52. das palavras das cartas

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Depois da chuva aquietou-se o vento.
Nasceu uma vida na esquina. O homem que domina o trânsito cantou.
Uma pessoa falou de muros e eu lembrei do grafite apagado na rua de cima.
O pássaro de todo dia fez rasantes dentro da chuva. O jardim cercado perdeu as folhas por causa dos cães.
Mais uma vez o mito é desmitificado. Nenhum herói dura para sempre. Nem te contei a história dos versos que eu declamei enquanto a vida nascia, ali, entre flashes curiosos de celulares gravando a vida que nascia.
O dia mudou dentro das rotinas e as flores caíam em desatino no quintal. A chuva clareia a maresia nas calçadas. No lugar do coração, o mar e sua sede de estar, preenchendo o tempo de vida de quem nascia.
As lanternas iluminaram o dia diante do susto. Ganhou o nome de flor como homenagem ao santo. Dediquei as palavras das cartas no caminho onde respirei quem nasceu sob meu olhar.

Mariana Gouveia
52. das palavras das cartas

51. das palavras das cartas

Daqui de onde estou eu avistei a chuva. Lá para os lados do sul troveja. Queria te falar que embora pareça que vai chover muito – devido aos raios e trovões – o sol teima em insistir por aqui.

Parece o caminho do ouro, quando bate na flor e toca uma canção que fala sobre o sol.

Adoro essas nuances do tempo. Perco horas mergulhando no frio desse lado daí, enquanto aqui, a moça do tempo diz que pode chover a qualquer momento.

Poderia descrever o arco-íris que se insinua em minha janela… Mas a poesia se perderia dentro das palavras… A flor percebe o nome que chamo enquanto a vida minúscula busca abrigo. Já vai chover…

Sei que pode imaginar e com isso, traço delicadeza em sua boca no instante que a magia acontece.
Mariana Gouveia

51. das palavras das cartas

50. das palavras das cartas

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Escrevo-te para dizer que o pássaro que beija a flor perdeu penas em uma briga com outro. Sei que vai rir quando ler e ver a imagem. Temperamental, o menino.Apesar de perder as penas ele ganhou a luta e agora reina absoluto em seu bebedouro. Acho que há bebês de cães por perto. Passam a madrugada chorando.
Está chovendo quase todo dia. As flores ficam mais vivas e o calor mais ameno. Mas também faz com que as ervas daninhas se alastrem mais rapidamente do que o normal. Tenho que limpar mais vezes o quintal. Adoro o cheiro do mato sendo arrancado. É como se a clorofila se infiltrasse em mim.As joaninhas aumentaram nesse verão. Não sei se a estação colabora para isso, mas o fato é que elas estão em maior número no pé de algodão.
O hibiscus mutalibis encheu de flores e até o mamoeiro deu frutos, o que faz a alegria dos pássaros. Por falar em pássaros, o bem – te – vi teve filhotes na mangueira do vizinho do fundo. Já ensaiou os primeiros voos hoje.
A vida vai seguindo igual, independente da estação, da previsão do tempo.
Os dias parecem voar tal qual o pássaro que beija a flor e que perdeu as penas e o meu amor continua igual.

Mariana Gouveia
50. das palavras das cartas

49. das palavras das cartas

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Para te escrever eu cumpro um ritual de todo ano, nesse dia.
Eu ajeito as lembranças uma a uma e vou celebrando você na minha vida.
Poderia dizer que é a minha inspiração desde sempre. Lembro-me de que guardava seus cadernos de poesia e desejava muito ter sido eu quem tivesse escrito.
Rastreio na memória você ainda menina – com seu uniforme de normalista – a surgir na estradinha da fazenda nas sextas- feiras e a curiosidade não me permitia dormir para ouvir suas histórias da escola.
Depois, viajo mais adiante quando você se casou e foi viver sua vida. As minhas férias, a partir daí foram com você e seu jipee verde, a vasculhar seus batons com gosto de uva, a experimentar suas roupas e calçados.
O melhor presente foi os meninos… Com eles, aprendi o amor incondicional de tia e a acolher seu olhar de mãe.
A vida foi dura com você… mas ao mesmo tempo foi generosa quando te deu as meninas.
Te vi corajosa diante da perda. Gigante diante da dor… e frágil diante das netas.
Te vejo menina diante da vida, magnânima cuidando do pai e tão generosa com aqueles que te cercam.
Para mim, você será sempre a minha Mia… aquela menina de uniforme, com meia 3/4 e sapatos de verniz.
Uma guerreira que chora mas que todo dia levanta movida pela fé.
Uma artista sem igual, com a magia nas mãos a criar arte em forma de carinho.
A vida nos levou para longe uma da outra, mas estou mais perto do que imagina. Dentro dos dias na poesia que você retrata quando cria, no jeito corajoso ou medroso – de enfrentar a vida.
Na última vez que nos vimos você me levou pelas ruas do seu lugar para conhecer os ipês que douravam a cidade. Essa foto é uma das muitas que encantei de ver sob seu olhar.
Ser sua irmã me torna melhor.
Hoje, te desejo amor além da medida e toda felicidade que alguém pode ter.
Agradeço a maneira como cuida do nosso pai. Te amo muito mais por isso.
Que tudo de bom te aconteça sempre!

Beijo

Te amo

Mariana Gouveia
49. das palavras das cartas
PS: quem quiser conhecer o trabalho dela clica aqui:
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48. das palavras das cartas

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Os corredores me estranham entre suas paredes cruas. O cheiro de mofo a invadir o quintal. O grafite no muro a demarcar limites.
O som da moça de azul a rabiscar em uma prancheta os procedimentos.
Os olhares a observam como se com isso o relógio pudesse acelerar o tempo. Ela repete o mesmo ritual das gotas…A agulha a buscar a veia e o sono que teima em vir…
As dores rasgam a alma e o muro a delimitar vontades. O frio a entrar pelas cortinas escuras… o vazio da parede e o muro…
O grafite a relembrar histórias.
Alguém chama um nome dentro da noite… as paredes cruas a presenciar a dor. As cartas sendo escritas mentalmente e a caneta a contornar o papel. E os corredores me estranham entre as paredes cruas.

Mariana Gouveia
48. das palavras das cartas

47. das palavras das cartas

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Vim aqui dizer que aprendi a absorver as flores do campo e que durante a noite, quando o silêncio grita dentro de mim e a vontade de voltar atrás e abrir a porta que eu mesma fechei é maior do que a saudade, eu volto para um campo imaginário.

É lá que grito seu nome infinita vezes e choro.

Às vezes, ouça uma música lá fora. O homem da reciclagem canta uma canção de amor rua afora… faço comparação entre a voz dele e a sua. Acha que posso confundir?

Busco o baú de lembranças e está lá o sol, a lua e as três graças do poema torto, dos deuses mitológicos que a história nos contou.

Há também na caixinha ao lado meus comprimidos coloridos que parecem bijuterias – tiram as dores,aliviam a alma – fazem com que eu te conte as histórias que não viveremos, levam meus braços aos ventos como se fossem abraços.

Aprendi a olhar a noite como se fosse um campo de flores e lá no fim da paisagem, você, dentro do meu amor.

Mariana Gouveia
47. das palavras das cartas

46. das palavras das cartas

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Hoje choveu de verdade aqui. Daquelas chuvas que duram o dia inteiro e as ipomeias azuis beberam da água que caíam.

Fiquei a desenhar a cor dentro do seu nome enquanto as luzes sobre a cidade ofuscam entre os pingos das janelas embaçadas.

O vento cruza o espaço da casa e as flores do mamão forra uma parte do quintal.

Troco a solidão pela canção de Gadu. Ensaio mais uma vez as palavras da carta que escrevo.

Apago várias vezes algumas frases que reedito, reescrevo e desenho corações na janela.

A previsão do tempo assusta, já que o rio que corta a cidade avança próximo das casas ribeirinhas. O tempo lá fora não permite que eu veja a lua e a solidão grita dentro da noite.

 

Mariana Gouveia
46. das palavras das cartas