Aqui eu bebo abismos.

Aqui eu bebo abismos.

Digo dos mergulhos líquidos ao infinito medular
em busca do fundo que não há.
Aqui eu engulo temporais. Digo dos verbos necessários,
como as lágrimas dos ventos a me fazer tempestade
na alma.

Eu ontem chupei beijos de laranja
espremida na boca. Empurrei de leve
o teu peito pra tocar o coração e vazei o invisível.
Digo das mãos o imprescindível, o inacessível
da alma sorvida no oco
das digitais da língua, no tato da palma.

Eu ontem me afiei na lâmina da tua luz para ser aguda e furar o abismo inalcançável onde o amor descansa na véspera do humano.

No fundo talvez seja só isso. Essa vontade de ser eterno dentro.

A morte é um vento grávido e morno que não tem pressa de parir. Quando finalmente ferve, derrete dentes, nervos e aspas. Então sorri.

Shala Andirá
*imagem: Lauren Treece

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Sementes

Para quem voa-001

*imagem: Elena Vizerskaya
.
Se mente a minha pele
– brota
Se diz verdades
– vinga
Se mente meu corpo
– raiz
Se diz verdades
– seiva

Se mente a flor
– pólen
Se verdades diz,
– sementes.

Elke Lubitz

Tua Morada


Mora em mim
como pássaros em árvore
e com suas asas, cantam
para que as folhas dancem.

Mora em mim
como o sumo na fruta
desaforadamente nas entranhas e bebe o doce do beijo

mora em mim nas magias das manhãs laranjas e alaranja meu dia como sinfonia dos anjos

Mora em mim e eu vivo!

Mariana Gouveia
* imagem: Oleg Oprisco

eu sempre achei que os peixes voavam…

com pequenas asas em céus invertidos.
companheiros das estrelas que também quiseram morar do outro lado da vida.
que em troca do brilho sonham viagens.

Rosa Maria Ribeiro
*fotografia: Anka Zhuravleva

 
 
Rosa Maria Ribeiro

145. dos dias diferentes dos outros dias

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Os olhos fitam a parede com o Kandinsky com a mesma admiração de quem olha o álbum de fotografia e os dedos a passar imaginariamente nas linhas e tudo tão frágil diante da figura tensa a querer falar de artes – e de memórias – falo dos bordados que fiz e de como as flores ganharam cores com as linhas.
Ela se anima enquanto detalho o dedal e as agulhas especiais e os pontos que aprendi com a mãe, lá na infância.
A camisola de voal, com suas florzinhas miúdas e o véu que já bordei – falo do vestido de noiva que foi bordado com pérolas e tingido no modo antigo, de minha mãe, com raízes e casca de cebolas.
Retrata sua paixão pelos monogramas bordados com letras cursivas e eu mostro os riscos que eu mesma criei…

Os lençóis de linho engomados lavados com anil e eu falo das lembranças que guardo sem querer…
Ela busca no olhar os retratos em sépia na parede e as palavras pronunciadas dentro da saudade, como se tivesse passado um século… como se o bordado detalhado buscasse na memória lembranças que a vida guardou em gavetas.

Ela fala de um amor vivido enquanto os olhos buscam os retratos soltos e invocam um nome que não consigo definir.

Para além da sessão, hoje fui eu quem a ouvi.

Mariana Gouveia
145. dos dias diferentes dos outros dias

Seu cheiro de flor.

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… sua boca é de pétala, de flor!
… seu desenho é um pé, de flor!
…sua alma é um jardim, de flor!
Seu corpo é um convite de um caminho… de flor
Seu deleite é a seiva…
de quando machuca-se…uma flor.

Aden Leonardo
*imagem: Nishe