Expandes meus dedos

Expandes meus dedos

Dos meus dedos escorrem

palavras.

Muitas coisas tantas

e algumas coisas raras.

Minha pele se prolonga em paisagens

Repele pernilongos, atiça miragens.

Não copia.

Única, inaugura viagens

Parte, então, para outras saudades.

Shala Andirá

76. da estação das águas

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Meu pai sabia da previsão do tempo pelas formigas e seu intenso caminho até a armazenar mantimentos – embora ele entendesse também da migração das aves e sua fuga repentina para o sul – era com as formigas que ele sabia do equilíbrio da terra e de onde ele poderia plantar qualquer coisa sem o ataque delas.

Na verdade, parecia que ele fazia um acordo com elas e reservava um canto da roça para elas… Mas quando elas apareciam em carrilhão e apressadas, sabia que seria intensa a estação das águas.

Eu adorava os rituais delas… e seguia cada uma em seu trieiro e a mudança de ritmo logo assim que começava as chuvas… Era quase um instante morno dentro dos dias o sumiço delas e logo que uma ou outra surgia sabíamos que o sol surgiria logo depois…

Parecia que meu pai tinha a ciência do tempo nas mãos cheia de calos e alguns animais era o elo entre o tempo e a mudança dele.

Nos dias de chuva os rituais se repetiam dentro da magia dos dias.

Às vezes, a chuva chegava de forma furiosa, rompante e suas águas vinham arrastando tudo próximo do rio e as águas iam procurando um lugar onde se esquivava, como se estivesse a fugir do mundo… Da janela, ficávamos a espiar a correnteza a levar o que encontrasse pela frente como se a fome do rio fosse a mesma que a da formiga que repousava no tempo das águas como quem encontra a serenidade na desolação. E todo mundo passava a olhar para o céu como se esperasse que já tivesse sido o tempo da estação das águas.

Mariana Gouveia
76. da estação das águas

Segue em mim o gosto – doce

Segue em mim o gosto - doce

marca em mim a dor – amarga
tira de mim um torpor insano
o sabor que me move..

Incólume, me ponho a pensar
a pesar e a acalentar
uma luz que nunca vejo
um som que nunca ouço..

Arrasta-me ao longo
desliza-me a pele
suga-me o sabor
do sempre novo..

O vislumbrar de ontem
que te deixou mudo..
Estancou-me o sangue
que nos deixou prostrados..

Ouço o eco da tua voz
que na alma transcende
me acende e derruba –
fazendo de ti meu algoz..

Ingrid Caldas