293. das infinitudes

A vida nasce nos dias delicados onde a chuva fina aplaca a sede do jardim.
Os girassóis florescem no mesmo dia que o menino feito de amor nasceu.
Era ontem ainda quando o riso se fez presença no coração da mãe e a delicadeza conheceu o berço de acolhida.
Ainda era ontem ali, a felicidade preenchendo as ruas feitas de esperas.
A vida, bem ali, na graça dos dias. O sonho bem realizado na palma da mão, enquanto no jardim, os girassóis forjam que a vida deles clareiam as manhãs iluminadas de nascimentos e as flores trouxeram o som das flores que ela sempre me entrega todas as manhãs.

Bem aventurado o menino que foi escolha e espera.
A vida é esse florescer de sol quando o amor acontece.

bem aventurado o amor de Benjamin.

Mariana Gouveia
293. das infinitudes
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274. Das infinitudes

A noite ainda não tinha a rompido a renda salmão das cortinas e você já era saudade.

Quando te falei das estações do tempo e da tranquilidade que sentia, não sabia que uma noite demoraria uma vida – em pouco tempo – e que os dias em que você surgia, a manhã possuía o sagrado do amor.

Na época levei-te pela mão à minha mão.

Minha voz deu voz à mesma pergunta, e cadê?

– chamam-lhe saudade… alguém disse. E houve dias em que endoideci no quintal. Busquei a palavra “volta” nas cartas, no horóscopo, no relicário – até rezei – e cantei as músicas que nem eram nossas, mas que falavam de amor.

Havia a mensagem que eu não apagara e li e reli a noite inteira na sobreposição do dissolvido desejo e nas palavras doces que inventamos.

E eu só pensava no teu encanto pela flor. Girava a vida em torno do sol.

Foi quando converti os silêncios e ouvi, gritantemente, a pulsação do sol…

em cada fresta da noite eu só queria a pulsação do sol.

 

Mariana Gouveia
274. Das infinitudes

267. Entre uma estação e a primavera

 

Perto da janela desejou voltar no tempo, costurar pedaços pequenos de lembranças na memória.
Sentia que esquecia, às vezes, as sensações que viveu.

Tocou o céu com os olhos. Lembrou das chuvas. Mexeu nas anotações da mesa. Sentiu saudades. A flor, quase sol em giro, trazia à memória os poros. Miúdas flores como se fosse pele. Digitais.

No canto do lugar –  o cheiro – como um arqueólogo vasculhou antiguidades dentro dela. Revisitou estações noites inteiras.

Pele, toque, mão. Os sentidos aguçados no instante de amar.
Ela – artista –  quando a amo e desenho partituras em seu corpo.

Um modo de amar é assim. Na loucura que herdou.
Em silêncio e cansaço. Em guerra e paz.

Da pele – a palavra – de um dia que se abria e que não havia código a decifrar…
Era apenas ela e mais nada.

 

Mariana Gouveia
267. Entre uma estação e a primavera

262. Entre uma estação e a primavera

Leio histórias que lembram você. O homem da esquina entoa um mantra dentro da solidão – pede sementes da flor que nem nasceu – faz perguntas sobre o amor que canto na letra da canção.

Inventei sua presença, ali, no canto do jardim. É lá que beijo pétala a pétala da flor.

Essa impossibilidade do toque não me afeta – fecho os olhos e a alma busca – porque eu toco-a.

Vejo de perto seus caminhos – seu céu sob o rio – e outras mãos que podem te tocar.

Era quase nada essa distância… é preciso um certo encantamento para viver a vida. Para superar esses corredores cheios da noite.

Perguntas rondam minha vontade de falar. Quase esqueço o último pedido do não. Onde esse medo de nada que vasculha minha noite? Onde essa flor que se abre dentro das ausências e mora nos poemas que me leem?

Onde o pólen se transforma na onda que se arrasta em meu quintal?

Dentro das perguntas em volta da flor apenas seu nome e minha declaração de amor.

 

Mariana Gouveia
262. Entre a estação e a primavera

251. Entre uma estação e a primavera

No lugar onde enviam cartas procura- se moedas. Os selos, nos envelopes, cobram trocos que o dinheiro normal não alcança diante do olho do menino que tira o cofrinho da mão da mãe, com medo de perder sua riqueza.

Os pássaros procuram estações das chuvas dentro da secura do tempo. Tudo é tão vagaroso como se estivéssemos nos livros.

Procuro a flor que não abriu. A janela que me leva até você. Procuro.
Procuro a maresia nos cantos dos muros, nas frases de efeito dentro dos poemas.
A primavera finge que não vai chegar e eu procuro sua fragrância dentro de mim. Encontro os girassóis do ano passado que fizeram seus olhos brilharem e suas sementes dentro de mil flores, com os insetos vorazes a matar a fome não sei de que.
Tudo é procura nessa vida. Tudo é encontro nessa busca Só não você.

Mariana Gouveia
251. Entre uma estação e a primavera

121. dos dias diferentes dos outros dias

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Vibrou com a intenção das sementes. Nasciam flores mortas nos vasos pendentes na varanda.
Virou o calendário para o mês do amor, refez o mapa astral mais uma vez.
Depois da chuva o sol veio dourando tudo que é flor.
Aspirou poesia nos livros que leu. Bebeu o ópio das viagens secretas. Lavou a tarde dentro da água que colheu na chuva.
Rabiscou as palavras de cartas escritas na mente e o papel aceitou a certeza do verso.
Tocou a pétala da flor dentro da pergunta. Ainda cabia o toque nas horas tardias em que o amor sorriu de novo.
Registrou para sempre a essência do dia nas fotografias penduradas no varal.
A lua se fingia de sol em meia fase dentro do giro e no começo da noite migrou-se para dentro de sua própria solidão.

Mariana Gouveia
121. dos dias diferentes dos outros dias