Levei minha casa para a montanha…

01Levei minha casa para a montanha.*imagem: Marta Orlowska

Virou flor.
Nem sabia, nem fiz seguro, perdi tudo…
quanto mais perto do céu, mais risco de florir, mais essência se transforma…
por isso há flores no caminho.
Pedacinhos esfarrapados de quem sobrou…
por aqui.

Aden Leonardo

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Ave, borboleta!

Visitava a sala
depois de olhar cada canto
aposento abandonado pela saudade
precisava aspirar ela no quintal.

Olhou céu
o dia coloria as flores
dentro dela
germinava asas
pariu borboleta
em um idioma que não era o seu.

De noite, a situação era pior
o céu gemia dentro dela e as estrelas
agitava seu interior
calma aparente de quem ama.

depois que amanhece
asa feita

retrato na parede
e ali, todo dia,
quando ainda era madrugada
fazia reza pra ela
Ave, borboleta!

Mariana Gouveia
*imagem: Dina Bova

…dos nomes que guardei pra ti…

 

Ao longo dos anos,
nem percebi que fui criando um léxico especial
com as palavras que usei para te nomear,
senhora minha.
.
Foram retiradas de um certo riacho
mágico
onde o verbo meu e o verbo teu
brincavam como peixinhos-crianças,

nossas palavras,

reverberando em pedregulhos
a semântica única
dos murmúrios dos amantes
.
Ah, aprendemos bem a lição de Kundera!…
.
Nomeei-te um dia
mar,
pois como um rio
correm minhas águas
para ti,
num fluxo natural
.
nomeei-te
nuvem
e a mim mesmo
pássaro alado,
em voo livre
atrás de teus infinitos todos
.
nomeei-te
lar,
porque teus olhos sobre mim
se tornaram a minha casa
.
nomeei-te
minha hóspede atemporal,
porque
podes vir a mim
sempre, sempre que quiseres,
.
e por fim,
nomeei-te
amor!
.
e foi tão simples,
tão absolutamente simples
chamar-te assim,
“amor”,
.
que prescindi
de qualquer outra explicação
ou entendimento.
.
Eduardo Ramos
*imagem: Kylie Sparrek

Recebe meu poema como um beijo

Recebe meu poema como um beijo*imagem: Gaëna da Sylva

Deixa que te afague a sua cadência
Entrega-te aos meus versos como lábios
Sente o seu ritmo indo à tua procura

Ouve o meu poema como um beijo
que se cala loucamente…
Enquanto o lábio pousa em tua vida.
As rimas abraçam-se cativas…

Pensa em meu poema como um beijo
Que se despe lentamente
Rompendo os teus ritmos
E as palavras molham-se lascivas

Assim te toco, amor, com as palavras…
Como um sopro brando que incendeia
Feche teus olhos enquanto ele te enlaça
E beija o meu poema em tua leitura

Lilia Chaves

se me perguntares por que fugi…

 

talvez te diga

que os dias contados para trás tão depressa
fazem doer o coração e

apenas acrescentam
a incomparável morte das
palavras não mais proferidas.

João Ricardo Lopes
@ Natália Deprina