Uma noite,

 

quando o mundo já era muito triste,
veio um pássaro da chuva e entrou no
teu peito,
e aí, como um queixume,
ouviu-se essa voz de dor que já era a tua
voz,
como um metal fino,
uma lâmina no coração dos pássaros.

Agora,
nem o vento move as cortinas desta casa.
O silêncio é como uma pedra imensa,
encostada à garganta.

José António Baptista
*imagem: Aleah Michele

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Amor:

amor

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ser ave no ninho do abraço

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Marcelo Soriano
*imagem: Laura Makabresku

Três fósforos…

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um a um acesos na noite

O primeiro para ver o teu rosto inteiro

O segundo para ver os teus olhos

O terceiro para ver a tua boca

E toda a escuridão para recordar tudo isso
Apertando-te nos braços

Jacques Prévert
*imagem: Teresa Queirós

Era primavera em qualquer lugar

misturou riso com lágrima
comprou coisas pela net.
rasgou a renda da saia
atendeu um moço que pedia água
fazia tempo que ninguém pedia água pra ela.
Era quase despejar o que chorou no copo.
Lembrou qualquer coisa da infância.
A lembrança fez qualquer coisa de grito dela.
redemoinho e nuvens vasculham o céu.
espalhou as flores no outono. Era primavera em qualquer lugar.
A dor veio de novo e deu as boas vindas.
Afinal, eram companheiras inseparáveis.

Mariana Gouveia
imagem: Elisa Lazo de Valdez

 

Tatuagem

Tatuagem
*imagem: Facebook

Cola-me à pele
a roupa que despi.
Vejo-a espalhada
sobre o soalho,
sinto-a por dentro,
num canto de mim
– nunca explorado.

Fica gravada na pele
como uma tatuagem
– involuntária.

Dulce Morais

Veste-me a seda

Marta Orlowska 8*imagem: Marta Orlowska

das tuas mãos
serenas
Veste-me a roupa quente da tua pele
e aperta-me com o cinto dos teus braços
no lugar onde o meio traz cansaços
Evita que na ausência de ti gele

Recorta-me
em pequenos pedaços
Ata-me em laços
e guarda-me no coração
antes de saíres para o mundo
e bater no fundo
da traição que te apetece

 

Edgardo Xavier
*imagem: Marta Orlowska