Pai

 

Pai, os anos são desaforados demais. Hoje, depois de falar com o senhor e te abraçar com o coração, fiquei a pensar em quanta coisa vivemos e quanto tempo perdemos. Venta aqui e te ver assim de longe consola, mas ao mesmo tempo é estranho. O senhor foi sempre essa presença forte na vida, nas palavras e nos gestos.

Sempre foi senhor do seu destino e decidido nas questões de viver.

Na sua fé, a palavra vem acompanhada de um olhar para o céu e no tempo dos chapéus ele era retirado da cabeça e sua reverência era instigadora.

Hoje o senhor completa mais um ano e eu cumpro o ritual de escrever mais uma vez e talvez meu maior desafio seja te falar coisas sem repetir o de sempre.

Em alguns momentos sou forte como o senhor, mas em outros, a fé é cambaleante, pai.

Como o senhor atravessou todo esse tempo sem perdê-la? Como não sucumbiu com as perdas? Como ainda mantém vivo esse olhar inquietante diante das dificuldades?

Não sei se sei todas as respostas, mas é dentro de sua força que busco rumos para orientar os que precisam de mim.
Na emoção da tua voz eu me vejo ainda tateando diante da vida, pai e é essa vida que te desejo força sempre… Feliz Aniversário!
Te amo sempre

Mariana Gouveia

Anúncios

344. dos verbos indefinidos

 

Querida Janes,

O dia estabelece a rota das chuvas. Te escrever  faz com que as recordações, ultimamente, surjam como se fossem filmes e apareçam em minha frente como se fosse hoje. Perdi a conta dos anos em que te amo.

Para meu olho você será sempre uma menina – embora mãe, mulher, coragem e força – meu olhar te alcança frágil e querendo abraço.
Me nomeou sua consciência e isso me leva ao grilo falante da história de Pinóquio. E você, a minha jane e eu, sua Tarzan.

Ali, além da janela, é como se os anos te fizesse minha filha. Porque amor assim, por alguém, além da pele e do toque é só mesmo para filha que a gente olha assim, com olho graúdo.
Quer saber a origem de sua fragilidade e ri. É gigante na força – embora não perceba – e abraça a guerra de todos e com isso esquece da sua próxima.
é a prova da fé – mesmo brigando com aquilo que acredita.
é personagem de uma história. A sua. Inigualável, de fuga, de chegada, de partida. De traços que só você sabe criar e enfrentar.
De esperança que só você sabe criar e ter.
E desse riso que me lembro sempre, quando penso em você.
É como se seu dia fizesse especial os outros dias e assim sendo, te abençoo em todos eles.

Feliz sempre, com força!

beijo, ooooooooooooooooo!

Mariana Gouveia
344. dos verbos indefinidos

291. das infinitudes

 

Passei pelo centro quando o sino gemia dentro de um horário errado e me levou para a cidadezinha do interior aonde tudo era feito ao som dos sinos – quando uma criança nascia / alguém morria / alguém chegava / alguém partia e o padre tivesse de passar alguma notícia qualquer – e  o povo todo surgia como um passe de mágica.
Ouvir o sino da matriz em seu rugido rouco e enferrujado me fez parar e perceber a mudança na fachada da igreja. Tudo modificado desde a primeira vez que a vi.
Pareceu-me que só eu havia ouvido o sino. Pessoas apressadas em seus vai e vem fazendo contraste com os carros em fila aguardando o sinal abrir.
As duas torres e seus relógios e seus vitrais coloridos em sua imensidão passava desapercebida pela multidão. Tudo parecia feito de preto e branco. Os instantes, o dia de hoje, a hora…
Lembro-me da última vez que estive ali, a procura de apoio e dei de cara com as portas fechadas. Estava com um diagnóstico dentro da bolsa, com coração alarmado e buscava a esperança na fé.
Um dos padres me disse que a igreja estava fechada e mandou-me buscar apoio na igreja do meu bairro.

Pareceu-me que ele ainda estava ali, atrás da porta e a sensação da porta fechada e de novo dei meia volta e a igrejinha do meu interior, com as portas sempre abertas e o Padre Quirino a cumprimentar as pessoas, a acolher as crianças e a oferecer sempre um abraço.
A igreja do meu bairro, naquele dia, também estava fechada, mas encontrei a fé num riso de um médico, que nem abriu o envelope do diagnóstico. Abriu os braços para mim e me acolheu no coração como amiga.

*essa é minha homenagem ao médico que me ajudou em uma caminhada de cura e me ajuda com o abraço de amigo até hoje, Lúdio Cabral e com isso abraço todos os médicos pelo dia.

Mariana Gouveia
291. das infinitudes

277. das infinitudes

 

Era uma vez, a coragem. Tinha rosto de homem e pintou a floresta de igualdade.

Possuía o sonho de unificar o mundo, ou a etnias e com isso ele vivia dentro de sua cor de alma.

Vivia entre a natureza e o equilíbrio tênue – em uma mão, o acolher… em outra, a liberdade que as árvores e os rios possuíam – e a liberdade cobra o preço de quem aprecia o vento.

Quando a certa altura tudo começava a fazer sentido na vida do homem e daqueles que o cercava, que com a coragem no olho, desbravou a sensibilidade do dentro. Eu-você-ele-o-outro-igual. Era como se a floresta vibrasse na essência viva do acontecer.

Mas, nem tudo é tomado pela cor e quando tudo era princípio e começo e a vida fluía no sentido da correnteza do rio, o destino tomou pelas mãos o homem… e as encruzilhadas se misturaram diante do dia em que ninguém sabia o que fazer.

Havia apenas o homem e seu destino de dever cumprido. Havia apenas um quadro onde a floresta perdia a cor.

E os elementos da natureza na própria observação dos fatos apenas agradecia a coragem do homem que ousou ser ele, em sua essência, igual ao seu semelhante.

Ao pensar acerca das razões porque a floresta ficara sem cor, e o homem em sua coragem virou menino pintor… concluiu-se ao fim do dia que não importava se o homem nem era mais dali… A floresta pertencia a ele por onde quer que fosse.

Mariana Gouveia
277. Das infinitudes

 

268. Entre uma estação e a primavera

 

” Um dia, a palavra amor será seu lema em tudo que fizer. Desde as coisas mais simples, até o mais sublime ato seu, terá amor e é nessa palavra que me encontrará”.
Mãe.


Hoje vivi o dia dentro do silêncio. A voz sumiu e de repente, a vida passou feito um filme.
Posso contar tudo que você me ensinou dentro da palavra amor e de quanto carrego em mim seus ensinamentos – tão poucos – diante do que me lembro e tão intensos que revejo nas cartas que guardo comigo.
Suas letras aos poucos desbotam perante os anos que foram escritas… em outras, estão bem feitas como a última que escreveu para uma rádio, onde pedia sua música favorita e que trago comigo.
A letra miúda falando da primavera e de como as flores dos ipês te encantava tanto.

35 anos é uma vida. 35 anos sem sua presença física. Eu poderia dizer como foram esses anos todos, mas ao mesmo tempo, dentro do meu silêncio, às vezes, é como se eu abrisse o baú e tivesse ali suas fotonovelas e as histórias de amor que tanto gostava ao toque das mãos.
Aquela menina ainda está aqui, e roubo a frase que a mocinha dizia… Relembro seus suspiros e a mudança da história quando havia algo mais profundo para que a gente entendesse sobre o amor.

Há 35 anos, a vida te levou. Não sei para onde. Sei que de alguma forma você vive. Vive na sua estação preferida e nas canções que gostava de ouvir. Vive no riso dos irmãos onde cada um tem algo de você. Vive e permanece minha mãe sempre, nos momentos que mais preciso… e permanece viva em meu coração, mãe.

Beijo

Sua filha

225. das impressões do dia seguinte

Ao meu pai,

Pai, colho impressões do dia seguinte e mais uma vez escrevo essa carta para ganhar seu colo dentro das palavras.
O instante é tão ligeiro e volto lá na minha infância.

Não sei se  vida se restringe ao que se pode tocar – e nessa hora busco a palavra abraço.- o longe não afeta o que é tátil para respirar. Fecho os olhos e posso te tocar, embora a gente seja mais de ler, ouvir no rádio a canção que mais nos toca.

Hoje você é muito mais silêncio que se acomoda em um vão onde ninguém alcança. Talvez você viaje pelos campos a sentir o orvalho. Ou junto com sua fé, o verbo seja confiar.

Lembro-me dos meus medos alados e ganhei a delicadeza de asas quando você me jogava para cima e com sua coragem, fui vencendo o infinito e ganhei sede de viver…  a vida é simples assim e hoje, pai, no seu dia, eu relembro os anos todos de você sendo pai.
Hoje, é quase um menino de riso brando. É mais afeto. De natureza indomável. De mata. E o  que é da mata é ser livre. Nem mesmo uma cadeira de rodas consegue prender, porque a gente voa…
Te amo!

Feliz dia dos Pais!

Mariana Gouveia
225. das impressões do dia seguinte

128. dos dias diferentes dos outros dias

128. dos dias diferentes dos outros dias.jpg

A vida corre ligeira, mãe e mais uma vez eu brindo o dia que era seu.

Coube em mim nesse anos todos, saudade e as lembranças me visitam com mais assiduidade do que o normal.

Olhando hoje, tudo parece que foi feito de brinquedo os dias e que a data ainda é real e você está ali, entre a cortina e a janela a esperar que a surpresa seja feita, mesmo sabendo que nem era mais surpresa.

Os presentes vinham sempre em forma de bilhetes, poemas, corações de pedra e abraços demorados.

Tudo era uma casinha de boneca onde o amor pelas coisas simples surgiam e seu dia se tornava além de uma festa, uma verdadeira brincadeira.

Você nos deixou a delicadeza e registro mais um ano em que falar com você é como desembrulhar um pacote de presente e me perder nas lembranças que insiste em brotar como se fosse flor em nós.

Que a vida infinita seja!

E que mais uma vez, eu agradeço por ser parte sua.

Parabéns, mãe!

Beijo,

sua filha

Mariana Gouveia

128. dos dias diferentes dos outros dias