confissão

AMulhereasestrelasemfundoroxo...*imagem: Web


se me vires bebendo estrelas
desconfie
posso estar ficando louca

ou talvez seja
apenas tentativas
de usar delas as pontas
e como ao bom ladrão
crucificar-te dentro de mim

doidamente já te matei
saudade a saudade

pra em seguida descobrir
:esta dor que anoitece o mundo
é apenas a vontade
de alvorecer
em ti

por isso agora
esta doideira de fatigar estrelas

Lourença Lou

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Andou guardando estrelas por brincadeira

Andou guardando estrelas por brincadeira

Redigiu o horóscopo do dia. Alternou a imensidão das coisas. No alinhamento dos astros, chove hoje.
A moça do tempo avisa: leve seu guarda-chuva.
Júpiter causa uma mudança interestelar. Pode se apaixonar de novo. Prefiro não dizer a palavra cuidado. Qual seria seu signo no horóscopo chinês?
O período da tarde pode haver mudanças. Realinho os astros no papel. A carta da lua teima em sair. Mistérios no ar. Ciclos. A vida não é feita apenas daquilo que podemos tocar. Nem ouvir. Nem ver. Há dimensões de estrelas na minha mesa. Números rodeiam meu destino de hoje. Ontem presenciei a queda de um mito. Já não há heróis para se espelhar.
A menina da mesa ao lado me pressiona com verdades que ela mesma não aceita. Recorta a parte que fala de seu signo e guarda. O dia de hoje é para ficar marcado. Relembro que há uma coisa chamada esperança.
Na previsão do dia há poesia. A voz dela lembra qualquer coisa de fada.
A lua em Peixes enfeita o dia.
Alguém compra o jornal e lê. Suspira e conhece a palavra vontade.

Mariana Gouveia

Natureza

Natureza

Tem vezes que me revelo areia…
um conjunto de partículas onde a pouca coesão me torna suscetível à erosão
por ação do vento, quando me arrebatas
por ação da água, quando me abandonas…

Márcia Bk
*imagem: Sergei P. Iron

110. dos aleatórios de Abril

Havia roteiros de lua no quintal. Um vaga lume invadiu a sala e chamou a atenção do cão – logo ele que gosta de correr atrás da luz da lanterninha vendida nos ônibus – foi um achado! Teve de contê-lo e socorrer aquela luz que voava.

Procurava no céu alguma coisa que estivesse escrito nas estrelas. Elas desenham o caminho de Santiago – alguém disse um dia – desde então, lembra-se disso quando olha para o céu em noite de lua e estrelas. Depois disso, sonha em fazer o caminho de Santiago e já desenhou o mapa quinhentas vezes mentalmente e outras quinhentas vezes no papel. De tão lindo que ficou, pensou em bordar.

Olha para o Cruzeiro do Sul e vê Vênus quase na ponta da Lua – um piercing ou um riso disfarçado de Lua –  no quadrante leste do céu.

Relembra coisas da infância. Das regras que seguia em relação à lua. O cabelo – sob recomendação séria da mãe – só poderia ser cortado na lua cheia. Era assim que os cabelos das índias ficavam fortes e bonitos. As pontas poderiam ser tiradas na lua crescente.

As rosas brancas deveriam ser replantadas na lua nova. O feijão, colhido durante a minguante de Maio – evitava perdas, o pai dizia –  e fazia o feijão não carunchar. A macela, colhida na lua cheia específica da sexta-feira da Paixão para fazer chás potencializava a cura.

Tudo na vida dela fora um ritual de datas lunares e solares.

De cores e de sabores. De magia e expectativas.
Quando deita no chão do seu quintal, refazendo o mapa das estrelas que indicam o caminho para Santiago, revê esses instantes que fez de sua infância uma riqueza só.

Os rituais ficaram marcados – segue até hoje – Deus a livre apontar o dedo para uma estrela. Apesar de ter ficado lá atrás a lenda de que se fizesse isso, nasceria uma verruga na ponta do dele.

Fica horas ali, todas as noites. É um momento único de lembranças que vão e se recriam no doce modo de espiar o céu.

Sabe desenhar cada coisa sentidas nas fases que a lua inventa em seu caminho no céu.
É o ritual que segue quase místico na essência de viver.

Mariana Gouveia
110. dos dias aleatórios de Abril

Despedida

Despedida.jpg
Mas tu nunca vinhas com a noite
E eu sentada com casaco de estrelas.

Quando batiam à porta
Era o meu próprio coração.

Agora pendurado em todas as ombreiras,
também na tua porta;

Entre touros rosa-de-fogo a extinguir-se
No castanho da grinalda.

Tingi-te o céu cor de amora com o sangue do meu coração.
Mas tu nunca vinhas com a noite

E eu de pé com sapatos dourados.

Else Lasker-Schuler
*imagem: Tumblr