Entra?

Entra
*imagem: Tumblr

Vou ser mais ousada daqui pra frente
Ela se assustou.
– Mais?
– Sim! Pintar os cabelos de vermelho.
– Já são!
– Explodir a vida em poesia.
– Já é.
– Pode gritar nome, dizer saudade, direcionar lugares, apontar direção?
– Ser considerada doida, atrever-se ao imaginário, tatuar nome no peito, cantar canções que lembram do amor?
– Ousadia já é seu nome.
Ela anota. Escreve uma frase inteira.
Volto a atenção para a revolta interna. Dentro das possibilidades de mim. Alguém errou meu nome por acaso. Criei um poema que falasse de amor. Gastei uma noite inteira com insônia. Vejo estrelas sem fechar os olhos.
– É o amor, beirando a loucura que todo mundo tem.
Capto na solidão da porta, em qual vai restar meus sonhos.
Ali, depois da chave, a realidade é dura, estreita. Queria aprender mentir.
Assim, digo que não te amo, que está tudo bem e minhas palavras serão certezas.
Mas, não! Continua ecoando em mim as letras que nunca disse.
Respiro. Paro.
Ela olha para meu silêncio e lê pedaços de poemas que acho que conheço.
Hora de ir. Vasculhar corredores intensos, dores maiores que as minhas.
Vontade de voar.
Deixo a chave.
Entra?

Mariana Gouveia – Divã

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meio amargo meio doce

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Nas cores tão vibrantes, fica marcado no vermelho-rubro a lembrança de você me doando por companhia a solidão.
 
Da minha lucidez na tua cama esvazio de mim desejos meus de ser tão (e tão e só) tua.
 
Me dá teu doce, teu cio, senão fico divagando sobre o medo,o segredo…
 
Do amor, o meu, tão seu, tão tudo. Mas é de entrega que falo. Dessa entrega que sou quase você de tanto amor.
 
Eu fico meio doce, meio amargo então. Quebro rotinas, derreto geleiras.
 
Fico assim, de querer muito você, de querer e gostar de ser tua.
 
Tanto faz que eu exista em você tanto e tanto. O que quero é sentir você nas digitais tatuadas no corpo onde tuas mãos me tocam, ou no ar que eu respiro você.
 
Mariana Gouveia
*imagem: Oleg Oprisco

Teu aroma de vinil

seu aroma de vinil

“Analógica você
Cartas num papel de pão
Teu aroma de vinil
Me inspira” Maria Gadu

Permitiu a espera.
Passos lentos atrás da cortina. Canção que fala de música.
Quis dançar. Lembrou de danças de outrora. No quintal vazio. Só as duas. O céu povoado de estrelas. Abraço apertado enquanto olhos vasculham se alguém espia pelo muro.
Coloca no repeat a música. Já sabe a letra de cor.
Digita errado o recado que queria dar.
Fala apressada, como se depois não conseguisse mais.
Foi dia de cumprir promessas. Tudo saiu fora da rotina.
Ela não anota nada. Pensa apenas que viveu tudo que podia viver.
Tem ainda o gosto do beijo na boca. Inventa nomes para os sabores sentidos.
Agridoce na lógica da alma.
Pensa nos signos e no mapa astral que a música sugere.
Viu os recados enviados na ausência. A secretária do médico lembra do exame. Alguém disse que sentia saudades. Não tinha ligações dela. Nem podia.
Faltou o ar. Corre até a janela. Reparou que a cortina foi trocada.
O estilo meio vintage combina com o dia de hoje.
A moça do tempo fala de mais frio. O pé gelado aquece o outro.
Sai sem despedir -é possível que ainda volte hoje – há tanta coisa pra falar. Momentos vividos que a canção registra.
Lembra do disco de vinil da canção preferida. Perdido no baú das lembranças.
Faz o que a canção sugere ao tocar o dedo na boca.
Inspiração no aroma do vinil que Maria Gadu canta.
Analógica se sente. Vai em busca da vida.

Mariana Gouveia – Divã
*fotografia Tumblr

 

Quase fado

quase fado

Eu agora já não a espero mais pela noite. De noite, eu a tenho.
Dentro de mim.

De noite, enquanto uma lua ligeiramente mais do que meia lua se insinua num céu estrelado,
eu a guardo no sagrado do meu coração.

Eu a espero pela manhã, diante de uma tela que se abre trazendo o sol e o cheiro do café invade a casa toda.
Eu a espero cheia de aromas. Das frutas frescas que colho contando a espera.

Eu a espero ouvindo os pássaros invadir o quintal e o beija-flor revoar na esperança de que eu fale dela.
Eu a espero enquanto a vida espera para ser cuidada e no rádio toca a canção que ela mandou um dia.
Viro quase fado na tentativa da espera.
Viro quase dança, na incerteza do vento que levemente afasta a cortina e me mostra que lá fora, o dia já nasceu.
Eu a espero e guardo as coisas para contar para ela.
Chego a murmurar seu nome. Chego a ouvir sua voz.
E quando o dia vai se arrastando em instantes longos, eu vou dando conta de será um dia a mais e ela não vem.
De noite, desisto de esperar.
Mas, os dias que virão – todos os outros amanheceres que eu viver – serão feitos de espera.
A espera de que ela volte para mim.

 

Mariana Gouveia
*fotografia: Omerika

Quero mudar. De mim.

Quero mudar. De mim

De vez em quando eu a procuro no meu quintal.
E te vejo nos instantes que vivi ali.

A solidão esmagadora e essa maldita espera e minha mão transgressora que toca lembranças que quero esquecer.
Até mudo as coisas de lugar.
Coloco a horta onde o vento bate e onde eu abria os braços para te abraçar.
Assim, ele não me lembrará mais seus cabelos revoltos e o brilho no seu olhar.

Quero mudar de casa, porque essa tem aquele canto insistente que você ficava e a cadeira e o seu nome rabiscado nos muros onde desenhei mil corações.
Quero mudar de bairro, porque nesse, as ruas que te mostrei escancaram debochadamente me lembrando do riso que você deu, das cores que você gostou e do retrato seu seguindo por elas, devorando os becos com seu olhar de espanto, colhendo a miudeza das flores, bebendo o sabor do sol, só porque lembra onde você nasceu.
O meu lugar lembra o seu lugar.

Quero mudar de cidade, de mundo, de planeta.
Ir para onde não aja lembranças e onde você não viveu.
Onde em cada direção que eu olhar não veja marcas de sua presença.

Aqui, há presença demais. Há lembrança demais e há saudade demais.
Aqui, o vento dança e rasga a pipa que algum dos meninos não conseguiu resgatar e o som dela balançando ao vento me lembra você.

Aqui há cheiro de pele na mão, nas roupas de cama e até o cheiro do sabonete líquido me lembra você.
Mudo tudo de lugar e jogo lembranças fora.
Depois vou lá e cato tudo de novo e me sujeito novamente à elas.
Esfrego a pele para tirar seu cheiro, mas é estranho, porque ele está dentro de mim.

Quero mudar. De mim.

Mariana Gouveia

— a leitura que faço de mim mesma

“Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher,
com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado

Clarice Lispector

a leitura que faço de mim mesma .

Quando Setembro se inicia em meu íntimo já é primavera e escrever é quase esse espalhar sementes em um quintal povoado de pássaros. Sou esse ser em formação em matéria de escrever. Perco-me diante das banalidades e minha escrita ganha vida no dia a dia. Sou a que planta, colhe e faz poesias. A palavra me toma como se parte dela fosse parte de mim e outros tantos eu caminham por nortes diferentes dentro da escrita.

Ser escritora em plena primavera de 2017 talvez tenha a leveza da estação, mas ainda assim continua sendo peso o fato de ser mulher, dona de casa e escritora – e o novo século não alterou em nada essa questão –  e atrevida, ganho voz através das redes sociais; a escritora de hoje sente na pele a mesma opressão que desde os séculos passados outras viveram e sentiram. A luta pelos direitos iguais dentro do movimento feminista imprime mudanças substanciais na ótica e nas relações sociais. E isso influencia a escrita, o pensamento e as ações.

Diante disso vivo em constante reconstrução e a cada dia me dispo diante das palavras e levo a quem me lê meu coração. Meu linguajar se mistura com a estação onde tento passar a minha emoção para o outro.

Moderna-antiga-ultrapassada-atuante, muitas vezes muitas dentro de uma só. Múltipla de mim mesma. De qualquer forma, assumo minha independência e força admitindo meus desejos e me coloco como protagonista de minha própria história.

Mariana Gouveia
Projeto Scenarium Plural – Crônicas de Outubro.

 

A espera.

A espera.
Os dia tem sidos cheios de coisas para lembrar – uma lenda que fala de flor – uma tristeza que a música fala.
O tamanho do tempo no varal. O telefone que nunca mais tocou.
Há dias em que o toque transcende a alma.
Estou acordada desde às cinco – repito ainda os mesmos rituais de espera – vejo o dia nascer com o beija-flor que chega. Canta. O céu tem o seu azul. Sinto a sensação da falha. Um vácuo que os meses me conta todo dia. Um dia atrás do outro e esse vício de esperar quem não chega. Converso sozinha, enquanto os meninos da vizinhança espiam pelo muro.
Ela está aqui, perto do meu pensamento. Sente. É como se corresse dentro das veias. Rezo para a esquecer – Ave, Maria em flor –  ainda assim, a amo mais. Mudo a oração e peço que ela volte.
O corpo todo grita. Sinto falta. Deve ser isso o que chamam de dependência – é o corpo que reclama, reclama o sentido de viver – era ela. Agora sabe.
Vê no calendário os dias sem chover.
Desejo a chuva, ela sabe – era só falar em chuva e o desejo acontecia em dois continentes diferentes uma torrente de desejo unia as duas – têm sido dias secos, e eu preciso daquele milagre que é chover. Lembro dela no meio da minha chuva. Pés e rostos no equilíbrio da água. beijo e boca bebendo as mesmas gotas. Ela relembra o país dela. Lá chove assim – dizia – lembro que quando a chuva vinha eu a abraçava, era verão outro dia, e o calor também trazia à aridez dos dias. Mas chovia.
Eu a ouço. O vento pronuncia palavras estranhas.
Há dias que só quero isso. A espera.
Há dia em que só quero vivê-la

Mariana Gouveia
*imagem: Anna O.