203. da autonomia dos voos

 

às vezes, a vida é esse momento com céu de brigadeiro.
Em outros, a tempestade faz com que você seja um bom piloto.

 

Filho,

Lembra-se quando eu brincava com você de voar?
Meus braços te erguiam e te levava ao céu – como você dizia – e eu lembrava da frase de algum poema que dizia:
O céu, é o limite…

E quando me perguntava sobre o limite eu repetia o que meu pai me dizia quando eu ainda era menina:
Limite é quando chega a mudança da estação. Uma não pode roubar os dias da outra.
É esse limite que a gente mastiga todo dia. Um dia querendo roubar as hora do outro dia. O verbo rasgando dentro de outra palavra. A dureza da vida roubando de nós a alegria em algum momento. A liberdade, sendo colhida dentro de alguma regra. Algum “não pode”.
Eu sempre disse que podia.

Para mim, a liberdade tem a ver com o céu – ou com o mar que nunca vi – e aquele azul imenso e que presenciei no meu primeiro voo de avião.

Você era o menino do meu quintal. Aquele que sempre adorou a velocidade, os voos e a rebeldia do signo. Você sempre foi o sol do meu quintal. Aquele quintal onde desenhamos uma pista de fórmula Um para você voar.
E você voou. Seguiu a profissão do céu e dos voos e tem toda autonomia deles.

Hoje, não é um dia comum. É o 203 dia dos 365 dias do ano e é especial porque você nasceu nele.  E eu te ofereço essa Lua minguante entrando em seu céu particular e que desenha sombras no teu quintal, que já não é mais só meu e que é quase uma floresta em teu exagero de reclamar.

O céu é estrelado aqui e te ofereço esse céu como forma de abraço e quero dizer que depois de você eu fiquei completa e finquei raiz como as plantas que teimam em alastrar por aqui.

O sonho revolve o mundo e dentro de cada sonho seu cabe minha oração de certeza. E como tudo que voa precisa de pouso, eu quero ser o lugar onde você pousa. Para a segurança na hora certa e para segurar a mão quando for difícil.

Eu te ofereço voos. Os inteiros. Os quebrados. Os que ainda nem foram detalhados em toda essência de amar. Porque te amo de um modo único e real. Daquele que nenhuma poesia pode explicar.

Que todos os momentos seus sejam de aprendizados, conquistas e um céu de brigadeiro para voar.

 

Feliz Tudo!

Te amo,

Mariana Gouveia
203. da autonomia dos voos

 

 

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134. dos dias diferentes dos outros dias

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Carta ao meu filho aos cuidados do amor.

 

“Em algum momento uma árvore foi plantada
e o Universo, tratou de regar o instante como único
e o amor como incondicional”.

 

Eu sou a folha da árvore e você o galho de sustentação. A luz solar que soprou-me para o chão – eu, sombra – e você, o pomar que dá frutos e me trouxe de volta para casa. Você, minha casa.

Através de noites que fiquei sem dormir, você era o sono que eu acalentava.
Eu poderia descrever cada momento único entre o riso e o choro; entre a vitória e a derrota e a mão estendida para ensinar o caminhar.
Sempre o deixei livre, para escolher seu caminho dentro da liberdade que acredito.

Fui uma história que te desenhou e indicou caminhos e te mostrei o céu e te fiz entender sua dimensão perante o Universo e nossa pequenez diante de tudo.

Cantei canções para que você dormisse, para que acordasse, para que vivesse e entendesse que a vida é essa música incessante e que toca sem parar e por isso você cantou comigo e junto fizemos a trilha da nossa história.

Falei de fatos de anos atrás e você quis descobrir a história e o mundo era pequeno demais para além dos seus desenhos, onde você desenhava a floresta e o rio e do rio, o mar…

No meio do mar era uma ilha e na ilha, a caverna e te falei de deuses e de vilões…Dei-te herói… E você conheceu a retidão do homem que me ajuda a te amparar, e me equilibra nos momentos de ser mãe.

Eu acreditava que ser sua mãe era a melhor fórmula criada. E acreditava que podia te proteger de tudo. Ao longo da estrada arborizada, virei folha da tua árvore e assim, fazia parte da sombra que te protegia.

Você está crescido, já não acredita mais nos contos de fadas, mas diante de tudo que viu e ouviu já sei que nunca vai perder meu caminho e vai seguir o seu dentro do exemplo que aprendeu a conhecer.

Mas eu ainda acredito em tudo que te contei… E ainda assim, daquela árvore, céu à noite, ou sol de dia, é o meu galho de sustentação.

Das histórias que contei e dos contos que inventei você é o personagem principal de minha vida e a minha melhor poesia e eu o amo profundamente.

Mariana Gouveia
134. dos dias diferentes dos outros dias

Carta ao meu filho aos cuidados de julho

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Oi, filho
Hoje retornei às minhas lembranças. Revi os dias que antecederam tua vinda ao meu mundo. E depois daquele dia em que me vi grávida, nunca mais fui só, por que desde aquele momento você passou a ser parte dos meus pensamentos.
Ainda na barriga, resguardado do mundo aqui fora, a ansiedade era ver como você seria.
Os dias e os meses antecipou tua chegada um mês antes do previsto. E de repente, você se tornou nossa vida.
Os primeiros dias, os primeiros meses, o primeiro ano. A primeira palavra, a ida à escola… e você se torna cidadão do mundo.
Cada descoberta era uma magia em nós.
Eu e seu pai fomos seus adversários nos jogos, até tênis inventamos de jogar, para te dar uma atividade única.
Você foi se transformando com o tempo. E cada conquista tua era a nossa também. Sofremos juntos suas dores de amor. Rimos juntos das piadas às vezes sem graça. Até torcer para seu time nós torcemos, só para te ver feliz. E quando ele perdia, dávamos-te a lição de que perder faz parte.
Hoje, relembrando o dia em que você nasceu, há 26 anos atrás, eu sabia que seria a última noite em que eu dormiria tranquila, por que depois de você, as minhas noites seriam povoadas de você. Se tava dormindo direito, se tava com frio, se havia comido antes de dormir. E rezava/rezo para Deus te proteger.
Te criei envolvido na poesia. Te apresentei os livros. Mas, antes de tudo te dediquei amor.
Embora hoje, você seja um homem, com personalidade forte, dono de si, para mim e seu pai, você ainda é nosso menino.
Filho, a vida nos leva por caminhos que talhamos e são nesses que caminhos que desenhamos nossa história. A sua história é escrita dentro da nossa e sem você nossa história não teria momentos tão bonitos para mostrar.
26 anos se passaram desde quando você nasceu e foi aí que nós nascemos para a vida.
Te amamos infinitamente

Feliz tudo!

Mariana Gouveia