a minha casa é pequenina.

a minha casa é pequenina.

tão pequenina que cheira a concha e basta um sopro teu para as paredes ficarem húmidas de paraíso.
a casa é o privilégio dos ninhos: o nosso corpo aconchegado sem vazios. sem mundo. sem frios.
e tem cães também pequeninos. e um chão azul. ando descalça e sinto que há lábios nos meus pés a lamberem cada pedacinho de silêncio. cada pequeno fruto do silêncio.
sim, no telhado tem uma canoa. é bom, ao entardecer, ir passear nas águas do sol.
moro aqui e nunca gostei de casas grandes.

Kha Tembe
*imagem: Marta Orlowska

 

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Dissolução

Erika Craig

Guardo a palavra
no meu lado
Esquerdo
de dentro

Aguardo a palavra
riscada em minha pele,
– eu tento…

Transformo a palavra
nas metamorfoses prováveis
– Entretanto –

Me esvazio, lenta
E constantemente:
*
D
i
S
s
o
l
v
o
**

enquanto dorme no azul,
– a palavra -.
Eu
durmo.

 

Elke Lubitz
*Erika Craig

Open

Aberto

Fechar a loja, para que o amor, se um dia vier, tenha como resposta isto, de um vizinho:
“Loja? Olhe, eu moro aqui há dez anos e não me lembro de ter visto uma.
Morava aqui um sujeito estranho, que dizem ter virado fantasma.

Raul Drewnick
*imagem: Marta Orlowska

 

Revolucionária

Brooke Shaden

Não se pode falar de livro da infância… ela arriscou. apedrejam-na.
Ainda assim, ela não se contem, 
quer construir uma cidade usando a força de homens que saibam assentar tijolos – untar formas de bolo com delicadeza é um acessório à parte.
Sonha com Macunaíma, grita preguiça na esquina. Cria revoluções – micros, macros
Transversa, leva a vida na flauta. Em época de consumo se constipa só para não usar as moedas guardadas em porquinhos com coração.
Ah, esse jeito de usar o batom, tão dela que esforça para esconder seu estado legítimo de Órion. Traz dentro da bolsa um cisco, que usa quando a lonjura bate nos centímetros da distancia de casa.
Adora artes. Sente falta da escola, mas estuda nos mapas as cores de um estado que fica ocre no mapa. Vai entender, essa moça. Nunca lê as bulas! Nunca lê!
Extraterrestre! Extraordinária!
Mas, revolucionária.

Mariana Gouveia
*imagem: Brooke Shaden

me toque assim…

Me toque assim...

*imagem: True Love 

 

 

Me toque assim
em voo rasante
como a chuva
que se aproxima
o vento entre
as dobras da chuva
abrindo as janelas
do sótãoMe toque assim
a ponta dos dedos
tirando a poeira
de tantos séculos
de luz mortiça

Me toque assim
como o último pássaro
do mundo
engole o sol
e adormece no mar

Me toque debaixo da pele
ali onde dormem
gerânios esquecidos
onde o sangue é mais
leve
e as lembranças
fazem cem vezes
o mesmo caminho.

Roseana Murray

Ouvidos silentes…

 

Não impossibilitam
Sinfonias sempiternas.
Música é sentir
E eu sinto muito!
Há sempre um concerto em andamento
Na pele,
Na memória,
Na alma
No coração…
Eliane Morgado
*imagem:Cler Raichuk