância acontece. Você era o homem das importâncias. Desde o desencaroçar o algodão e dele, com sua sabedoria na roca, fazer com que aquele capucho vire linha, tecido até o saco pronto para receber a semente.

Pai, o cotidiano é esse céu que se abre quando nasce e se esconde quando ele se vai. Daí, vem as estrelas e essa imensidão de luzes, tal qual os vaga-lumes no quintal.
Você entende essa nossa paixão pelo inexplicável  e me apresentou a força maior das orações. Segui o rito de tuas bençãos. A leitura de palavras direcionadas dentro da fé.

A vida é leve, pai e quando me pego pensando em você, sou pura gratidão. Embora, tão longe, estamos tão juntos em tudo que você me ensinou. Sou essa vontade de vento, de liberdade e de alcance. Alcanço nos gestos os afagos de tudo. E tudo isso, devo a você, pai.

E quando tua oferta vem com gesto de amor, sou pouso dentro das suas vontades.

 

Grata tanto!
Te amo infinito!

 

Mariana Gouveia

…percepção dos “acordes” dela…

sun-woman-dancing-with

Saboreia a voz de água doce da fonte

deixando-se levar por tão terna melodia,

experimentando a graça de se sentir tão bem,

enquanto o sol aquece

as pétalas alvas da poesia que ela vai cantando…

 

Hoje seria incapaz de escrever.

Hoje quer ser dela,

ouvido absoluto.

Cristina Miranda
* imagem: Vitaly Sokol

olhar de só-assim

olhar de só-assim*imagem: Datenshi

  

dedos quietos que crescem
pele nua
brincadeiras como o amor
pêndulo solto de sonhos
 
lógicas sacudidas
 
olhar de só-assim
 
modos de chegar como sementes
 
manobras de artesão contra o ego
 
desafio do «eu»
 
nudez de pele
 
de mãos
 
e (sob os teus olhos)
 
invenção de um sólido espanador de tristezas.