266. Entre uma estação e a primavera

décimo quinto dia
não resistiu
endoideceu de vez.

viu peixe em jardim de flor.
gravou inúmeras mensagens de voz.
Há uma flor no meu jardim!
– nasceu! –
da semente que ela enviara.

Apagou todas sem enviar.

Depois gravou tudo de novo com a foto da flor que brotava sendo história, indecente, marcando presença ali, sendo pouso para as borboletas.
Depois apagou tudo de novo.

 

o silêncio dela…
a resposta que não veio.

Amassou a flor com a mão.
Beijou. Comeu pétala por pétala.

 

faltou ar.
Ligou de novo.
Usou aplicativos diversos.
escreveu declaração de amor.

Ouviu coisas surreais do outro lado
quando pela misericórdia do amor
e da voz sussurrada entre lágrimas ousou atender.

 

Havia a possibilidade de enlouquecer de amor?
Viu essas cenas em filmes.

Olhava para a parede,o muro.

diluiu a flor no beijo

escreveu o nome dela em todas as coisas.
O vizinho atônito, olhava do sobrado.

Ainda pode entender quando ele disse:
– enlouqueceu de vez.

 

depois disso, as coisas deixaram de ter sentido.

 

Mariana Gouveia
266. Entre uma estação e a primavera

265. Entre uma estação e a primavera

Não consegui desfazer nada daquelas lembranças, onde a madrugada era o pano de fundo para as loucuras de amor.

Do outro lado, as lembranças desfiadas uma a uma como contas jogadas ao mar.
Virei marítima dela. O mar esvaziando pela boca. Os poros abertos em ondas e a verdade ecoando no eu te amo. O céu, azulando em asa de voo, dentro da solidão.

A lua, atrevida com desafio as marés – é primavera aqui no meu quintal – e o outono desfolha a tua árvore de ave.

Fui migratória dentro de suas palavras e invadi seu estado de pensar.

Do mar, na boca eu bebo a lucidez de uma estação junto do peito.
É tempo de lavar as memórias no meu rio enquanto o homem da esquina invade o mar do meu quintal. O jardim canta a sinfonia das conchas e búzios que leem minha sorte aqui e isso me leva para junto dela.

Tenho a sensação de que o mar é esse estado de primavera onde eu sou mais de lá do que daqui.

A vida é esse estado de graça diante do desejo das coisas que não aconteceram.

Quem sabe, na estação seguinte…naquele instante fico coberta de flor e começo a fundir-me com a alma dela.

 

 

Mariana Gouveia
265. Entre uma estação e a primavera

264. Entre uma estação e a primavera

Guardava dentro dela o sentido
das coisas.
Conhecia as palavras riscadas nas paredes.
Era quase primavera – o tempo antecedia todas as estações em um só dia – coisa de dias mesmo. E a borboleta, que a rodeia em qualquer canto, me ronda em toque e asa.
Enquanto procurava o nome dela em todas as coisas. Enlouquecera – pensava.
Corria riscos entre a loucura toda. Conhecia na palma da mão, o amor, e a sentia em cada poro dentro do sentido da estação.
Aspirava a presença dela em cada lugar e independente do dia ou tempo,
Bastava querer e a primavera acontecia dentro dela.

Mariana Gouveia.
264. Entre uma estação e a primavera

263. Entre uma estação e a primavera

Às vezes, me lembro que só tenho doze minutos por dia. Esses minutos entre o respirar e as gotas, sempre as últimas – para na manhã seguinte a tela se abrir e anunciar nova programação – que caem trazendo os sintomas que quero esquecer.

Não veio nem o sim nem o não. Apenas essa distância infinita, além do muro – e a dureza do cimento e a frase escrita, sangrando os dedos.
Apenas esse infinito presságio de que a asa calada já não é mais parte minha.
De meu, só os doze minutos e essa porta fechada e a lembrança do pedido do “não me fale mais” quando o sangue na artéria rememora o magna dos que esperam sem expectativas.
Gostaria de te amar um pouco menos e talvez quebrasse menos as paredes e nem esperasse a primavera chegar. O relógio conta os segundos que restam…
As aves fogem das mãos e o vento traz o calor intenso da febre – e do tempo – e a solidão que amarga na boca, a ausência.
O silêncio é essa vastidão de memórias na alma desde sempre, dos séculos onde as histórias foram escritas e descritas como poemas de amor.

… e a porta que se fechará mais uma vez, como se fosse a última…

Mariana Gouveia
263. Entre uma estação e a primavera

262. Entre uma estação e a primavera

Leio histórias que lembram você. O homem da esquina entoa um mantra dentro da solidão – pede sementes da flor que nem nasceu – faz perguntas sobre o amor que canto na letra da canção.

Inventei sua presença, ali, no canto do jardim. É lá que beijo pétala a pétala da flor.

Essa impossibilidade do toque não me afeta – fecho os olhos e a alma busca – porque eu toco-a.

Vejo de perto seus caminhos – seu céu sob o rio – e outras mãos que podem te tocar.

Era quase nada essa distância… é preciso um certo encantamento para viver a vida. Para superar esses corredores cheios da noite.

Perguntas rondam minha vontade de falar. Quase esqueço o último pedido do não. Onde esse medo de nada que vasculha minha noite? Onde essa flor que se abre dentro das ausências e mora nos poemas que me leem?

Onde o pólen se transforma na onda que se arrasta em meu quintal?

Dentro das perguntas em volta da flor apenas seu nome e minha declaração de amor.

 

Mariana Gouveia
262. Entre a estação e a primavera

261. Entre uma estação e a primavera

 

Fazia o chá para além das xícaras – era a espera antecipada da estação – amanheceu hoje com gosto de inverno.

O meu quintal é alheio a tudo – tem vida própria – pássaros cantam.

Refaço horóscopos para o mês seguinte. Os astros estão em ebulição. A natureza grita pelo vento de um furacão.

Veria algo novo no raiar do dia…. A maresia chegou de mansinho pelas palavras dela. O pássaro voa alheio a tudo. O cão late na folha seca que cai.

Remexe nas sementes perdidas. Escoa a água da pia. O chá ferve.

Aprisiona desejos secretos. Ri sozinha dos pensamentos loucos.

Refaz o roteiro do horóscopo. Alterna os dias. Gelo para a luxação do pé. A dor acalma quando a alma dança. Chorou no poema que leu. Havia coração em toda parte.

Morde a fruta e vai esperar o dia de amanhã.

 

Mariana Gouveia
261. Entre uma estação e a primavera

260. Entre uma estação e a primavera

 

Tenho tido visões marinhas no tapete da sala… Dizem que enlouqueci nos últimos dias. Deve ser abstinência de sua voz ou essa mistura de estações dentro do dia.
Vejo o tempo todo asas que voam a esmo nas ondas que crio na mente.
Sinto essa obsessão incessante sobre você e suas lendas acontecendo no meu quintal.
Viajo contigo pelas ruas do bairro. O horizonte se veste de cinza dentro do jardim.
Por sorte, os correios hoje não funcionam. Escrevo cartas que não enviarei.
A solidão tem esse dia de domingo tatuado na pele. Tem toque onde a sensação de sua pele em minhas digitais arrepia a alma. Deu vontade de morrer de amor.
A gente deveria morrer aos domingos – quando as sombras das amoreiras fica mais leve – de frente para o quintal em seu instinto de asa. Essa fome de maresia rasga a pele e esse muro que não rompe os diques do rio que deságua na minha rua e conto no calendário os dias que te perdi.

Mariana Gouveia
260. Entre uma estação e a primavera