Revolucionária

Brooke Shaden

Não se pode falar de livro da infância… ela arriscou. apedrejam-na.
Ainda assim, ela não se contem, 
quer construir uma cidade usando a força de homens que saibam assentar tijolos – untar formas de bolo com delicadeza é um acessório à parte.
Sonha com Macunaíma, grita preguiça na esquina. Cria revoluções – micros, macros
Transversa, leva a vida na flauta. Em época de consumo se constipa só para não usar as moedas guardadas em porquinhos com coração.
Ah, esse jeito de usar o batom, tão dela que esforça para esconder seu estado legítimo de Órion. Traz dentro da bolsa um cisco, que usa quando a lonjura bate nos centímetros da distancia de casa.
Adora artes. Sente falta da escola, mas estuda nos mapas as cores de um estado que fica ocre no mapa. Vai entender, essa moça. Nunca lê as bulas! Nunca lê!
Extraterrestre! Extraordinária!
Mas, revolucionária.

Mariana Gouveia
*imagem: Brooke Shaden

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me toque assim…

Me toque assim...

*imagem: True Love 

 

 

Me toque assim
em voo rasante
como a chuva
que se aproxima
o vento entre
as dobras da chuva
abrindo as janelas
do sótãoMe toque assim
a ponta dos dedos
tirando a poeira
de tantos séculos
de luz mortiça

Me toque assim
como o último pássaro
do mundo
engole o sol
e adormece no mar

Me toque debaixo da pele
ali onde dormem
gerânios esquecidos
onde o sangue é mais
leve
e as lembranças
fazem cem vezes
o mesmo caminho.

Roseana Murray

Ouvidos silentes…

 

Não impossibilitam
Sinfonias sempiternas.
Música é sentir
E eu sinto muito!
Há sempre um concerto em andamento
Na pele,
Na memória,
Na alma
No coração…
Eliane Morgado
*imagem:Cler Raichuk

 

Podia ser aí…

 

Contigo. Com o teu corpo
ainda nu, ou vestido da luz que entra pelas
persianas velhas, trazendo a tremura
das folhas na trepadeira do quintal.

Podia ser de manhã, ou de madrugada,
sabendo que teria de te abraçar para que não
desses pelo frio, com o quarto ainda
húmido da noite, num fim de outono.

Podia não ter sido nunca, se não fossem
assim as coisas: a tua mão ao encontro da
minha, no tampo da mesa, como se fosse
aí que tudo se jogasse, entre duas mãos.

Nuno Júdice
*imagem: Tumblr

no céu de todo coração

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No céu de todo coração
Tem dia que chove
Tem dia que venta
Tem dia que esquenta.

No meu, quando te vejo
Arregala um sol
Tão grande
Tão feliz
Tão amarelo
Que eu até me esfarelo…

De amor.

Pedro Antônio de Oliveira
*imagem: vmestresantana

a vida por um instante, é agridoce

a vida por um instante é agridoce

Delírios derretem dentro de mim

o olho que espera o beijo

a boca que beija a fruta

 

é muito desejo para um corpo só

(era a saudade batendo ponto no meu quintal)

 

a vida por um instante é agridoce

 

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr