224. das impressões do dia seguinte

224. das impressões do dia seguinte.

Calculava a rota dos meteoros.
o céu é imenso dentro da noite escura enquanto o vento inventava floreios na cortina.

Os barulhos da noite trazem o canto dos grilos na varanda. A vida é esse reprisar de ciclos.
O tempo todo, o eco lá fora e no céu, a chuva de estrelas cadentes – tão rápido e fugaz – desenhando dourado no céu.
As fotografias rasgadas e espalhadas no vento. O pedido feito de última hora. A previsão do tempo promete chuva amanhã.
Aprendi a contar o tique taque do relógio e acordo antes que o despertador toque e a descobri sabores de mar no rio.
Não há por onde escapar quando os ventos chegam em todos os portais. É necessário coragem para voar.
Mariana Gouveia
224. das impressões do dia seguinte

 

 

41. das palavras das cartas

Habitava dentro das cartas que recebia. Lá pelas tantas, acontecia em Paris. Andava pelas vielas de aldeias que nem sabia o nome. Eram tantos os detalhes que ela desenhava em palavras. 

Gostava de morar ali, entre o mar e o rio.

Entre os jardins suspensos e o seu. Pisava na terra pura, com cheiro de chuva nas manhãs onde o sol raiava e o grilo misturava-se ao verde do lugar, enquanto ela dentro das palavras fazia as cores se misturarem na alma.

Colocava em cada envelope flores ou folhas secas… Outono em uma cidadezinha onde os cogumelos lembravam as histórias que contava para ela nas noites frias de junho e naquele tempo era inverno.

A primavera chegava nos pingentes coloridos que comprou em um país estranho e o verão nos sóis desenhados em cada canto da carta.

Habitava dentro das cartas que recebia e só assim começava a viver.

Mariana Gouveia

41. das palavras das cartas