167. da geografia das coisas

o que eu conto de mim tem a parte daquela rua, onde o rio se dobra e o chuá chuá sopra ao ouvido enquanto durmo.

o que eu escrevo tem esse riso de irmão sentado na porta
contando meus defeitos e olho molhado de amor.

metade de mim no cabelo branco, com a ruga na testa, suor da sua pele magra, que o tempo contou nos dias.

o que carrego é essa história

e a terra a cavoucar meu pé…
é a lembrança de quem está aqui e não está.

o irmão que mora longe e a voz ecoa reclamando ausência.

o que eu conto de mim
é esse riso solto,

a colina a desvendar as sombras.
com os codinomes de uma fada louca

que desenhou histórias nos meus dias.

o que conto de mim
tem o cheiro do pai.

o leite servido na caneca esmaltada
e a poesia que eu pesco,
o ombro ali,
e na boca que pronuncia o silêncio.
toda vez que a gente fala de amor.
é tudo uma reza cantada.
o avesso da pele – aquele que ama mesmo sendo tudo mentira –
e o som do pássaro e a ave exótica a cantar no quintal.
o que conto é o terço em todas as cores espalhadas entre o dia que acontece dentro de mim.

Mariana Gouveia
167. da geografia das coisas

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Se ao menos…

se ao menosuma vez tudo se aquietasse
se se calassem o talvez e o mais ou menos
e o riso à minha volta…
se o barulho que fazem meus sentidos
não perturbasse mais minha vigília…

então, num pensamento multifário
poderia eu pensar-te até aos teus limites
e possuir-te (só o tempo de um sorriso)
e oferecer-te a vida inteira, como
um agradecimento.

Rainer Maria Rilke

Quando

QuandoQuando as manhãs retornam em rotinas e nenhum dia é igual;
Quando a solidão busca presença e a janela mostra a imensidão da alma;
Quando a vontade de ficar é tão imensa e igual a vontade de ir;
Quando as reticências se emprestam para os vãos da saudade significa que foi bom e que vale a pena viver por isso.

Mariana Gouveia.