Decoração

francesca wodman*imagem: Francesca Wodman

Desculpe-me,
Este
Espelho
Não
Combina
Comigo.

 

Elke Lubitz

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Adágio

adagio                                                                                               Amanheço

pela minúcia das lembranças…

Em tudo busco a palavra que disse :sou tua!
Em toda letra busco o verso que não me dedicou e ainda assim sei que pensa.

Na moldura sem rosto é o teu que sempre vejo

Mariana Gouveia
*imagem: Nishe

O dia de amanhã

O dia de amanhã

É inútil procurar o calendário.
Rasgou-se no dia de anteontem – ou foi hoje –
não sei.
Ainda tinha vida a planta e vaso dava sinais de sementes germinando.
Você estava aqui e havia luzes na varanda.
Nesse dia que o calendário esqueceu meu peito encheu-se de tristeza.
O seu riso já não ecoava mais aqui e a única certeza
que eu tinha era de que a mala ficou por fazer, a cópia da chave foi encontrada na esquina
e o vazio ocupou todos os aposentos e hoje mora aqui.
No espelho de antigamente eu olho e não te vejo.
O que reflete é apenas o dia em que você existiu.
As datas sobrepõem uma a outra.
Era ontem e já não é mais. Seria hoje. Mas, deixou de ser e não aconteceu.
Mas, olhando na folhinha o ontem.
Ele não existiu e por isso rabisco o dia de amanhã
e só sei pronunciar seu nome com saudades.

Mariana Gouveia

Espera

Espelho-001

Estou diariamente à tua espera
Como quem espera um astro pela noite.
Defino-te em segredos.
Revejo-te na memória.
Desenho a tua fronte nas estrelas.
Invejo-te.
Construo a tua boca sem palavras.
Construo este silêncio em que me prendo.

João Rui de Sousa

Espelho, espelho meu

espelho, espelho meuDepois que o meu espelho quebrou
desmistificou-se o mito
nem se pergunta mais o que é bonito,
por que tudo lindo ficou
e a sorte que ia e vinha de vez em quando
entrou e ficou pendurada no canto
e pela casa toda se espalhou.

Mariana Gouveia.

os seus pés tinham asas escondidas

os seus pés tinham asas escondidas

Ela perguntou-lhe a cor dos seus pés.

 

Ele respondeu silenciosamente que eram da cor da pedra.

 

Ela percebeu e sorriu.

 

Ela gostava de andar descalça, de esfolar os pés e de os gastar,

 

gostava de tocar o chão rugoso com as suas palmas

 

e de sentir o caminho de uma outra forma, muito avessa.

 

Ela gostava de pés que se podiam usar, vestir e calçar,

 

disse-lhe depois de o seu silêncio terminar.

 

Ele respingou que os seus pés sabiam amar e podiam ser bebidos como água fresca.

 

Que os seus pés tinham asas escondidas e segredos doridos.

 

Ela apaixonou-se…

Agripina Roxo