A tua mão

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Tiro a mão que me esconde o triângulo,
e ela resiste à mão que a desvia; mas
procuro acertar no seu ângulo, e entre-
ver a fresta por onde o amor corria.
Beijo essa mão e ela abre o caminho
para onde me encontro e me perco,
bebendo desse cálice o puro vinho
que me liberta sem sair do cerco.

Amo a tua mão que me guia e prende,
a doce mão de tão finos dedos
a que o meu desejo se rende;

e ao procurá-la, sabendo o que me faz,
deixo que me ensine os seus segredos,
e guardo-a na minha, quando ma dás.

*

Nuno Júdice
*imagem: Pinterest

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Dedos

natalia deprina 1*imagem: Natalia Drepina

Passei os dedos
pelos teus versos
acariciando
cada vocábulo
repleto de sentidos.

O deslizar suave
em cada detalhe
embeveceu-me
com a subtileza
de uma pena.

Susana Canais

a minha casa é pequenina.

a minha casa é pequenina.

tão pequenina que cheira a concha e basta um sopro teu para as paredes ficarem húmidas de paraíso.
a casa é o privilégio dos ninhos: o nosso corpo aconchegado sem vazios. sem mundo. sem frios.
e tem cães também pequeninos. e um chão azul. ando descalça e sinto que há lábios nos meus pés a lamberem cada pedacinho de silêncio. cada pequeno fruto do silêncio.
sim, no telhado tem uma canoa. é bom, ao entardecer, ir passear nas águas do sol.
moro aqui e nunca gostei de casas grandes.

Kha Tembe
*imagem: Marta Orlowska

 

Dissolução

Erika Craig

Guardo a palavra
no meu lado
Esquerdo
de dentro

Aguardo a palavra
riscada em minha pele,
– eu tento…

Transformo a palavra
nas metamorfoses prováveis
– Entretanto –

Me esvazio, lenta
E constantemente:
*
D
i
S
s
o
l
v
o
**

enquanto dorme no azul,
– a palavra -.
Eu
durmo.

 

Elke Lubitz
*Erika Craig

Open

Aberto

Fechar a loja, para que o amor, se um dia vier, tenha como resposta isto, de um vizinho:
“Loja? Olhe, eu moro aqui há dez anos e não me lembro de ter visto uma.
Morava aqui um sujeito estranho, que dizem ter virado fantasma.

Raul Drewnick
*imagem: Marta Orlowska