59. das palavras das cartas

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A carta fora escrito no tempo do passado. As flores se preparavam para o fruto da estação. O céu tinha cores dentro dos olhos dela e a gente se despedia dos dias.

Ela falava de outro país e das ruas em que andou em peregrinação. Eu, dos insetos diferentes que surgiram no meu lugar.

Ela passava por um inverno castigante, lareira, vinhos… ruas com neve e fogueiras sem luar.

eu, os chás frios na madrugada quente, o calor a arder a pele e a alma.

Escrevia-me aos pés da torre famosa e eu, do meu quintal simples de todo dia.

Um universo de distância nos separavam e nunca estivemos tão juntas como se as mãos pudesse tocar.

Perguntava das árvores que quase tocavam o céu dentro do quintal que ela deixara e eu dos cheiros das flores de lá.

Inventei orquídeas novas para ela que nunca existiram – só para ver o brilho nos olhos cheios de expectativas – e ela me dizia sobre o perfume da laranjeira no meu quintal onde a joaninha se aninhava.

Eu, era a menina laranja para além dos dias e ela a moça lilás que foi colher futuro.

O futuro demorou dentro dos dias e quando ela voltou já não havia mais tempo.

Deu-me a moça subversiva e revolucionária dos poemas e apresentou-me o Paraíso com nome de filtro de cor.

A vi dentro do sonho que tive e brilhava lindamente dentro da minha poesia.

Mariana Gouveia

59. das palavras das cartas

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58. das palavras das cartas

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Fui ao baú desenterrar poemas. Chove a manhã toda e se estende para a tarde.
Ouvi Gadu e sua voz a ecoar a palavra que era poema dentro da melodia.
Ouço os barulhos da casa… os pingos da chuva no balde a guardar momentos e a luz chega pela janela… sou esse cotidiano que chove todo dia, e as flores bebem a água que cai.
Ainda visto o pijama da noite, e o dia segue seu rumo de hábitos, manias e defeitos…
O pássaro de todo dia pede abrigo na escada enquanto lá fora a vida acontece e eu sou um nome que habita dentro da solidão.

Lavo o uniforme sujo e soletro o canto da ave que pousa perto de mim.

Vasculho os diários guardados e leio livros que estavam ali, parados, como a esperar para exalar histórias e à volta são as paredes e posso passar da sala para a cozinha enquanto os trovões ecoam e parecem dizer que aqui o universo tem um portal estranho. Revisito os casulos que se preparam no pé de orquídeas silvestres. Cuido para que eles não molhem. Sou essa metamorfose que cresce e muda a cada dia.
Desfolha em asas a borboleta que nasce. Está aqui e a sinto absolutamente indefesa diante dos dias. Da asa escorre o líquido da vida – é apenas um inseto… alguém diria –  em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das outras coisas e ela está aqui, sendo pouso em minha mão e neste momento eu sei e sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz.
A vida segue líquida dentro do dia e prossegue nos gestos que faço  apenas observando a chuva dentro da canção de Gadu.

Mariana Gouveia
58. das palavras das cartas

57. das palavras das cartas

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Escrevo-te para contar sobre o eclipse solar anular. Isso mexe com todo o jardim, embora muita gente acha que não. O dia amanheceu nublado e só depois que ele surgiu radiante, com seu anel dourado a “noivar” o sol e a lua.
Quando na minha infância acontecia um fenômeno assim, meu pai dizia que era a força da natureza dando sinais.
– Influencia a chuva durante o ano – devia chover menos depois do meio do ano – o inverno será mais rigoroso – Vai ser mais quente o verão – e rogava a Deus para que o Universo fosse complacente com a colheita.

Foi um dia quente e a brisa morna aumentou ansiedade das horas.
Coube voos de pássaros no quintal. As nuvens formavam figuras engraçadas.

É engraçado dizer que é carnaval. As canções que tocaram nas casas vizinhas eram as mesmas de sempre, embora o ritmo tenha mudado e a altura do som também.

Revirei a terra das plantas, mudei algumas de lugar. E fiquei em silêncio diante do vento.
Às vezes, é preciso reequilibrar as vontades.
Tentei descobrir nas cartas a resposta, já que não consigo decifrar o aro do eclipse.

Alguém me envia a poesia de Pessoa e lá está a resposta que é para esperar.
Mariana Gouveia
57. das palavras das cartas

56. das palavras das cartas

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Bambina mia

Escrevo-te para dizer que recebi o beijo na asa do bem-te-vi que ronda por aqui. Para mim é sempre o mesmo que vem com o o ritual do ” bemquetevieuquetevi”.

Ele compõe meus sábados de amarelo e enquanto estendo as roupas no varal, tenta roubar a ração dos cães. Entre um lance de sorte e outro, ele consegue algumas e deve ser por isso que ele está sempre por aqui.

Percebi sua alegria pelo envelope vermelho… era para causar mesmo esse impacto e a carta foi escrita desenhando os fatos que acontecem no meu quintal.

Agora, ele está estrelado. O chão reflete nas poças um lua minguante que começa a surgir. Choveu a noite toda de ontem e as estrelas, hoje, ganham um brilho diferenciado.
Haverá eclipse solar amanhã, mas confesso que quando isso acontece por essas bandas, o tempo nunca colabora. Ou quase nunca.
No meu quintal há um “eclipse”, elipse de um beija-flor… Chiquinho criou vida no quintal e começou sua implicância com o bem-te-vi.

Por falar em bem-te-vi ele teve filhotes. Já o vi tentando voos no pé de mangueira da vizinha do fundo. Logo ele se insinua por aqui. É uma algazarra só e um bater de asas e o pássaro a tentar pegar comida para os filhos e os cães a tentar pegar um instante de asa.

Assim, a vida cria riquezas dentro do que meus olhos veem e alcançam além das suas palavras que me trazem a esperança de amor:
– Aspetta che io me voi adoppo.

e eu te respondo:

– Ti aspetto

Bacio

Mariana Gouveia
56. das palavras das cartas

55. das palavras das cartas

Zi,

Descobri que esse ano eu ainda não te escrevi… Deve ser por isso que houve uma revolução no universo que tange meu “céu”…

Eu sinto sua falta no lugar onde te descobri, mas compreendo seu instante “silêncio’. Juro que também já pensei em fazer isso.

Das aldeias, as notícias que chegam é de que todo caminho, atola. Chove tanto em tudo que tem água.

Os bichinhos ficam com colares de gotas nas antenas e isso afeta minha cura.

Eu soube hoje da partida de uma esperança. O equilíbrio terno se desistabilizou e tive que fazer o ritual dos ritos – então, se o equilíbrio começa com uma carta, que a palavra seja leve – e estou aqui.

Busquei seu espaço, passarim e tudo estava vazio.

As cartas da astrologia falam que o tempo é de intensidade e que a minguante se aproxima e fica mais fácil plantar as flores que gosto.

Vênus se confraterniza com a lua e ela insinua meio riso no céu, enquanto aqui, louvo o tempo na vontade das horas. Louvo a Deus para que esse tempo seja breve, seja leve e você sabe onde me encontrar.

Às vezes, a bússola do universo está nas mãos dos emocionadores…

Cuide dela com cuidado.
Beijo

Mariana Gouveia

54. das palavras das cartas

54. das palavras das cartas

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Havia um céu dourado quando amanheceu. A vida por um instante parecia laranja.
Parece até que o céu está em festa. E devia estar… Descobriram sete exoplanetas no espaço. Eu descobri uma flor nova que se abriu e a manhã era desenhada a lápis.

Escrevi palavras no ar… coube no horizonte suspiros de encantamento quando acordei.

Falei sobre o tempo com as meninas que sempre me acompanham na rota do trabalho. Falaram da chuva que cairia segundo a previsão do tempo.
O mapa visto colorido fica tão bonito.

Pensei em quantas palavras você diria.
Senti fome dessas palavras e das coisas que a manhã trazia em outros tempos. Desejei viajar nas histórias que você me contou e caminhar pelas calçadas segurando suas mãos. Tem dias que o sonho beira a realidade.

Tive de viver o caos dentro das horas e cantei para o vento, você.

Mariana Gouveia
54. das palavras das cartas

53. das palavras das cartas

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Da janela do ônibus as coisas passam por mim e eu escrevo enquanto o engarrafamento aumenta. Reparo nas coisas e nas pessoas para te contar.

As personagens se multiplicam entre conversas que tento absorver.

Me chama a atenção um casa de adolescentes que pelo visto ainda estão em fase de paquera – sei lá – próximos de mim.

Durante o percurso de 30 minutos entre uma estação e outra repetem em um diálogo 150 vezes a palavra “tipo”…

– A professora tipo assim, enrola mil vezes, tipo, a prova foi fácil, mas tipo, o tempo foi curto…

Enquanto ela comenta que:

– Tipo assim, o meu pai não pode me buscar e eu, tipo a sapatilha do balé, tipo pressiona o dedo…

Ele olha para o pé e ela meio sem jeito, diz, tipo sem graça:

– Prazer, pé de bailarina!

O olho dele brilha e ela sem graça, mexe no cabelo. Fala do prazer de dançar, depois que ele quis saber se ela gosta mesmo de balé, entre dois “tipo” no meio da frase.

E ela descreve a poesia que o céu oferece lá fora, através da janela…

Dançar para ela é como a magia do sol de todo dia, tipo que se a gente fica sem, morre…

Ele fala do amor pelo skate, mas tipo assim, ele não tem. Usa emprestado do amigo, que é tipo meio irmão e que com o skate pode voar, igual a ela – imagina ele – tipo quando dança.

Comentam sobre o quanto de vezes repetiram o tipo e eu aviso das 150 vezes que marquei. Riem comigo, pela cumplicidade da conversa e eu digo que tipo assim, ia escrever uma carta falando sobre isso.

Ele desce antes de mim e despede-se pegando o endereço do blog. Tipo assim, de curiosidade, ele verá.

Ela ri e fala do prazer de dançar que deve ser tipo assim, o mesmo que eu sinto ao escrever.

Despeço-me na leveza do riso da menina que tipo assim, durante a dança, voa. E sigo rumo à noite para te escrever.

Mariana Gouveia
53. das palavras das cartas