Revolucionária

Brooke Shaden

Não se pode falar de livro da infância… ela arriscou. apedrejam-na.
Ainda assim, ela não se contem, 
quer construir uma cidade usando a força de homens que saibam assentar tijolos – untar formas de bolo com delicadeza é um acessório à parte.
Sonha com Macunaíma, grita preguiça na esquina. Cria revoluções – micros, macros
Transversa, leva a vida na flauta. Em época de consumo se constipa só para não usar as moedas guardadas em porquinhos com coração.
Ah, esse jeito de usar o batom, tão dela que esforça para esconder seu estado legítimo de Órion. Traz dentro da bolsa um cisco, que usa quando a lonjura bate nos centímetros da distancia de casa.
Adora artes. Sente falta da escola, mas estuda nos mapas as cores de um estado que fica ocre no mapa. Vai entender, essa moça. Nunca lê as bulas! Nunca lê!
Extraterrestre! Extraordinária!
Mas, revolucionária.

Mariana Gouveia
*imagem: Brooke Shaden

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Guardei meu amor, bem guardadinho

raquel pellicano
Escondi no meu baú a palavra doce.
guardei-a como as meninas de antigamente guardavam os anéis.
Guardei a aliança de prata também. E os dias vividos com você no meu quintal. Dentro do baú antigo, onde guardo minhas memórias guardei a vida. Deixo lá com todos os instantes de riso que vivemos. Das palavras que precisavam de traduções.
Guardei as fotos que você tirou. Não é bom ver fotografia de flor com essa fome constante de flor. Os poemas escritos com seu nome. As cartas que nunca tive coragem de enviar. Tudo isso faz companhia para a minha solidão.
Lá, tem um papel de bala dado um nó, desses que se você quisesse um abraço mais forte, teria de apertar mais.Também tem junto, dentro do baú, o riso de minha mãe, que ecoou no meu coração em uma noite fria quando senti vontade de comer flor.
Já era bem de antes essa vontade contida. Lembro-me que ela riu quando eu disse: um dia, planto uma flor vermelha só para comer.
Guardei no baú tantas lembranças para quando eu me perder das memórias, abra e dali saia esse sentimento que invento para você. O sentimento da espera.
Todo dia, pego o baú nos braços, passeio com ele pelo quintal e pela milésima vez faço a promessa de só abri-lo quando puder te tocar outra vez. Ou ouvir sua voz, que coloquei ali, num cantinho, para evocar a canção monocórdica que cantou para mim.
Guardei dentro dele as sementes da flor. Plantei uma apenas e converso com ela na delicadeza dos raminhos que crescem e brota a cada dia uma nova folha. Logo, terei uma papoula vermelha na intensidade da fome.
Os vizinhos dizem que estou louca. Os loucos, me chamam de sã e na minha lucidez desvairada, eu, só chamo você.

Mariana Gouveia
* fotografia: Raquel Pellicano

das singularidades dos dias

viu o luto nas memórias das caixas vazias
escreveu histórias que ninguém leu…
Desenhou mecanismo para a rota das formigas.
Não dormiu

sonhou com viagens além dos rios e pisou descalça na grama
comeu o verdume das folhas. era ainda criança quando ousou voar

Tatuou a liberdade em asas
nas costas

viu a cura ao alcance dos olhos
falhou nos abraços dados
coloriu o jardim nas sementes plantadas

e a vida se renovou em germinação.

a vida, por um instante é cíclica.
Afinal de contas, os séculos se repetem em consonância com os verbos do passado…
O ponto só é final quando se chega ao fim.

Mariana Gouveia

E aí, me descobri, tua.

 

Ninguém me avisou que ela viria e nem teve como dizer que não dava pra receber.
Já era tanto presença que nem dava pra disfarçar ausência. Ela tomou corredores inteiros em mim. Se fez presente na porta. Eu saía do banho. Toalha e vapor. Minha visão através do olho-mágico. Grande. Tomou conta do que o pensamento buscou. Teu olho me olhando bem de pertinho no buraco que é meu. Intrusa.  – Se deixo entrar, não sai mais – pensei. Eu sabia. Mas abri. E ela não saiu. Reside desde então na minha cama, nos meus lençóis. Em mim. Ela inclusive, toda.

E ela entrou linda. E ficou em pé diante de mim. Pude sentir o cheiro.

A pele macia em tons que me aquece… Os olhos não sei… Desviou o olhar.

Por quê?!

Quis te conhecer.

E assim, invadiu-me inteira. E tudo ficou tão pequeno diante dela. Tudo ganhou proporções de inho, inha. Ela ali, gigante, mãos, toque e meu cantinho, minhas palavrinhas, minha inha… e o que eu ensaiei que diria, se foi em verso e prosa, a música da Bethânia que eu declamaria ficou lá atrás da porta do banheiro.

E eu me perdi… me desmanchei pingos d’águas em toalhas, pequena, pingando, quieta, pronta, quase pronta pra sair e encontrar…ela.

Mas me fala, me fala de ti… Você disse, e suspirou, e se debruçou no parapeito da janela.

Tem que me puxar e encaminhar-me para o seu caminho e eu te mostrei. Moro ali, naquela curva quase laranja em direção a ti. Falei do tempo, de política. De economia. Do meu país.

E eu que disse que a amo 300 anos, procuro as palavras e elas fogem, burburinho escada abaixo. Brincam comigo. Com meu dom da palavra. A moldura de um retrato antigo. Uma flor.

Foi ali que eu calei em você. Aspiro o cheiro. É o mesmo que desenhei noites intensas e o olfato buscava presença num livro, num lenço. E com medo de abrir os olhos e não ser ela ali. Pisco várias vezes até me certificar.

O que eu podia contra a força dos clichês, falar do tempo, do calor… Hum?
Contra a surpresa da tua mão pegando a minha e pingando nela um universo de saudade que você mesma provaria por mim, com a sua língua?
Contra esse universo de saudade eu não podia mais nada, a não ser nadar às cegas dentro do mar imenso que se apoderava em mim abrindo a mão, fechando, te vasculhando ao revés, me perdendo as braçadas, mergulhando, submarino humano, sem ar nem escafandro, buscando oxigênio no fio de ar que escapava da tua boca enquanto você balbuciava ah, e ocupava com seu corpo e presença até o espaço da minha existência que já estavam loteados.

Quando a porta se abriu e você pisou no chão da minha vida de borboleta eu estava até o meio de outra vida vinculada à tua vida.

E aí, me descobri, tua.

Mariana Gouveia
*Imagem: Tumblr

Parabéns,Cuiabá!

Parabens,Cuiabá

Amar você virou rotina. Dessas rotinas comuns de espiar você além da janela e do meu quintal. Do céu que vejo amanhecer em tons laranja e da vida que começa em ti em cada manhã.

Amar você gera conflito, porque você mudou tanto.

Antigamente, te amar era tranquilo. Eu podia te abraçar dali da calçada e meus olhos te alcançavam na leveza do vento que batia nas folhas da mangueira que me traziam sombra e aconchego.

Eu não entendo mais teus modos e talvez você me diga que é isso que me encanta. Que é ali que esconde tua beleza. Que teus lugares são feitos para mim, que é em ti que eu me encontro. Encontro-me nas tuas esquinas onde corri, onde brinquei. Nos muros onde rabisquei meus primeiros poemas de amor.

Amor que falava de sua cor, do fruto doce que como presente você derramava no meu quintal. Do sol abrasador que me aquecia e que eu insatisfeita, sempre, reclamava.

Eu sempre te amei. Desde quando as tuas ruas se abriram pra mim me envolvendo com as folhagens das palmeiras que te ladeava. E eu, menina, corria solta pela vida em você. E sonhava com você dominando o mundo, senhora de si, com tuas cores redesenhando o amor que eu sentia por ti. Depois teu colorido foi se tornando cinza e tuas possibilidades de cores enfeitavam minha vida.

Me vestia de chita, te vestia de chita. Te cantava nas canções de amor. Te enchia de poesias pelas vielas. Serenava para você nas madrugadas frias. Umedecia nas tardes de calor.

Reclamava, reclamava e ainda assim, longe de ti, queria existir em você.

Sempre amei caminhar nas tuas rotas, desvendar as teus lugares secretos, comer e beber de ti, na essência pura de tua alma. Eu sei que tudo isto está aqui ainda, mas aquela menina que aprendeu a desvendar o amor que sentia por ti, cresceu. E o amor… esse amor infinito por você cresceu junto comigo, na mesma intensidade do sol que em ti, se torna especial.

Com o tempo, me transformei arrogante pelo simples fato de te possuir, porque te queria a melhor.

Eu andei por aí, e nos becos, descobri que tua força não é mais a ingenuidade de menina. Você cresceu. Tomou proporção de gigante e  teu tamanho é efêmero porque ainda guarda a singeleza do teu linguajar, se tornou maior do que podia aguentar e ainda assim permanece intacta na simplicidade.

Já fui pra outros lugares,  outros amores… Eu sempre voltei para você, por vezes insatisfeita, mas com aquela sensação única de que só a ti eu poderia chamar de lar. Meu porto seguro.

Ali, entre a ponte que dividia lugares, onde guarda meus desejos mais secretos e que para ninguém descobrir você os levou pra água mansa do rio. Aqui, debaixo de teu ipê florido e nas calçadas onde cresci sentindo aroma doce do cerrado.

Busco justificativas para aquilo que eu sinto, sendo de verdade, o amor.

Ainda me encanta a tua diversidade, os teus mil jeitos e lugares que me acalma.

A mansidão com que me abraça, mas eu odeio a tua falta de regras, a tua desigualdade, a tua falta de respeito, de solidariedade.

Pode ser que eu me engane ao ver nascer uma flor debaixo de tanto concreto, onde as escadarias me leve aos lugares de fé. De tua fé e do acreditar que é possível que você continue a mesma e  mude.  Que os encantos aconteçam nas manhãs em que vejo pássaros tão variados voando no teu céu cinzento e pense que você ainda é a menina simples que me encantou.

Eu te amo e te odeio, mas não te deixo, porque você sempre coloca em meu caminho uma descoberta que me conduz para lugares lindos, pessoas inesperadas, histórias de contos de fadas e que estampa em tuas praças a esperança.

A esperança do amanhã. Um amanhã novo que se desenha e sem medo de ser feliz eu te abraço. Te abraço e nesse teu renovar de dias eu me derramo de amor pra você.

Enfim, sabe como despertar em mim a cada dia um novo sentimento que me direciona, invariavelmente, a ti, Cuiabá.

Parabéns pelos seus 300 anos, Cuiabá, meu amor.

Mariana Gouveia

goiana, cidadã cuiabana desde sempre, mas  desde 2009 cidadã orgulhosamente cuiabana e irremediavelmente apaixonada por Cuiabá.

a vida por um instante, é agridoce

a vida por um instante é agridoce

Delírios derretem dentro de mim

o olho que espera o beijo

a boca que beija a fruta

 

é muito desejo para um corpo só

(era a saudade batendo ponto no meu quintal)

 

a vida por um instante é agridoce

 

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr

Carta à Marte aos cuidados de Vênus

Carta à Marte aos cuidados de Vênus*imagem: Brooke Shaden

Voltei ao seu quintal, e a sua presença é tão forte ali, que nem parece que se foi.
As flores continuam perfeitas e as árvores em sintonia cantam a canção do vento que você dançava.
Parecia que estava ali. Passei por entre os azuis das Hortênsia que você ganhou de alguém.
O pé de amora está no auge e na exuberância – palavra que você repetia para qualquer coisa fora do comum – das frutas. Até parece que sua risada está ali, e a essência da geleia que você fazia parece encher o ar.
Geléia de amora é para amar, Maryann! – você dizia!

Minha missão era esvaziar a casa de suas coisas, de você.
Mas vim embora com todas as lembranças. O diário que me continha em cada dia, a toalhinha de crochê que foi um presente há alguns anos atrás.
Conto um mês hoje, e logo serão dois, 11. Logo será ano e volto do seu lugar com a imagens das poesias escritas no seu quarto onde a vida flutuava em você.
Qual planeta você habita hoje?
Qual emoção te move nesse plano além do olhos?
– Marte é logo ali, Maryann! Basta bater no calcanhar três vezes e dar um pulinho que você já embarca.
Acho que perdi o jeito! Vejo Vênus, Órion, vejo todas as estrelas. Não vejo Marte.
Marte, hoje mora dentro de mim.

Mariana Gouveia.