Fazia frio nos olhos dela

e eu pensei em ajudar, mas havia frio também nos meus olhos
As velhas senhoras dos meus poemas sempre veem conversar,
Ainda há tanta beleza nos olhos delas,
E elas aprenderam a sorrir das tristezas,
As faces com velhas pinturas, algum ouro antigo nas molduras, 
Uma forma madura de iluminar os problemas,
Os caminhos nos mapas a dizerem do mundo
Coisas que não precisam voltar,
Mas me contento em me aquecer nos olhos delas

Charles Burck
* imagem: Marta Bevacqua

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os poemas que fiz pra você
são seus
ou meus?

 

Carla Carbatti
*imagem: Rimel Neffati

És parecida com a Terra.

És parecida com a Terra. Essa é a tua beleza.
Era assim que dizias.

E quando nos beijávamos e eu perdia respiração e,
entre suspiros, perguntava: em que dia nasceste?

E me respondias, voz trémula:
estou nascendo agora.

E a tua mão ascendia
por entre o vão das minhas pernas
e eu voltava a perguntar: onde nasceste?

E tu, quase sem voz, respondias:
estou nascendo em ti, meu amor.

Era assim que dizias.

Tu eras um poeta
Eu era a tua poesia.

© Mia Couto
© Foto de Marie Hochhaus

Morada

Morada

Tua sede é tamanha
que naufrago no cálice
em que bebes.
Tua sede, diurna,
me espreita pela noite
e me aguarda.
Nossos sonhos, perversões submersas,
a navegar silábicos mantos,
tramas, viagens, segredos.
Distâncias que nos aproximam.
Sou o princípio,
és o fim.
Me ouve, sou tua,
seja em corpo ou sem ele.
Teu prazer, alvo.
Veste-me e despe-me.
Transita por mim,
hóspede breve
e habita-me.

Thereza Christina Motta
*imagem: Tumblr

Vertiginosamente azul.

vertiginosamente azul..Pagano

  ~

Então, pintei de azul os meus sapatos

por não poder de azul pintar as ruas,

depois, vesti meus gestos insensatos

e colori as minhas mãos e as tuas

E perdidos de azul nos contemplamos

e vimos que entre nós nascia um sul

vertiginosamente azul. Azul.

  ~

Carlos Pena Filho
*imagem: Julio A. Pagano